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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Psicólogo e seu Papel Frente ao Paciente

Autor: Antônio Carlos A. de Araújo - Psicólogo

Esta é uma questão que tem desafiado a história da própria psicologia, qual papel o terapeuta deve assumir perante as demandas do paciente? Uma escuta passiva, analítica, ou um papel determinista como nas modernas teorias cognitivas? Obviamente não importa definir com exatidão qual seria o certo, mas cabe uma reflexão aprofundada sobre o tema, e é disto que este texto irá tratar. Penso que antes de tudo o terapeuta tem o dever de se indignar perante o sofrimento do paciente, sem torcida pelo mesmo ou se deixando abalar, é óbvio, mas deve manter seu fluxo de energia preparado para confrontar todos os mecanismos de defesa que uma neurose insiste em repetir, caso contrário sua escuta se torna sádica e irrelevante para qualquer tipo de mudança que pode ser operacionalizada. O problema do fracasso de uma psicoterapia como já foi dito milhares de vezes, é a tradição de uma cultura que sempre valorizou o individualismo, assim sendo, não será estranho um paciente rejeitar a fala do psicólogo acerca de seu fracasso em diversos âmbitos de sua personalidade. O que importa para a maioria dos pacientes, não é a eliminação do sofrimento, mas manter intacto o que considera sua dignidade pessoal, e infelizmente tal crença potencializa o orgulho num grau inimaginável.
A perspectiva do trabalho terapêutico então deve tomar outro rumo, criar créditos ou motivações que ataquem diretamente o conflito, e não ficar julgando o mesmo. Não é pelo fato sinceramente de eu não ser mais um psicanalista que reprovo a escuta quase que interminável, o problema é que para as demandas atuais de nossa sociedade mergulhada na extrema destrutividade, uma escuta passiva terá o efeito de uma aspirina contra um câncer. O que muitos psicólogos ainda não perceberam é que os pacientes se encontram numa perspectiva do famoso intelectual francês MICHEL FOUCOULT, o “vigiar e punir”, sendo que não necessariamente desejam se evadir da prisão que construíram, muito pelo contrário, se regozijam com o fato de verem segurança em todos os mecanismos fóbicos e obsessivos que fazem questão de repetirem quase que diariamente. Mesmo não sendo algo novo, esse processo é constantemente negligenciado pela parte do analista.

A primeira regra para se estabelecer o papel do analista e analisado é a definição em conjunto do que realmente é uma neurose na vida do sujeito, senão se instala sumariamente o poder diagnóstico que irá limitar e amplificar a resistência do mesmo. Apenas para fornecer certo parâmetro, a neurose reina na busca por um poder que jamais pode ser convertido num ganho pessoal ou existencial, ou a insistência de tomar ou viver o papel que seria do outro. Todos sabem que a relação sado masoquista se estabelece tanto no tirano quanto naquele ser que insiste em sua despotencialização. O problema é que a própria neurose se transfigurou de forma quase que inimaginável há algumas décadas, não que haja doenças novas, mas manifestações mórbidas totalmente originais, visando escapar de um ataque que as retirem da primazia da vida da pessoa. Mas então o leitor já irritado até o presente ponto, me perguntará qual minha definição de neurose? Muito simples, segue regularmente um traçado totalmente social e político, é a pura reprodução das leis sociais, e não meramente a manifestação deste ou aquele sintoma. Neurose é paralisia, segurança contra críticas, não importa se o preço é a total desmotivação, o que vale é não ser incomodado, cobrado e notado, e é exatamente tudo isso que o terapeuta deve combater, o gregarismo social transposto na instância psíquica e afetiva do sujeito. O objetivo deste último sempre só será o de remover o sintoma que incomoda, e não a gênese do mesmo. Procurar a terapia não é um ato de cura por si mesmo, podendo muitas vezes ser a ratificação da alienação psíquica, caso o terapeuta não esteja preparado para tudo o que foi descrito. 

Penso que o tema exposto neste estudo é o mais importante quando falamos de psicoterapia, pois caso não haja clareza do papel profissional, simplesmente não há tratamento ou transformação. Por mais de vinte anos notei que uma conduta benevolente e de aceitação por parte do terapeuta jamais conduziu ao que poderíamos chamar toscamente de cura, muito pelo contrário, o elogio cobra um grande preço do compromisso e responsabilidade de continuar uma mudança que boa parte dos pacientes não está nada interessada em levar adiante. Numa certa ocasião uma paciente minha me disse uma coisa fantástica, que qualquer gentileza tem que ser realmente compensadora, estava se referindo ao princípio da troca, tão esquecido em nossas relações sociais recheadas de inveja e exploração simplesmente. Claro que não estou advogando uma conduta agressiva ou impositiva por parte do terapeuta, o que seria outra armadilha ou tentação, fechando um mecanismo de vitimização que também muitos pacientes adoram. 


