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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Parafilia

Parafilia (do grego παρά, para, "fora de",e φιλία, philia, "amor") é um padrão de comportamento sexual no qual, em geral, a fonte predominante de prazer não se encontra na cópula, mas em alguma outra atividade. São considerados também parafilias os padrões de comportamento em que o desvio se dá não no ato, mas no objeto do desejo sexual, ou seja, no tipo de parceiro, como, por exemplo, a efebofilia.
Em determinadas situações, o comportamento sexual parafílico pode ser considerado perversão ou anormalidade.
As parafilias podem ser consideradas inofensivas e, de acordo com algumas teorias psicológicas, são parte integral da psiquê normal — salvo quando estão dirigidas a um objeto potencialmente perigoso, danoso para o sujeito ou para outros (trazendo prejuízos para a saúde ou segurança, por exemplo), ou quando impedem o funcionamento sexual normal, sendo classificadas como distorções da preferência sexual na CID-10 na classe F65.
As considerações com respeito ao comportamento considerado parafílico dependem em um grau muito elevado das convenções sociais reinantes em um momento e lugar determinados; certas práticas, como a homossexualidade ou até mesmo o sexo oral, o sexo anal e a masturbação foram consideradas parafílicas em seu momento, embora agora sejam consideradas variações normais e aceitáveis do comportamento sexual.
Entretanto, há quem considere que o excesso na masturbação após a adolescência ou o fato de alguém preferir sempre esta prática do que o contato com outro indivíduo venha configurar-se uma parafilia.
Por outro lado, o próprio conceito de parafilia tende a ser revisto já que na atualidade a ciência tem ampliado cada vez mais as variações aceitáveis do comportamento sexual, mas sem que os valores novos tenham aprovado algumas condutas ainda que acompanhadas da cópula vaginal, como é o caso das relações sexuais com crianças.
Sendo assim, é impossível elaborar um catálogo definitivo das parafilias; as definições mais usuais listam comportamentos como o sadismo, o masoquismo, o exibicionismo, o voyeurismo ou o fetichismo.

Algumas parafilias

  • Adstringopenispetrafilia: fetiche por amarrar pedras aos pênis.
  • Agalmatofilia: atração por estátuas.
  • Agorafilia: atração por copular em lugares abertos ou ao ar livre.
  • Aiquemofilia : Prazer pelo uso de objetos pontudos e cortantes.
  • Amaurofilia: excitação da pessoa pelo parceiro que não é capaz de vê-la (não se aplica a cegos).
  • Amphiboliafilia: atração ou excitação sexual por ambiguidades.
  • Anadentisfilia: excitação sexual por pessoas sem dentes ou prazer sexual ao receber sexo oral de uma pessoa sem dentes.
  • Anemofilia: excitação sexual com vento ou sopro (corrente de ar) nos genitais ou em outra zona erógena.
  • Apotemnofilia: desejo de se ver amputado.
  • Asfixiofilia (asfixia autoerótica): prazer pela redução de oxigênio.
  • ATM (ass to mouth): prática em que o parceiro ativo, após o coito anal, leva seu pênis à boca da pessoa penetrada.
  • BBW: atração por mulheres obesas
  • Bondage: prática onde a excitação vem de amarrar ou/e imobilizar o parceiro.
  • Bukkake: modalidade de sexo grupal praticado com uma pessoa que "recebe" no rosto a ejaculação de diversos homens.
  • Clismafilia: fetiche por observar ou sofrer a introdução de enemas.
  • Coleopterafilia: atração sexual por besouros.
  • Coprofagia: fetiche pela ingestão de fezes.
  • Coprofilia: fetiche pela manipulação de fezes, suas ou do parceiro.
  • Coreofilia: excitação sexual pela dança.
  • Crinofilia: excitação sexual por secreções (saliva, suor, secreções vaginais, etc).
  • Crematistofilia: excitação sexual ao dar dinheiro, ser roubado, chantageado ou extorquido pelo parceiro.
  • Cronofilia: excitação erótica causada pela diferença entre a idade sexo-erótica e a idade cronológica da pessoa, porém em concordância com a do parceiro.
  • Cyprinuscarpiofilia: excitação sexual por carpas.
  • Dendrofilia: atração por plantas.
  • Emetofilia: excitação obtida com o ato de vomitar ou com o vômito de outro.
  • Espectrofilia: prática medieval que consiste na excitação por fantasias com fantasmas, espíritos ou deuses.
  • Estelafilia: atração sexual por monumentos líticos (feitos de pedra) normalmente feitas em um só bloco, contendo representações pictóricas e inscrições.
  • Exibicionismo: fetiche por exibir os órgãos genitais.
  • Fetiche por balões: excitação ao tocar balões de látex (usadas em festas).
  • Fisting: prazer com a a inserção da mão ou antebraço na vagina (brachio vaginal) ou no ânus (brachio procticus).
  • Flatofilia: prazer erótico em escutar, cheirar e apreciar gases intestinais próprios e alheios.
  • Frotteurismo: prazer em friccionar os órgãos genitais no corpo de uma pessoa vestida.
  • Galaxiafilia: atração sexual pelo aspecto leitoso da Via Láctea.
  • Gerontofilia: atração sexual de não-idosos por idosos.
  • Hebefilia (ver lolismo)
  • Hipofilia: desejo sexual por equinos.
  • Imagoparafilia: prazer em imaginar-se com alguma parafilia.
  • Lactofilia: fetiche por observar ou sugar leite saindo dos seios
  • Lolismo: preferência sexual e erótica de homens maduros por meninas adolescentes
  • Kosupurefilia: excitação sexual por Cosplay.
  • Maieusofilia: ver pregnofilia
  • Masoquismo: prazer ao sentir dor ou imaginar que a sente.
  • Menofilia: atração ou excitação por mulheres menstruadas.
  • Moresfilia: atração ou excitação sexual por coisas relativas aos costumes.
  • Nanofilia: atração sexual por anões.
  • Necrofilia : atração por pessoas mortas
  • Nesofilia: atração pela cópula em ilhas, geralmente desertas.
  • Odaxelagnia: fetiche por mordidas.
  • Orquifilia: fetiche por testículos.
  • Panpaniscusfilia: excitação sexual por Bonobos.
  • Partenofilia: fixação sexual por pessoas virgens.
  • Pigofilia: excitação sexual por nádegas.
  • Pirofilia: prazer sexual com fogo, vendo-o, queimando-se ou queimando objetos com ele.
  • Podolatria: fetiche por pés.
  • Pogonofilia: fetiche por barba.
  • Pregnofilia ou maieusofilia: fetiche por mulheres grávidas e/ou pela observação de partos.
  • Quirofilia: excitação sexual por mãos.
  • Sadismo: prazer erótico com o sofrimento alheio.
  • Sadomasoquismo: prazer por sofrer e, ao mesmo tempo, impingir dor a outrem.
  • Sarilofilia: fetiche por saliva ou suor.
  • Timofilia: excitação pelo contato com metais preciosos.
  • Trampling: fetiche onde o indivíduo sente prazer ao ser pisado pelo parceiro.
  • Tricofilia: fetiche por cabelos e pelos.
  • Urofilia: excitação ao urinar no parceiro ou receber dele o jato urinário, ingerindo-o ou não.
  • Vorarefilia: atração por um ser vivo engolindo ou devorando outro.
  • Voyeurismo: prazer pela observação da intimidade de outras pessoas, que podem ou não estar nuas ou praticando sexo.
  • Zoofilia: prazer em relação sexual com animais.
 Fonte: texto Wikipédia

