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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Lidando com o Luto

A morte está presente na vida de todos nós, para alguns mais cedo, para outros, de modo mais trágico, e para os privilegiados, de forma a corresponder com os grandes ciclos naturais da vida. Embora parte da vida, a morte é vista em nossa sociedade como algo a ser evitado, postergado, como se morrer fosse adversário do processo de viver.

Essa visão se baseia em três princípios. Primeiramente, quando se está na vida, é preciso encontrar forças para lutar por ela e a morte elimina qualquer possibilidade de continuidade dentro da mesma perspectiva de antes. Pode-se falar, é claro, da continuidade espiritual, da prevalência das memórias que mantêm viva uma pessoa que se foi. Mas o fato é que a morte interrompe um processo, modificando as possibilidades e os rumos dos envolvidos. Por isso, a batalha entre pulsão de vida e pulsão de morte, coloca muitas vezes as duas em extremidades opostas, apesar da morte estar contida na vida e esta naquela.

O segundo ponto que nos faz temer a morte é o que vem depois dela. De todas as transformações, a morte é a mais definitiva e profunda, arrebatando nosso ser para uma realidade completamente desconhecida. Se há vida depois da morte... eis uma questão de foro íntimo, uma questão de fé e de percepção de vida. Da perspectiva da Terra, pura e simples, o que há na morte é a saudade e o encerramento de uma história. Se esse encerramento é uma passagem para um mundo diferente do nosso, nem todos conseguem se agarrar a essa esperança.

E finalmente, o último elemento que nos faz ter repulsa à ideia da morte é a dor. Em qualquer língua, em qualquer época, em qualquer história, dor é dor, e requer muito treino, paciência e aceitação para se tornar construtiva em nossa trajetória. A dor é uma violência para a alma e nos tira do patamar de compreensão que tínhamos até então para nos lançar ao estado do limbo, no qual não se pertence a mundo nenhum, pois a conexão com a realidade fica frágil.

Processo de luto


Quando se perde alguém violentamente, de modo repentino ou inesperado, quem fica permanece nesse limbo por um tempo indeterminado. É comum pessoas em processo de luto por morte abrupta serem tomadas por um estado de catatonia, semelhante a um morto-vivo, ou a um robô, que passa a agir no "piloto-automático", sem domínio ou vontade de controlar suas ações. Uma parte continua vivendo, pois entende ser necessário, mas a outra não está lá. A alma fica dividida e constantemente, o enlutado sente que morreu também e que sua história nunca mais será a mesma.

De fato, nunca mais será, pois a morte marca a alma. Entretanto, estamos na vida para sermos transformados a partir das experiência que o acaso (será?) nos propõe. A superação só se dá a partir de um longo processo e ela não significa esquecer, fingir que não aconteceu ou ainda não sentir dor quando lembrar. Superar significa apenas aceitar e continuar.

Mas como aceitar algo que não faz sentido? Algo que não vem com avisos, que não parece ter um por quê dentro da lógica do merecimento? Como aceitar a morte de alguém bom, que tinha uma vida enorme pela frente? E que o destino levou em segundos, sem nos ter orientado para aquele momento? Como continuar sem ter mais vontade de viver, sem ter um sentido que nos norteie?

Da dor à aceitação


Há fases no processo de aceitação de morte. A estudiosa Elizabeth Kluber-Ross, autora de vários livros sobre o tema, alerta que em geral, diante da morte qualquer ser humano passa por cinco estágios: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Esses estágios não necessariamente são subsequentes, podendo estar misturados e serem vividos ao mesmo tempo. 

Negar é não poder ver e usar recursos para afastar a realidade que dói. Entre esses recursos temos uma infinidade de ações: acreditar que o morto ainda voltará, manter todos os objetos dele intactos, como se estivessem à espera do falecido, ou ainda negar a dor da situação, indo se divertir de modo desproporcional ao que o momento pediria, ou entregando-se a algum vício...

Ter raiva é querer culpar alguém. É procurar um responsável pela dor. Ter raiva é pensar que poderia ter sido diferente se o fulano não tivesse errado nisso, se o médico tivesse tentado aquilo, se a pessoa que ficou tivesse chegado minutos antes... A raiva não permite encarar o processo como algo que fugiu do controle, querendo devolver aos mortais o domínio do destino. A raiva é necessária para descarregar, mas é um esforço quase vão que nos liga ao passado. 

Barganhar é tentar negociar com o destino. Fazer magia, fazer promessa, buscar psicografia. Esses recursos são importantes, mas ainda demonstram uma ligação com um passado que não se quer deixar ir. Ouvir uma palavra psicografada não deve ser um recurso proveniente de uma busca desesperada por contato, mas sim, algo que espontaneamente surge, se for essa a crença de quem fica.

A depressão é o último estágio antes da aceitação e não é por acaso. Quem se deprime está mais perto de ver as coisas como elas são e ver a devastação que a morte causou. O perigo desse estágio é o tempo de permanência. A depressão é a maior ladra da vida e por isso deve ser combatida quando o tempo é superior a seis meses e a intensidade tira o enlutado das atividades que o ligam à vida (trabalho, convívio familiar, convívio social, saúde, fé no futuro).

Finalmente, a aceitação é o processo que nos torna capazes de ver, tocar, falar sobre a morte e ao mesmo tempo, deixá-la ir para onde tiver que ir, longe de nossos domínios, de nosso controle racional. Deixar ir não significa esquecer, tampouco não sofrer nunca mais. Deixar ir é fazer as pazes com o tempo, com novas chances para quem ficou, com a única certeza de que absolutamente tudo muda e que é preciso se transformar junto com a vida e com a morte.

Autora: Clarissa De Franco
Psicóloga, astróloga, mestre em Ciências da Religião. Atua com pessoas em processo de luto, depressão e ansiedade. É professora universitária e possui artigos e livros publicados.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vida e Valores

O que é que vem a ser valor?
Esta é uma pergunta complicada, porque tudo que a criatura humana valoriza, prestigia, é valor para ela.
Não existem propriamente valores absolutos, a não ser os valores da Divindade. Tudo que vem da Divindade é absoluto, porque estamos lidando com uma Força Cósmica Absoluta.
Mas todas as coisas que priorizamos na nossa vida são as coisas às quais damos valor, atribuímos valor.
Podemos bem perceber que cada criatura tem sua lista de coisas valorosas e sua lista de coisas desvalorosas.
A partir disto, surge um conceito psicológico que se chama escala de valores.
Todos temos escalas de valores, todo e qualquer indivíduo monta a sua escala de valores, e essa escala de valores traz em si, ordenadamente, das coisas que mais gostamos àquelas que menos gostamos, ou o contrário, das que menos gostamos para as que mais desejamos. Fazemos uma escala.
Isso pode ser um trabalho literal, um trabalho escrito, como pode ser alguma coisa que fica registrada no nosso inconsciente e, por isso, a nossa escala de valores é diferente da escala de valores do vizinho, do colega de trabalho, do pai, da mãe, dos irmãos, dos filhos, da mulher ou do marido.
Cada criatura faz a sua escala de valores. Baseada em quê?   
Baseada no fato de que cada qual de nós tem uma formação íntima, tem filtros internos. cada qual de nós teve uma educação diferente, tivemos pais diferentes dos outros.
Tivemos um lar, um berço, formação religiosa, formação política, formação econômica, relacionamentos saudáveis, relacionamentos doentios Cada qual os teve diferentemente do outro.
Graças a essa porção de situações que ocorrem nas vidas individuais, surge a escala de valor.
Se valorizo mais o dinheiro, todas as coisas que eu fizer, farei em torno do dinheiro.
Se eu tiver que ajudar alguém, ajudarei desde que eu ganhe, desde que eu lucre.
Se eu tiver que fazer uma viagem, levo uma coisinha para vender, ou trago uma coisinha para vender.
Se o meu objetivo for a educação, invisto todas as minhas cartas na educação, minha, dos meus, daqueles de quem eu goste.
É essa escala de valores verdadeiramente que estabelece como é que eu vou viver, o que é que eu vou fazer, e como é que farei as coisas que fizer.
Desse modo, é importantíssimo estarmos atentos para os valores da nossa vida, para as coisas que representam valores para nós.
Cada vez que pensarmos nisso, faremos uma avaliação do que é que estamos chamando de valores ou a que é que estamos dando valor de valores, ou o que é que é um valor indevidamente assim considerado.
Há valores que são desvalorosos diante das Leis de Deus. E há coisas desvalorizadas por nós que tem um valor incrível diante da Lei Divina.
Essa relatividade corresponde ao grau evolutivo no qual cada qual de nós se encontra.
Para muita gente a ingratidão é uma lei: Eu sou assim e está acabado.
Mas, diante das Leis de Deus é um crime grave ser ingrato. Como se diz popularmente: Cuspir no prato onde comemos.
Para outras pessoas a frieza é o seu natural. Meu temperamento é assim. Entretanto,  é alguma coisa bastante triste uma pessoa fria, indiferente.
Há valores que são desconsiderados por nós e há desvalores aos quais damos uma importância grandiosa.
Cada vez que pudermos pensar nisso, que pudermos avaliar o que é que estamos tomando por valores, teremos mais chances de fazer uma escala de valores verdadeiramente valorosa, e esse valor estará calcado nas Leis de Deus.
*   *   *
Quando pensamos nessa escala de valores, nos lembramos do Amigo Jesus.
Jesus Cristo tinha ensinamentos para todos os momentos da vida e, num desses ensinamentos, Ele nos disse:
Onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração.
Notemos que coisa impressionante, porque é exatamente assim que as coisas acontecem.
O tesouro é formado pelas coisas que valorizamos. Tudo que gostamos, tudo que valorizamos, acaba se transformando no nosso tesouro, no nosso valor, naquilo pelo que damos a vida, aquilo para o que lutamos. Aí estará o nosso coração, onde estiverem os nossos valores.
Dessa maneira vale a pena pensar que o nosso íntimo é o nosso coração.
Jesus Cristo não se refere ao coração como o músculo cardíaco. É o coração cerne, é o coração intimidade, é o coração nossa interioridade.
Todas as vezes que estivermos valorizando alguma coisa, aí estaremos junto com essa coisa valorizada, junto com essa pessoa valorizada, junto com esse objeto valorizado.
É por causa disso que surgem os apegos. Há pessoas apegadas a objetos, há pessoas apegadas a posições sociais, há outras apegadas a pessoas, e qualquer nível de apego nos perturba e perturba a coisa ou a pessoa a que estejamos vinculados.
Imaginemos alguém apegado a nós e que não nos dê sossego para nada, não nos deixe tranquilo, para tudo nos busque, para tudo nos queira, para tudo, para tudo... nos atormenta.
É assim que ficamos quando nos apegamos, porque eu não sei sair sem essa bolsa, eu não sei viajar sem que Fulano vá comigo, eu não sei fazer isto se Beltrano não me ajudar, eu não... Criamos problemas em lugares onde não havia problemas.
A nossa escala de valores é assim. De repente, a nossa escala de valores é o corpo físico em primeiro lugar.
Não comemos, ficamos anoréxicos, criamos mil problemas com a saúde. Por quê? Porque eu quero que o meu corpo fique esquelético, fique magro, fique na moda.
Há outras pessoas que querem que o corpo engorde, porque se sentem magras demais, e passam a dietas e dietas, ficam diabéticas, criam outros problemas de saúde e não engordam, por causa da sua biologia.
A nossa escala de valores tem uma série enorme de variações, de maneira que verificamos que os grandes conflitos da nossa vida social se dão exatamente porque cada um tem uma escala de valores diferente.
Enquanto um deseja uma coisa, o vizinho deseja outra coisa.
Enquanto queremos a noite, o outro deseja o dia. Enquanto dizemos: Adoro futebol, o outro dirá: Odeio futebol.
Mas não precisamos odiar o futebol. Há alguém que diga:  Adoro futebol e há outro que dirá: Adoro tênis, basquetebol.
Dessa maneira, notamos que há diferenças.  Mas eu gosto de futebol acima de qualquer coisa, eu gosto de todos os esportes, mas prefiro futebol. A escala de valores dele, colocando o futebol em primeiro lugar.
Eu gosto da minha família inteira, mas igual a minha mãe não há. A mãe está em primeiro lugar, depois distribuímos o carinho, a ternura, a atenção com os demais familiares. Escala de valores.
No campo da política, se o valor do indivíduo for a sociedade, ele pensará dia e noite em como trabalhar para o benefício social. Contudo, se na escala de valores desse político o mais importante for o enriquecimento, for o poder, for o dinheiro, for a fama, pobre sociedade que o tenha elegido.
Desse modo, todos perceberemos que a nossa vida, as nossas vidas são dotadas de escalas de valores.
Vida e valores são vinculados durante todo o tempo. Vida e valores não se separam. Não há nenhuma pessoa que consiga viver sem valores. Não há ninguém que possa estar no mundo, participar da vida, sem estabelecer seu roteiro de valoração.
É por causa disso que nos cabe, a nós que queremos ser homens e mulheres de bem, prestarmos bastante atenção naquilo que estamos usando para formar a nossa escala de valores porque, de acordo com a vida que tivermos levado aqui na Terra, será o nosso encontro com a realidade espiritual.

Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 154, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Importância da Educação

Há uma questão fundamental, na vida da sociedade, que tem sido alvo de muitas discussões, tanto em nível de família, em nível governamental, em nível geral. Essa questão é a que se relaciona à educação. Ninguém pode imaginar que uma sociedade se construa e se mantenha em boas bases, longe dos princípios educacionais.

Mas, o que temos visto costumeiramente é que a educação não tem sido bem trabalhada, bem desenvolvida por aqueles responsáveis por ela. Exatamente por uma deficiência básica, uma questão conceitual. O que se vem chamando de educação? O que é que nós entendemos por educação? O que as classes sociais admitem seja a educação?

A partir dessa questão conceptiva, todas as coisas começam a ganhar mais ou menos expressividade. Quando pensamos em educação, costumeiramente pensamos em instrução. As tradições culturais norteamericanas e europeias trataram de chamar de educação ao aprendizado intelectual.

Uma criatura muito bem instruída, dizia-se e afirma-se, ainda hoje, que é muito bem educada. Por terem estudado nos melhores colégios, por terem tido excelentes professores, por terem feito bons cursos, diz-se que essas pessoas têm ou tiveram uma boa educação.

Não resta dúvida que a questão educacional passa por esse viés instrucional, mas educação não é propriamente a instrução. Se a instrução representasse a educação, a Humanidade estaria um pouco melhor. Mas há dúvidas relativamente a isso exatamente porque, quando se fala em educação, se está referindo a essa arte ou a esse ofício de plasmar o caráter dos indivíduos.

Sempre que se trabalha o caráter das pessoas se está trabalhando a sua educação. Educar é a arte de moldar ou de formar os caracteres. Se se pensa a partir disso, temos que admitir que teremos boa educação e teremos má educação.

Se é a arte de formar o caráter dos indivíduos, encontramos indivíduos cujo caráter é muito mal formado. Ele foi educado para isso, recebeu implementos para isso, obteve incrementos para isso. Uma criança mal educada quase sempre nós dizemos que é sem educação. Ninguém é sem educação. Pode ter uma má educação mas tem educação.

É aquela criança que foi recebendo no seu habitat, no seu meio ambiente, de seus pais, dos adultos, das pessoas que com ela conviveram esses elementos que reforçaram as deficiências próprias. Cada vez que um pai, que uma mãe diga para o seu filho: Não me traga desaforo para casa, se apanhou bata também, está criando um violento deseducado. Não me traga desaforos para casa é crucial porque seria importante que os pais dissessem: Traga para casa, porque em casa conversamos, dialogamos, explicamos e desaguamos as pressões, as tensões daquilo que se viveu na rua.

Os antigos diziam que Quando um não quer dois não brigam. Essa é uma verdade. Então, é muitíssimo importante que verifiquemos que essa criatura violenta, muitas vezes aprendeu a ser violenta na contextualidade da sua família ou do seu grupo social.

São muitos os pais que ensinam aos filhos a tirar vantagem de tudo, a explorar as pessoas parvas, as pessoas tolas. Isso começa de casa, quando os próprios pais contratam servidores domésticos de baixo nível intelectual para lhes pagar salários de fome. A criatura trabalha como um boi ladrão, trabalha como um animal de tração e ganha salários de fome. Essa exploração, que as crianças vão aprendendo, desde sua própria casa, é deseducação ou, se quisermos, uma má educação.

Estaremos formando os nossos pequenos, nossos jovens para que sejam adultos exploradores. Daí começarmos a pensar, a refletir maduramente na importância do fenômeno educativo. Jamais teremos uma sociedade bem posta, jamais encontraremos uma sociedade bem estruturada, bem ordenada sócio- politicamente, sócioeconomicamente, sócio-políticoeconomicamente, longe das bases da educação.
* * *
 
 A partir do momento que se der atenção ao fenômeno educacional, começaremos a plasmar uma nova estrutura da sociedade. Os nobres guias da Humanidade estabeleceram que, enquanto as instituições não mudarem seus valores estruturais, não adotarem posturas éticas, ético-morais de boa qualidade, será muito difícil que a Humanidade se modifique, uma vez que tudo conspira para manutenção do egoísmo.

A fim de que o egoísmo bata em retirada e que possamos pensar numa sociedade plural, com pessoas diferentes, de variados níveis, de variadas culturas, de múltiplos interesses, ao respeitarem-se reciprocamente, o fenômeno educacional ter-se-á implantado.

Uma das grandes deficiências do processo educativo está no educador. O educador, seja pai, mãe, professor, seja quem for é uma pessoa que carrega em si seus próprios conflitos, suas aberrações, suas insanidades, suas perversões. É muito difícil não deixar que essas coisas vazem, no momento ou durante o processo em que se elabore a educação.

Como é que se vai educar crianças ou jovens sem que esses valores estejam devidamente assentados na sua própria intimidade? Quando se falar para a criança ou para o jovem a respeito desses elementos educativos não se falará com verdade, não se falará com convicção, não se terá a crença necessária para que o ouvinte admita e assimile.

