Pages

Translate

English French German Spain Italian Dutch Russian Japanese Korean Arabic Chinese Simplified

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Paixão

 Paixão: Satisfação Plena ou Sofrimento (Análise Psicológica)
"Se descobrimos que nosso parceiro é muito diferente de nós, desenvolvemos mágoa, revolta e frustração pela expectativa não realizada; porém se sentimos que o mesmo é exatamente nossa cópia, desenvolvemos o medo ou bloqueio para não lidarmos com o nosso próprio sofrimento, fugindo do pleno autoconhecimento".-ALFRED ADLER-PSICÓLOGO.

"O amor não é algo oriundo de um romantismo ingênuo e pueril, mas é principalmente um entretenimento que o ser humano precisa desenvolver para aliviar seu pavor em relação à morte".-ANTONIO CARLOS -PSICÓLOGO. 
Qualquer ser humano da face da terra ao menos uma vez experenciou o fenômeno de se sentir apaixonado por alguém e toda a conseqüência de dito sentimento. Muitas vezes Aquilo que começa como o prazer máximo de nosso espírito se transforma no mais terrível sofrimento, como se fosse uma espécie de droga que se consome, e após um tempo sentimos os efeitos colaterais. Sem dúvida o processo de ambas as coisas é o mesmo, pois o ser humano em vista do terrível caos que enfrenta diariamente, necessita de experiências culminantes que amenizem sua cruel realidade. Este fato passa desapercebido quando se fala de sentimentos, pois os mesmos também carregam elementos ilusórios e até alucinógenos para a percepção do indivíduo. Obviamente não desejo aqui comparar paixão ou amor a uma droga, mas sobretudo esclarecer que um dos maiores focos de doença psíquica e comportamental de nossa era reside na questão do "prazer", ao contrário do que muitos pensam. Nenhum outro elemento da vida humana é tão sistematicamente interditado ou sabotado do que a plena satisfação pessoal de alguém.
O prazer como qualquer outra coisa traz embutido perigos e ameaças de toda a ordem. Talvez a principal seja a definição de nosso futuro. Digo isto, pois qualquer um que observar atentamente logo perceberá que uma paixão tem o poder de definir todo o futuro de nossa afetividade, seja na adolescência ou outra etapa de nossa vida. A não correspondência de determinado sentimento já é a porta certa para um futuro de timidez ou bloqueio afetivo, seja o mesmo oriundo de ligações familiares ou amorosas. Toda escola de psicologia sabe que o "trauma" é o elemento determinante do futuro pessoal e social de determinada pessoa. O problema é que poucos conseguem traçar os caminhos que o mesmo percorre, prejudicando desta forma a prevenção de vários conflitos psíquicos. Se somos resultados de experiências passadas, principalmente as de natureza traumática, então pelo raciocínio lógico quando uma criança está preste a se deparar com algum conflito insolúvel, naquele exato momento se fechou algumas possibilidades futuras de seu destino.
O psicólogo contemporâneo de FREUD, ALFRED ADLER acreditava principalmente que a futura profissão de uma pessoa era definida logo nos primeiros anos de vida, dependendo do tipo de estímulo ou trauma que sofrera. Chamou este processo de compensação, pois a criança escolheria algo para tentar reparar a perda. Ele mesmo declarava ter se tornado médico ao presenciar o falecimento do irmão na sua infância.
Em suas consultas ADLER estimulava o paciente a tentar lembrar de suas primeiras recordações de infância, pois as mesmas dariam a trilha psíquica que o paciente desenvolveu a partir de determinado evento.
Lembro-me de que em certa ocasião numa dinâmica de grupo com outros psicólogos, um deles relatou que uma de suas lembranças mais remotas era de "sair durante a sessão de um filme para ir até o banheiro do cinema, onde por algum tempo ficou olhando as fezes no sanitário". Esta recordação é extremamente interessante, pois se fôssemos seguir a abordagem psicanalítica as fezes teriam uma representação daquilo que FREUD chamava de angústia da castração, ou seja, a criança na disputa do afeto dos pais sentir-se-ia desamparada e ameaçada, dada à desigualdade em relação aos genitores. Temeria então perder seu pênis, órgão extremamente valorizado pela criança, pois já tem uma idéia inconsciente de que é graças ao mesmo que ela foi concebida, e a menina que possui uma vagina foi castigada pela ausência do pênis exatamente por tentar competir com os pais. Toda esta elaboração psíquica e sexual complicada seria desviada para a compulsão de ver as fezes como forma de iludir seu terrível medo subjacente.
ADLER sempre defendeu a tese de que os conflitos sexuais descobertos por FREUD, eram um anteparo que a criança construía evitando a consciência do verdadeiro conflito, no caso sempre de ordem moral ou social, pois sabemos como nossa cultura dissimula a verdadeira natureza humana. Assim sendo, não seria difícil analisarmos que a recordação infantil acima citada encerraria o desejo da criança de ver o lado oculto das pessoas, simbolizado por fezes ou o próprio banheiro, que não deixa de ser um lugar de privacidade. Ficou claro na discussão posterior que desde a infância a pessoa citada sempre nutriu desejo de adentrar a privacidade dos outros, vendo inclusive seus segredos mais sórdidos. Não fica difícil perceber o porque da escolha da profissão de psicólogo.