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Psicólogo e seu Papel Frente ao Paciente

Autor: Antônio Carlos A. de Araújo - Psicólogo

Esta é uma questão que tem desafiado a história da própria psicologia, qual papel o terapeuta deve assumir perante as demandas do paciente? Uma escuta passiva, analítica, ou um papel determinista como nas modernas teorias cognitivas? Obviamente não importa definir com exatidão qual seria o certo, mas cabe uma reflexão aprofundada sobre o tema, e é disto que este texto irá tratar. Penso que antes de tudo o terapeuta tem o dever de se indignar perante o sofrimento do paciente, sem torcida pelo mesmo ou se deixando abalar, é óbvio, mas deve manter seu fluxo de energia preparado para confrontar todos os mecanismos de defesa que uma neurose insiste em repetir, caso contrário sua escuta se torna sádica e irrelevante para qualquer tipo de mudança que pode ser operacionalizada. O problema do fracasso de uma psicoterapia como já foi dito milhares de vezes, é a tradição de uma cultura que sempre valorizou o individualismo, assim sendo, não será estranho um paciente rejeitar a fala do psicólogo acerca de seu fracasso em diversos âmbitos de sua personalidade. O que importa para a maioria dos pacientes, não é a eliminação do sofrimento, mas manter intacto o que considera sua dignidade pessoal, e infelizmente tal crença potencializa o orgulho num grau inimaginável.
A perspectiva do trabalho terapêutico então deve tomar outro rumo, criar créditos ou motivações que ataquem diretamente o conflito, e não ficar julgando o mesmo. Não é pelo fato sinceramente de eu não ser mais um psicanalista que reprovo a escuta quase que interminável, o problema é que para as demandas atuais de nossa sociedade mergulhada na extrema destrutividade, uma escuta passiva terá o efeito de uma aspirina contra um câncer. O que muitos psicólogos ainda não perceberam é que os pacientes se encontram numa perspectiva do famoso intelectual francês MICHEL FOUCOULT, o “vigiar e punir”, sendo que não necessariamente desejam se evadir da prisão que construíram, muito pelo contrário, se regozijam com o fato de verem segurança em todos os mecanismos fóbicos e obsessivos que fazem questão de repetirem quase que diariamente. Mesmo não sendo algo novo, esse processo é constantemente negligenciado pela parte do analista.

A primeira regra para se estabelecer o papel do analista e analisado é a definição em conjunto do que realmente é uma neurose na vida do sujeito, senão se instala sumariamente o poder diagnóstico que irá limitar e amplificar a resistência do mesmo. Apenas para fornecer certo parâmetro, a neurose reina na busca por um poder que jamais pode ser convertido num ganho pessoal ou existencial, ou a insistência de tomar ou viver o papel que seria do outro. Todos sabem que a relação sado masoquista se estabelece tanto no tirano quanto naquele ser que insiste em sua despotencialização. O problema é que a própria neurose se transfigurou de forma quase que inimaginável há algumas décadas, não que haja doenças novas, mas manifestações mórbidas totalmente originais, visando escapar de um ataque que as retirem da primazia da vida da pessoa. Mas então o leitor já irritado até o presente ponto, me perguntará qual minha definição de neurose? Muito simples, segue regularmente um traçado totalmente social e político, é a pura reprodução das leis sociais, e não meramente a manifestação deste ou aquele sintoma. Neurose é paralisia, segurança contra críticas, não importa se o preço é a total desmotivação, o que vale é não ser incomodado, cobrado e notado, e é exatamente tudo isso que o terapeuta deve combater, o gregarismo social transposto na instância psíquica e afetiva do sujeito. O objetivo deste último sempre só será o de remover o sintoma que incomoda, e não a gênese do mesmo. Procurar a terapia não é um ato de cura por si mesmo, podendo muitas vezes ser a ratificação da alienação psíquica, caso o terapeuta não esteja preparado para tudo o que foi descrito. 

Penso que o tema exposto neste estudo é o mais importante quando falamos de psicoterapia, pois caso não haja clareza do papel profissional, simplesmente não há tratamento ou transformação. Por mais de vinte anos notei que uma conduta benevolente e de aceitação por parte do terapeuta jamais conduziu ao que poderíamos chamar toscamente de cura, muito pelo contrário, o elogio cobra um grande preço do compromisso e responsabilidade de continuar uma mudança que boa parte dos pacientes não está nada interessada em levar adiante. Numa certa ocasião uma paciente minha me disse uma coisa fantástica, que qualquer gentileza tem que ser realmente compensadora, estava se referindo ao princípio da troca, tão esquecido em nossas relações sociais recheadas de inveja e exploração simplesmente. Claro que não estou advogando uma conduta agressiva ou impositiva por parte do terapeuta, o que seria outra armadilha ou tentação, fechando um mecanismo de vitimização que também muitos pacientes adoram. 


Percebam que não é nada fácil o estabelecimento de uma determinada conduta, seja por medo do conflito ou de contrariar alguém que está nos remunerando pela escuta profissional. A definição de tão vasto dilema passa primeiramente pela percepção e intuição daquilo que o paciente está realmente procurando e na maioria das vezes não nos comunica conscientemente. Costumo dizer que um terapeuta experiente não pode ter medo do arquivo morto, ou seja, de perder um determinado paciente que não se encaixe seja em sua abordagem ou pelo motivo de não aceitar nenhuma autoridade perante sua problemática. A verdade é que terapia desejando ou não sempre será um eterno exercício de poderes entre dois seres humanos, e a negação de tal instância sempre traz efeitos nocivos ao trabalho em questão. Não se trata do mestre e discípulo, mas localizar todas as transferências negativas que o paciente efetua quando se trata do quesito autoridade. Tal fato determinará seu grau de neurose, seja por uma atitude sempre passiva, ou a arrogância que cega qualquer orientação. Quem procura ajuda não pode oscilar numa ambivalência extrema, seja um choro ou sofrimento compulsivo, ou uma revolta contra qualquer tipo de intervenção, ou ainda aquela racionalização incômoda, dando a noção que qualquer coisa que o terapeuta fale o paciente já tinha conhecimento.

Uma terapia jamais é um encontro entre amigos, mas uma relação dual entre uma pessoa com problemas que não consegue solucionar e outra disposta a dar apoio para tal dificuldade. Mas o leitor irá se perguntar se não seria possível o estabelecimento de uma amizade entre terapeuta e paciente? Jamais do ponto de vista social ou do cotidiano, pois a amizade tem a conotação quase sempre de poder burlar a regra, contando com a aquiescência do parceiro. A terapia jamais pode se desviar de seus objetivos ou compromissos, por mais sedutores que sejam os aspectos pessoais e afetivos envolvidos na situação. É importante ter em mente o tipo de paciente ou pessoa que nos procura, embora possa parecer uma tentativa de rótulo, penso que se faz necessária tal análise. Há o tipo melancólico ou depressivo que jamais ousa abandonar sua religião de culpa ou autopunição, o paranóico-agressivo onde seu gozo é o desafio ou contenda, querendo angariar a qualquer custo o suposto poder do terapeuta, o obsessivo compulsivo se equivale ao hipocondríaco onde acata gentilmente qualquer norma terapêutica, desde que continue preservando seu altar de medo e receio perante a vida, são indivíduos que costumam levar o trabalho terapêutico como uma espécie de obrigação ou missa semanal, mas que não incorporam aquela meta de desafio perante determinada problemática pessoal ou afetiva.