Será fácil para o educando ler na voz, na tremura da voz, no desvio do olhar do educador que aquilo que ele está propondo, aquilo que ele está falando, aquilo que ele está dizendo, não corresponde à verdade. Daí, a educação precisar trabalhar desde a figura do educador para que haja transparência na relação educador - educando, para que haja verdade, uma vez que temos entregue aos nossos jovens, às nossas crianças uma herança discurso muito bonita porque todos os governantes candidatos falam na grandeza, na importância da educação.

Ainda que eles estejam pensando na escolaridade, ainda que estejam admitindo essa educação escola, ainda assim é um discurso vazio porque eles não acreditam que a educação valha, porque uma vez que as comunidades estejam bem educadas nunca mais votarão neles. Uma vez que as comunidades estejam devidamente bem formadas, não aceitarão as falcatruas, as corrupções, toda essa vilania que estamos encontrando no mundo, nas estruturas sócio- políticas, econômicas, religiosas a que temos acesso.

É muito importante o fenômeno da educação, mas a educação mais eficaz não pode ser admitida, não pode ser tida como um mero verniz social. Não é educada a pessoa que fala manso, que dobra o pescoço para falar, que tem um monte de maneirismos, de trejeitos, de salamaleques ou de mis em scène.

Essa é uma pessoa maneirosa. A pessoa educada é aquela que vive de maneira educada, que imprime essa boa educação à sua vida, à sua relação com seus filhos, à sua relação com seu esposo, à sua relação com a família como um todo e, gradativamente, à sua relação com a sociedade.

É muito triste, é lamentável mesmo encontrarmos pessoas bem formadas academicamente, intelectualmente, mas que dizemos que tem pavio curto. Elas não conseguem ouvir nenhuma discordância, são incapazes de suportar alguém que não as aplauda, que não lhes apoie as ideias.

Não adianta ter uma boa cultura acadêmica se não consegue fazer bom uso dessa cultura acadêmica. Daí encontramos médicos, pneumologistas tabagistas! Como é que ele passa a verdade para o seu paciente ao pedir-lhe para que pare de fumar?

Encontramos pessoas que dão classe de moral, cuja língua é uma verdadeira chibata do comportamento alheio, da vida alheia. Encontramos pessoas que têm um discurso completamente alienado, distanciado do curso de sua vida.

A importância da educação é que para que banhemos o outro com as suas águas cristalinas é indispensável que nos banhemos primeiro. A educação é profundamente importante, por isso precisamos enfatizar que, sem as bases de uma educação - mudança de comportamento, uma educação que nos ensine a viver na Terra e a nos relacionar com os outros, muito dificilmente a nossa sociedade encontrará o desfecho feliz a que faz jus e que espera.
 
Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 159, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Amnésia

Amnésia é a perda de memória (total ou parcial), na maioria dos casos é temporária e pode ser causada por diversas razões, entre elas:
  • Consequência de algumas doenças neurodegenerativas.
  • Infecções ou enfermidades que atingem o tecido cerebral (encefalite, derrame cerebral e outras).
  • Traumas físicos (pancadas na cabeça por exemplo) e psicológicos.
  • Alcoolismo e o uso de drogas.

A amnésia pode ser qualificada em dois tipos:

  • Amnésia anterógrada;
  • Amnésia retrógrada.

Amnésia anterógrada

É a perda de memória para eventos que ocorrem posteriormente ao acometimento da doença, ou seja, é a deficiência em formar novas memórias, como ocorre na doença de Alzheimer.

Amnésia retrógrada

Nesta outra forma de amnésia ocorre o inverso da amnésia anterógrada, porque a pessoa consegue se lembrar de eventos posteriores ao trauma, mas não consegue se lembrar de eventos anteriores a doença (trauma).

Tipos de amnésia

Existem vários tipos de amnésia. Abaixo estão listados alguns deles:
  • Amnésia global transitória;
  • Amnésia psicogênica;
  • Síndrome de Korsakoff;
  • Apagão humano.

Amnésia global transitória

Nessa situação a amnésia dura algumas horas, não ultrapassando um dia, e a recuperação é completa. O indivíduo tem comportamento normal, porém não retém nenhuma informação durante o episódio, ou seja, tem amnésia anterógrada completa, permanecendo uma lacuna na memória dessa pessoa depois da recuperação. A causa desse problema não está, ainda, totalmente esclarecida, parecendo estar ligada à isquemia transitória afetando as partes internas do lobo temporal. Essa patologia tem curso benigno, sendo excepcional um segundo episódio.

Amnésiapsicogênica

A amnésia psicogênica é uma amnésia temporária que ocorre devido a traumas psicológicos e pode ser tanto anterógrada(dificuldade para se lembrar de fatos recentes) quanto retrógrada(dificuldade para se lembrar de fatos anteriores ao trauma), a memória quase sempre volta dias após do começo da amnésia, em raros casos, o paciente perde a memória de alguns "trechos" de sua vida permanentemente. Em alguns casos, fotos e figuras ou até mesmo ilustrações podem ajudar com que o paciente se lembre de certos fatos, ou até mesmo evitar a sua perda.

Síndrome de Korsakoff

A síndrome de Korsakoff é uma encefalopatia e é um tipo de amnésia grave, a principal causa é o alcoolismo, o que causa a falta de Vitamina B1 (tiamina) no cérebro, e esse é o motivo pelo qual a síndrome ocorre; seus sintomas podem ser a incapacidade de reter novos acontecimentos na memória. Por exemplo, a pessoa consegue fazer exercícios que tinha aprendido antes da doença mas não conseguem aprender a fazer nenhum exercício novo. Quando é causada pelo alcoolismo, seus sintomas são basicamente neurológicos (movimentos descoordenados, perda de sensação dos dedos das mãos e dos pés).

AmnésiaAlcoólica

Nesse tipo a pessoa apresenta amnésia sem a perda da consciência. A pessoa alcoolizada conversa e pode fazer exercícios físicos normalmente, mas quando o efeito da bebida alcoólica passar não se lembrará de nada que ocorreu durante o momento em que esta pessoa estava alcoolizada. Esse tipo de amnésia ocorre principalmente em pessoas que bebem excessivamente bebidas alcoólicas ou em pessoas que bebem socialmente, ou não bebem e beberam bebidas alcoólicas excessivamente, essa síndrome tem efeito maior quando a pessoa alcoolizada está com muita fome/sede ou bebeu rápido demais.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico normalmente é necessário se existiram traumas ou enfermidades na região do cérebro recentemente e, caso tenha ocorrido, é recomendável consultar um médico para diagnosticar a doença; o tratamento depende da causa e do tipo de amnésia, geralmente sendo tratamentos que auxiliem o paciente a lidar os distúrbios na memória. A amnésia global transitória pode ser apenas temporárias não havendo sequelas ou perda permanente de memória, mas outros tipos de amnésia (causadas por graves traumas cerebrais e etc.), podem ser permanentes.

Prevenção

A prevenção da amnésia é, basicamente, evitar traumas na região do cérebro.
Algumas dicas para prevenção da amnésia:
  • Usar capacete ao andar de moto, usar cinto de segurança ao dirigir automóveis (evitando traumas físicos);
  • Evitar beber bebidas alcoólicas e não usar drogas;
  • Tratar rapidamente enfermidades cerebrais para amenizar danos.
 Fonte: texto Wikipédia

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Aja com Calma

Há um provérbio popular que estabelece que a pressa é a inimiga da perfeição. Quem é que nunca ouviu isto? Sempre ouvimos falar que a pressa perturba o trabalho da perfeição.
Naturalmente que esse provérbio deve querer dizer que se nós fazemos as coisas atabalhoadamente, apressadamente, temos todas as possibilidades de cometer erros, de cometer equívocos, de esquecer coisas, de desacertar. Todos  temos experiências em nossas vidas. Quando saímos de casa correndo, esquecemos alguma coisa, deixamos alguma coisa aberta, a lâmpada acesa ou aquilo que a gente ia levar para fazer esquecemos em casa.
É muito comum percebermos como é que a pressa nos complica, nos agita, nos excita. E, neste mundo no qual vivemos, o que mais tem é excitação, corre-corre. Estamos num mundo de estresses. As pessoas estão sempre agitadas, sempre atrasadas para algum compromisso.
Quanto mais tempo se dá às pessoas menos tempo elas têm. A Humanidade recebeu vários implementos do progresso: as máquinas para nos facilitar os trabalhos, máquinas domésticas, lavadoras, passadeiras, lavadoras de louça, fogões autolimpantes. Tudo eletrônico,  tudo fácil. Geladeira que se descongela, geladeira que produz gelo, que a gente tira na porta. Tudo para facilitar a nossa vida.
E estamos sempre correndo.  Nunca temos tempo. Algo está equivocado. Se Deus não comete equívocos, esses equívocos devem ser cometidos por nós. A calma é a grande palavra nesse momento.
Ter calma é algo importantíssimo nas nossas relações sociais, familiais e nas relações conosco também. Mas ser calmo é mais importante ainda. Muita gente diz assim: Perdi a calma com Fulano.
Como é que se perde a calma? Como é que se perde a paciência? Se a calma quanto a paciência são virtudes entronizadas no nosso ser, são virtudes já assimiladas pelo ser, como é que a gente perde? Quando dizemos que perdemos a calma ou que perdemos a paciência estamos estabelecendo que nós nunca fomos calmos, nunca fomos pacientes. A calma e a paciência ainda não eram atributos da nossa personalidade, éramos pacientes por conveniência, quando tínhamos interesses.
Éramos calmos por conveniências, quando algum interesse nos feria os desejos. Daí vale a pena pensarmos que, ao falar-se em calma, não se deve pensar naquela paralisia, naquela lerdeza, naquela incapacidade que caracteriza tanta gente no mundo. Quando se pensa que elas estão realizando algum serviço elas ainda não foram! Quando se imagina que já estejam voltando com o produto do que realizaram, ainda não se foram.
Não, não é isto a calma. Isso é pachorra, preguiça, acomodação ou qualquer outro nome correlato que lhe queiramos dar.  A calma é uma virtude ativa. A pessoa é calma no pensamento, avalia o que tem para fazer, o que vai fazer, como deseja fazer, qual é a intensidade do seu fazer. Uma pessoa calma. Ela tem tudo já estruturado na mente mas não se assoberba.
Jesus Cristo nos propôs: Não vos atormenteis pelo dia de amanhã. A cada dia já basta o seu afã. Segundo algumas traduções: A cada dia já basta o seu mal.
Esse recado de Jesus Cristo é em prol da paciência. Se somos pacientes, se formos pacientes não nos importe o dia de amanhã porque estaremos conscientes de que o dia de amanhã não será  outra coisa se não a consequência do nosso dia de hoje.
Então, não nos vale sofrer pelo amanhã senão viver bem o dia de hoje. No dia de hoje, plasmamos o amanhã, plasmamos o futuro. Então, o mais importante é que aprendamos a ser calmos. É um trabalho que leva tempo, exige o nosso esforço pelo autoconhecimento,  a fim de que verifiquemos as áreas mais sensíveis da nossa personalidade onde qualquer estiletada, qualquer contato pode nos fazer explodir, atormentar por falta de calma.
*   *   *
Na medida em que ajamos com calma, diante das situações, teremos tempo de refletir sobre a calma. Por que se consegue calma? A calma é um estado de autocontrole que o indivíduo exerce sobre si mesmo. A calma é a consequência do estado de confiança. Na medida em que temos confiança em nós, nas instituições, nas coisas, adquirimos calma, sabemos que tudo vai acontecer no tempo certo.
Se somos deístas, se adotamos qualquer crença deísta, temos o dever de trabalhar em prol da calma porque é dessa calma que nós conseguimos refletir melhor sobre o Cosmos, sobre a vida na Terra, sobre nós e o que estamos fazendo aqui, o que nos cabe fazer aqui, qual o motivo pelo qual o Criador nos trouxe para cá.
E, dentro dessa visão das coisas, entenderemos a calma de Deus. Por que  podemos dizer a respeito da calma de Deus? Está tão certo nosso Criador de que mais cedo ou mais tarde todos teremos que chegar à felicidade, à vitória sobre nós mesmos, que criou para nós a dimensão temporal. O tempo é o grande agente que nos prodigaliza alcançar a calma.
É através do tempo que  verificamos um dia atrás do outro, sem fazer alarde, sem tumulto. Os dias que se sucedem, as noites que se sucedem, os dias demonstrando a paciência de Deus. Colocamos uma semente na terra e esperamos que ela germine, que ela cresça, floresça, possa dar frutos. Trabalho de paciência.
Nenhum lavrador colocaria a semente no chão e a semana que vem desejaria colher os frutos dessa sementeira. Há que se ter paciência. Daí, quando pensamos nessa paciência de Deus, gerando nas nossas vidas a possibilidade de trabalhar, no tempo e no espaço, começaremos a verificar o tempo que nós mesmos perdemos com as agitações, com as excitações.
Se tivermos que falar alguma coisa com alguém, falemos com calma. Não importa se alguém dirá que temos sangue de barata. É muito comum as pessoas calmas serem confundidas com aquelas que têm sangue de barata.  Diz-se que alguém tem sangue de barata quando não reage, quando está daquele jeito o tempo todo.
Mas a proposta dos bons Espíritos é por nossa ação positiva no caminho da calma. É tão importante na hora que vemos que o sangue ferve, entrar para o quarto, guardar-se no aposento, tomar um banho frio para relaxar. Não vale a pena dar vazão ao temperamento, não vale a pena dar vazão às agitações do intimo.
Vale a pena, sim, trabalharmos pela manutenção da nossa calma. Sabemos que durante doze horas o dia estará iluminado pelo astro rei e, dali a pouco, teremos a noite pintalgada de estrelas. Ao longo dos dias e das noites fecha-se a semana, fecha-se o mês, fecha-se o ano.
Como nenhum de nós sabe, nesse ínterim, nesse interregno até quando o Criador pretende que fiquemos por aqui, exercitemos a nossa calma enquanto é hoje. Quando em nossa casa as coisas parecerem nos tirar do sério, ocultemo-nos no quarto, apelemos para a oração consciente, contrita, pedindo ao nosso Criador, ao Sempiterno as bênçãos para que nós não nos percamos no caminho da calma.
Não é que nós vamos perder a calma, é que nós não deveremos nos perder na excitação, na agitação. Quando pensamos na calma de Deus, verificamos o quanto Ele nos espera, há quanto tempo nos aguarda. Só a partir de Jesus são dois milênios que já se passaram.
E como é que não terei paciência e calma diante dos equívocos, dos erros, dos tropeços dos meus entes queridos, daqueles que me cercam na trajetória do mundo? Calma sempre. Aja com calma.

                 Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 195, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Transtorno de Personalidade Limítrofe

O Transtorno de Personalidade Limítrofe (TPL), ou Transtorno Estado-Limite da Personalidade, também muito conhecido como Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), é definido como um grave transtorno de personalidade caracterizado por desregulação emocional, raciocínio extremista (cisão) e relações caóticas. O termo "borderline" (limítrofe) deriva da classificação de Adolph Stern, que descreveu esta doença, na década de 1930, como uma patologia que permanece no limite entre a neurose e a psicose. Pelo fato de o termo carecer de especificidade, existe um debate atual sobre se esta doença deva ser renomeada.
Pessoas com personalidade limítrofe podem possuir uma série de sintomas psiquiátricos diversos, como problemas de identidade e humor instável e reativo, assim como sensações de irrealidade e despersonalização. Com tendência a um comportamento briguento, também sofrem de impulsividade (sobretudo autodestrutiva), são manipulativas e chantagistas, apresentam conduta suicida e sentimentos crônicos de vazio e tédio. Também podem transformar problemas mínimos em causas extremas (envolvendo até autoridades), requerer atenção em demasia, fazer falsas acusações e apresentar comportamento narcisista. Pessoas assim são aparentemente vistas como "rebeldes", "problemáticas", geniosas e temperamentais.
O TPL é frequentemente confundido com depressão, transtorno afetivo bipolar ou algum tipo de psicopatia, e é considerado um dos mais complicados transtornos de personalidade, com grande dificuldade de tratamento. É um grave distúrbio que afeta seriamente toda a vida da pessoa, causando prejuízos significativos tanto a si própria quanto às pessoas próximas. Frequentemente precisam estar medicadas com algum tipo de psicotrópico (como antidepressivos) para evitar um descontrole emocional intenso.
Os sintomas aparecem durante a adolescência e se concretizam nos primeiros anos da fase adulta (em torno dos 20 anos), persistindo geralmente por toda a vida. A fase inicial pode ser desafiadora para o paciente, seus familiares e terapeutas, porém na maioria dos casos a severidade do transtorno diminui com o tempo. Como os sintomas tornam-se perceptíveis principalmente na adolescência, a família dessas pessoas costuma supor que a rebeldia, a impulsividade, o descontrole emocional, a instabilidade e a diferente percepção de valores são típicas da idade, não fazendo ideia de que estão diante de um distúrbio grave.
As perturbações sofridas pelos portadores de TPL alcançam negativamente várias facetas psicossociais da vida, como as relações no ambiente escolar, no trabalho e na família. Envolvimento com drogas, comportamentos de risco, imprevisibilidade, problemas na vida sexual, tentativas de suicídio e suicídio consumado são possíveis resultados sem os devidos cuidados e terapia. A psicoterapia é indispensável e emergencial.
A respeito das causas, a maioria dos estudos indica uma infância traumática (abuso sexual, outras formas de abuso, família disfuncional, separação dos pais, ou a soma desses e outros fatores) como precursora do TPL – ainda que alguns pesquisadores apontem uma predisposição genética – além de disfunções no metabolismo cerebral. Estima-se que 2% da população sofra desse transtorno, com mulheres sendo mais diagnosticadas do que homens.

História

Desde os primeiros registros da história da medicina, a coexistência de intensos humores divergentes dentro de um indivíduo foi reconhecida por escritores como Homero, Hipócrates e Aretaeus, sendo o último descrevendo a presença de raiva de difícil controle, com ideações vingativas, melancolia e mania dentro de uma única pessoa. Após a supressão do conceito medieval, foi reavivado pelo médico suíço Théophile Bonet, em 1684, que usando o termo folie maniaco-mélancolique, notou o humor instável e irregular, com altos e baixos periódicos que raramente seguia um curso regular e suas observações foram seguidas por outros escritores que observaram o mesmo padrão. Kraepelin, em 1921, identificou uma personalidade excitável que se relaciona intimamente com as características descritas no conceito atual borderline.
Adolf Stern escreveu o primeiro trabalho psicanalítico que usava o termo "borderline", em 1938, referindo-se a um grupo de pacientes que aparentemente exibia uma forma branda de esquizofrenia, beirando na fronteira da neurose e psicose.
Na década de 1960 e 1970, houve uma mudança de pensamento a respeito da síndrome borderline , pensando-se numa fronteira dum transtorno afetivo do humor, à margem da doença bipolar do humor, ciclotimia e distimia. No DSM-II, destacavam-se os componentes afetivos e, portanto, denominado de personalidade ciclotímica (personalidade afetiva). Em paralelo a esta evolução do termo "borderline" para se referir a uma categoria distinta do transtorno, alguns psicanalistas como Otto Kernberg estavam o usando para se referir a um amplo espectro de questões, descrevendo um nível intermediário de organização da personalidade, entre processos neuróticos e psicóticos.
Critérios padronizados foram desenvolvidos para distinguir o TPB de transtornos afetivos e outros transtornos do eixo I, sendo que o o TPB tornou-se um diagnóstico de transtorno de personalidade em 1980, com a publicação do DSM-II. O diagnóstico foi formulado principalmente em termos de humor e comportamentos, distinguindo-se da "síndrome esquizofrênica" que foi denominada como transtorno de personalidade esquizóide. O final da terminologia em uso hoje pelo DSM foi decidido pelo DSM-IV Axis II - Grupo de Trabalho da Associação Americana de Psiquiatria.

Epidemiologia e Estatísticas

Estima-se que os valores relativos à prevalência e incidência do transtorno de personalidade borderline são aproximadamente os seguintes:
  • 0,2-1.8% da população geral.
  • 10-20% dos pacientes ambulatoriais.
  • 20% da população carcerária.
  • 15% dos pacientes internados.
  • 50% dos pacientes internados com transtornos de personalidade.
  • 76% são mulheres.
  • 20-25% de famílias estruturadas.
A taxa de incidência seria cerca de 1 / 1510 ou 0,07% ao ano.

Diagnóstico

O diagnóstico de TPB enfrenta vários desafios:
  • O traços de personalidade podem também ser causados por doenças físicas. Para evitar confusão deve-se realizar uma avaliação inicial.
  • Outras doenças podem ter sintomas semelhantes, mas diferentes em variáveis níveis (duração, percepção pelo sujeito...). Por isso, é necessário considerar os padrões de diagnóstico diferencial.
  • Com alta probabilidade, muito provavelmente o paciente também sofrerá, simultaneamente, de outros transtornos de personalidade, incluindo aqueles cujo diagnóstico diferencial é necessário para distingui-los. Diz-se que, neste caso, há comorbidades.
  • E, finalmente, o diagnóstico do transtorno de personalidade borderline é controverso. Os profissionais fazem uso de manuais e protocolos convencionais que se baseiam em características essencialmente generalizadas, no entanto, todos os pacientes são diferentes, mesmo e toda a história, o paciente pode apresentar variadas manifestações das doenças que podem causar confusão no diagnóstico. Se isso é real para outras doenças, é muito mais para o TPB.
Por tudo isso, o diagnóstico pode ser um processo longo e complexo, que muitas vezes leva anos, sendo que o diagnóstico precoce pode ser incorreto ou incompleto. Para estabelecê-lo, o profissional é baseado nas experiências relatadas pelo paciente, bem como características do transtorno observado por um psiquiatra, psicólogo ou terapeuta. A lista mais comum de critérios que devem ser encontradas para o diagnóstico geralmente é o DSM-IV.

Avaliação inicial

A avaliação inicial normalmente pode incluir um exame físico por um médico. Embora não existam testes fisiológicos para confirmar o TPB, pode-se usar testes de exclusão de qualquer outra condição médica que apresenta-se também com sintomas psiquiátricos:
  • Exames de sangue para medir os níveis de TSH para excluir hipotireoidismo, e cálcio sérico para descartar uma doença metabólica.
  • Um hemograma completo para descartar uma infecção sistêmica ou qualquer outra doença crônica facilmente diagnosticada pelo exame de sangue.
  • A sorologia para excluir a infecção por sífilis ou HIV.
  • Exames neurológicos como EEG, ressonância magnética e tomografia computadorizada podem ser importantes para excluir lesões, tumores, e outras doenças cerebrais.
Entre outros instrumentos de avaliação psicológica, podem ser usados questionários de personalidade.

Semiologia adicional e biomarcadores TPB

Foram observados alguns dos seguintes sinais de funções fisiológicas atingidos pelo TPB:
  • Teste de supressão de dexametasona como um biomarcador de TPB. Os resultados são ambíguos e parecem ter maior validade para pacientes com comorbidades com transtorno do estresse pós-traumático.
  • Observa-se em pacientes borderlines muitos sintomas do hipotireoidismo: cerca de um terço dos pacientes têm uma tirotropina reativa com hormônio liberador debilitada. Também são frequentemente encontrados anticorpos de tireóide.
  • Sintomas neurológicos leves.
  • Irregularidades no sono.
  • Reações anormais às drogas:
  1. Procaína e anestésicos opióides: isto porque, em parte, há um aumento da irritabilidade límbica no TPB. A administração de procaína estimula estruturas límbicas tais como a amígdala e o córtex cingulado, causando mais irritabilidade no humor dos pacientes TPB.
  2. Os períodos de impregnação de algumas drogas são muito mais elevados e também parecem necessitar de doses maiores.
  3. O alprazolam pode piorar notavelmente a falta de controle da conduta do paciente.
  4. A amitriptilina parece aumentar as ameaças de suicídio, tendências agressivas e ideações paranóides, especialmente em crianças e adolescentes que começam a desenvolver o TPB.
  • Anormalidades no eletroencefalograma. Algumas características são típicas da esquizofrenia e, em geral, mal se pode distinguir do transtorno de personalidade esquizotípica. Por isso, pensava-se, a princípio, em origem comum das doenças.
  • As anormalidades bioquímicas e do papel da serotonina sérica é particularmente evidente em plaquetas, que são as transportadoras de serotonina:
  1. Problemas no transporte de serotonina plaquetária e na atividade da monoaminaoxidase (MAO).
  2. A paroxetina, um antidepressivo inibidor seletivo da recaptação da serotonina, tem uma capacidade de ligação inferior a esta enzima.
  3. Nível baixo de melatonina.
  4. Baixo nível de transporte de íons, especialmente o lítio.
  • Anormalidades na tomografia axial computadorizada da cabeça.
  • Segundo alguns especialistas, é encontrado geralmente baixos níveis de vitamina B12 em pacientes borderlines.

Critérios do DSM-IV-TR

A última versão do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais (DSM-IV-TR) - o guia americano amplamente usado por médicos à procura de um diagnóstico de doenças mentais – define o TPL (código do DSM-IV-TR: 301.83) como: “um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada impulsividade, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos”. Um diagnóstico de TPL requer cinco dos nove critérios listados no DSM e que os mesmos estejam presentes por um significante período de tempo. Os critérios são:

 Critérios diagnósticos segundo o DSM-IV:

Sintomas afetivos
1. Instabilidade afetiva acentuada devida reatividade intensa do humor (por exemplo: episódios de disforia, irritabilidade, ou ansiedade geralmente durante algumas horas e raramente, no máximo, alguns dias).
2. Ira, ódio ou raiva inapropriados, intensos e de difícil controle (por exemplo: apresenta frequentes demonstrações de irritação, raiva constante, sentimento de vinganças, lutas corporais recorrentes.)
3. Sentimentos crônicos de vazio e tédio.
Sintomas impulsivos
4. Conduta recorrente de tentativas ou ameaças de suicídio e comportamentos de automutilação.
5. Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado por extremos de idealização e desvalorização, ou amor e ódio, bom ou mau etc.
6. Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por exemplo, exageros em: gastos financeiros, sexo, drogas, álcool, direção imprudente, comer, cleptomania ou outros tipos de compulsões.) Nota: não incluir comportamento suicida ou auto-mutilante estabelecido no critério 4.
Sintomas interpessoais
7. Esforços frenéticos para evitar um abandono/rejeição real ou imaginado. Nota: não incluir comportamento suicida ou auto-mutilante estabelecido no critério 4.
8. Instabilidade na identidade: auto-imagem, preferência sexual, gostos e valores persistentemente instáveis.
Sintomas cognitivos
9. Ideação paranoide transitória relacionada ao estresse, ou severos sintomas dissociação.

Diagnósticos comparáveis

A Classificação Internacional de Doenças - Volume 10 (CID-10), da Organização Mundial da Saúde, tem um diagnóstico comparável chamado Transtorno de Personalidade Emocionalmente Instável – Tipo Borderline (F60.31). Nele (além do critério geral de transtorno de personalidade) se requer perturbações e incertezas sobre a auto-imagem, metas, preferências internas (incluindo sexualidade), oscilações de humor, tendência em se envolver em relações intensas e instáveis frequentemente levando a crises emocionais, excessivos esforços para se evitar abandono, pensamentos e ameaças recorrentes ou atos de auto lesão e suicídio; e sentimentos crônicos de vazio.
A Sociedade Chinesa de Psiquiatria tem outro diagnóstico comparável chamado Transtorno de Personalidade Impulsiva. Um paciente diagnosticado com TPI deve demonstrar "explosões afetivas" e "demonstrável comportamento impulsivo", mais três de oito sintomas. Este diagnóstico é descrito como um híbrido dos subtipos impulsivo e borderline do Transtorno de Personalidade Emocionalmente Instável do CID-10, e também incorpora seis dos nove critérios do DSM-IV-TR.

Diagnóstico diferencial

SINTOMAS TPB OUTRAS DOENÇAS
DEPRESSÃO ânimo baixo, curto e intermitente. ânimo baixo, longo e contínuo.
MUDANÇAS DE HUMOR muito rápida: segundos, horas, no máximo um dia; reativo ao ambiente. no bipolar, longa: dias, semanas, meses; sem motivo nenhum.
IDENTIDADE mutável, indecisa, não sabe quem é e o que quer. estável, concreta, certeza.
COGNIÇÃO alucinações e paranoias ao estresse. na esquizofrenia, alucinações contínuas.
DESPERSONALIZAÇÃO sensação de irrealidade quando em estresse. pouco frequente, na síndrome do pânico é contínua.

Transtornos afetivos

O transtorno de personalidade borderline geralmente co-ocorre com transtornos de humor. Algumas características do TPB podem até coincidir com os mesmos distúrbios, dificultando a avaliação de diagnóstico diferencial.
Ambos diagnósticos envolvem sintomas comumentes conhecidos como oscilações emocionais. Na doença bipolar do humor, o termo refere-se a episódios cíclicos de depressão e euforia que duram dias inteiros, semanas ou até mesmo meses, em geral. No bipolar, não aparecem sintomas como medo do abandono e rejeição, demonstrado através de raiva intensa e sentimentos de ciúmes patológico, rancor e vingança contra a outra pessoa, além do pensamento extremista e o mecanismo de cisão que é típica no TPB. No TBP, o humor é muito reativo, dependendo sempre das circunstâncias externas, tendo durações curtas (em segundos ou horas), enquanto que o bipolar possui um humor independente do ambiente externo, tendo durações maiores que o borderline (em um dia, semanas ou mais). Uma situação borderline típica é marcada por instabilidade e reatividade emocional excessiva que é muitas vezes referida por desregulação emocional. O comportamento ocorre em resposta a extressores externos, intrapsíquicos e psicossociais, podendo aparecer e desaparecer, de repente e dramaticamente, durando segundos, minutos ou horas.
A depressão uni ou bipolar é mais generalizada, com perturbação do sono, apetite, assim como uma marcada ausência de resposta emocional, ao tempo que o estado de ânimo de uma personalidade borderline com co-ocorrência de uma distimia permanece com destacada reatividade e sem transtornos agudos do sono.
Há um debate sobre a relação entre transtorno bipolar e TPB. Alguns especialistas argumentam que este último representa uma forma subliminar de transtorno afetivo, enquanto outros defendem a distinção entre as doenças, embora refira-se que muitas vezes ocorram simultaneamente.

Outras desordens de personalidade

  • Transtorno de personalidade histriônica: ambos compartilham características como oscilação emocional, necessidade de atenção, manipulações, impulsividade, dissociações, intolerância às frustrações e à rotina, mas em geral, podem distinguir-se pelas principais características do borderline, como o sentimento de vazio, tendência suicida, esforços excessivos para evitar o abandono, rompimento raivoso de suas relações, grande sentimento de ira que borderlines demonstram, além do mecanismo de cisão-extremo (idealização total ou desvalorização total). Histriônicos também podem fazer ameaças ou tentativas suicidas para obter atenção, mas em geral, são mais comuns em borderlines. Entretanto, nada impede que os dois distúrbios ocorram juntos; pelo contrário, é muito frequente características histriônicas em indivíduos borderlines.
  • Transtorno de personalidade antissocial ou psicopatia: apesar de muito semelhantes, as duas personalidades se diferenciam porque antissociais não tendem caracteristicamente ao comportamento suicida, cisão e medo de abandono, com esforços excessivos para evitá-los. Psicopatas, via de regra, manipulam para conseguir bens materiais, financeiros ou que lhe proporcione prazer, enquanto borderlines manipulam e cometem atitudes extremas a fim de conseguir apoio e afeto. Porém, vale ressaltar que nada impede que os dois transtornos ocorram simultaneamente. Neste caso de comorbidade, tornam-se indivíduos extremamente auto e hetero destrutivos.
  • Transtorno de personalidade dependente: ambas personalidades compartilham dependência emocional, medo de abandono e baixa tolerância às críticas. Contudo, elas se diferenciam em variadas esferas. Ao terminar relacionamentos íntimos, dependentes prestam a colocar-se como submissos, enquanto borderlines são vistos como rebeldes, tendem a terminar com sentimento de raiva, ódio e vingança em relação à pessoa amada. Além disso, pessoas com TPB possuem outras características típicas como mentiras, chantagens, auto agressão, manipulação emocional e comportamento suicida.
  • Transtorno de personalidade narcisista: os dois distúrbios compartilham raiva de forma inadequada, exigência de exclusividade, manipulação e excessiva atenção com a aparência física, mas narcisistas são menos impulsivos, têm uma identidade pessoal concreta e estável, estão menos preocupados com abandono e não são auto destrutivos ou suicidas.
  • Transtorno de personalidade esquizotípica e transtorno de personalidade paranoide: os três compartilham ideações paranoides, desconfianças e dissociações, mas no TPB é transitório e depende do ambiente (reativo).

Comorbidades

Em algumas ocasiões, é dito que o TPB é um "paradigma da comorbidades" (Martínez Raga y otros, 2005). Assume-se que várias condições ocorrem geralmente em conjunto com o TPB para :
  • Transtornos do humor, como depressão nervosa;
  • Transtornos de ansiedade;
  • Transtorno de personalidade histriônica;
  • Transtorno de personalidade antissocial ou psicopatia;
  • Narcisismo;
  • Transtornos alimentares;
  • Transtornos somatoformes e histeria;
  • Distúrbios psicossomáticos;
  • Abuso de medicamentos e substâncias psicoativas;

Características diferenciais de gênero

A primeira diferença significativa é a maior prevalência (3:1) em mulheres que em homens, o que gerou todo tipo de investigações. Existem duas opções para explicar essa diferença. A primeira é a existência de alguma falha nas observações das estatísticas. A segunda é que realmente existem diferenças sociais e biológicas. Quando aos motivos por que há mais diagnósticos são: abuso sexual, que é comum nas histórias de TPB, há mais mulheres; sendo que estas sofrem mais mensagens inconsistentes e incapacitantes. Em geral, ambos os sexos compartilham mais semelhanças que diferenças, no entanto, alguns estudos epidemiológicos indicam que o curso da doença geralmente tem características de diferenças de gênero, em especial:
  • Homens com TPB têm mais problemas com abuso de substâncias como álcool e drogas, e comorbidade narcisista, esquizotípica e antissocial.
  • As mulheres, pelo contrário, são mais propensas a sofrer estresse pós traumático, transtornos alimentares e problemas na identidade.
Além disso, um estudo mais recente encontra as seguintes diferenças:
  • Mulheres com TPB são mais propensas a sofrer de transtornos de ansiedade, histeria e transtorno de personalidade histriônica. Além disso, têm maiores taxas de depressão, ansiedade, obsessão, compulsões e manias que prejudicam o desempenho de tarefas. Da mesma forma, as mulheres estavam em pior situação em termos de funções emocionais, sociais e de saúde mental do que os homens.
  • Em adolescentes, tem-se observado os mesmos sintomas em adultos. Em particular, as crianças numa fase dita "pré-TPB" são mais agressivas, perturbadoras e antissociais.
  • A comorbidade com transtorno de personalidade antissocial parece ser mais comum em homens.