Percebam que não é nada fácil o estabelecimento de uma determinada conduta, seja por medo do conflito ou de contrariar alguém que está nos remunerando pela escuta profissional. A definição de tão vasto dilema passa primeiramente pela percepção e intuição daquilo que o paciente está realmente procurando e na maioria das vezes não nos comunica conscientemente. Costumo dizer que um terapeuta experiente não pode ter medo do arquivo morto, ou seja, de perder um determinado paciente que não se encaixe seja em sua abordagem ou pelo motivo de não aceitar nenhuma autoridade perante sua problemática. A verdade é que terapia desejando ou não sempre será um eterno exercício de poderes entre dois seres humanos, e a negação de tal instância sempre traz efeitos nocivos ao trabalho em questão. Não se trata do mestre e discípulo, mas localizar todas as transferências negativas que o paciente efetua quando se trata do quesito autoridade. Tal fato determinará seu grau de neurose, seja por uma atitude sempre passiva, ou a arrogância que cega qualquer orientação. Quem procura ajuda não pode oscilar numa ambivalência extrema, seja um choro ou sofrimento compulsivo, ou uma revolta contra qualquer tipo de intervenção, ou ainda aquela racionalização incômoda, dando a noção que qualquer coisa que o terapeuta fale o paciente já tinha conhecimento.

Uma terapia jamais é um encontro entre amigos, mas uma relação dual entre uma pessoa com problemas que não consegue solucionar e outra disposta a dar apoio para tal dificuldade. Mas o leitor irá se perguntar se não seria possível o estabelecimento de uma amizade entre terapeuta e paciente? Jamais do ponto de vista social ou do cotidiano, pois a amizade tem a conotação quase sempre de poder burlar a regra, contando com a aquiescência do parceiro. A terapia jamais pode se desviar de seus objetivos ou compromissos, por mais sedutores que sejam os aspectos pessoais e afetivos envolvidos na situação. É importante ter em mente o tipo de paciente ou pessoa que nos procura, embora possa parecer uma tentativa de rótulo, penso que se faz necessária tal análise. Há o tipo melancólico ou depressivo que jamais ousa abandonar sua religião de culpa ou autopunição, o paranóico-agressivo onde seu gozo é o desafio ou contenda, querendo angariar a qualquer custo o suposto poder do terapeuta, o obsessivo compulsivo se equivale ao hipocondríaco onde acata gentilmente qualquer norma terapêutica, desde que continue preservando seu altar de medo e receio perante a vida, são indivíduos que costumam levar o trabalho terapêutico como uma espécie de obrigação ou missa semanal, mas que não incorporam aquela meta de desafio perante determinada problemática pessoal ou afetiva.

Outro tipo moderno que faz parte de nosso cotidiano tecnológico é o paciente com transtornos sexuais, geralmente jovens com problemas de disfunção erétil ou ejaculação precoce vítimas de todo um modelo de cobrança social de desempenho perante o parceiro. É outro tipo complicadíssimo de se tratar, pois demandam respostas urgentes para sua problemática que todo o contexto psicoterápico não consegue acompanhar, se inserem em outro quadro de pacientes com ansiedade mórbida, de difícil tratamento, pois desviaram toda a energia sexual para uma movimentação de vida frenética, impedindo uma reflexão objetiva e serena acerca de sua dificuldade. O resumo de tudo o que estou descrevendo é atacar a dependência psíquica de um passado de caos, que muitos insistem em pagar, apesar de parecer controverso ou afrontar a dinâmica do prazer, pois como o próprio FREUD pontuou, buscar o instinto de morte ou aniquilação psicológica não deixa também de ser um enorme gozo no psiquismo humano. Aliás, este é o maior atentado possível contra o processo analítico, vivenciar eternamente o sofrimento ou projetar em terapia o mesmo, seja através do choro compulsivo ou da queixa constante. O fato é que o espaço terapêutico deveria ser preenchido pelo prazer de uma ótica alheia que irá inflamar a esperança de um indivíduo combalido. Isto é atacar a raiz mais profunda de um orgulho ou teimosia que paralisam todas as potencialidades da pessoa.