Outro tipo moderno que faz parte de nosso cotidiano tecnológico é o paciente com transtornos sexuais, geralmente jovens com problemas de disfunção erétil ou ejaculação precoce vítimas de todo um modelo de cobrança social de desempenho perante o parceiro. É outro tipo complicadíssimo de se tratar, pois demandam respostas urgentes para sua problemática que todo o contexto psicoterápico não consegue acompanhar, se inserem em outro quadro de pacientes com ansiedade mórbida, de difícil tratamento, pois desviaram toda a energia sexual para uma movimentação de vida frenética, impedindo uma reflexão objetiva e serena acerca de sua dificuldade. O resumo de tudo o que estou descrevendo é atacar a dependência psíquica de um passado de caos, que muitos insistem em pagar, apesar de parecer controverso ou afrontar a dinâmica do prazer, pois como o próprio FREUD pontuou, buscar o instinto de morte ou aniquilação psicológica não deixa também de ser um enorme gozo no psiquismo humano. Aliás, este é o maior atentado possível contra o processo analítico, vivenciar eternamente o sofrimento ou projetar em terapia o mesmo, seja através do choro compulsivo ou da queixa constante. O fato é que o espaço terapêutico deveria ser preenchido pelo prazer de uma ótica alheia que irá inflamar a esperança de um indivíduo combalido. Isto é atacar a raiz mais profunda de um orgulho ou teimosia que paralisam todas as potencialidades da pessoa.

Mas como se deve proceder perante tudo o que foi levantado? Enfim, como o terapeuta deve agir? Aceitação incondicional do paciente como pregava CARL ROGERS, análise do inconsciente dentro da esfera psicanalítica, animar o paciente como dizia ADLER, treinamento cognitivista? O ideal seria um pouco de tudo logicamente, mas penso que o mais importante é o terapeuta ser um consultor da potência real do paciente, não um avalista de seus atos, mas da dimensão de sua energia e onde a canaliza. A terapia seria então como a jura do casamento, na doença (quando da depressão e amargura, dando conforto no momento de maior despotencialização de alguém, e na saúde potencializando seu ânimo, quem realmente consegue assumir tão efetivamente esse duplo papel?). Porém logo se instalaria uma crítica feroz perante tal conceito, a de ceder ou ampliar a bipolaridade do indivíduo. Só que o que poucos percebem é que a bipolaridade não é a oscilação natural de humor presente em todo ser humano, bipolaridade é o excesso, sempre acaba por sabotar determinado evento ou projeto, bipolaridade é o começo entusiasta para o final trágico de derrota, perda ou desilusão, e não a alternância comum de tristeza e alegria. Bipolaridade nada mais é do que uma neurose obsessiva sob efeito de doping (paga-se com a depressão pelo excesso de excitação), até porque hoje se considera constância como símbolo da velhice. Notem que o bipolar em essência reúne diversas tragédias pessoais em seu histórico de vida. Quando digo na saúde não é reter alguém que não necessite mais do tratamento, ou que se encontre um pouco resolvido, mas otimizar a motivação e empenho do paciente para novas fases de desenvolvimento, a análise quase que interminável proposta por FREUD.

Voltemos para a questão do elogio em terapia, assunto que nunca foi debatido profundamente. Quando o mesmo é eficaz? Quando está no tempo certo do campo de consciência do paciente. Vou ilustrar com um exemplo pessoal e que não tenho nenhum pudor de revelar. Jamais em minha infância pensei em ser psicólogo, nunca me passou tal idéia pela cabeça, na adolescência havia uma tia de um amigo meu que estava sofrendo muito em seu casamento, lembro que naturalmente lhe falei que o sofrimento era pela covardia da mesma em não se separar do marido, ela me respondeu que eu daria um ótimo psicólogo. Não foi apenas reforço egóico que me levou a decisão, mas naquele momento achei tremendamente interessante explorar uma potencialidade que tinha, mas que jamais havia enxergado antes de uma estranha me falar, na terapia é o mesmo caso, o paciente tem de achar interessante explorar o elogio desferido pelo terapeuta, caso contrário cai no vazio.

Sempre adorei as idéias do famoso educador PAULO FREIRE, mas nunca concordei com seu conceito de profecia cumpridora, se elogiássemos ou criticássemos um aluno ele seguiria uma das duas correntes; o conceito é ingênuo, pois o elogio implica em responsabilidade, uma futura troca ou corresponder ao papel imputado que muitos não querem ser ou fazer, vários pacientes meus se irritam quando ouvem um elogio de minha parte exatamente por isso, não estão abertos ao retorno ou troca, responsabilidade é isso, pura troca.
E o que diríamos do fenômeno da resistência no setting terapêutico? O que infelizmente a psicologia não percebeu no seu desenvolvimento é que tal fenômeno não diz apenas da trama neurótica em si, mas que a própria neurose brindou o indivíduo com sucesso em alguma área de sua vida, e esta é a chave, descubra onde a pessoa teve êxito, que ao mesmo tempo descobrirá todo o seu mecanismo compensatório de sucesso, mas, com o gosto azedo da amargura, está aí outro sentimento pouco estudado pela psicologia. A amargura não é mera sinônima de infelicidade como muitos pensam, é a necessidade do descontentamento existencial independente de todas as provas de êxito ou prazer que a pessoa teve ou poderia vivenciar. Amargura é economizar a troca de prazer com qualquer semelhante, não é o mau humor, mas simplesmente o congelamento do mesmo, é uma atitude paranóica constante contra a doação ao outro, achando que o companheiro irá usurpar disso ou ridicularizar o sujeito. Amargura é vergonha eterna contra o sentimento torturador de inferioridade e rejeição. Retomando o tema, o que seria mais importante, apontar onde está à neurose, ou a própria relação terapêutica em si? 

Todo o princípio da psicanálise se estabelece na relação transferencial, acreditando que junto ao analista o paciente irá reviver todo o seu drama familiar ou do passado. Embora isso seja correto, devemos tomar muito cuidado, pois como a própria psicanálise nos diz a relação transferencial se torna defesa máxima contra suprimir a doença. O que costumo pontuar é exatamente a defesa paranóica dizendo ao paciente que naquele momento sendo eu ou alguém importante de seu contexto de vida, reage sempre com total desconfiança e falta de uma escuta limpa. Não adianta cair na armadilha de impor uma verdade, o fundamental é que apenas alertemos para o quadro solitário de uma pessoa, justamente pelo descrito. A função da terapia não é fazer amizade com o paciente como obviamente disse acima, mas, ser uma ponte para que o mesmo consiga retomar sua afetividade e fazer amizades fora do setting terapêutico. Nunca foi uma neurose que deu o start para que alguém começasse uma terapia, mas o intenso sentimento de solidão é que move a busca da mesma, pois sente que todos os seus contatos perderam o encanto ou não podem mais ajudar a decifrar o que está acontecendo com o sujeito. A própria terapia deve superar a incrível contradição de ser um espaço totalmente reservado e sigiloso, mas que ao mesmo tempo deve proporcionar mais sociabilidade e diminuição da timidez do paciente. O social contaminado ou mal trabalhado trouxe o indivíduo para a terapia, sendo que o mesmo deve reciclar novamente essa inter-relação entre pessoal e coletivo, sendo assim outra função vital da análise é filtragem, pois as impurezas chegaram a um grau completamente tóxico para a pessoa.