Psicopatologia I

A característica principal do Transtorno de Personalidade Borderline traduz-se num padrão de comportamento intenso mas extremamente confuso e desorganizado. Aqueles que sofrem do transtorno de personalidade borderline são indivíduos que afastam aqueles de quem mais precisam. Paradoxalmente, ao tempo que precisam do afeto e da companhia dessas pessoas, são capazes de afastá-las de forma cruel e, muitas vezes, assustadora. São muito exigentes de atenção e são excessivamente manipuladoras, embora nunca o admitam. Borderlines têm profundos traços de masoquismo e sadismo e, de forma geral, são como crianças em um corpo de adulto, não tolerando quaisquer limites. Muito imaturos emocionalmente, são impacientes, não sabem esperar, suas recompensas devem ser sempre imediatas, não toleram frustrações e tendem a colocar a culpa sempre em outros por suas próprias falhas. Isto provavelmente acontece porque borderlines geralmente foram crianças privadas de uma necessidade básica, possivelmente foram negligenciadas emocionalmente em alguma etapa de sua vida psíquica, o que, por sua vez, ocasionou marcas profundas e indeléveis em sua personalidade. Tais marcas podem advir por conta de inúmeros eventos de caráter traumático, como, por exemplo, a separação dos pais, abusos sexuais na infância, violência física e até a perda precoce de um ente querido. Partindo desse pressuposto, pode-se dizer que o desenvolvimento emocional do borderline estacionou drasticamente, antes de alcançar a fase do pleno amadurecimento psicológico. Em suma, são pessoas que crescem e envelhecem fisicamente, mas emocionalmente continuam sendo crianças egoístas e, infelizmente, muito problemáticas.
Indivíduos borderlines podem ser pessoas que cresceram com um grande sentimento de não ter recebido atenção suficiente. Eles geralmente agem como crianças revoltadas, e buscam caminhos para procurar essa falta de atenção em suas relações; porém, esses caminhos são essencialmente imaturos e anormais. Frequentemente, na anamnese, é achada uma carência afetiva (exemplo: ausência do pai), maus tratos, abuso sexual ou negligência emocional.
Os diferentes traumas na infância geram um sentimento crônico de vazio e rejeição, incorporando-se na personalidade borderline que é vivenciada como uma dor dilacerante. O borderline é extremamente intolerante às rejeições e outras frustrações comuns no cotidiano de todos. A dor pela falta de amor é intensamente sentida em indivíduos borderlines, o que pode estimular o processo auto e hetero destrutivo. Por isso, muitas vezes o borderline torna-se um indivíduo aparentemente rebelde e com um instinto vingativo contra os maus tratos passados. Os borderlines são pessoas com memória muito exacerbada para eventos negativos: não são capazes de perdoar, remóem coisas do passado e vivem e revivem intensamente um sofrimento desproporcional aos fatos porque apresentam um juízo de valor muito rígido. Por isso tudo, são pessoas facilmente vingativas, rancorosas, que, em momentos de ira intensa, podem oscilar entre um comportamento explosivo ou friamente vingativo, passando bruscamente do papel de vítimas injustiçadas para o de verdadeiros vilões sanguinários e cruéis que não medem esforços para cometer ações maldosas em busca de vingança. Interiormente, eles acreditam estar corretos em suas atitudes e não entendem por que as outras pessoas os olham com espanto e indignação após tais comportamentos. No fundo, são muito imaturos emocionalmente e — embora não demonstrem — facilmente frágeis.
O borderline também é, essencialmente, insaciável. Em termos de busca de atenção, eles sempre querem mais do que realmente têm. Por mais que as pessoas lhe dêem atenção, eles estão a exigir muito mais do que recebem. Talvez porque quando crianças não tiveram sua necessidade de atenção e afeto suficientemente preenchida. Para o borderline, toda a atenção do mundo não é suficiente. Inclusive, eles tendem a ser "paranóicos", exigentes e desconfiados sempre de que os outros não lhe dão importância, mesmo que isso não seja a realidade. Eles, sem querer, distorcem-na, e acabam por tendenciar tudo para um lado "ruim" e enxergar somente o lado negativo ou das pessoas ou das situações com que se defrontam, acreditando, por exemplo, que as outras pessoas não lhe dão atenção, ou que de repente mudaram de comportamento e por isso são más, merecendo assim, punições e vinganças. Borderlines costumam ver e achar coisas inexistentes no comportamento de outras pessoas, o que causa sempre reações exageradas e tempestades emocionais. Uma "mudança" quase imperceptível no comportamento de uma pessoa aos olhos de outros, para o borderline é um enorme motivo para se desesperar e acreditar que a pessoa não gosta mais dele. Por isso, o borderline é excessivamente possessivo, acreditando que a pessoa pertence apenas a ele e a mais ninguém. Ninguém mais merece atenção a não ser ele. Caso contrário, ele perceberá qualquer simples atitude de distração ou enfado do próximo como rejeição, o que o fará dar início a uma série de comportamentos extremos que se traduzem em atitudes perigosas tanto para si quanto para os que estão ao seu redor, causando medo e espanto às outras pessoas.
Limítrofes são pessoas com instabilidade emocional, ou seja, aquelas que não conseguem manter equilíbrio emocional em situações de tensão ou estresse. Elas frequentemente mudam de humor, emoções e conduta conforme o contexto que lhe for apresentado. Via de regra, têm baixa capacidade de julgamento e usualmente têm reações grosseiras, acompanhadas muitas vezes de ansiedade. Podem ser pessoas rebeldes ou totalmente tímidas. Essas pessoas podem confundir carência emocional com paixão. Transferem para relacionamentos amorosos a sua instabilidade emocional. Muitas vezes tornam-se os causadores de brigas excessivas, têm extremo sentimento de posse e profunda carência afetiva. O borderline vê o outro como se ele tivesse nada menos que a obrigação de estar ali apenas para prover aquilo de que ele necessita. Além disso, ele tende a acreditar que o outro parceiro tem de estar todo o tempo com ele, e têm a obrigação de não deixá-lo sozinho. Quando o parceiro tem de ir viajar ou quando cancela um encontro, facilmente o borderline se enfurece ou entra em pânico, pois sente-se facilmente rejeitado. Essa tendência do limítrofe se sentir facilmente ferido ou agredido (pequenos estressores são capazes de deixá-lo odiável) faz com que ele frequentemente entre em brigas ou confusões no ambiente intrafamiliar. Borderlines não têm controle de si mesmos, por isso facilmente demonstram irritabilidade e raiva em variadas situações triviais, e outras reações desproporcionais que vão desde a amargura, maus tratos ao próximo e grosseria até xingamentos e violência consumada. Entretanto, é interessante notar que, embora eles demonstrem esse comportamento rebelde em várias situações, em outras, podem, pelo contrário, exibir total controle. Portanto, são pessoas totalmente imprevisíveis. Em geral, tais conflitos são frutos de explosões em situações contornáveis aos olhos do observador, mas que o borderline não consegue evitar.
Limítrofes são pessoas que passam seu tempo a tentar controlar mais ou menos emoções que elas não controlam realmente. São pessoas que, diga-se de passagem, têm duas vidas. Uma vida quando estão na sociedade e outra vida de comportamentos muito diferentes quando estão a sós. Sua capacidade de esconder o transtorno faz com que sejam vistos, superficialmente, como se não tivessem nada, entretanto suas vidas são sofríveis e um verdadeiro inferno. Pessoas com o transtorno oscilam sempre entre dois extremos: um comportamento adulto e um comportamento infantil; entre a crueldade e a bondade.
Esses indivíduos são árduos manipuladores. Alguns psiquiatras e psicólogos dizem que borderlines são "pacientes impossíveis", porque, frequentemente, são manipuladores, pessoas que buscam atenção, perturbam e irritam, além de não terem capacidade suficiente para controlar suas condutas. Agridem a eles mesmos e aos demais que tentam ajudá-los. Em suas relações iniciais (exemplo: terapia), por causa da grande desconfiança que eles mantêm, as palavras com frequência não são usadas para comunicar ou exprimir sentimentos. O que existe são as manipulações, os testes, os controles etc. Eles tendem a defender-se de sentimentos, emoções e lembranças e facilmente testam suas relações através de manipulações. Parece que o borderline está sempre urdindo testes e manipulações, a fim de testar as outras pessoas, como elas reagirão a tais testes, lançando mão de estratégias como agressividade, brigas, chantagens, como para ver se elas o abandonarão por tais razões. Esses testes, então, são a forma de os limítrofes analisarem as pessoas ao seu redor e terem a certeza de que não há jeito de aparecer alguma ameaça de abandono por parte delas.

Vazio e intolerância às rejeições

O borderline, tipicamente, é intolerante às rejeições sentimentais. Isto quer dizer que qualquer movimento diferente da outra pessoa, percebido pelo borderline, significa que o outro não gosta mais dele, que não lhe quer mais, ou que irá abandoná-lo. Uma simples contrariedade partindo da pessoa por qual o borderline mantém um vínculo afetivo importante, é visto como um sinal de "não", frustração e abandono, mesmo que isto não seja verdade. Inclusive, o borderline costuma "ver coisas" onde, na realidade, não existem. Exemplo de ocasião típica: o borderline vê-se idealizado e apaixonado por uma pessoa. O limítrofe faz um convite para esta pessoa. A outra pessoa diz que, embora queira muito, não pode em tal data, pois inevitavelmente irá viajar. Isto basta para que o borderline entre em uma série de conflitos, mudando drasticamente de humor e comportamento. Para o borderline, isso significa que a outra pessoa não quer sair com ele; significa que o outro o rejeitou, que o odeia e, portanto, sente-se profundamente ferido e desprezado. Esse sentimento de rejeição é tão forte no indivíduo borderline que o faz ter uma crise emocional intensa por um motivo visto como "banal" e comum para os outros. Aos olhos do observador, essa situação é fácilmente contornável, uma vez que resolveria apenas marcar o encontro para outro dia; entretanto, para o borderline isto é visto de maneira totalmente distorcida, sente-se rejeitado encarando a situação como frustração intensa e sinal de que a outra pessoa definitivamente não gosta dele. Então, drasticamente ele muda: passa do amor para o ódio do outro, torna-se agressivo, raivoso, odiável, prometendo maus tratos e vingança. Por dentro corrói-se de decepção, dor e desespero, pois acredita (erroneamente) ter sido fortemente rejeitado. Isso, então, faz com que fique vulnerável a atos autoagressivos e manipulações. Para as outras pessoas, tudo isso é visto como tempestade em copo d'água, extremismo e exagero, entretanto, para o borderline a situação foi uma grande prova de frustração, uma rejeição que implica que a outra pessoa o odeia. Como é perceptível, o indivíduo com TPB tem muito medo de ser rejeitado por quem ama, mas a forma como demonstra esse medo é dissimulada: demonstra através da agressividade e raiva. Na realidade, eles não conseguem admitir esse medo e acabam por demonstrar toda a intolerância de abandono através do ódio, rebeldia, depressão, chantagens, manipulações e diversos comportamentos que trazem sérios riscos a si próprio e à outra pessoa.
Como o portador do distúrbio é excessivamente exagerado, extremista e não tem controle de suas emoções, essa intolerância totalmente desproporcional às rejeições e abandono muitas vezes fazem com que — antes do indivíduo passar por um psiquiatra — termine em casos de polícia. No entanto, obviamente, é importante notar que a maioria dos indivíduos que padecem do distúrbio não terminem em casos assim, porém, não se pode negar que uma parcela desses pacientes podem cometer, em situações extremas, algum tipo de crime relacionado às separações sentimentais. Quase sempre pessoas que cometem algum tipo de extremismo em relação a uma decepção amorosa (não conseguir admitir o término do casamento, por exemplo) podem possuir traços que sugerem um possível portador do transtorno de personalinade borderline. No entanto, deve-se ressaltar que a maioria dos borderlines não são capazes de cometer atitudes extremas hetero-agressivas e sim o oposto: nos bordelines com características mais leves do distúrbio, eles têm mais facilidade em se auto-agredir do que agredir a outros. Porém, nos casos em que a severidade do transtorno é alta e não há tratamento adequado, pode-se verificar uma probabilidade maior de um portador do distúrbio cometer — por puro descontrole emocional — algum tipo de situação hetero-agressiva, principalmente se houver também características psicopáticas no paciente.
O paciente borderline para viver em paz precisa encontrar um objeto protetor que nunca o deixe. Para isso, eles testam tais "objetos" (as pessoas) para poderem acreditar nisso. Tais testes são manipulações, maus tratos, discussões etc. como forma de que isso atesta que, mesmo através de tais caminhos, o borderline nunca será abandonado. Obviamente, isto traz à tona a grande questão da tolerância das pessoas "alvo" do borderline, afinal, dificilmente as pessoas em sua volta têm tamanha paciência para tais manipulações. O limítrofe parece estar sempre insatisfeito e precisando de mais e mais porque sente um vazio irreparável, um nada, um buraco, uma frustração contínua. Portanto, são pessoas que nunca estão satisfeitas. Exigem demais dos outros, mas nunca se satisfazem, inclusive, não retribuem, demonstrando uma grande ingratidão.
Para eles, é como se eles não existissem, sem uma estrutura externa. Facilmente sentem-se irreais ou inexistentes. Com seu amante, podem estar em plena euforia; porém, quando este demonstra qualquer contrariedade às expectativas do borderline, facilmente passam de um humor eufórico para raivoso com manipulações e esforços excessivos para evitarem ser rejeitados. Se "abandonados", do humor raivoso decaem para a depressão. Seus pensamentos e atos autodestrutivos aumentam de intensidade. Podem fazer tentativas suicidas, sentir que nada mais é real (despersonalização e desrealização), entre outros comportamentos extremos.
Borderlines sentem que estão sempre com um grande sentimento crônico de vazio. Tal sentimento constantemente os incomoda e tendem a achar sempre uma forma de preenchê-lo, mas descrevem que esse sentimento nunca desaparece. Borderlines sentem tudo com uma alta intensidade, sendo que para eles, tudo faz mal, tudo os agride e machuca. Não sabem se proteger, ou ao menos, acreditam não saber. Eles ainda têm sentimentos de ser uma eterna "vítima", incapaz de aceitar suas próprias responsabilidades. São pessoas que não têm uma noção clara de sua identidade. Na realidade, eles não têm uma identidade bem formada, assim, precisam do apoio de outra identidade, causando assim um grande medo à perda e rejeição de tal identidade cujo borderline o considere. A visão que eles têm de si mesmo se caracteriza por uma visão flutuante e pouco constante. Isso contribui para a grande instabilidade que circula em suas vidas. Quase sempre eles dizem não ter certeza de nada e não sabem o que são ou como é sua personalidade. Eles têm frequentes "crises de identidade", por vezes acreditando que sua personalidade é irreal, falsa ou copiada. Podem ser considerados indecisos e "de lua", pois são pessoas que dizem ou fazem uma coisa, mas em seguida mudam de idéia ou opinião drasticamente. Seus gostos são muito instáveis, podem gostar de uma coisa, para em seguida enjoar da mesma. Sua identidade, orientação sexual e a visão de si mesmos também assim são baseados. Eles se vêem como estranhos, sem amor e sem doçura. São indivíduos que são escravos das suas próprias emoções.
Em um relacionamento íntimo, o borderline exige atenção exclusiva e constante, alguém forte que amenize seu vazio. Quando isso acontece, ele se sente confortável e tranquilo, contudo, teme o abandono do ser amado e o inferniza constantemente com medo de que isso realmente se concretize. No momento em que o borderline se vê incompreendido ou ameaçado pelo objeto amado, ele pode ter respostas agressivas. Isso geralmente surge em situações de cólera intensa ou misturada com explosões súbitas do humor depressivo, revelando gestos e comportamentos a fim de estabelecer um controle sobre o ambiente e as pessoas de tais situações, provocando no outro um sentimento de culpabilidade e remorso.
O borderline demonstra um grande medo de ser abandonado ou rejeitado e por isso está sempre a tentar achar uma forma para que isso não aconteça. Alguns evitam começar relacionamentos, especialmente pelo medo de ser rejeitado ou abandonado, depois. Quando em algum relacionamento íntimo, este medo é acompanhado caracteristicamente de esforços frenéticos para evitá-lo. Podem fazer manipulações emocionais, especificamente chantagens, como ameaças ou tentativas de suicídio. Eles podem demonstrar explosões de raiva que terminam frequentemente em auto-agressões, como auto mutilar-se, ou até mesmo hétero agressões. O medo de ser abandonado é tão enorme nessas pessoas que casualmente sofrem de dissociações, têm distorções da realidade como ter idéias paranóides ou alucinações e, no extremo, praticar impulsivamente o suicídio completo. Além disso, por conta do suposto abandono ou rejeição (real ou imaginado) vindo da pessoa amada, da grande idealização/paixão, eles passam rapidamente para a grande desvalorização/ódio do outro, pelo fato de ter sido "rejeitado". Contudo, é notável também que a volta da pessoa ocasione a remissão de tais sintomas e manipulações. No entanto, eles têm tanto medo da perda que acabam por ser muito possessivos, ciumentos, sem se darem conta que todo esse comportamento prejudica e assusta as pessoas. De maneira geral, o transtorno de personalidade borderline é um dos principais distúrbios associados ao suicídio e automutilação. Eles podem tomar muitos medicamentos de uma vez só, com ou sem intenção de suicídio, abusar de drogas e bebidas, auto mutilar-se fisicamente, colocar-se em risco, entre outros atos impulsivos com notável tendência autodestrutiva.
O limítrofe é tão intolerável às frustrações que suas rupturas e decepções sentimentais sempre terminam em depressão profunda, conduta violenta, tentativas de suicídio ou autoagressão e, ocasionalmente, param no hospital ou até mesmo polícia. Eles têm intensos temores de se sentirem rejeitados ou abandonados, sendo que trazem consigo um sentimento de que sem o outro não podem dar continuidade à vida. Tais decepções amorosas são muito intensas, dolorosas e insuportáveis em borderlines. Eles sentem um intenso sentimento de vazio e um grande medo de fundir-se ou desaparecer. Entretanto, essas características típicas borderlines não são reveladas abertamente. Eles nunca admitem que sentem medo de serem rejeitados pela pessoa amada: demonstram sempre através da agressividade, raiva, ódio e manipulações.
Por todos esses motivos, é muito comum o borderline ser possessivo e controlador. Pessoas muito dependentes, influenciáveis e sugestionáveis, como a personalidade histriônica e dependente facilmente sofrem num relacionamento com um borderline, por exemplo.