A exposição teórica acima citada é importante para entendermos a questão da paixão e sentimentos, pois temos de refletir de que quando nos apaixonamos por alguém, também estamos depositando na pessoa toda a nossa anterior história afetiva, sendo que a reviveremos dependendo da situação apresentada.
A paixão cessa quando se ativam as antigas projeções ou experiências traumáticas da história do indivíduo; cada um começa então a usar o parceiro para reviver todo o seu desconforto emocional pretérito.
Obviamente quando abandonamos a esfera afetiva da dedicação e doação para com o outro, a prioridade é a constante insatisfação e conflito emocional. Quando se fala do tédio que um relacionamento constante pode causar, a própria afirmação já encerra uma contradição. Ninguém se cansa de determinado alimento ou gosto pessoal, o que ocorre são períodos de pico ou queda em nossas predileções. Na questão afetiva a coisa muda exatamente pelas projeções passadas citadas, e uma das conseqüências mais visíveis é a infidelidade conjugal, que encerra um componente de ambição desmedida, que se camufla no desejo de novas experiências ou retomada do prazer perdido. Obviamente não estou pregando aqui que não devamos encerrar um relacionamento que já se esgotou do ponto de vista afetivo, mas o fato é que os problemas surgem exatamente quando necessitamos do outro como depositário de nossa frustração pretérita. Se descobrimos que nosso parceiro é muito diferente de nós, desenvolvemos mágoa, revolta e frustração pela expectativa não realizada; porém se sentimos que o mesmo é exatamente nossa cópia, desenvolvemos o medo ou bloqueio para não lidarmos com o nosso próprio sofrimento, fugindo do pleno autoconhecimento.
É essencial a psicoterapia individual ou de casal na profilaxia do exposto acima. 
FREUD acreditava em duas forças centrais na motivação humana: instinto de vida e morte. O primeiro levaria a busca do prazer e satisfação. Se o indivíduo falhasse na realização do objetivo citado, entraria em cena o segundo instinto com a meta básica de retorno ao inanimado ou a morte. ADLER achava que os instintos sexuais escondiam todo o desejo de poder e dominação do ser humano. Assim sendo, uma suposta fantasia sexual encerrava um desejo mais profundo de ver o outro totalmente dominado por nossos anseios pessoais.
O fato central é que a humanidade não aprendeu ainda a lição da duplicidade psíquica, sendo que a busca por qualquer meta de prazer contém também o elemento da dor. Queremos ardentemente o primeiro e afastar sob qualquer hipótese o segundo. Usamos a paixão para tal finalidade, acreditando ilusoriamente ser o remédio definitivo contra nosso cotidiano de insatisfação. Um dos resultados mais drásticos é o desenvolvimento do ciúme exacerbado.
O amor não é algo oriundo de um romantismo ingênuo e pueril, mas é principalmente um entretenimento que o ser humano precisa desenvolver para aliviar seu pavor em relação à morte.O sucesso da tarefa citada advém quando a prioridade passa a ser mais a satisfação do parceiro do que a própria pessoa, com a confiança absoluta não apenas na retribuição, mas na capacidade de ter conseguido desenvolver tal potencial. Não preciso dizer de como o conceito citado é quase que impraticável em nossa sociedade, pois está cada vez mais nítido que a última prioridade é exatamente salvar literalmente alguém.
Temos de ter em mente de que quando desejamos intensamente algo como uma paixão por exemplo, suas marcas ficarão impregnadas com a mesma intensidade. Se a vida em nossa estúpida sociedade globalizada é sempre fugir do fracasso seja de ordem econômica ou social, lutando sempre para estarmos no topo, como poderemos estar abertos para doarmos aquilo de mais precioso que existe em nosso ser? Qualquer terapeuta escuta diariamente de seus pacientes de que o mais importante é o lado afetivo, porém como explicar que é o que menos recebe investimento?
O fato é que a cada dia que passa a coisa que mais cultivamos em nossa vida é a paranóia em todos os sentidos, seja no receio de perder o emprego e conseqüente insegurança, seja na desconfiança que temos em nosso parceiro amoroso causada por ciúme, mágoa ou competição quando achamos que o outro está mais satisfeito ou feliz. A paixão em última instância é o mesmo que querer compartilhar uma espécie de festa com determinada pessoa, e na maioria das vezes para nossa total indignação descobrimos que quase ninguém deseja participar da mesma, ou pelo temor da entrega afetiva, ou impossibilidade de vivenciar o prazer. 
Autor: Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: -ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER -ESPANCAR UMA CRIANÇA FREUD-OBRAS COMPLETAS O SENTIDO DA VIDA- ALFRED ADLER- EDITORA PAIDÓS-1937

0 comentários: