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terça-feira, 1 de maio de 2012

Quem Realmente Sofre de uma Doença Mental?

 Autor: Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

(ANÁLISE PSICOLÓGICA DA PATOLOGIA E COMO A DIAGNOSTICAR)

Analisar qualquer distúrbio mental em nossa era requer uma abordagem global do funcionamento da mente de um indivíduo, deixando de lado todos os parâmetros fixos da psiquiatria; não que se desmereça seu valor, mas é fundamental uma compreensão sistêmica do indivíduo perante todas às contingências individuais e sociais. Todo distúrbio mental ou de personalidade sempre está intrinsecamente associado à questão do tempo (passado, presente e futuro), e como o indivíduo suporta mentalmente todas as representações elaboradas em seu psiquismo acerca dessa temporalidade. Uma das características básicas do funcionamento da mente é a necessidade de proteção contra a repetição de eventos traumáticos, e a forma como a mesma se desenvolve é que irá determinar o tipo de distúrbio mental que acomete a pessoa. A medida exata para a análise é o tipo de escolha que o indivíduo elege nas diferentes áreas( profissional, afetiva e social), e o quanto de prazer e frustração são decorrentes das mesmas. A doença mental crônica e estratificada é um conceito ultrapassado nos moldes de uma psicologia atual, pois historicamente a medicina elegeu o que foge apenas do padrão como sinônimo de doença, omitindo que o valor de determinada cultura está ligado à historicidade da mesma. O psicólogo e psiquiatra devem se ater não a um modelo rígido do funcionamento mental, mas qual afecção inunda o universo diário da pessoa. Assim como um computador pode ser infectado por determinado vírus, nossa mente está exposta ao mesmo processo; não que deseje comparar a mesma com uma máquina; mas apenas salientar que a abordagem global implica que o homem constrói sua cultura projetando mecanismos psíquicos não resolvidos em seu cotidiano. Assim sendo, devemos perceber o que mais vivenciamos diariamente em nossa mente: raiva, ódio, desejo, saudade, medo, dentre outras emoções quase que incontroláveis.

A psiquiatria e medicina insistem no estudo das doenças mentais à apenas comportamentos demasiados patológicos, sem uma conceituação no universo corriqueiro do indivíduo. * MICHEL FOUCALT já alertava que não era a psiquiatria a cura da loucura, mas que a primeira só se sustentava pela presença desta última, não criando nenhuma concepção nova acerca da eliminação do sofrimento psíquico. Com toda a medicação desenfreada em nossos tempos, fica patente que o intuito não é o percebimento profundo das mazelas psicológicas que afligem o indivíduo, mas tão somente a narcotização do sofrimento, que sempre têm origem na inadequação do sujeito de potencializar suas metas pessoais e sociais. A doença mental ronda a todos como qualquer infecção virótica, e só um tolo para achar que quem a possui é um indivíduo transtornado ou passível de internação. A doença mental é um combate diário perante determinadas exigências que não conseguimos concretizar, lançando mão de todos os mecanismos defensivos para a proteção do ego ou auto estima. Mais do que pensar em comportamentos obsessivos, dependência química, introversão ou qualquer ritual patológico, a doença mental é muito mais o tipo de mecanismo( dinheiro, sedução ou narcisismo), que usamos para nos proteger da exclusão imposta pelo modelo social. 

Assim como no modelo econômico há o surgimento de diferentes classes sociais, na esfera psicológica o processo é similar. Temos de descobrir em qual categoria nossa afetividade se inclui( riqueza, dificuldade ou miserabilidade); sendo esta compreensão a essência da psicologia social. A análise de determinada patologia é justamente perceber o que não temos conseguido resolver ao longo de nossa vida, sendo que a função do profissional é dar o direito ao paciente da consciência acerca de sua moléstia, evitando a simplicidade da narcotização do caos psíquico. A doença mental possui como base o "medo", sempre no ápice de sua potencialidade, jogando todas as outras funções da pessoa para um plano secundário. A fantasia cronificada do pavor se torna a certeza da realidade devido a um histórico de ausência de gratificação, prazer e anseios pessoais. A mente presa em uma individualidade extremada, não só irá adoecer, mas terá como meta básica à exploração de todos os recônditos de pânico e desespero possíveis.

ALFRED ADLER costumava dizer que a paranóia ou doença mental era uma tentativa final e desesperada da pessoa em adquirir alguma importância ou cuidado num mundo que a desprezou por completo. Equiparava tal conceito ao "mimo", que diferentemente do que estamos acostumados a pensar, não é dar todas as regalias para determinada pessoa, mas uma tentativa do ego de forçar uma atenção do meio para si próprio, lançando mão da doença ou até mesmo comportamento anti-social para ocupar posição de destaque. Realmente tal conceito é extremamente atual, e logo percebemos que a pressão do desamparo ou ausência de apoio no desenvolvimento da personalidade sobrepujam todas as medidas morais ou educativas, retirando do indivíduo não apenas o senso de uma possível "normalidade", mas a confiança numa meta de vida que o satisfaça, fator crucial para encaminharmos nossa vida diariamente. 

Enfim, o leitor fará a pergunta fatídica: o que é ser normal? FREUD no final de sua vida respondeu que era a pessoa que ama e trabalha; para ADLER seria o indivíduo que constitui família, assegurando não apenas a sobrevivência do núcleo familiar, mas também o desenvolvimento do sentimento comunitário(conjunto de ações que visariam à ajuda e erradicação da miséria econômica e social da sociedade); para WILHEM REICH, a normalidade seria a plena satisfação genital, pois a pessoa que obteve o prazer máximo da função orgástica combateria todas as situações profissionais e pessoais de desprazer, unindo esforços para a obtenção da plenitude de vida, que seria o treino diário da satisfação. Penso que todas essas concepções são totalmente verídicas e atuais, sendo nosso dever as esmiuçar para que possamos progredir em nossa essência e existência. Apenas gostaria de contribuir com mais algumas reflexões sobre tão delicada questão. A normalidade é a perda do medo de dividir seu histórico pessoal, pois durante toda a minha vida profissional tenho cobrado que o alívio e até possível cura de determinada neurose seria a capacidade da pessoa de dividir profundamente seu sofrimento e experiência obtida com tal processo. As obsessões pelo segredo, timidez e ausência são os mais fortes indícios da atenção totalmente concentrada em um histórico pessoal de dor, que é sinônimo de distúrbio mental. Utilizar o material pessoal, por mais complicado que o mesmo seja é a saída mais criativa e digna de determinado impedimento. Ter a coragem diária de dividir e se preocupar genuinamente com o outro é a essência da saúde mental, ao invés da medição diária de nosso egoísmo, que fazemos analisando o que devemos dar ao outro pelo merecimento do mesmo em relação à satisfação ou não de nossas expectativas que tínhamos com tal pessoa.

A saúde mental é a inteligência da percepção pessoal acerca do que determinado modelo social almeja de nosso íntimo. Pensemos nesse conceito do ponto de vista histórico. Até meados do século passado, boa parte do planeta estava condicionada ao nazismo e fascismo, sendo o apogeu desse processo a segunda guerra mundial. Se pudéssemos analisar as funções mentais do indivíduo da época, descobriríamos uma mescla de ódio, desilusão, revolta e excitação pela possibilidade do confronto.

Nem HITLER OU STÁLIN teriam obtido êxito no processo de dominação se não contassem com o terreno fértil da hostilidade humana. A liderança mais genuína é aquela que explora o mais puro sentimento de ódio de determinada pessoa. Assim sendo, a doença mental daquela época(ódio) permaneceu totalmente camuflada pelas ideologias totalitárias citadas, não dando a mínima chance do indivíduo perceber que seu mal pessoal foi expropriado para uma finalidade bélica. Talvez a maior prova de poder de toda a história humana foi a utilização de um distúrbio psíquico para uma finalidade ideológica. O que quero deixar claro com este raciocínio é que a doença mental sempre será um produto de determinado momento histórico. Seja no pânico do inferno da idade média, até a violência brutal das guerras do último século temos de entender quais são os agentes da doença mental. Arriscaria dizer que em nossos dias são todos os sentimentos que exacerbam uma negatividade da pessoa perante outro ser humano: solidão, medo da opinião alheia, culpa, ciúmes, inveja, insegurança econômica e pessoal.