Mas como se deve proceder perante tudo o que foi levantado? Enfim, como o terapeuta deve agir? Aceitação incondicional do paciente como pregava CARL ROGERS, análise do inconsciente dentro da esfera psicanalítica, animar o paciente como dizia ADLER, treinamento cognitivista? O ideal seria um pouco de tudo logicamente, mas penso que o mais importante é o terapeuta ser um consultor da potência real do paciente, não um avalista de seus atos, mas da dimensão de sua energia e onde a canaliza. A terapia seria então como a jura do casamento, na doença (quando da depressão e amargura, dando conforto no momento de maior despotencialização de alguém, e na saúde potencializando seu ânimo, quem realmente consegue assumir tão efetivamente esse duplo papel?). Porém logo se instalaria uma crítica feroz perante tal conceito, a de ceder ou ampliar a bipolaridade do indivíduo. Só que o que poucos percebem é que a bipolaridade não é a oscilação natural de humor presente em todo ser humano, bipolaridade é o excesso, sempre acaba por sabotar determinado evento ou projeto, bipolaridade é o começo entusiasta para o final trágico de derrota, perda ou desilusão, e não a alternância comum de tristeza e alegria. Bipolaridade nada mais é do que uma neurose obsessiva sob efeito de doping (paga-se com a depressão pelo excesso de excitação), até porque hoje se considera constância como símbolo da velhice. Notem que o bipolar em essência reúne diversas tragédias pessoais em seu histórico de vida. Quando digo na saúde não é reter alguém que não necessite mais do tratamento, ou que se encontre um pouco resolvido, mas otimizar a motivação e empenho do paciente para novas fases de desenvolvimento, a análise quase que interminável proposta por FREUD.

Voltemos para a questão do elogio em terapia, assunto que nunca foi debatido profundamente. Quando o mesmo é eficaz? Quando está no tempo certo do campo de consciência do paciente. Vou ilustrar com um exemplo pessoal e que não tenho nenhum pudor de revelar. Jamais em minha infância pensei em ser psicólogo, nunca me passou tal idéia pela cabeça, na adolescência havia uma tia de um amigo meu que estava sofrendo muito em seu casamento, lembro que naturalmente lhe falei que o sofrimento era pela covardia da mesma em não se separar do marido, ela me respondeu que eu daria um ótimo psicólogo. Não foi apenas reforço egóico que me levou a decisão, mas naquele momento achei tremendamente interessante explorar uma potencialidade que tinha, mas que jamais havia enxergado antes de uma estranha me falar, na terapia é o mesmo caso, o paciente tem de achar interessante explorar o elogio desferido pelo terapeuta, caso contrário cai no vazio.

Sempre adorei as idéias do famoso educador PAULO FREIRE, mas nunca concordei com seu conceito de profecia cumpridora, se elogiássemos ou criticássemos um aluno ele seguiria uma das duas correntes; o conceito é ingênuo, pois o elogio implica em responsabilidade, uma futura troca ou corresponder ao papel imputado que muitos não querem ser ou fazer, vários pacientes meus se irritam quando ouvem um elogio de minha parte exatamente por isso, não estão abertos ao retorno ou troca, responsabilidade é isso, pura troca.
E o que diríamos do fenômeno da resistência no setting terapêutico? O que infelizmente a psicologia não percebeu no seu desenvolvimento é que tal fenômeno não diz apenas da trama neurótica em si, mas que a própria neurose brindou o indivíduo com sucesso em alguma área de sua vida, e esta é a chave, descubra onde a pessoa teve êxito, que ao mesmo tempo descobrirá todo o seu mecanismo compensatório de sucesso, mas, com o gosto azedo da amargura, está aí outro sentimento pouco estudado pela psicologia. A amargura não é mera sinônima de infelicidade como muitos pensam, é a necessidade do descontentamento existencial independente de todas as provas de êxito ou prazer que a pessoa teve ou poderia vivenciar. Amargura é economizar a troca de prazer com qualquer semelhante, não é o mau humor, mas simplesmente o congelamento do mesmo, é uma atitude paranóica constante contra a doação ao outro, achando que o companheiro irá usurpar disso ou ridicularizar o sujeito. Amargura é vergonha eterna contra o sentimento torturador de inferioridade e rejeição. Retomando o tema, o que seria mais importante, apontar onde está à neurose, ou a própria relação terapêutica em si? 