Desregulação emocional e relacionamento familiar

O indivíduo borderline é geralmente visto como "genioso", temperamental, "de lua" e pessoas que facilmente se embravecem. Caracteristicamente, têm dificuldades no controle das emoções e podem ter uma convivência em grupo particularmente complicada. Eles exigem toda a atenção do mundo para si e facilmente são tomados pelas emoções. Podem arranjar conflitos com namorados e familiares com grande demonstração de ciúmes, possessividade e medo de serem abandonados. E ainda com tanta exigência de atenção, armam confusão com notáveis explosões de raiva como agressividade, ironia, xingamentos e até demonstrações físicas de violência. Por isso, podem viver a criar casos com pessoas de sua intimidade.
Pessoas com esse distúrbio, de maneira geral, são superficialmente adoráveis e simpáticos. Porém, com pessoas de sua grande intimidade (ex.: familiares) eles são vistos como irritantes, agressivos, mal-humorados, rebeldes. Tanto que o ambiente intrafamiliar é muitas vezes marcado por brigas e conflitos constantes.
Esses indivíduos não conseguem manter um bom relacionamento entre seus familiares íntimos que convivem dia-a-dia com ele (ex.: pais e irmãos). Por vezes, o ambiente é repleto de discórdias sendo que estes últimos também são classificados hora como bons, hora como maus. A imprevisibilidade e instabilidade típica de limítrofes contribuem para a geração de conflitos intrafamiliar. Essas pessoas que convivem com o indivíduo percebem tais características, como humor instável com demonstração de incapacidade de controlar a raiva (ex.: mau humor frequente, mau gênio, sarcasmo, amargura, agressividade constante). Borderlines também podem ser tidas como pessoas incapazes de demonstrar gratidão, de interessar-se por si mesmo e pelos outros. Os outros, assim como a pessoa que o criou (ex: mãe, pai), podem ser sentidos como estranhos que têm apenas a função de suprir e prover o que ele espera.
A dor física bem como as discussões podem ser formas de aliviar a tensão interna que se alastra no interior do indivíduo limítrofe. Por isso, o borderline se acalma após uma briga com familiares. Enquanto depois da discussão todos ficam mal, como ele descarregou sua tensão, ele age como se nada de importante houvesse acontecido e tende a esperar que os outros reajam assim também.
As pessoas de sua intimidade, facilmente apelidam limítrofes como estressados, pessoas "de lua", de mau gênio e imprevisíveis. A convivência diária com borderlines pode ser de extrema dificuldade. Ao longo de um dia, eles podem mudar de humor várias vezes. Podem ser tidos como aqueles que de manhã estão bem, à tarde de sentem-se raivosos, e à noite depressivos, por exemplo. Como se sentem irritadiços por motivos banais, podem tratar hora bem, hora mal aqueles que convivem com ele, sendo que os conviventes não conseguem entender exatamente o motivo que causou a mudança radical de humor e conduta do borderline. Portanto, medo, repulsa e raiva são emoções frequentes que borderlines produzem em pessoas de sua grande intimidade. Familiares sempre percebem que são pessoas que têm facilidade em demonstrar agressividade, sendo que dificilmente conseguem controlar tais hostilidades — perceptíveis através de demonstração de mau humor, agressividade constante, amargura persistente e até ataques de rebeldia ou violência.
Apesar disso, quase sempre, socialmente essas características não são momentaneamente percebidas. Pelo contrário, suas relações podem ser superficiais, assim, demonstram ser adoráveis, educados e simpáticos. Contudo, tais qualidades perdem a força conforme suas relações se tornam íntimas. Muitas vezes, superficialmente, pessoas que não conhecem profundamente o indivíduo borderline podem duvidar e não acreditar quando familiares, por exemplo, relatam o comportamento irritadiço e anormal que o paciente exibe.

Instabilidade

O perfil geral do transtorno também inclui uma inconstância invasiva do humor, das relações interpessoais, da conduta (comportamento) e da identidade, que pode levar a períodos de dissociação. São pessoas muito instáveis em todos os aspectos de sua vida; seus relacionamentos íntimos são muito caóticos, com tendência a terminar abruptamente de forma explosiva, pois eles são marcados por períodos de grande idealização e grande desvalorização, esforços exagerados para evitar a perda, chantagens emocionais e possessividade. A instabilidade emocional também contribui para relacionamentos instáveis. O humor do borderline pode ser muito lábil, alternando diariamente entre períodos de depressão profunda, euforia, irritabilidade (não necessariamente nessa ordem) e ansiedade. A inconstância também é intensa na própria percepção de si mesmo, nas atitudes, opiniões e até na sexualidade.
O paciente borderline apresenta em todos os aspectos de sua vida a "difusão de identidade" que pode ser descrita como a recusa em considerar outros tempos e outras diferentes situações, dando prioridade à situação presente e atitudes imediatas. Seria como se tivessem uma "amnésia" das situações e atitudes anteriores. Assim, forma-se a instabilidade entre os extremos “bons e maus” (8 ou 80, branco ou preto, mas nunca o meio-termo). Os indivíduos limítrofes tendem a caracterizar uma pessoa, objeto ou circunstância apenas pelo presente, como se não existisse o passado ou o futuro, nem outros tempos ou situações diferentes. Por exemplo, o borderline ao perceber que a pessoa amada está com ela, ele tende a classificá-la como "ótima", ideal e sente-se fortemente apaixonado e feliz. No entanto, se a outra pessoa anuncia que tem de ir embora, por exemplo, o paciente rapidamente passa da grande idealização ("ótima") para a grande desvalorização ("péssima"), desprezando a história em que passaram. Se o cuidador retorna, novamente a pessoa é passada do extremo "péssima" para "ótima". Isto evidencia a grande instabilidade entre os extremos cujos borderlines sofrem. É assim, também, que outras pessoas, objetos e circunstâncias são analisados por limítrofes, sempre oscilando entre o "bom" e o "mau", conforme o presente imediato, deixando de lado o passado, situações remotas e diferentes. Exemplificando, de modo geral, a borderline é aquela jovem que valoriza demais o namorado. Contudo, por menor que seja a contrariedade, já acha que ele não presta mais. Também acontece quando a limítrofe liga para a amiga. Só porque esta não pôde atendê-la naquela hora, a borderline já acredita que não é amada e depois agride a amiga de não dar devida importância a ela.
De forma geral, borderlines estão sempre no extremo e fazem análise extrema das situações externas. Eles passam facilmente do "eu te amo" para o "eu te odeio" e seu pensamento é sempre o branco ou preto, mas nunca o cinza. Suas opiniões em relação aos outros, são assim baseadas também, alternando drasticamente entre pessoas "maravilhosas" e pessoas "terríveis", por isso a frustração é frequente porque o portador do transtorno faz idealizações das pessoas e circunstâncias e estão sempre procurando o "perfeito" e ideal. Quando suas expectativas não são correspondidas, eles passam drasticamente do perfeito para o terrível. Tudo torna-se monstruoso, mau, péssimo. Portanto, as próprias idealizações desses indivíduos trazem ainda mais enorme instabilidade para eles. Mas caracteristicamente eles têm baixa tolerância às frustrações, porque são emocionalmente hipersensíveis a qualquer estímulo estressante, reagindo sempre de maneira exagerada, com grande dificuldade em controlar fortes emoções.
Por causa da tendência em completamente idealizar ou completamente desvalorizar pessoas, lugares e objetos, os portadores da personalidade limítrofe por vezes podem fazer um mau julgamento de outras pessoas fazendo-se assim se envolver em relações extremamente prejudiciais, que levam a sucessivas crises emocionais.
Para se entender a causa da instabilidade do portador de personalidade limítrofe, há de se entender que existe no borderline um mecanismo denominado "cisão". Dividem as pessoas como totalmente boas ou totalmente más. Totalmente monstruosas ou totalmente perfeitas. Não existem o meio-termo e a neutralidade, sendo para o borderline, não há "dois lados da mesma moeda". Em outras palavras, normalmente toda pessoa, objeto ou ambiente possui um lado bom e lado ruim, ao mesmo tempo. Todos têm seu lado positivo e negativo, ninguém é totalmente perfeito ou totalmente ruim. No entanto, para o borderline esse equilíbrio entre o bom e o mau de um mesmo objeto não existe. Ou é totalmente ideal, ou totalmente terrível. Então, esses indivíduos, de maneira geral, trazem consigo sempre grande instabilidade em seus relacionamentos. Apesar da dificuldade em nutrirem confiança por outros, quando eles se apaixonam por alguém, podem referir-se a tal pessoa como "perfeita": tudo a respeito dela é ótimo, bom, bonito e ela merece todo carinho e romantismo do mundo, tratando-na como um verdadeiro deus. No entanto, qualquer deslize (real ou imaginado) percebido pelo borderline, eles podem passar rapidamente para o "terrível": tudo a respeito do outro é monstruoso, mau, péssimo, odiável, ridículo e merece ser tratado como um demônio e ser punido por isso. Então, podem demonstrar humor seco, grosseiro e raivoso, com comportamento impulsivo e agressivo (ex.: dizer que odeia; demonstrar agressividade, tratar cruelmente a pessoa etc.). Se percebem uma ameaça de rejeição ou abandono por parte da outra pessoa, passam a fazer esforços frenéticos para evitá-los. Tais esforços são tão extremos que às vezes cometem atos muito impulsivos, levados por emoções como a raiva. Por exemplo, podem mentir, fingir passar mal ou ficar doentes, acidentar-se propositalmente, auto mutilar-se, ameaçar suicídio, prender a pessoa, chantagear, agredir e até mesmo perseguir o outro (stalker), entre outros atos extremos. Exatamente por isso, às vezes, os borderlines podem terminar em caso policial, porque são eles que muitas vezes são donos de tais esforços frenéticos e comportamentos excessivamente exagerados que envolvem sentimentalmente outra pessoa. Esse mecanismo extremista explica por que borderlines conseguem tratar excessivamente bem alguém, para num piscar de olhos, tornar-se demasiadamente cruel.
Em um relacionamento íntimo, o borderline demonstra grande necessidade de ajuda por causa de sua depressão e por conta de maus tratos passados, contudo, ao tempo que se mostram depressivos e dependentes de cuidados, de repente, podem maltratar cruelmente a outra pessoa sem o mínimo de remorso, porque acreditam estar sempre certos em suas atitudes. As outras pessoas que são sempre as erradas, as culpadas.
Os relacionamentos do borderline bem como comportamentos e sua personalidade em geral não são duradouros. É notável nesses indivíduos constante instabilidade nos seus relacionamentos. Eles podem demonstrar profundos sentimentos de apego e desapego fácil e ambivalente. Ao passo que se sentem sós, desejam muito a presença do outro, de repente, quando esta presença se concretiza, podem achar que estão muito próximos e invadindo sua privacidade. Diga-se de passagem que o borderline de fato constrói o lema "eu te odeio - não me deixe". Parceiros afetivos que se relacionam com limítrofes vivem em constante confusão e se assustam com as relações caóticas típicas do borderline. Isso acontece porque limítrofes idealizam e se desapontam a todo tempo. Eles conseguem passar rapidamente do amor para o ódio em questão de segundos. Pessoas que mantêm relacionamento com um indivíduo emocionalmente instável, hora podem se sentir sufocados de tanto romantismo e exigência de atenção, bem como excessivas manipulações. De repente, podem duvidar do sentimento do borderline que demonstra grande ternura, para em seguida, demonstrar frieza, raiva e crueldade.
Suas opiniões e idéias são facilmente instáveis e contraditórias. Podem dizer com convicção "sim", para em seguida, dizer "não", gostando assim de algo, para facilmente odiá-lo ou vice-versa. Isso também acontece em relação à carreira profissional e sua orientação sexual. Estão constantemente mudando em relação ao que pensam e fazem, e o que irão exercer profissionalmente. Sua identidade sexual é frequentemente marcada por dúvidas e mudanças constantes ou até adeptos à bissexualidade. Por vezes, definem-se a si próprios como "inexistentes" pois não sabem quem são, do que gostam. Quando estão convictos de algo, de repente, vêem-se cercados por dúvidas contrárias novamente, por isso, a indecisão nessas pessoas é comum. De maneira geral, são pessoas que não conseguem ficar estáveis. Por isso, são intolerantes à monotonia e rotinas, facilmente contrariando regras, bem como desistindo ou desanimando facilmente de atividades rotineiras ou que exigem certa monotonia.
Borderlines não têm persistência o bastante para continuar um projeto, tarefa ou objetivo. Eles tendem a iniciar, porém, dificilmente terminam. Enjoam, desanimam ou desgostam facilmente. Por isso, a vida do limítrofe é uma instabilidade contínua, sejam em seus projetos, relacionamentos, preferências ou comportamentos. O borderline não é capaz de se ligar por muito tempo a coisa alguma que não seja, de fato, algo de seu total interesse. Por isso também dificilmente mantêm um relacionamento por muito tempo, um objetivo constante, um gosto ou preferência interna estável. Na realidade, a inconstância é a palavra chave da vida do borderline.
Limítrofes estão sempre à beira entre o amor e o ódio. Eles tendem a idealizar as pessoas por qual querem como seus cuidadores, contudo, não percebem que o perfeito não existe, por isso estão sempre insatisfeitos porque facilmente acham "defeitos" nas pessoas por quais gostariam de vê-las como perfeitas. A pessoa "ideal" parece sempre depender do que o borderline necessita. Caso a pessoa negue, ignore tal necessidade, ou frente a recusas, o borderline rapidamente passa do amor para o ódio. Por exemplo, é o caso da paciente que quer ouvir apenas as coisas que deseja, pelo terapeuta. Quando o terapeuta diz coisas na qual ela não deseja, rapidamente o terapeuta é passado drasticamente para um "monstro" que merece ser tratado cruelmente. Isto mostra que borderlines mudam de um extremo ao outro, por pouquíssimas coisas.
O extremismo nesses indivíduos é muito marcante: quando alguém é amado por ele, a pessoa merece ser tratada de forma especial, carinhosa e muito querida. Quando alguém é odiado pelo borderline, a pessoa merece vingança, ódio e infinitas crueldades. Em suma, a pessoa amada é vista como um deus, e a pessoa odiada, como o demônio. A vida do limítrofe também é dividida entre boa e má. Péssima ou ótima. Mas nunca o neutro ou meio-termo. Nunca reconhecem a neutralidade das outras pessoas e circunstâncias.
O fato de borderlines serem extremistas faz com que tenham visões assim extremistas até mesmo de seus objetivos e futuro. Quando consegue iniciar um projeto (estudos para o vestibular, emprego, entre outros planos em longo prazo), ele é frequentemente presunçoso: sua meta é ser reconhecido ou nada valerá a pena. Como em geral, não vai ser reconhecido imediatamente, ele abandona a tarefa prematuramente, sem se quer terminá-lo. Tal atitude por recompensa apenas imediata, com desprezo à paciência de esperar, torna-o frequentemente paralisado e sem objetivos concretos. As tarefas do dia-a-dia também assim são raciocinadas. Quando a recompensa não é imediata, eles abandonam tal projeto ou têm dificuldade em começá-la, dando uma errônea imagem de "preguiçosos" ou "fracassados".
Em geral, as pessoas que se relacionam superficialmente ou que estão apenas no início de um relacionamento com um borderline, não fazem idéia das perturbações e relações caóticas com que vão ser recebidos em tais relacionamentos. No entanto, os indivíduos com o transtorno de personalidade limítrofe necessitam de muita ajuda e apoio, embora possam fazer de suas relações um verdadeiro "inferno". Eles não têm esse comportamento de forma proposital, pois é notável que sejam pessoas muito perturbadas emocionalmente. A pessoa que está com o borderline tem de estar ciente de que está diante de um grave transtorno, uma patologia dilacerante tanto para o próprio enfermo quanto para os familiares e pessoas próximas.