A análise da doença mental não é um diagnóstico passivo de distúrbio de comportamento imposto pela psiquiatria como disse anteriormente, mas a busca profunda pelo mecanismo defensivo perante o estado de sofrimento psíquico da pessoa, sendo que sua essência é a tentativa de compartilhar o sofrimento psíquico e individual com a coletividade. Não se trata de julgamento do caráter de determinada pessoa, mas, a percepção da incapacidade da mesma de gerir seu conflito pessoal. A doença mental não é apenas um pedido desesperado de socorro, mas a falência múltipla das funções e crenças pessoais perante a inundação dos sentimentos negativos exacerbados. O medo sempre será a raiz central, sendo que a paranóia irá o acompanhar. Devemos perceber que como disse em todo este estudo, a doença mental em nossos tempos raramente se manifesta em comportamentos alucinatórios, embora sempre vamos ter casos desse tipo; porém, um dos sinais típicos de desequilíbrio mental em nossos dias é a extrema "somatização" dos conflitos internos( insônia, pesadelos, terror noturno e sintomas sem uma comprovação orgânica). Jamais será no obscurantismo de um hospital psiquiátrico que iremos compreender a doença mental, mas a perceber como companheira constante no nosso travesseiro, ou nas noites de tormento conforme citado. Este é o fardo mental do homem contemporâneo, a exposição pessoal e pública de sua fragilidade perante um conjunto emotivo do qual teme profundamente e nunca foi treinado para lidar. Podemos remeter até a questão sociológica sobre este ponto, pois se pensarmos do ponto de vista social e histórico iremos descobrir que a questão da loucura nunca foi um fator de desequilíbrio social, se comparada a toda desigualdade econômica e social que imperam em nossa sociedade. 

Qualquer pessoa que consultar um psiquiatra irá obter alguns diagnósticos de comportamentos obsessivos ou algum transtorno de personalidade. A banalização nosográfica e diagnóstica tão disseminada nas faculdades de medicina e psicologia é uma pirotecnia pseudocientífica que esconde a incapacidade da análise dos mais profundos problemas comportamentais e sociais. Tratar a mente num modelo estritamente organicista é o totalitarismo máximo de determinada ciência que nega as condições de vida de uma população. A medicação desenfreada é o alerta máximo de que não mais importa a saúde mental na sua totalidade, mas apenas a exploração econômica de um transtorno causado por esse mesmo modelo. A loucura assim como toda e qualquer neurose é uma convergência de vários sentimentos ou emoções que prendem o indivíduo numa determinada rota de vida onde sente que já não atua em conformidade com sua vontade pessoal, mas que se desenvolveu uma espécie de "entidade psíquica" que divide a mesma atenção e cuidados. A palavra entidade, não possui aqui qualquer conotação mística ou religiosa, mas se refere a uma determinada função mental que tem como característica reunir todo o atavismo psicológico de determinado núcleo familiar, sendo necessária sua reprodução fiel por parte da geração atual. Tal processo tem a função básica de desviar determinados conflitos pessoais dolorosos, incorporando comportamentos patológicos de outras pessoas do âmbito familiar, expelindo dessa forma sua parte destrutiva. A diferença desse processo com a repressão psicanalítica é que nesta última o sujeito oculta em seu psiquismo o material negado, sendo que no processo descrito acima há não uma repressão, mas uma fusão daquilo que é recalcado com outros recalques que absorve do meio, para que possa os atuar.

O modelo mental de FREUD correspondia à era VITORIANA de repressão e ocultamento de características sexualizadas. Na atualidade vemos um modelo mental neurótico com uma voracidade imensa de atuação a qualquer custo, devido às características narcisistas e competitivas de nossa era. Se no século de FREUD a doença mental era algo que ficou no anonimato do inconsciente, sobrevivendo às expensas da insatisfação sexual, hoje podemos conceber que a mesma é algo que luta pelo poder completo sobre a vida pessoal e social do indivíduo, reproduzindo fielmente o modelo social de status, inveja e ganância à que fomos submetidos desde o nascimento. Hoje a doença luta pela manifestação completa e reconhecimento de que o medo é o timoneiro máximo da alma humana.

Bibliografia:
ADLER, ALFRED. O caráter neurótico. MADRID: Editora PAIDÓS, 1932.
FOUCALT, MICHEL. Doença mental e psicologia.
REICH, WILHEM. Psicopatologia e sociologia da vida sexual. SÃO PAULO: GLOBAL EDITORA.
FREUD, SIGMUND. BBC INTERVIEWS. LONDON: 1939.

2 comentários:

Nós Os Cachorros disse...

Texto bem interessante.
No fim a pergunta: o que é ser normal então?!
Pois cada um tem uma visão... rs
Acho que o mais importante no fim é viver, ser feliz, respeitando o próximo.
Abraxos.

Janilton disse...

Olá!

Eu acredito que ser normal é ser autêntico. É ter uma visão direcionada nas virtudes.É ter fé, paciência e amar.
Ser feliz é uma consequência dos seus atos. Viver é uma dádiva divina. Respeitar o próximo é ser amável.
Cada visão tem uma consequência, certo?!Veja o que diz em Mateus 6 (22-23), "Se os teus olhos são bons, todo teu corpo é luz. Se os teus olhos são maus, todo teu corpo está em trevas". Essa é a realidade de cada visão...rs
Abs.