Fala-se tanto que terapia é recuperar a autoestima, amor próprio, encontrar paz interior, lidar de forma mais madura com os conflitos, aceitação da frustração. Para se conseguir tais coisas, o terapeuta deve constantemente inflamar o senso de busca do paciente. Esta é outra questão vital, como motivar, o que é motivar? Poderíamos inferir uma série de elementos dependendo das características do paciente: simpatia do terapeuta, espírito de liderança, serenidade, acolhimento, ser uma espécie de treinador cobrando resultados do paciente, claro que o terapeuta manterá suas características originais, não podendo ser um camaleão perante cada caso, tal atitude soaria cínica, pois talvez um dos únicos poderes de quem esteja sofrendo é escolher o tipo de espelho que possa refletir melhor seus pontos negativos e positivos.
Quando falo de individual e social o faço por fatores etiológicos da neurose. O grande orgasmo de se fazer psicanálise é justamente essa priorização do inconsciente do sujeito, talvez o único espaço da face da terra que se interessou por sua história, e isso é fabuloso. Porém, a questão social é vital para percebermos como a exposição de um ego muitas vezes imaturo, mistura dramas de sociabilização ou rejeição com elementos constitucionais do psiquismo.

A neurose é um épico de duas faces, a nostalgia do passado que nem sempre sabe reconhecer como realmente verdadeiro na categoria do prazer, e a plena dificuldade de lidar com o presente, na medida em que suspeita não poder usar mais as ferramentas antigas, embora inconscientemente o paciente sempre tenta fazê-lo. FREUD em determinado momento pontuou que a função do terapeuta seria uma espécie de arqueólogo, cavando as raízes ou profundezas de um psiquismo que o sujeito perdeu no decorrer do tempo. Transposto para o cotidiano atual, honestamente o que sinto é que algumas vezes sou esse tipo de arqueólogo, mas a ênfase recai muito mais numa espécie de domador de um imaginário inconsciente e consciente que se parece quase sempre como um caldeirão prestes a explosão iminente. O medo e insegurança moderna transformaram totalmente o papel da terapia numa espécie de espaço de contenção da urgência não psiquiátrica propriamente dita, mas do mais puro ódio e revolta quando alguém tem de admitir finalmente que não conseguiu satisfação ou felicidade em seus mecanismos defensivos ou de poder sobre outras pessoas. Infantilização, compulsão, perversão, consumismo são os novos vírus ainda praticamente sem combate na relação terapêutica, e isto se torna assustador quando pensamos nos modelos de ensino nas faculdades na maioria das vezes retrógrados ou agarrados às teses extremamente ultrapassadas do ponto de vista social que estamos vivendo, só espero ter contribuído para o começo de um debate extremamente sério.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Influência da Mídia

Na Universidade do Texas, em Austin, o notável doutor Daniel Buss, desenvolveu um estudo muito interessante a respeito da televisão e dos meios de comunicação de massa.
E nesses estudos, o professor Buss se deu conta de que a televisão tem o condão de modificar os critérios de status e de prestígio no mundo.
Consegue criar ídolos instantaneamente. Transformar pessoas insignificantes em heróis, da noite para o dia.
Ao mesmo tempo a televisão é capaz de derrubar líderes, ídolos com esse mesmo poder de interferir na mentalidade coletiva.
Ao mesmo tempo em que a televisão foi capaz, e vem sendo capaz de produzir essa fenomenologia social, psicossocial, também altera os padrões de vivência psicológica das criaturas. Passa a aumentar a autoestima baixa dos indivíduos porque, cada vez que a criatura vê na telinha um artista, um dos seus ídolos, de determinada maneira vestido, penteado, com o corpo mais ou menos emagrecido, esculturado, malhado, sarado, o telespectador vai se sentindo humilhado por aquele estado de coisas. Ele vai sentindo necessidade de se igualar, de se equiparar ao seu ídolo.
Por causa disso nós vemos que, se numa telenovela, por exemplo, um personagem aparecer vestido de determinada forma, o comércio impõe às massas usar aquela mesma vestimenta.
Determinada joia, corte de cabelo, penteado e lá está a população perfeitamente entrosada com seus ídolos. E a televisão então vai moldando os caracteres dos indivíduos, que nela encontram as suas referências, seu norte, seu prumo.
Por causa disso é que vale a pena cada vez que estejamos pensando, falando na questão televisiva, tomarmos cuidado com a influência que ela esteja desempenhando sobre nossas vidas. Exatamente porque os meios de comunicação visuais que nós conhecemos têm esse poder de mexer na criatura. O índice de insatisfações vai se ampliando.
Cada vez que eu vejo, na televisão, alguma coisa que eu ainda não sou, que eu ainda não tenho, que eu ainda não adquiri, advém-me um desejo muito grande de ter, de ser daquela forma, de fazer daquele modo.
Desde as nossas crianças. Vemo-las dançando como seus ídolos da telinha, jovens desejosos de cantar, de bailar, de fazer as mímicas, as interpretações, em consonância com os seus ídolos. Cada qual vai perdendo a referência de si mesmo e tomando para si a referência do outro.
Naturalmente que para a sociedade, para o desenvolvimento do indivíduo, isso é pernicioso porque nem todos os exemplos, nem todos os padrões que nos são apresentados pelos meios de comunicação visual, são salutares, são saudáveis.
Quantas vezes encontramos artistas falando verdadeiros impropérios contra a honra familiar, ao narrar seus casos pessoais, quase sempre indevidos. E vemos que há uma leva de criaturas que passa a copiá-los. Logo, há que se ter cuidado com esse poder influenciador da televisão.
Mas, quais são as pessoas que a TV consegue influenciar com essa força?
Não são os indivíduos bem educados emocional, moralmente, eticamente. Quase sempre, faz parte esse contingente da leva da Humanidade que não tem outras referências ou não fixou outros valores que não tenham sido esses apresentados pela televisão.
*   *   *
Conforme os estudos do professor Daniel Buss, a televisão e as mídias visuais impõem uma maior importância à aparência física.
Ninguém pode se apresentar diante das câmeras sem que tenha uma boa aparência e, naturalmente, isso mobiliza mil e uma providências, a aparência fisionômica. E surgem as necessidades plásticas, as cirurgias plásticas, os implantes, tudo isso para melhorar a aparência.
Os cabelos, os cortes, as tinturas, as vestimentas, as roupas, a própria expressão do corpo físico... O indivíduo tem que ser magro para fazer sucesso. Ou o indivíduo tem que ser gordo para fazer sucesso. Ele não pode ser como queira, ele tem que obedecer a um padrão de sucesso.
Encontramos, ao lado disto, a diminuição do bem estar psicológico, diz o professor Daniel Buss. E essa diminuição da satisfação psicológica se deve a isso que já cogitamos. Cada coisa que eu vejo que está melhor do que eu, eu a desejo. Cada situação que o artista está vivendo e que eu nunca vivi, eu almejo.
Desse modo vão surgindo as possibilidades de nos enfararmos um com o outro, no caso dos casais. Aquele modelo da telinha, homem ou mulher, começa a falar profundamente à desarmonia que já trazemos na nossa intimidade.
Então queremos encontrar uma pessoa com aquele padrão, conforme aquele ator, aquela atriz, aquele cantor, aquela cantora, aquele atleta. E a nossa infelicidade vai crescendo, tudo porque assistimos à programação televisiva sem o devido ajustamento interior.
Não conseguimos essa educação que nos diz que o valor não é uma coisa que trazemos de fora. O valor é uma construção que fazemos por dentro.
Não importa se, na mídia televisiva, um artista se vista assim ou assado, eu vou me vestir como eu possa.
Não me importa se o galã seja magro ou seja gordo. Eu vou ter o corpo que eu devo ter, que eu preciso ter ou que eu posso ter.
Não nos deve impressionar se aquele artista, aquele astro tenha olhos azuis, verdes, amarelos para que eu me desespere para conseguir uma lente de contato da mesma cromação.
Tudo isso vai fazendo com que passemos a viver para fora de nós, passemos a ver a nossa vida como alguma coisa exterior e não como uma realidade íntima.
É feliz na Terra, não quem está na televisão, não quem aparece na telinha, mas quem consegue viver no mundo as Leis da vida, as Leis de Deus, onde quer que se encontre.
É válido que admiremos a beleza plástica desse ator, dessa atriz, desse cantor, desse bailarino, desse ídolo. É válido. As coisas bonitas são bonitas porque são bonitas.
No entanto, essa educação que vamos impondo a nós próprios, vai fazendo com que vejamos que tudo aquilo não passa de uma grande fantasia. Não conhecemos a vida real desses indivíduos que, à frente das câmeras, são personagens. A realidade do indivíduo que eles são nós desconhecemos totalmente.
Por isto, vale a pena pensarmos em quem é que faz a televisão, quem é que organiza a sua programação, quem é que estrutura seus plantéis de astros e estrelas, homens e mulheres atormentados no mundo como quaisquer outros, com suas deficiências morais, com suas grandezas morais, com suas facilidades emocionais, com suas dificuldades emocionais, com suas carências afetivas, com seu orgulho, sua vaidade. Certamente que esse veículo, tão importante como é a televisão, vai sofrendo os mareios ou vai recebendo as virtudes daqueles que estão por trás da máquina que faz tudo isso acontecer.
É um grande teatro. Mas nós todos proviemos do grande Além para a Terra com um compromisso, não de seguir os passos dos modelos humanos, mas os Bons Espíritos estabelecem que o maior Espírito, que Deus deu ao mundo, para servir de Modelo e de Guia, é o Homem de Nazaré.

Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 199, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sofrimentos e Resignação

Temos que admitir que na Terra todos sofremos. Sim, todos sofremos na Terra.
Este é um planeta de provações e de expiações. Isso não é bom, nem é ruim, é a condição evolutiva do planeta.
Desde os mundos primitivos destinados às primeiras existências humanas até os mundos divinos, celestes, conforme a classificação dos Espíritos, encontramos os mundos de provas e expiações.
Afirmam os Guias da Humanidade que, nos mundos de provas e expiações predomina o mal. O bem ainda se elabora, mas predomina o mal.
Se nesses mundos predomina o mal, todos aqueles que neles vivemos, estamos, de certa maneira, sujeitos ao mal desse mundo.
É muitíssimo importante pensar nessa questão. Cada vez que olhamos a nossa volta encontramos sofrimentos de todos os níveis.
Sofrimentos na área social. Há indivíduos que nascem, que vivem em estado de tamanha pobreza, de miséria sociologicamente ditos, abaixo da linha da pobreza, economicamente também entendidos assim.
E ficamos a nos perguntar: Como é que no mundo onde se põe fora, onde se exorbita, onde há lixo rico, nas grandes cidades, pode existir tanta fome?
Encontramos criaturas que, desde que nascem são marcadas por enfermidades soezes, indivíduos que são autistas, hidrocéfalos, microcéfalos, macrocéfalos, cegos, surdos-mudos, criaturas que nascem com lesões intransponíveis como os anencéfalos, os descerebrados; crianças que nascem com parte do tronco cerebral apenas e, por isso, a vida orgânica não pode avançar.
Olhamos para outro lado deste mesmo mundo e achamos criaturas que nascem em berço de ouro, ricas, de famílias poderosas, mas elas próprias marcadas por insidiosas paralisias, lesões cerebrais, com esquizofrenias, tormentas no campo psicológico, no campo psiquiátrico.
Então ficamos a pensar: Que mundo é este? Um mundo de provas e expiações.
Desta maneira, temos dois caminhos: ou entendermos por que é que vivemos neste mundo e por que este mundo tem essas características ou desarvorarmo-nos ou nos perdermos na revolta.
Este segundo caminho é completamente inábil. Não nos serve, não nos levará a lugar algum que não seja o enlouquecimento maior. Resta-nos a primeira possibilidade: tratar de compreender porque nesse mundo se sofre tanto.
Ora, na medida que entendemos que esse é um mundo de provações e de expiações fica claro porque todos sofremos, de uma maneira ou de outra.
Não existe uma só criatura que não tenha as suas lesões. Pessoas bonitas, bem postas mas, quando conversamos com elas, são dadas a enxaquecas, têm problemas de coluna, têm crises hepáticas, carregam mil e um problemas que o rosto não mostra.
Ficamos a pensar nas condições deste mundo. Se é um mundo onde o mal ainda predomina, nós que estamos aqui ainda carregamos muitas marcas desse mal que na Terra predomina.
Por que carregamos essas marcas? Porque proviemos de outras existências onde essas coisas foram realizadas e Cristo afirmou que não sairíamos daqui até pagarmos o último quadrante, a última moeda, para usar uma linguagem figurada do mundo.
Por causa disso, vale a pena pensar numa saída para toda essa gama de sofrimentos, de males, que encontramos ao longo do nosso planeta.
Fugir deles? Impossível. Para onde quer que vamos, lá estará o problema, a dificuldade, o acicate da Lei Divina, as Leis naturais funcionando.
E cada qual de nós precisará se acostumar com essas ocorrências do planeta Terra, a driblar esse mal que exacerba no nosso mundo e procurarmos, ao longo dos dias, trabalhar para que a Terra seja mais feliz do que é hoje.
*   *   *
Quando pensamos nessa gama de sofrimentos do nosso planeta, muitas vezes ficamos a nos perguntar a respeito do sofrimento dos bichos, dos animais. Por que é que eles sofrem?
Chegamos a compreender porque é que nós, seres humanos, sofremos. Nossos erros, nossos delitos, egoísmo, orgulho, etc.
Mas e os bichos? Os bichos não erram, eles não cometem erros. Os animais seguem a Lei do determinismo e, dentro da Lei do determinismo, eles não erram nunca.
Jamais uma serpente dá o bote em alguém porque não gostou do rosto, porque não simpatizou com a pessoa. Ela dá o bote para se defender, porque se sente acuada. Assim fazem todos os demais animais com as suas defesas.
Quando pensamos no sofrimento dos animais temos que perceber que, cada ser que sofre neste mundo, tem um objetivo determinado pela Lei Divina.
Os bichos sofrem não para resgatar os erros cometidos. É para despertar-lhes os centros psíquicos.
Os animais são princípios espirituais, são Espíritos em evolução e, certamente, precisam da dor, do sofrimento para se acostumarem a buscar no planeta os recursos salvadores.
Jamais a Humanidade soube existir veterinários, nas florestas. No entanto, os animais sofriam e buscavam recursos na floresta. Sofrem e buscam recursos na floresta.
Naturalmente que tudo isso se deveu a esse processo evolutivo. A dor, nos irracionais, não tem o mesmo objetivo que a dor no ser humano.
No ser humano, a dor nos fustiga o lado moral para que a gente aprenda a perdoar, a ser humilde, a baixar a crista do orgulho. Mas, nos irracionais não, a dor tem outro sentido. É de fazê-los crescer, fazê-los progredir.
Olhamos o nosso gato em casa, o nosso cão e, de repente, eles vão comer grama, comem capim. A gente não sabia o que eles estavam sentindo. Põem para fora, regurgitam e ficam sãos.
Quem foi que ensinou a esses animais a buscar em a natureza vegetal o remédio para seus problemas?
Assim se passa com as aves, com as feras, na intimidade da floresta e, naturalmente, temos que convir que há um caminho importantíssimo a trilharmos, que é o da compreensão.
Na medida em que sabemos disso, encaramos melhor as dores do mundo, as dores da Terra, com uma virtude que se chama resignação.
A resignação, de maneira alguma, será acomodação. Não temos que cruzar os braços porque sofremos ou diante das dores e deixar que Deus resolva.
Se estamos desempregados, temos que correr atrás do trabalho. Se estamos enfermos, temos que buscar a medicina, a medicação, o tratamento. Se temos qualquer problema neste mundo, neste mundo teremos que resolvê-lo.
Mas a resignação não é sinônimo de acomodação, vale repetir, a resignação é o olhar que temos para esses fenômenos, é a maneira como vemos esses fenômenos.
Se não fosse a resignação, entraríamos na rota do desespero, entraríamos no circuito da desolação porque, quando não compreendemos porque sofremos, sofremos duas vezes.
A primeira vez pelo sofrimento em si, a segunda vez pela ignorância a respeito dele.
Por isso, é a Doutrina dos Espíritos que tem, no seu contexto e nos seus textos, essas explicações, esses recursos para nos fazer pensar na razão pela qual os seres humanos sofremos e por qual razão os irracionais sofrem na Terra.
Vale a pena pensar que os animais sofrem por um sentido: para despertar-lhes a vida psíquica, acordamento dos seus valores psíquicos enquanto o ser humano sofre para resgatar seus débitos e realizar aprendizagens no campo moral.
Daí começarmos a perceber como é importante essa virtude da resignação.
O Evangelho segundo o Espiritismo, a terceira obra da Codificação da Doutrina Espírita, feita por Allan Kardec nos explica que, enquanto a obediência corresponde ao consentimento do raciocínio, da razão, a resignação corresponde ao consentimento do coração. É o nosso sentimento que nos dá ensejo à resignação.
Ser resignado não é ser paralisado, estagnado, acomodado, inerme, inerte. Resignado é ter o entendimento da razão das coisas, o que não nos impede de sofrer, nem de chorar, mas que nos dá a alegria de saber que estamos dando conta do nosso recado no mundo.
Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 172, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Velório e Cremação