Narcisismo e agressividade

Os borderlines têm dificuldade em avaliar as consequências de seus atos e de aprender com a experiência e, então, erram e repetem o erro, nunca aprendendo. São indivíduos tão exigentes e imprevisíveis que assim tendem a afastar todos aqueles que o cercam. Além disso, são pessoas que não têm necessidade, eles têm urgência. Não sabem adiar e não aguentam esperar.
Eles também tendem a funcionar muito mal, conforme o estresse. Quanto mais estressados e pressionados, mais pioram os sintomas. Eles sempre tendem a contornar a situação e colocam a culpa em outros, seja por suas deficiências, decepções, responsabilidades ou problemas. Também vivem da gratificação, especificamente a imediata e geralmente querem ser livres para fazerem o que quer. Porém, ao mesmo tempo desejam ter atenção. Na verdade, são eternas crianças em um corpo de adulto, por isso aparentam estar se fazendo de "vítima".
"Eu os agrido, vocês me devem, vocês precisam fazer tudo por mim e eu nada por vocês" é frequentemente um lema em mente dos borderlines. Quase nunca eles se importam com as necessidades alheias, porque tendem a priorizar as suas. Acusam de forma egoísta e injusta que seus pais deveriam gastar mais dinheiro com o indivíduo borderline, do que com eles próprios, por exemplo. Ou então exigem toda a atenção, paciência e carinho para si mesmos ("Você tem que me tratar sempre bem.") e pouco retribuem ("Eu te maltrato, mas você não pode me maltratar, apenas me dar carinho e apoio."). Isto evidencia um "quê" de egoísmo típico traço narcisista no paciente borderline, por isso tem dificuldade em perceber o lado do outro, ou de distinguir o rosto do outro, só conseguindo visualizar suas próprias necessidades. Interesses genuínos são raros. Se, por acaso, suas necessidades são ignoradas, borderlines sentem-se profundamente irritados por não terem sido levados em conta. Segundo Kernberg, é a difusão de identidade responsável por tais percepções empobrecidas. Como o próprio borderline não tem uma identidade bem definida, obviamente, eles têm grande dificuldade em enxergar o outro, afinal, não consegue enxergar-se com precisão. Por causa dessa dificuldade em enxergar o outro, o borderline pode ser notavelmente difícil em ter amigos ou namorados, ou então, mantê-los. Ele se aborrece com facilidade com qualquer assunto que não lhe diga a respeito, necessitando sempre ser o centro de tudo. Como nem sempre isso ocorre, ele se irrita excessivamente podendo causar sérios prejuízos em tais relacionamentos.
Apesar do histriônico desejar também ser sempre os centros das atenções, a grande diferença, é que quanto tudo gira em seu redor, ele sente sua carência afetiva momentaneamente preenchida, nada mais lhe falta. Nesse caso, a outra pessoa existe e é levada em conta a sua existência. Quanto ao borderline, seu vazio é momentaneamente preenchido, entretanto, a outra pessoa existe apenas para satisfazê-lo naquele instante.
Limítrofes são pacientes que têm uma grande incapacidade em haver relações humanas "normais" e dão a aparência de não se ressentir com as emoções de outros humanos. Eles irritam-se facilmente por coisas banais. Por isso, apesar do borderline conseguir demonstrar certa "normalidade" em várias situações triviais, eles exibem escandalosamente a incapacidade em controlar sua raiva (ex.: acessos de mau humor por ter que esperar a ser atendido no hospital. Ou tratar grosseiramente o médico). Em suma, eles reagem normalmente até o momento em que seu humor radicalmente muda.
Borderlines podem demonstrar com frequência mau humor e agressividade, especialmente com pessoas íntimas. Porém, geralmente saem de seus ataques de raiva como se nada tivesse acontecido, e não conseguem entender por que o outro ficou magoado, demonstrando assim uma dificuldade em compreender a realidade e os sentimentos alheios. Eles sempre tendem a achar que têm a razão de tudo e facilmente exprimem um bloqueamento na interpretação dos sentimentos de outras pessoas.
Quando o borderline crê ter sido tratado de maneira injusta (que seja real ou não), ele reage agressivamente e impulsivamente. Às vezes, muitos gestos de outras pessoas são interpretados falsamente ou qualificadas como hostis. Esses indivíduos têm dificuldade em interpretar justamente o comportamento de outros. Sua percepção sobre outros é muito instável e distorcida sempre para desconfianças. Acreditam que as outras pessoas não são nada confiáveis e são especialmente maldosas.
Pelas outras pessoas, erroneamente o borderline é classificado como "mimado", rebelde, estressado, louco ou apenas o "seu modo de ser". Contudo, seu "modo de ser", na realidade, é um modo de ser doentio.
O borderline tem dificuldade em relação a limites. Ele não conhece limite e necessita de limite para se sentir seguro, entretanto, ele torna-se agressivo ou violento caso uma oposição frontal venha ao encontro dele. Quase nunca colocar limites nesses pacientes serve como uma atitude significativa, porque eles tendem a entender isto de forma errada, como uma atitude de rejeição. Os limites podem e devem ser colocados, mas com muita cautela, para que eles não se sintam ameaçados e maltratados.
Nas relações íntimas, borderlines podem ser francamente insuportáveis, irritantes ou assustadores. Ao tempo que se mostram carentes de afeto, com grande necessidade de apoio e cuidado, podem se mostrar muito manipuladores e irritantes. Facilmente tornam-se embravecidos e sua afetividade é marcada por ansiedade, raiva ou depressão, sendo que tais emoções não são dissimuladas. Demonstram agressividade ou raiva intensa inadequadamente. Por trás dessa rebeldia, escondem um medo profundo de serem rejeitados. Eles necessitam da outra pessoa a todo instante, podendo parecer egoístas porque se comportam como só estão ao lado de alguém, para receber cuidado e afeto, sem se importar se suas manipulações e maus tratos estão a prejudicar ou não o outro. Na realidade, esses indivíduos raramente experimentam emoções genuínas, por vezes sentem um vazio afetivo, sendo que a raiva é a emoção mais sentida nessas pessoas. Contudo, quando sentem emoções plenamente razoáveis, tendem a proteger-se delas. Muitas vezes evitam ou negam sentimentos com medo de terem alguma frustração e machucar-se mais ainda. Podem, ainda, tentar defender-se e dissimular sentimentos e contorná-los, demonstrando frieza ou desprezo, entretanto, por dentro, corroem-se de decepção e medo de serem rejeitados. Assim, suas vidas tornam-se mais instáveis, porque tendem a mudar de amizades, grupos, cidades etc. que consideram "ameaçadoras".
Em relação ao relacionamento familiar, o borderline exige demais da sua família que pode, com razão, cansar-se das suas exigências e das suas agressões.
O borderline pode se tornar agressivo quando contrariado. Como é uma pessoa sensível e perspicaz, ele saberá como agredir, conseguirá escolher pontos vulneráveis dos circunstantes. A tendência da família e pessoas de sua intimidade, nesse momento, será considerá-lo manipulador, agressivo, esperto, capaz de grandes atrocidades. No entanto, na realidade, o borderline é por si uma pessoa frágil e delicada, mas que, sem querer, demonstra o contrário. Ele agride por total desespero. Sua violência, geralmente, ocorre com mais frequência quando se sente rejeitado, incompreendido ou contrariado.
O borderline submete seus familiares a algumas torturas, exigindo e agredindo, embora com isso estejam apenas tentando reviver experiências passadas na quais a relação entre ele e seu cuidador não foi capaz de lhe proporcionar boas condições emocionais. Em geral, o borderline tenta refazer o caminho não realizado no início de sua vida, com as mesmas pessoas (pai, mãe ou outros responsáveis, por exemplo) que não foram capazes de fazê-lo anteriormente.
Como o borderline tem a tendência de não enxergar o outro, vinculando-se apenas a seus interesses mais imediatos, às vezes ele pode tomar atitudes pouco recomendáveis com seus familiares e pessoas íntimas. Eles podem trair, mentir, criticá-los, pôr sempre a culpa em outros, colocá-los em situação financeira difícil, esconder, querer destruir o que o outro possui, querer se vingar e muitas outras coisas do gênero. São atitudes ditas sociopáticas (ou psicopáticas), que menos do que punição, exigem compreensão para não mais se repetirem. Contudo, a família quase sempre não entende isto, sendo assim uma tarefa difícil de convencer a família que o borderline, assim como sociopatas, dificilmente aprende com seus erros e punições. Para eles, raramente castigos e punições funcionam. Pelo contrário, tais punições são seguidas de mais agressividade e raiva, por parte dos borderlines, que entendem isso como rejeição. Não que o borderline não precise de limites destas atitudes. Por causa de seu narcisismo, ele considera muito justo que tudo seja para uso próprio, que tudo esteja voltado para ele. É claro, entretanto, que ele tem de saber o quão importante é reconhecer que é impossível ele continuar a ter atitudes egoístas, essencialmente porque tais atitudes afastam as pessoas das quais ele tanto necessita.
No entanto, o borderline não somente agride os outros, como também se auto-agride. Frequentemente a auto-agressão ocorre de forma manipulativa, para causar no outro um sentimento de culpa e arrependimento. A automutilação é uma das principais características do transtorno. Tais atitudes impulsivas podem ser vistas por inúmeras formas e são tidas como triplo sentido: ao tempo que significam desespero, depressão e dor emocional atenuada com a dor física, a automutilação pode ser uma forma de conseguir atenção, bem como culpar pessoas à sua volta, em momentos de raiva. Alguns atos autodestrutivos usados por borderlines pode ser: cortar-se, queimar, arranhar, bater-se, cutucar-se, roer unhas, além de abusar de medicamentos, expor-se a acidentes e situações perigosas, não se importar com sua saúde expondo-se a doenças. Pode ocorrer também abuso de substâncias psicoativas, café, ingestão de doces em exagero, dirigir imprudentemente, dormir em excesso e praticar sexo inseguro. Gastar dinheiro sem controle, comer compulsivamente, roubar utensílios de pouco valor monetário (cleptomania) entre outros comportamentos prejudiciais a si próprio também podem ocorrer. Engajam-se em tais atitudes para se libertarem de sentimentos crônicos de vazio, mas causam grande arrependimento após cumprir essas ações. Às vezes, as outras pessoas podem perceber ou questionar-se sinais evidentes de automutilação em borderlines (ex.: vários arranhões percebidos no braço, hematomas ou cortes). Mas via de regra, eles tendem a apresentar argumentos implausíveis ou pouco explicativos em relação a tais ferimentos, com medo de que descubram seu comportamento autodestrutivo. Pessoas com o distúrbio, também pode haver períodos em que se isolam socialmente.

Disconfiança e histeria

Eles estão sempre a reclamar de algo, talvez querendo manter um cuidador perto de si, mas não têm capacidade o suficiente para nutrir uma relação saudável e estável. Para isso, eles são vistos como exímios manipuladores com tendência a manter perto de si a qualquer custo outra pessoa que seja sua "cuidadora". Isso pode ser conseguido de várias maneiras como já citadas, entre elas, ficar doente emocional ou fisicamente é frequente. Primordialmente, mostram-se aparentemente normais a fim de conseguir um vínculo. Entretanto, acabam por criar sérias confusões, mas sempre tendem a se fazer como as vítimas injustiçadas. Assim como pessoas portadoras do transtorno de personalidade histriônica, limítrofes podem glorificar doenças podendo estar cronicamente doentes (ex.: depressão, gripes que não saram, novos sintomas que sempre aparecem sem causa aparente, queixas hipocondríacas etc.).
Indivíduos limítrofes também têm alta probabilidade às dissociações, histeria e podem ter problemas com amnésia, frequentemente com falhas de memória. Eles também têm grande taxa de desenvolvimento ao transtorno dissociativo de identidade (personalidade múltipla), isto é, quando um indivíduo eclode mais de uma personalidade para lidar com as situações estressantes. Esses pacientes apresentam comumente um quadro conhecido como despersonalização ou desrealização. Nesta ocasião, o borderline — geralmente após algum evento que causa angústia e frustração — pode sentir-se como irreal, inexistente. Quando estão numa crise de despersonalização, o indivíduo é tomado por sensações gravemente perturbadoras como ter a sensação de que o mundo em sua volta não é real — nem eles próprios — e de que tudo parece um sonho. Podem sentir-se anestesiados, como se estivessem a ver suas próprias vidas num filme — ou seja, do lado de fora. Também podem sentir-se fora de seus corpos sendo que esta sensação de irrealidade é tão conturbada que, muitas vezes, os levam a cometer atitudes "automáticas" impulsivamente. Nesses casos, o borderline pode ter um comportamento autodestrutivo para certificar-se de que ele é real e está vivo. Geralmente, essas crises de desrealização são precedidas por rejeições sentimentais ou ameaças de abandono (reais ou imaginadas) percebidas pelo borderline sendo que a volta da pessoa amada muitas vezes ocasiona a remissão desses sintomas de irrealidade.
Às vezes, o comportamento de alguns borderlines pode demonstrar como obtinham carinho e consideração, em épocas remotas (especificamente quando crianças). Por isso, eles podem ocasionalmente mostrar um comportamento francamente sedutor para conseguir cuidado, alternando drasticamente, após a intimidade, o papel entre o sedutor e o vingador de maus tratos passados.
Essas pessoas podem mostrar-se simpáticas socialmente, mas em geral, as relações interpessoais desses indivíduos podem ser escassas. Principalmente porque borderlines têm dificuldade em nutrir confiança em relação aos outros, por vezes são desconfiados e têm reações paranóides. Podem ter certeza que existem conspirações contra eles, que estão a enganá-los ou criticá-los, ou que estão querendo passá-lo para trás; em suma, para o borderline ninguém é digno de confiança e em momentos de grande estresses essas características tornam-se exacerbadas. Essas ideações paranóides ocasionam no borderline um gatilho para explosões de agressividade e mau gênio, uma vez que o paciente acredita com veemência que as outras pessoas são inconfiáveis. Portanto, as outras pessoas ficam sem entender exatamente o que causou no borderline uma crise de raiva e agressividade súbita. O limítrofe costuma enxergar mentiras, traições e paranóias em lugares e pessoas nas quais, na realidade, não existem. Por exemplo: num relacionamento íntimo, o borderline é frequentemente aquele indivíduo que simplesmente por ver o parceiro conversar com outra pessoa acredita que está a ser traído, demonstrando explosões súbitas de mau gênio, cólera e ciúmes patológico. Portanto, eles acabam por mostrar emoções totalmente desproporcionais à realidade porque são pessoas excessivamente inseguras e com grande dificuldade em confiar no outro. Portanto, a possessividade e o ciúmes patológico são sintomas muito comuns entre pacientes portadores da personalidade borderline. Essa insegurança somada às ideações paranóides causam sentimentos de ciúmes intenso por situações triviais que seriam toleradas normalmente por uma pessoa equilibrada emocionalmente. Sendo assim, suas relações geralmente são superficiais e recheadas de desconfianças. Esses indivíduos sempre estão a esperar dos outros apenas crueldades, traições e frustrações, como se as outras pessoas fossem sempre maldosas e traíras. Quando estabelecem um relacionamento mais íntimo, esse comportamento anormal fica exageradamente evidente.

Reatividade do humor e impulsividade

Borderlines têm frequentemente flutuações do humor intensas, imprevisíveis e constantes. De manhã, podem ver a vida como muito aceitável. À tarde, bruscamente sentem um grande vazio com intensa vontade de se suicidar. E, à noite, radicalmente seu humor novamente muda e sentem uma grande ansiedade com desejo compulsivo de se acabar em guloseimas, por exemplo.
A impulsividade no borderline sempre está relacionada à desesperança, falta de apoio, intensa sensação de rejeição e vazio, o que leva, no desespero, por atos impulsivos autodestrutivos.
O borderline é confundido com frequência com quadro maníaco por conta do humor instável. Isto ocorre porque ele pode apresentar-se acelerado ou animado, por estar apaixonado por alguém e sendo correspondido, se sentindo amado, por exemplo. Angustiado ou delirante, também se encontra acelerado. De outro lado, pode tornar-se lento e excessivamente depressivo num piscar de olhos. Nestes casos, a confusão com uso de drogas ou bebidas alcoólicas também é frequente. Contudo, ele pode passar da animação para a depressão rapidamente, sempre dependendo das circunstâncias a que esteja submetido. Portanto, a grande diferença básica do indivíduo borderline com o portador da doença bipolar é exatamente duas características principais: diferente do bipolar, o borderline apresenta variações do humor e emoções muito mais rápidas que o bipolar. Enquanto o borderline oscila várias vezes num dia só sempre dependendo de circunstâncias externas e frustrações, o bipolar apresenta seu mesmo estado afectivo durante maior tempo — num dia o bipolar está bem mas no dia seguinte torna-se depressivo sem motivo algum. O borderline caracteristicamente tem seu humor ligado sempre às frustrações, conquistas e situações externas, por isso seu humor tem reatividade mais intensa. Enquanto o bipolar independe de situações externas — com ou sem frustrações ou conquistas, o bipolar continuará no seu mesmo estado afetivo, sem ter um motivo concreto para isto.
Além disso, frequentemente a depressão e o transtorno afetivo bipolar são confundidos com a desordem borderline de personalidade. Contudo, talvez uma das principais diferenças seja que além de todos os outros sintomas típicos de limítrofes, tanto a depressão unipolar como a da bipolaridadade, se caracterizam por sensação de culpa, inferioridade, sem um motivo concreto para este estado de ânimo. Enquanto isso, a depressão do borderline se caracteriza essencialmente em razão de um vazio existencial, um buraco nunca preenchido, uma vida sem sentido, do tédio diante de seus objetivos e idéias de fracassos de frustração em relação a ideais não atingidos. Na depressão, o sentimento de inferioridade e culpa estão sempre presentes. No borderline, esses sentimentos são inexistentes e são substituídos por raiva constante. Como o borderline também pode se sentir muito angustiado, podendo passar dias e anos na cama, isso frequentemente é confundido ainda mais com a depressão (uni ou bipolar). Outra diferença importante entre os transtornos é que como o borderline precisa sempre de uma pessoa consigo que lhe minimize o sentimento de vazio, quando uma pessoa significativamente importante está presente, o limítrofe permanece tranquilo, enquanto sente que a presença do outro está evidente e cuja sensação de abandono está ausente. Diferente do depressivo ou bipolar que tendo ou não uma pessoa consigo, continuará a sentir-se depressivo, triste e mal-humorado.

Início dos sintomas

Frequentemente, na etapa inicial (ex.: começo da adolescência, por volta dos 12 anos de idade) da eclosão dos sintomas do transtorno de personalidade limítrofe, sintomas como má adaptação social, baixo rendimento escolar e comportamentos anormais são comuns. Há também déficit na regulação dos afetos, agressividade, conflitos no ambiente familiar, tentativas de suicídio e depressão grave. A etapa secundária, no fim da adolescência ou início da idade adulta (na faixa dos 18 aos 21 anos), todos os sintomas propriamente ditos ficam evidentes, tendo seu auge por volta dos 25 anos de idade, causando grande prejuízo. O distúrbio também fica muito mais evidente quando o doente encontra-se apaixonado ou num relacionamento sentimental, uma vez que o transtorno de personalidade borderline pode se classificado como um grande vilão das relações íntimas. Contudo, é sábio que o transtorno tende a ser atenuado conforme a idade, sobretudo próximo dos 40 anos de idade. Talvez pelo fato de que ao passar do tempo, as pessoas ficam menos enérgicas e mais “maduras emocionalmente” que aos 20 anos de idade. Assim como todos os transtornos de personalidade, quase nunca borderlines acreditam sofrer de uma patologia ou que sua conduta e comportamentos são muito problemáticos. Eles tendem a culpar os outros, como causadores de discórdias e outras atitudes típicas de fronteiriços, em geral com argumentos implausíveis, e acreditam que "são normais": o que causam-lhes sofrimento são as outras pessoas.
As estatísticas apontam que 93% das pessoas portadoras do transtorno de personalidade borderline também apresentam um transtorno afetivo concomitante, especialmente depressão nervosa e transtorno afetivo bipolar. Além disso, estima-se também que 88% apresentam um transtorno de ansiedade, especialmente o transtorno do estresse pós traumático e diversas fobias em geral. A conduta suicida no borderline pode ser maior naqueles com história prévia de tentativas de suicídio, história de abuso sexual e comorbidade com abuso de substâncias e/ou depressão nervosa. Comportamentos histriônicos e psicopáticos são fenômenos fortemente presentes em borderlines. Muitas vezes, o borderline é confundido com o psicopata e histriônico por apresentar comportamentos semelhantes e, não raramente, ocorrem simultaneamente. No padrão geral de patologia grave, as famílias de pacientes borderline têm como características mães intrusivas e dominadoras e pais distantes, sendo que as relações conjugais são predominantemente conflitivas.
Em suma, o transtorno de personalidade borderline é tido como um dos transtornos mentais mais devastadores, sobretudo na área de relacionamentos interpessoais, sendo também dos mais difíceis de ser tratado.