Todo o princípio da psicanálise se estabelece na relação transferencial, acreditando que junto ao analista o paciente irá reviver todo o seu drama familiar ou do passado. Embora isso seja correto, devemos tomar muito cuidado, pois como a própria psicanálise nos diz a relação transferencial se torna defesa máxima contra suprimir a doença. O que costumo pontuar é exatamente a defesa paranóica dizendo ao paciente que naquele momento sendo eu ou alguém importante de seu contexto de vida, reage sempre com total desconfiança e falta de uma escuta limpa. Não adianta cair na armadilha de impor uma verdade, o fundamental é que apenas alertemos para o quadro solitário de uma pessoa, justamente pelo descrito. A função da terapia não é fazer amizade com o paciente como obviamente disse acima, mas, ser uma ponte para que o mesmo consiga retomar sua afetividade e fazer amizades fora do setting terapêutico. Nunca foi uma neurose que deu o start para que alguém começasse uma terapia, mas o intenso sentimento de solidão é que move a busca da mesma, pois sente que todos os seus contatos perderam o encanto ou não podem mais ajudar a decifrar o que está acontecendo com o sujeito. A própria terapia deve superar a incrível contradição de ser um espaço totalmente reservado e sigiloso, mas que ao mesmo tempo deve proporcionar mais sociabilidade e diminuição da timidez do paciente. O social contaminado ou mal trabalhado trouxe o indivíduo para a terapia, sendo que o mesmo deve reciclar novamente essa inter-relação entre pessoal e coletivo, sendo assim outra função vital da análise é filtragem, pois as impurezas chegaram a um grau completamente tóxico para a pessoa.

Fala-se tanto que terapia é recuperar a autoestima, amor próprio, encontrar paz interior, lidar de forma mais madura com os conflitos, aceitação da frustração. Para se conseguir tais coisas, o terapeuta deve constantemente inflamar o senso de busca do paciente. Esta é outra questão vital, como motivar, o que é motivar? Poderíamos inferir uma série de elementos dependendo das características do paciente: simpatia do terapeuta, espírito de liderança, serenidade, acolhimento, ser uma espécie de treinador cobrando resultados do paciente, claro que o terapeuta manterá suas características originais, não podendo ser um camaleão perante cada caso, tal atitude soaria cínica, pois talvez um dos únicos poderes de quem esteja sofrendo é escolher o tipo de espelho que possa refletir melhor seus pontos negativos e positivos.
Quando falo de individual e social o faço por fatores etiológicos da neurose. O grande orgasmo de se fazer psicanálise é justamente essa priorização do inconsciente do sujeito, talvez o único espaço da face da terra que se interessou por sua história, e isso é fabuloso. Porém, a questão social é vital para percebermos como a exposição de um ego muitas vezes imaturo, mistura dramas de sociabilização ou rejeição com elementos constitucionais do psiquismo.

A neurose é um épico de duas faces, a nostalgia do passado que nem sempre sabe reconhecer como realmente verdadeiro na categoria do prazer, e a plena dificuldade de lidar com o presente, na medida em que suspeita não poder usar mais as ferramentas antigas, embora inconscientemente o paciente sempre tenta fazê-lo. FREUD em determinado momento pontuou que a função do terapeuta seria uma espécie de arqueólogo, cavando as raízes ou profundezas de um psiquismo que o sujeito perdeu no decorrer do tempo. Transposto para o cotidiano atual, honestamente o que sinto é que algumas vezes sou esse tipo de arqueólogo, mas a ênfase recai muito mais numa espécie de domador de um imaginário inconsciente e consciente que se parece quase sempre como um caldeirão prestes a explosão iminente. O medo e insegurança moderna transformaram totalmente o papel da terapia numa espécie de espaço de contenção da urgência não psiquiátrica propriamente dita, mas do mais puro ódio e revolta quando alguém tem de admitir finalmente que não conseguiu satisfação ou felicidade em seus mecanismos defensivos ou de poder sobre outras pessoas. Infantilização, compulsão, perversão, consumismo são os novos vírus ainda praticamente sem combate na relação terapêutica, e isto se torna assustador quando pensamos nos modelos de ensino nas faculdades na maioria das vezes retrógrados ou agarrados às teses extremamente ultrapassadas do ponto de vista social que estamos vivendo, só espero ter contribuído para o começo de um debate extremamente sério.

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