Costumam ser momentos de muita dor, de muito confrangimento, de muita tristeza aquele quando temos que velar os corpos dos nossos seres queridos. 
Corpos de amigos nossos ou daqueles que, sendo vinculados a amigos nossos, nos achamos no dever moral de compartilhar-lhes o sofrimento, a saudade e comparecemos para as nossas condolências, nosso abraço de fraternidade, nossas palavras de carinho, de conforto.
É muito comum que, nessas ocasiões, percamos o tino relativamente ao que dizer, ao que falar.
Não temos o que falar num momento como esse. A criatura fez a sua grande viagem e estamos diante do corpo que não lhe servirá mais.
Quase sempre as pessoas choram sobre o corpo, como se o corpo fosse o seu ente querido.
Quase sempre as pessoas dizem que vão enterrar seu pai, sua mãe, seu filho, seu amigo. Isso porque admitem que o corpo seja seu pai, sua mãe, seu amigo.
Na linguagem cotidiana, na linguagem coloquial ainda encontramos as pessoas que dizem: a cova de minha mãe, a urna de meu pai, de meu filho, de meu amigo.
Verificamos com isso que, de fato, ainda se alimenta a ideia de que o nosso ser querido é aquele corpo; que o nosso ser querido seja aquele resto mortal que jaz sob a lápide ou sobre a mesa mortuária. Não é bem assim.
Ali estão no esquife, na urna, no caixão, os corpos que serviram aos nossos seres queridos.
Estamos ali para prestar homenagens a esses despojos que representam, à nossa visão, aqueles aos quais amamos.
Minha mãe não está mais naquele corpo. Meu pai, meu filho, meu irmão, meu amigo não se acham naquele corpo que está diante de nossa observação.
Ali se acha a gaiola vazia de onde a ave luminosa já se ergueu, já se libertou, já se foi.
Por causa disso, há que se pensar em alguns cuidados durante os velórios, durante essas ocorrências nas quais estamos prestando homenagens póstumas aos nossos entes queridos, familiares ou amigos, que já demandaram a vida além do corpo.
Para muita gente, os velórios são ocasiões para encontrar amigos. Aqueles amigos que a gente não encontra nunca, não veja mais. Todos encontramos nos velórios.
Para outros, é ocasião de se ver a família porque vem gente de todo lugar, de longes terras, para prestar a derradeira homenagem ao ser querido trespassado.
Para muita gente é ocasião de contar as piadas, as últimas.
Mas, para muitos outros, aquele é um local de desdita, de sofrimentos atrozes, de amarguras mortais.
Há indivíduos que rogam, naquele momento de desespero, ao seu falecido, que os levem junto, que eles não vão suportar a dor da saudade e, quase nunca, essas pessoas se dão conta de que o morto não está morto.
Estamos prestando culto ao corpo que, um dia, ele utilizou. No entanto, o nosso ser querido está vivo, de pé, muitas vezes acompanhando todo o processamento do velório e, por causa disso, ouvindo e vendo o que falamos, o que fazemos, registrando em si o psiquismo ambiente, aquelas criaturas que zombam, que riem, que contam piadas, muitas delas despropositadas pelo momento, aquelas pessoas que falam mal do falecido como registram as ondas de sofrimento e de desolação de muitos familiares, de muitos amigos.
Há de se ter maior cautela, um pouco mais de cuidado fraterno quando se esteja participando de um velório porque o morto suposto não está morto, segue de pé.
*   *   *
Entendendo-se que o nosso ente querido, que o falecido não desapareceu, não está morto de fato, que está apenas desencarnado, fora do corpo, sem ter mais acesso a ele, caberia a todos aqueles que vamos ao velório ter uma atitude de respeito para com o falecido, para com os seus familiares.
Se tivermos que conversar, que as nossas conversas girem em torno de assuntos leves, que possam auxiliar o ambiente e a criatura desencarnada que nada obstante possa estar lúcida, naquele momento, está sofrida, muitas vezes angustiada, ao registrar a angústia geral.
É muito comum que os seres espirituais desprendidos do corpo registrem a ambiência e sofram com o sofrimento das pessoas e se rebelem, se revoltem contra aqueles que estejam usando aquele ambiente, aquele espaço, aqueles momentos para contar suas piadas, fazer suas troças ou coisas indevidas, num momento como esse.
É tão sério o momento do passamento, da desencarnação quanto o é o do nascimento.
Daí se torna necessário que criemos um clima de afetividade, de carinho, em torno daquele ser que está viajando de volta para o grande lar, tanto quanto  criamos o ambiente de carinho, de boa recepção àqueles seres que chegaram um dia a nossa convivência, os nossos filhos ou os filhos da nossa família como um todo.
Quando pensamos no velório, na condição do desencarnado, que pode estar feliz por ter se libertado do corpo enfermo, deficiente, mazeloso ou que pode estar deprimido pela depressão da família ou que pode estar raivoso pela forma como tenha saído do corpo, cabe-nos fazer o contraponto. Ao nos aproximarmos da urna, do corpo, ou no cantinho onde nos posicionemos, emitir pensamentos salutares, pensamentos de carinho, pedindo a Deus que abençoe essa criatura, recentemente desenfaixada do corpo, onde quer que ela esteja.
Então, surge a questão do sepultamento, da inumação. Para muita gente, o melhor é a sepultura tradicional, os chamados sete palmos. Para outros, melhor a cremação.
Há pessoas que pedem testamentariamente que seu corpo, depois da morte, seja cremado e a família obedece, cumpre o ritual. Era o último pedido da pessoa.
E vale a pena verificarmos que a cremação deveria ser feita um pouco de tempo depois, se esperar um pouco mais de tempo, para que o Espírito desencarnado tivesse tempo de se aclimatar, de se acostumar a esse estado de desprendimento definitivo e não sofresse tanto com o processo crematório.
É muito comum que vinte e quatro horas depois a criatura desencarnada ainda esteja muito ligada mentalmente ao corpo que acabou de deixar.
É como se tirássemos uma roupa pesada que usamos durante muito tempo e, durante algum tempo, persistíssemos com a sensação de que ainda a carregamos sobre o corpo.
Imaginemos viver o tempo que vivemos no corpo físico... Ficamos com a sensação de que carregamos o corpo conosco.
A cremação é uma medida higiênica, por excelência, facilitará muito no futuro a vida das comunidades, nada obstante, propõem os amigos espirituais que se poderia esperar setenta e duas horas, para evitar qualquer choque, qualquer traumatismo sobre o Espírito desencarnado com a reverberação da cremação sobre o seu corpo.
O mesmo raciocínio poderíamos usar para o sepultamento tradicional. O Espírito que se acha ligado ao corpo, mentalmente falando, psiquicamente falando, ele se sente sufocar quando o ataúde é fechado e o corpo baixa a sepultura.
Quando dispõe de méritos espirituais, os Benfeitores o libertam antes dessa cena, mas a massa de nós todos, a média dos Espíritos da Terra não têm esse mérito e, por isso, costuma sofrer situações desagradáveis.
Nos velórios, respeito. Na cremação - um uso importantíssimo, que precisaria apenas ser regulamentado de maneira diferente.
      Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 180, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Afastando Os Maus Espíritos