Psicopatologia II

Pensamento extremista

  • Borderlines têm raciocínio 8 ou 80, branco ou preto, amor ou ódio, ótimo ou péssimo, perfeito ou terrível mas nunca o cinza ou meio termo.
  • Eles vêem as pessoas drasticamente como perfeitas ou terríveis. Para eles, não existe o "mais ou menos", ou a pessoa é perfeita ou a pessoa é terrível. Se não é perfeita é terrível e vice-versa;
  • Se a pessoa é perfeita, ótima ou boa ela merece ser tratada muito bem, como um deus. Quando a pessoa é horrível, péssima ou má, ela merece ser tratada muito mal, como um demônio;
  • Eles têm esse pensamento também consigo mesmos: se hoje eles se vêem como perfeitos, eles acham que merecem serem tratados como os melhores, como os principais e terem toda a atenção do mundo, caso contrário, eles se tornam terríveis, merecedores de maus tratos, punições e auto mutilações;
  • Pensamentos "tudo-ou-nada" aparecem em muitas outras áreas da vida do borderline. Quando há um problema, algumas pessoas com desordem borderline podem sentir como se existisse apenas uma solução. Uma vez que a ação é feita, não há retorno. Por exemplo "faça tudo, ou não faça nada". Uma mulher no trabalho, recebeu novas ordens na qual ela não gostou, sua solução foi deixar seu emprego;
  • Têm dificuldade em terminar o que começam. Isso vai desde uma simples leitura de um livro, até a desistência ou interrupção de um projeto importante.
  • Podem ser tidos erroneamente como "preguiçosos" por causa desse pensamento;
  • Não conseguem ver o "lado bom" e o "lado ruim" de cada pessoa, objeto ou circunstância: acreditam que o objeto é totalmente bom, ou totalmente ruim, alternando drasticamente entre o primeiro e o segundo, várias vezes;
  • Têm dificuldade em verem defeitos ou más qualidades em pessoas que consideram totalmente boas ou ótimas. E têm dificuldade em enxergar qualidades boas em pessoas que consideram totalmente más ou péssimas, demonstrando uma grande resistência em entender o "meio-termo" das coisas e situações.
  • Sua opinião sobre alguém é baseada frequentemente em sua última interação com ele, porque têm dificuldade em integrar os traços bons e ruins de uma só pessoa;
  • Em cada momento particular, alguém é "bom" ou é "mau", não há nada no meio, nenhuma área cinzenta;
  • Eles também podem sentir que seus relacionamentos devem ser claramente definidos: ou é amigo ou é inimigo. Ou é seu amante apaixonado ou um companheiro platônico. Esta é a razão porque as pessoas borderlines podem ter dificuldade em ser amigos após o fim de um romance.

Manipulações

  • Manipulam as pessoas através de chantagens emocionais pouco evidentes como brigas, discussões e conflitos que na verdade são a forma de que encontram para testarem as pessoas das quais necessitam;
  • Demonstram seus medos através de irritabilidade, mau humor, raiva e agressividade;
  • Tentam se proteger através da raiva;
  • Críticas e acusações são típicos mecanismos de defesas usados por borderlines; na verdade eles estão a criticar-se mas o fazem com os outros por não terem coragem de verem o seu verdadeiro "eu".
  • Às vezes, as críticas e acusações se tornam abuso verbal;
  • Agem de maneira extrema, exagerada ou manipuladora para conseguir o que quer;
  • Acusam os outros de terem dito coisas que nunca disseram, de terem feito coisas que nunca fizeram, de terem acreditado em coisas que nunca acreditaram;
  • Conseguem reconhecer o ponto fraco das pessoas as quais conhecem muito bem, utilizando de tal conhecimento para manipulações e terem êxito nas suas necessidades;
  • Chantagistas para conseguir o que quer;
  • Eles vivem a testar o amor e afeição das outras pessoas, pois muitas vezes não conseguem acreditar que as pessoas possam amá-los de verdade.

Instabilidade excessiva

  • Borderlines têm uma grande instabilidade emocional evidente: pessoas instáveis sentem tudo de forma intensa, ferindo-se facilmente e deixam-se abalar por situações externas e internas por motivos pouco importantes ou até mesmo fúteis. Eles não conseguem manter o mesmo humor e emoções durante um longo período (no caso do borderline, ele não consegue manter um humor estável num mesmo dia, alternando muitas vezes). Uma característica típica de pessoas instáveis emocionalmente são as constantes brigas no ambiente intrafamiliar, por exemplo, por isso são tidos como agressivos, briguentos ou que reclamam demais.
  • Mudam de comportamento de forma muito rápida, em questão de segundos: com pessoas que conhecem muito bem (tal como familiares ou cônjuges), tratam-nas mal com frequentes discussões e provocações, mudando rapidamente para gentis e adoráveis com as outras pessoas na qual têm pouco intimidade;
  • Muitas vezes, as outras pessoas não acreditam nos familiares que relatam esse comportamento;
  • Agem de forma controlada e apropriada em várias situações, mas extremamente fora do controle em outras;
  • Facilmente desvalorizam alguém. Podem amar a pessoa em um minuto, mas por qualquer deslize, contrariedade ou um simples "não" vindo da outra pessoa, passam a odiá-la em questão de segundos a ponto de maltratá-la e não sentir remorso disso, uma vez que de repente, o outro transformou-se drasticamente em uma pessoa "terrível" que merece ser tratada assim como ela é vista. Tais desvalorizações rápidas são precedidas por motivos pouco perceptíveis para a outra pessoa que termina sem entender o motivo por qual foi cruelmente maltratada.
  • Ao mesmo tempo que querem a intimidade, eles não querem. Eles têm medo de muita intimidade, por isso alguns relacionamentos podem ser superficiais.
  • Às vezes eles querem estar perto do outro, outras vezes quer estar longe;
  • Empurra o outro para longe justamente quando o outro está se sentindo próximo;
  • Limítrofes tendem a ser aquele tipo que quando querem alguma coisa, ficam ansiando e sentindo uma grande vontade de ter aquilo, contudo, se conseguem, enjoam, não querem mais ou passam a odiá-lo facilmente;
  • Eles têm dificuldade em dizer exatamente o que gostam, o que querem, de modo que há uma notável tendência à instabilidade em seus gostos, comportamentos, identidade e auto-imagem;
  • Eles frequentemente não sabem quem são, não sabem o que gostam, mudam de gosto drasticamente de um segundo a outro, não sabem o que querem ou então mudam de opiniões e objetivos a todo momento;
  • Sua orientação sexual também pode ser instável: uma boa parte dos borderlines têm dificuldade ou instabilidade em relação à sua própria orientação sexual, sendo que também não sabem o que são, mudando rapidamente de uma identidade sexual para outra. Por exemplo, eles podem não ter certeza se são realmente heterossexuais ou homossexuais, ou então podem ser bissexuais (isto não é regra);
  • Borderlines são cheios de imagens contraditórias de si mesmos. Eles relatam geralmente que sentem o vazio interior, que são pessoas diferentes dependendo de com quem estão;
  • Esses indivíduos possuem tanta dificuldade em saber "quem são" que, em casos mais graves, perdem totalmente a noção da sua própria identidade, procuram um modo de "achar-se" em algum outro tipo de identidade, possuem sentimentos de que irão desaparecer ou fundir-se e de que não são reais ou são inexistentes;
  • Mudam de desejos, opiniões e humor num piscar de olhos;
  • "Mantenha a distância um pouco próximo": o borderline pode começar a se sentir subjugado ou com medo de estar perdendo o controle quando uma pessoa se aproxima demais dele. Ao tempo que ele quer a intimidade, ele não sabe como estabelecer limites de maneira saudável, e a intimidade genuína pode fazê-lo sentir-se vulnerável ou abusado. Ele talvez esteja com medo de que o outro possa ver o seu "verdadeiro" eu, fique enojado e o abandone. Então, ele começará a se distanciar para evitar se sentir vulnerável ou controlado. Ele pode arranjar uma briga com o outro, "esquecer" alguma coisa importante ou fazer algo dramático ou explosivo. Mas então a distância o faz se sentir solitário. Os sentimentos de vazio pioram e o seu medo de abandono se torna forte. Então ele faz esforços frenéticos para se aproximar novamente e o ciclo de repete.
  • O indivíduo limítrofe muda de comportamento drasticamente, sem motivo evidente, tal como passam de um comportamento delicado e gentil para frio, seco ou distante.

Narcisismo e histrionismo

  • Podem parecer egoístas ou egocêntricos;
  • Suas emoções e sentimentos são tão intensos que eles têm dificuldade em colocar as necessidades dos outros em primeiro lugar, acontecendo o contrário: suas necessidades são colocadas antes das dos outros, pouco importando se a pessoa em relação é seu filho, pai, mãe etc.;
  • Eles se sentem ignorados quando não são o foco da atenção;
  • Visto sob esta ótica narcisista, o borderline é um balão inflado a ar - por fora, uma imagem adulta poderosa; por dentro, uma criança frágil, impotente e triste.
  • Fazem ou dizem algo impróprio para receber atenção e cuidado quando se sentem ignorados. Por quererem atenção, tais traços histriônicos podem estar presentes, tais como: às vezes o borderline pode se vestir sexualmente provocante para receber cuidado e atenção, podem inventar histórias ou exagerá-las, exagerar sintomas ou doenças, entre outros comportamentos a fim de reafirmar sua presença;
  • Alguns borderlines podem jogar o papel de vítima para si mesmos, porque isso atrai atenção solidária, fornece uma identidade e lhes dá uma ilusão de que não são responsáveis por suas próprias ações;
  • Há uma evidente exigência narcisista no borderline: alguns borderlines frequentemente trazem o foco da atenção para si mesmos. Algumas pessoas com personalidade borderline puxam a atenção para si mesmos por ficar se queixando de doenças; outras talvez ajam inapropriadamente em público. Esse comportamento narcisista pode ser sobrecarregante especialmente para as outras pessoas que não possuem o transtorno de personalidade borderline, visto que o limítrofe nem mesmo considera como suas ações afetarão a outra pessoa.
  • Negam os efeitos de seu comportamento em outros, frequentemente diz que os outros exageram;
  • Cheia de auto-ódio, a pessoa borderline talvez acuse os outros de odiá-la ou de nunca amá-la. Com medo de ser abandonada, ela pode se tornar tão crítica e facilmente enfurecida, que por fim desejam realmente abandoná-la. Então, incapaz de enfrentar a causa de sua dor, o borderline pode culpar os outros e se colocar no papel de vítima;
  • Às vezes, podem ser exageradamente dramáticos, fazendo "tempestade em copo d'água";
  • Podem ser tidos como incapazes de demonstrar gratidão.

Irritabilidade e comportamento briguento

  • Irritam-se muito facilmente, sendo que muitas vezes por motivos inexistentes ou incomprensíveis aos olhos dos outros. Às vezes os familiares não sabem o motivo que levaram o borderline a adotar um comportamento agressivo para com eles, por exemplo.
  • Generalizando, o borderline é facilmente conhecido por pessoas íntimas como uma pessoa: geniosa, "de lua", que fica brava facilmente, indecisa, imprevisível, egocêntrica, controladora, perspicaz, exagerada, rude, áspera, indelicada e emocionalmente desequilibrada. No entanto, demonstra paralelamente grande carência afetiva e fragilidade emocional.
  • São indivíduos que têm dificuldade em demonstrar o amor, carinho e generosidade de forma genuína, embora o sintam de forma sincera
  • Eles podem criar crises ou brigas desnecessárias, demonstrando um estilo de vida caótico e desorganizado;
  • Geralmente, o que parece ser raiva, impulsividade, agressividade e comportamento manipulativo é na realidade uma tentativa mal-orientada de extrair envolvimento e afeição;
  • O borderline vive constantemente num caos. Ele pode deliberadamente levantar argumentos e isso em constante conflito com outros. Ele também pode ser fanático por drama, desde que isso crie agitação;
  • Como não toleram frustração e não controlam a impulsividade, podem acabar se envolvendo na criminalidade antes de receber qualquer ajuda médica ou psicoterápica: tal é o grau de desordem de suas vidas, que os pacientes borderline geralmente viram caso de polícia antes de virarem caso de psiquiatria;
  • Tentam diminuir o vazio, a dor interna e a tensão interior através da raiva e brigas.

Sequelas de abuso na infância

  • Alguns especialistas acreditam que o transtorno de personalidade limítrofe seja uma síndrome consequente de graves sequelas na personalidade, decorrente de diversas formas de abuso na infância;
  • Uma boa parte das pessoas com o transtorno tiveram uma infância traumática (porém, isto não é regra geral);
  • Borderlines têm dificuldade em confiar nas pessoas (especialmente se houve abuso), sobretudo nos indivíduos do mesmo sexo do abusador;
  • Borderlines com histórico de abuso, podem repetir o roteiro do passado. Eles tendem a se sentir eternamente vitimados porque estão condicionados a esperar o comportamento cruel das pessoas em que confiam. Quando crianças, podem ter se sentido responsáveis pela circunstância traumática. Podem ter acreditado que algo neles levou as pessoas agirem daquela forma cruel. Então, quando adultos, essas crianças anteriormente abusadas esperam o pior das pessoas, existindo sempre um grande pessimismo. Interpretam o comportamento normal como cruel ou negligente e reagem com a raiva, desespero ou humilhação intensa. As pessoas em torno deles ficam confusas porque não podem ver o que realmente provoca o seu comportamento;

Desconfiança e idéias paranóides

  • Borderlines têm dificuldade em confiar nas pessoas;
  • Têm frequentemente idéias paranóides, estas são maiores em períodos de estresse ou sensação de abandono e solidão;
  • Borderlines caminham numa linha tênue entre sanidade e a loucura, às vezes se desequilibram e acabam por caminhar francamente na loucura, com alucinações e idéias delirantes, especialmente em situações estressantes, embora não possam ser diagnosticados como totalmente psicóticos ou esquizofrênicos.
  • Manias de perseguição e pensamentos paranóides são comuns;
  • Facilmente interpretam as ações de outras pessoas erroneamente como hostis, ameaçadoras, irritantes ou zombadoras, o que causa um gatilho para explosões de irritabilidade e brigas constantes, porque tendem a reagir da mesma forma pela qual acreditaram ter sido tratados.

Despersonalização

  • Borderlines podem sentir que não são reais, são inexistentes, especialmente quando estão sozinhos;
  • Em momentos de grande estresse ou quando percebem o abandono real ou imaginado, podem dissociar-se, existindo assim a despersonalização. Eles relatam tal fenômeno sendo frequente, mas que aumentam de intensidade nos momentos em que estão a sós ou sentem-se abandonados, ignorados ou rejeitados;
  • A despersonalização pode ser referida por uma sensação de irrealidade, de que nada mais é real em sua volta, nem eles mesmos. Podem acreditar estar num sonho ou pesadelo, cuja sensação de irrealidade é fortemente angustiante. Ainda podem relatar que estão num filme e vêem tudo como se estivessem fora do corpo, como se tivessem se desprendido da sua própria personalidade ou do seu corpo. Tais sensações são tão fortes que podem se sentir deprimidos e angustiados, sendo às vezes um gatilho para a auto mutilação (podem se mutilar para sentir que são reais);
  • Quando estão tendo uma crise de despersonalização, as outras pessoas podem perceber um comportamento levemente anormal, como por exemplo, uma falta de atenção, como se a pessoa estivesse longe, distante ou "viajando";
  • Alguns borderlines podem conviver dias, semanas e até meses com despersonalização, sendo pegos a todo instante pela sensação angustiante de irrealidade e de desprendimento do corpo.
  • Algumas pessoas relatam que olhar-se no espelho bem como se lembrar da despersonalização piora o quadro, pois sentem-se irreais ou inexistentes;
  • Borderlines podem ter problemas com a memória e atenção, especialmente em momentos de dissociações tais como a despersonalização. Eles podem ter "brancos" e apagões, esquecimentos sobretudo após essas situações.
  • Geralmente a despersonalização é precedida geralmente por dois motivos: ou o sentimento de rejeição por uma pessoa amada ou por indagações e dúvidas a respeito de quem ele é, do que ele gosta. Como o borderline não consegue ter uma identidade concreta e definida, ele não consegue se auto definir, não tem certeza de quem ele é e possui um grande sentimento de ter se perdido de si próprio ou de que sua identidade é falsa ou copiada. Por isso a instabilidade em suas vidas. Sua identidade é, a todo momento, construída e destruída, gerando uma inconstância insuportável.