MATEUS 23
23:1 Então, falou Jesus às multidões e aos seus discípulos:
23:2 Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus.
23:3 Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem.
23:4 Atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.
23:5 Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas.
23:6 Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas,
23:7 as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens.
23:8 Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos.
23:9 A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus.
23:10 Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo.
23:11 Mas o maior dentre vós será vosso servo.
23:12 Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado.
23:13 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!
23:14 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque devorais as casas das viúvas e, para o justificar, fazeis longas orações; por isso, sofrereis juízo muito mais severo!
23:15 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!
23:16 Ai de vós, guias cegos, que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas, se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou!
23:17 Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro ou o santuário que santifica o ouro?
23:18 E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é nada; quem, porém, jurar pela oferta que está sobre o altar fica obrigado pelo que jurou.
23:19 Cegos! Pois qual é maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta?
23:20 Portanto, quem jurar pelo altar jura por ele e por tudo o que sobre ele está.
23:21 Quem jurar pelo santuário jura por ele e por aquele que nele habita;
23:22 e quem jurar pelo céu jura pelo trono de Deus e por aquele que no trono está sentado.
23:23 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!
23:24 Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!
23:25 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança!
23:26 Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!
23:27 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!
23:28 Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade.
23:29 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque edificais os sepulcros dos profetas, adornais os túmulos dos justos
23:30 e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas!
23:31 Assim, contra vós mesmos, testificais que sois filhos dos que mataram os profetas.
23:32 Enchei vós, pois, a medida de vossos pais.
23:33 Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?
23:34 Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade;
23:35 para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar.
23:36 Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre a presente geração.
23:37 Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!
23:38 Eis que a vossa casa vos ficará deserta.
23:39 Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor!

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Transtornos Somatoformes

Transtornos Somatoformes:
A essência desses transtornos é o sintoma físico sem base médica constatável, persistência nas queixas, apesar de repetidos achados negativos e de reasseguramentos pelos médicos de que elas não têm fundamento clínico. Pode acontecer também da pessoa ter uma doença física fundamentada, mas com queixas exageradas que não justificam o problema que têm. Esses casos com certeza são mais complicados e confundem os médicos. Observa-se também uma forte recusa por parte do paciente de admitir que seu problema seja psicológico, mesmo quando há um evento estressante na sua vida. Estes pacientes tendem a trocar de médico constantemente, possuem intermináveis listas de exames e medicações; suas histórias são tão longas quanto complicadas. Transtornos de personalidade podem estar associados.
Somatização se refere a uma ou várias queixas físicas, que uma investigação adequada não revele existência de patologia orgânica ou mecanismo patofisiológico que expliquem a intensidade da queixa física. Geralmente é considerada resultado como resposta a um extremo sofrimento psicológico. A presença de somatizações não exclui o diagnóstico de outras doenças psiquiátricas, ocorrendo frequentemente em comorbidade (simultaneamente) com estes. Pacientes com transtornos psiquiátricos como depressão, transtorno de ansiedade ou algum transtorno de personalidade descrevem sintomas físicos além dos usados para diagnóstico do transtorno em 72% dos casos.
Transtorno de Somatização:
Esse transtorno caracteriza-se por múltiplas, recorrentes, freqüentes, mutáveis e prolongadas queixas de sintomas físicos sem uma base médica constatável. A principal diferença entre esse transtorno e a hipocondria é a atitude do paciente. Na hipocondria o paciente revela uma intensa preocupação e sofrimento com algum problema sério; na somatização o paciente queixa-se de seus sintomas, mas não possui a mesma crença e temor do hipocondríaco. Antes dos pacientes com somatizações procurarem um psiquiatra eles passam anos mudando de clínicos, procurando diversos médicos e fazendo vários exames. Qualquer área do corpo pode estar afetada, mas as queixas mais comuns estão centralizadas no tubo digestivo com dores, eructações, regurgitações, vômitos e náuseas; queixas dermatológicas e sexuais. Como o paciente recusa-se a aceitar que nenhuma disfunção foi descoberta pelos exames e consultas, acaba tendo desavenças com as pessoas próximas. Esse distúrbio começa geralmente antes dos 30 anos de idade e é muito mais comum em mulheres. Freqüentemente outros distúrbios psiquiátricos estão associados como depressão e ansiedade. Uma das consequências são as indisposições de ânimo geradas em quem está próximo, pois com o tempo se cansam de tanto ouvirem as mesmas queixas.
O começo de qualquer queixa não pode ser ignorado porque essas pessoas, como quaisquer outras, podem vir a ter problemas físicos potencialmente graves. É de nossa experiência um caso semelhante: felizmente a doença foi detectada a tempo (tratava-se de um câncer benigno) e a paciente operada com sucesso. Contudo ficou por mais de dez anos tendo sintomas correlatos à queixa inicial sem que nada houvesse clinicamente.
Caracteristicas: 
Somatização, segundo sua definição contemporânea, criada por Zbigniew Lipowski (1924-1997), é "uma tendência para experimentar e comunicar desconforto somático e sintomas que não podem ser explicados pelos achados patológicos, atribuí-los a doenças físicas e procurar ajuda médica para eles". É um diagnóstico que deve ser feito por exclusão de outras causas, que deve ser usado com cautela por ser muito difícil garantir que não há outras causas. É uma causa bastante frequente em serviços de atenção primária, onde pelo menos um sintoma somatizado aparece em 16% a 50% das entrevistas iniciais (anamnese).
Quando não identificados, os pacientes com transtornos somatizantes costumam demandar uma grande quantidade de consultas médicas e exames, gerando altos custos para o sistema de saúde que apenas aumentam seu sofrimento, ansiedade e frustrações.
Acredita-se que fatores psicológicos e psicossociais desempenham um papel importante na etiologia dessa condição. Em pacientes com transtornos de somatização, o sofrimento emocional ou as situações de vida difíceis são experimentados como sintomas físicos. Quando se diagnostica uma causa psicológica passa a ser chamado de psicossomatização.
Negligenciar a importância desses sintomas pode provocar revolta, descrédito, sentimento de rejeição e aumentar ainda mais os sintomas e a angústia do paciente. O paciente frequentemente considera que o médico é incompetente, inexperiente ou desinteressado e procurar outro profissional aumentando assim os custos para a rede de saúde pública ou para o próprio paciente com exames desnecessários.