Sentimentos e emoções

  • Possuem intensos sentimentos crônicos de vazio e tédio. Nada os preenche, nada os satisfaz, tudo vira enjoativo, monótono e tedioso rapidamente;
  • Eles se sentem a maior parte do tempo irritáveis, ansiosos ou desconfiados;
  • Eles se sentem ignorados por motivos insignificantes para outras pessoas;
  • Raramente dizem com palavras que têm medo de serem rejeitados. Sempre demonstram isso através de manipulações, chantagens, discussões e agressões, mas jamais admitem;
  • Acreditam que "quem ama não abandona", se "não ama, então, odeia" (pensamento extremista);
  • Recordam de situações de modo muito diferente de outras pessoas ou então se acham incapazes de se lembrar de tudo;
  • Se veem como pessoas más (ou fora dos padrões);
  • Por terem esse tipo de sentimento, eles demonstram baixa responsabilidade por si só;
  • Eles se sentem muito merecedores de atenção, entretanto, sentem-se como se nunca conseguissem, como se nunca fossem receber amor, atenção e afeto. Um simples "não" de uma pessoa significante para o borderline, é visto como prova de rejeição, motivo para mudar radicalmente de humor;
  • Sentem-se irreais, inexistentes ou fora de si, como se não tivessem uma personalidade;
  • Eles não têm uma identidade bem formada. Tal identidade é destruída e remontada a toda hora, por isso a instabilidade e incertezas são constantes na vida de um borderline.
  • Tentam preencher o vazio interno através de comportamentos exagerados;
  • Borderlines olham para outros para conseguir coisas que se acham difíceis de suprir a si mesmos tais como segurança, otimismo e identidade;
  • O medo de abandono ou rejeição nessas pessoas é tão grande que a perda potencial de um relacionamento ou uma grande rejeição sentimental é como a perda de um braço ou perna, ou mesmo a morte. Ao mesmo tempo, sua auto-estima é tão baixa que não entendem por que alguém poderia querer viver com eles. Por isso são hipervigilantes: estão o tempo todo tentando achar uma forma de comprovar que a outra pessoa não o ama de verdade. Quando suas suspeitas são supostamente confirmadas, podem estourar em raiva, fazer acusações, chantagens, provocações, agredir, procurar vingança, mutilar-se, ter um caso, mentir e entre outras inúmeras situações extremas;
  • São intolerantes às ambiguidades humanas;
  • Às vezes eles se acostumam a aproximar-se das pessoas de modo amigável e adorável, a fim de que cuidem-no. Mas depois percebem que nenhuma dessas pessoas são capazes disso, porque embora se sintam como uma criança por dentro, eles se parecem como adultos por fora.
  • Borderlines têm uma visão infantil do mundo: ambivalência, problemas constantes de objetivo, problemas de abandono/subjugamento, impaciência, problemas de identidade, exigências narcisistas, aparente falta de empatia e manipulação são todos pensamentos borderlines que imitam estágios de desenvolvimento nas crianças.
  • Quando uma criança de dois anos quer alguma coisa, ela quer isso agora, não amanhã. Quando o borderline está fazendo compras, por exemplo, ele é assim. Ele não consegue dizer não a si mesmo, então ele compra, mesmo que esteja com dívidas. Para uma criança, a coisa mais importante é a segurança. Para borderlines, também. O interior permanece escondido. Mas por baixo de toda a delicadeza e gentileza aparente, se esconde uma criança furiosa e aterrorizada, que é vista apenas por pessoas muito íntimas.
  • Alguns tendem ao Infantilismo

Pensamentos borderline

  • "Eu tenho que ser amada por todas as pessoas importantes na minha vida o tempo todo senão isso significa que eu sou desprezivel";
  • "Algumas pessoas são ótimas e tudo sobre elas é perfeito. Outras pessoas são inteiramente péssimas e devem ser severamente censuradas e punidas por isso";
  • "Odeio quando as pessoas não dão atenção para mim;
  • "Eu não tenho controle sobre meus sentimentos ou as coisas que faço em consequência deles;
  • "Ninguém se importa comigo tanto o quanto deveria, então eu sempre perco todos com quem me importo - apesar das coisas desesperadas que eu tento fazer para impedi-los de me abandonar";
  • "Quando eu estou sozinha, eu me torno ninguém e nada";
  • "Eu não consigo parar a frustração que eu sinto quando necessito algo de alguém e não sou capaz de receber isso."
  • "O que será que eu fiz para ele(a) me olhar com desdém?"

Dúvidas frequentes

O que é um transtorno de personalidade?

Quando uma pessoa não tem capacidade de resolver seus problemas normalmente consigo mesmo e com os outros. Quando ela não consegue se adaptar com eficácia às mudanças, às decepções e ao estresse comuns a todos, reagindo sempre de forma totalmente desproporcional e exagerada aos erros, fracassos e frustrações.

Como se adquire esse transtorno?

O distúrbio não é como uma gripe, portanto, não pode-se dizer a respeito de "contágio". A causa é provavelmente multifatorial, com ênfase em fatores como:
  1. acima de tudo, a pessoa deve haver uma predisposição biológica e genética, que pode classificá-la em supersensível aos fatores externos;
  2. entretanto, para que o distúrbio se desenvolva é preciso que na infância esta pessoa seja vítima de acontecimentos contrários ao seu desenvolvimento normal: isso pode ser desde acontecimentos graves como abuso emocional, físico ou sexual, bullying, negligência, separação parental, perda de um ente importante, acidentes como traumatismo craniano, pancadas na cabeça, uma doença grave, ou também um ambiente familiar onde a criança não pôde aprender a se construir, a pensar por ela mesma, a exprimir suas emoções e sentimentos, suas cóleras e suas necessidades;
  3. é comum o borderline ter alguém da família (por exemplo, um dos pais) com algum outro distúrbio psiquiátrico, desde uma leve distimia, depressão, distúrbio afetivo bipolar do humor, ou até mesmo um distúrbio de personalidade também. Isto faz pensar que a predisposição genética ou até mesmo hereditária pode ser um grande fator desencadeante (mas não único).

Resumidamente, como se manifestam os sintomas?

Através da raiva constante, reações emocionais exageradas a uma situação comum aos olhos de outros; instabilidade, momentos em que a pessoa se sente muito bem, eufórica, tratando igualmente os outros, ao mesmo tempo em que, num piscar de olhos, ocorrem momentos inversos: sente-se deprimida, irritadiça, isolada, tratando cruelmente os outros. Também terá tendência à solidão (em sua cabeça) e frequentemente divide o mundo em dois campos:
  • Os "bons": aqueles que fazem exatamente aquilo que atendem às suas expectativas (seus "escravos"), aqueles que não os deixam em desvantagem.
  • Os "maus": aqueles que, por exemplo, vão dizer-lhe "não", que vão estabelecer limites e, portanto, trazem-lhe frustrações.
Simplificando, podemos dizer que essas pessoas têm um quociente emocional infantil perturbado, que elas reagem frequentemente como uma criança reagiria, ao mesmo tempo que têm capacidade intelectual comum às outras pessoas ou até mesmo superior. Portanto, entende-se que não é algo "natural", nem mesmo "um jeito" da pessoa e sim uma doença muito perturbadora, traduzida também como transtorno da desregularização emocional.

Quando os sintomas ficam expostos?

O distúrbio é totalmente evidente, geralmente, no final da adolescência (18 anos) ou, no máximo, no início da idade adulta (21 anos). Os sintomas também ficam fortemente vistos quando apaixonam-se e começam um relacionamento amoroso.

O transtorno é um "defeito" da pessoa ou realmente uma doença?

Defeitos todas as pessoas têm. Diferente do borderline que acredita que as pessoas devem ser totalmente perfeitas, sem defeitos, ou totalmente desastrosas, sem virtudes — todas as pessoas têm seu lado ruim e lado bom, seus defeitos e suas qualidades. O distúrbio não tem nada a ver com a "natureza" da pessoa, não é "um de seus defeitos", é realmente uma verdadeira doença, mesmo uma grave desordem, crônica e sofrida. Centenas de estudos e publicações pelo mundo todo comprovam isto. O que o faz um distúrbio grave é não só sua forte taxa de suicídio mas também um grande sofrimento psíquico, exteriorizado ou não. Entretanto, tanto o paciente quanto os que estão em sua volta, estão "acostumados" com esses comportamentos "bizarros", porque geralmente estão presentes desde a pré-adolescência em diante, o que os fazem acreditar que simplesmente é "o jeito" da pessoa.

É preciso ter todos os sintomas para ser borderline?

Obviamente, não. Assim como qualquer outra pessoa, é preciso lembrar que o borderline é, acima de tudo, um ser humano e, portanto, cada um é diferente do outro. Mas são pessoas que sofrem e fazem sofrer. Também é importante lembrar que eles não "são" borderlines e sim pessoas que sofrem de um distúrbio de personalidade borderline. Nem todos as pessoas com a desordem vão ter que, necessariamente, se automutilar, fazer tentativas de suicídio, nem ter acessos de cóleras, condutas inadequadas e comportamentos compulsivos para aliviar seu sofrimento interno. Alguns serão capazes de enganar o mundo completamente, o que muitas vezes "corrige" o ambiente, enquanto outros mais graves são menos capazes de esconder a sua dor. Em todos os casos, entretanto, as pessoas com o distúrbio sempre têm problemas para gerar suas emoções e, consequentemente, seus relacionamentos com os outros.

Somos todos borderlines?

Não. Algumas pessoas podem ter traços borderlines e se identificar com alguns sintomas, mas isto não quer dizer que ela possui o distúrbio. Entretanto, isto é uma questão de determinação e duração. Deve-se ter em mente, que o borderline não está se comportando desta maneira por acaso, e sim porque ele se comporta repetidamente e exageradamente assim. Por outro lado, não se torna borderline à idade adulta, uma vez que o distúrbio se remete a tempos muito mais distantes. Um trauma não pode "acordar" um distúrbio nesta idade. O borderline, infelizmente, não tem uma capacidade normal para sobreviver às frustrações do cotidiano. Ele não é assim porque é "mimado", "fresco" ou simplesmente porque quer. Ele tipicamente não sabe lidar com problemas comuns do dia-a-dia. Quando as pessoas confrontam-se com um problema, obviamente, sentem-se mal, entretanto, em seguida conseguem contornar a situação e erguer-se novamente. O borderline, não, sente-se ferido facilmente, reage de forma exagerada e anormal ao estresse e também demora muito mais tempo para conseguir voltar ao normal, sofrendo sempre muito mais e por mais tempo que as outras pessoas.

Cisão no paciente borderline

No Transtorno de Personalidade Borderline, cisão (splitting) é um erro cognitivo característico. Esse erro é uma defesa primitiva e representa a tendência em se completamente idealizar ou completamente desvalorizar outras pessoas, lugares, idéias, ou objetos; o que significa, vê-los como totalmente bons ou totalmente maus.
Segundo alguns teóricos como Otto Kernberg, é um comportamento no ser humano, enquanto criança pequena, dividir o mundo entre "bom" e "mau". A criança não está emocionalmente madura o bastante para saber lidar com as diferenças e imperfeições das outras pessoas/coisas. Em alguma fase do desenvolvimento infantil, o indivíduo aprende a enxergar o meio-termo e a neutralidade existentes nos outros e o comportamento de separação primitivo é superado.
No TPL, por diversas razões, o mecanismo de separação se mantém na idade adulta e cria uma instabilidade emocional que afeta severa e negativamente a vida dos pacientes borderlines. Essa cisão pode resultar problemas como o estupro e envolvimento com drogas pelo mau julgamento ao escolher parceiros e estilos de vida.
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Etiologia – Causas e influências

Pesquisadores acreditam que o TPL resulta de uma combinação que envolve uma infância traumática, componentes genéticos e acontecimentos estressantes durante a adolescência, além de disfunções no funcionamento cerebral.

Abuso infantil, trauma ou negligência

Numerosos estudos mostraram uma forte relação entre abuso infantil e o desenvolvimento de TPL. Muitos indivíduos com TPL reportam uma história de abuso, negligência e separação quando crianças. Pais de portadores foram apontados como tendo falhado em dar a proteção necessária, e negligenciado os cuidados físicos e emocional de seus filhos. Pais (de ambos os sexos) foram tipicamente reportados como tendo negado a validade dos pensamentos e sentimentos de seus filhos, de se retirarem emocionalmente em algum momento e terem tratado a criança inconsistentemente. Orfandade de algum (ou dois) dos pais também é comum entre esses pacientes. É comum, ainda, encontrar divórcios e separação parental precoce, além de histórico de abuso sexual por um responsável ou não (principalmente nas mulheres) entre portadores de TPL. Alguns dos casos, a forma de negligência não se dá somente na infância, pessoas que sofrem instabilidade durante a fase de formação, como na adolescência, também são propensas a apresentar os sintomas de TPL. Pessoas que sofreram bullying e humilhações frequentes na infância ou adolescência também é propensa a se tornar borderline. De acordo com Joel Paris, “Alguns pesquisadores, como Judith Herman, acreditam que o Transtorno de Personalidade Limítrofe é um nome dado a uma manifestação particular do Estresse Pós-Traumático (EPT)". No entanto, Paris considera essa conclusão como não comprovada, uma vez que alguns portadores de TPL não têm uma grave história de traumas.

Genética

A literatura existente sugere que traços relacionados ao TPL são influenciados por genes e já que a personalidade pode ter características hereditárias, então o TPL também poderia ser, no entanto estudos têm tido problemas metodológicos e as ligações exatas não estão claras ainda. Um estudo maior de gêmeos idênticos descobriu que se um deles atingir o critério de TPL, o outro também atinge em um terço (35%) dos casos. Filhos de pais (de ambos o gêneros) com TPL têm cinco vezes mais chances de também desenvolver o Transtorno de Personalidade Limítrofe ou o Transtorno de Personalidade Anti-Social (Sociopatia). Além disso, pais com outros tipos de transtornos psiquiátricos tais como depressão, ansiedade ou transtorno afetivo bipolar podem ter mais chances de ter um filho com probabilidade de desenvolver outra doença psiquiátrica, incluindo o transtorno de personalidade borderline.

Funcionamento cerebral

Neurotransmissores relacionados com o TPB incluem serotonina, noradrenalina, acetilcolina (relacionada a várias emoções e ao humor); ácido gama-aminobutírico (o maior neurotransmissor inibidor no cérebro, que pode estabilizar a flutuação de humor); e o ácido glutâmico (um neurotransmissor responsável pelo prazer).

Tratamento

Psicoterapia

Tradicionalmente há um ceticismo em relação ao tratamento psicológico de transtornos de personalidade, mesmo assim muitos tipos específicos de psicoterapia para TPB foram desenvolvidos nos últimos anos. Os estudos (limitados) já registrados não confirmam a eficácia desses tratamentos, mas pelo menos sugerem que qualquer um deles pode resultar em alguma melhora. Terapias individuais simples podem, por si mesmas, melhorar a auto-estima e mobilizar as forças existentes nos borderlines. Terapias específicas podem envolver sessões durante muitos meses ou, no caso de transtornos de personalidade, muitos anos. Psicoterapias são frequentemente conduzidas com indivíduos ou com grupos. Terapia de grupo pode ajudar a potencializar as habilidades interpessoais e a autoconsciência nos afetados pelo TPB.
Exemplos comuns de terapias indicadas aos limítrofes incluem:
  • Terapia comportamental dialética: Estabelecida nos anos 1990, a terapia comportamental dialética se tornou uma forma de tratamento do TPB, originada principalmente como uma intervenção para pacientes com comportamento suicida.
Essa forma de psicoterapia deriva da terapia cognitivo-comportamental e enfatiza a troca e negociação entre o terapeuta e o cliente, entre o racional e o emocional, e entre a aceitação e a mudança. O tratamento tem como alvo os problemas com a automutilação. O aprendizado de novas habilidades é um componente principal, incluindo consciência, eficácia interpessoal, cooperação adaptativa com decepções e crises; e na correta identificação e regulação de reações emocionais.
  • Terapia de esquemas: Outra forma de terapia que também se estabeleceu nos anos 1990 e tem como base uma aproximação integrativa derivada de técnicas cognitivas-comportamentais juntamente com relações objetais e técnicas da gestalt. Esta terapia se direciona aos mais profundos aspectos da emoção, personalidade e esquemas (modos fundamentais de relacionamento com o mundo). A terapia também foca o relacionamento com o terapeuta (incluindo um processo de quase paternidade), vida diária fora da terapia, e experiências traumáticas na infância.
  • Terapia cognitivo-comportamental: A TCC é o tratamento psicológico mais usado em doenças mentais, mas parece ter menos sucesso no TPB, devido parcialmente às dificuldades no desenvolvimento de uma relação terapêutica e aderência à terapia. Um estudo recente descobriu que resultados com essa terapia aparecem, em média, depois de 16 sessões ao longo de um ano.
  • Terapia matrimonial ou familiar: Terapia matrimonial pode ajudar na estabilização da relação matrimonial e na redução dos conflitos matrimoniais que podem piorar os sintomas do TPB. Terapia familiar pode ajudar a educar os membros da família acerca do TPB, melhorar a comunicação familiar, e prover suporte aos membros da família ao lidar com a doença de seus amados.
Um dos maiores problemas com as psicoterapias são os elevados números de abandono das mesmas pelos portadores de TPB.

Medicação

Um número de medicamentos é usado em pacientes com TPL. Devido ao fato de o transtorno ser considerado primariamente uma condição psicosocial, a medicação tem mais como função tratar as comorbidades, como ansiedade e depressão, do que o transtorno por si. Antidepressivos são usados para melhorar o sentimento de vazio e antipsicóticos são usados para diminuir os quadros de automutilação e os sintomas dissociativos.

Serviços mentais de recuperação

Indivíduos com TPL às vezes necessitam serviços mentais extensivos e têm sido contados como 20% das hospitalizações psiquiátricas. A maioria dos pacientes com TPL continua usando tratamento fora do hospital por muitos anos. A experiência dos serviços varia. Acessar os riscos de suicídio pode ser um desafio para profissionais da área mental (e pacientes tendem a subestimar a letalidade de seus atos) já que a taxa de suicídio é muito maior daquela do restante da população. Limítrofes são descritos pelos funcionários hospitalares com extremamente difíceis de lidar.

Dificuldades na terapia

Existem desafios únicos no tratamento de TPL. Na psicoterapia, um cliente por ser bastante sensível à rejeição e pode reagir negativamente (por ex, se mutilando ou abandonando a terapia) se sentir isso. Além do mais, profissionais da área podem se distanciar emocionalmente dos indivíduos com TPL por auto-proteção devido ao estigma associado com o diagnóstico.

Outras estratégias

Psicoterapias e medicamentos formam a parte principal do contexto geral dos serviços da saúde mental e das necessidades psicosociais relacionadas ao TPL.

Remissão dos sintomas e possível estabilidade

Estatísticas sugerem que, com o devido tratamento, portadores de Transtorno de Personalidade Limítrofe tendem a sofrer recessão dos sintomas em algum momento da fase adulta posterior. Dos que procuram ajuda profissional de uma maneira geral, 75% sofrem remissão da maior parte dos sintomas entre os 35 e 40 anos de idade, 15% entre os 40 e 50 anos de idade e os 10% restantes podem não apresentar resultados satisfatórios ou podem cometer suicídio.
 Fonte: texto do wikipédia