Origem do termo

O termo foi gerado pela tradução cientificista em inglês do termo alemão Organsprache ("fala dos órgãos"), originalmente criado por Wilhelm Stekel (1868-1940) no início do Século XX, e que podia representar tanto a manifestação física com lesões orgânicas quanto sintomas físicos sem explicação médica, desde que gerados por conflitos psicológicos inconscientes. Frequentemente a palavra somatização é utilizada dentro desta definição por diversas disciplinas da psicologia, sociologia e antropologia.
No final do século XX, a definição de somatização, na Psiquiatria, voltou-se principalmente para sintomas físicos inexplicáveis, abandonando o conceito de doenças físicas de origem psíquica (as chamadas doenças psicossomáticas). O termo vem sendo recentemente contestado por exigir explicitamente uma origem psicossocial. Embora, em geral, causas desta natureza estejam presentes diante de queixas inexplicáveis, há uma minoria de casos onde estas não podem ser evidenciadas. Assim, existe uma tendência recente na literatura internacional sobre o assunto em usar o termo sintomas físicos sem explicação médica (SEM) ou idiopático.

Diante de eventos psicologicamente traumáticos (como casamento, divórcio, demissão, sequestro, traição, hospitalização ou morte de pessoa querida...) é comum que um ou mais dos seguintes sintomas sejam somatizados:
  • Dor difusa por todo o corpo
  • Dor de cabeça
  • Dor no peito, braços, pernas, costas e/ou articulações.
  • Dificuldade para respirar
  • Hipersensibilidade
  • Desmaios
  • Náusea/Mal estar
  • Vômito
  • Fadiga (Cansaço excessivo)
  • Manchas na pele
  • Tonturas
  • Batimentos cardíacos acelerados (Taquicardia)
  • Fraqueza muscular
  • Perda do apetite por longos períodos
  • Sangramento menstrual excessivo
  • Desinteresse sexual
Em pacientes mais sensíveis, como histriônicos, podem ocorrer sintomas como:
  • Amnésia
  • Alucinação
  • Perda de voz
  • Surdez
  • Visão dupla ou borrada
  • Cegueira
  • Dificuldade para caminhar

Classificações

O CID-10 inclui 7 possíveis diagnósticos a pacientes que apresentem frequentes somatizações:
  • Transtorno de somatização
  • Transtorno somatoforme indiferenciado
  • Transtorno hipocondríaco
  • Disfunção autonômica somatoforme
  • Transtorno doloroso somatoforme persistente
  • Outros transtornos somatoformes e
  • Transtorno somatoforme não especificado

Tratamento

Encaminhar para consulta psiquiátrica pode ser útil para avaliar prováveis comorbidades que também podem ser desencadeadas pelos eventos estressantes (como depressão ou algum transtorno ansioso) e para recomendações relativas ao tratamento medicamentoso como anti-depressivos. A terapia cognitivo-comportamental pode ajudar o paciente a desenvolver estratégias mais eficazes e saudáveis para lidar com os eventos estressantes e ajudar a superar os traumas causados por eventos anteriores.
Cabem aos profissionais de saúde validarem e compreenderem a gravidade do sofrimento psicológico e fazerem exames físicos regulares para analisar a progressão dos sintomas inclusive para se certificarem da ausência de outras causas possíveis. Remédios como suplementos vitamínicos, ansiolíticos, analgésicos e pomadas cicatrizantes podem ser benéficos dependendo dos sintomas. O tratamento pode ser considerado bem-sucedido quando melhora a qualidade de vida do paciente e reduz os custos com exames e internações mesmo que os sintomas não desapareçam.
Hipocondria
É a crença persistente na presença de pelo menos uma doença física grave, progressiva, com sintomas determinados, ainda que os exames laboratoriais e consultas com vários médicos assegurem que nada exista. Muitas pessoas quando passam por uma doença grave e se restabelecem ficam sensibilizadas com o que aconteceu, preocupando-se demais. Contudo, nesses casos, se uma consulta ou novo exame descartarem o recrudescimento da doença e o paciente tranquilizar-se, não havia hipocondria.
Os hipocondríacos normalmente sentem-se injustiçados e incompreendidos pelos médicos e parentes que não acreditam em suas queixas: eles levam seus argumentos a sério e irritam-se com o descaso. Por outro lado resistem em ir ao psiquiatra sentindo-se até ofendidos com tal sugestão, quando não há suficiente diálogo com o clínico. Os hipocondríacos podem ser enfadonhos por repetirem constantemente suas queixas, além de serem prolixos nas suas explicações.
Não se conhece medicação específica para hipocondria, mas acredita-se que psicoterapia pode ajudar quando iniciada com até três anos da sintomatologia instalada. Há muito poucas pesquisas na literatura psiquiátrica porque estes pacientes se recusam a participar dos trabalhos científicos, visto que não se consideram psiquiatricamente doentes. Pela mesma razão não se sabe ao certo que percentagem da população é atingida por esse problema, nem o perfil caracterológico dessas pessoas.
É necessário que um psiquiatra converse com o paciente hipocondríaco para investigar a possível concomitância com outros transtornos de ansiedade como o pânico ou a depressão que podem levar a hipocondria. Há também casos de psicoses com alucinações ou delírios corporais.
Transtorno Doloroso Persistente
A queixa predominante é de dor persistente, grave e angustiante, a qual não pode ser plenamente explicada por nenhum processo fisiológico ou por um transtorno físico. Geralmente existe um fator psicológico associado. Depois de descartada a possibilidade de uma causa física, a investigação das circunstâncias de vida da pessoa pode revelar ganhos que o paciente obtém com a queixa persistente de dor. Ao se fazer este diagnóstico os familiares não devem tomar uma postura de indiferença ou desprezo pelo paciente: isso só faz piorar as coisas. Também não se deve submeter aos exageros do paciente, nem às tentativas de manipulação por sua dor. O transtorno doloroso não é uma invenção, existe, não como uma origem inflamatória, mas por algum mecanismo ainda pouco conhecido que opera na mente destas pessoas. Deve-se, portanto viver a solidariedade distante, ou seja, estar do lado do paciente sempre, mas sabendo que ele pode usar de suas queixas para obter ganhos e manipular quem está próximo. Esta atitude não é simples de entender nem de exercer, mas é o melhor que se pode fazer além do suporte psicoterapêutico.
Fontes: Psicosite e Wikipédia