Pages

Translate

English French German Spain Italian Dutch Russian Japanese Korean Arabic Chinese Simplified

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ansiedade

"A essência de qualquer processo de reflexão ou autoconhecimento passa pela sensação daquilo que nos falta. O modo como administramos a carência é que dirá se somos seres destrutivos ou criativos".- ANTONIO CARLOS -PSICÓLOGO.

"Para os que não possuem a garantia íntima de seu assento no mundo a ansiedade é a mais terrível das ameaças". (ANTONIO CARLOS - PSICÓLOGO)".

Embora a ansiedade esteja totalmente ligada a história do ser humano nas mais diferentes épocas, não podemos deixar de enfatizar a imensa proporção da mesma em nossa sociedade contemporânea. Pensar em nossa vida atual nos remete a falar do stress ou ansiedade. Obviamente o homem moderno perdeu vários referenciais religiosos e morais que no passado serviam de base para o equilíbrio psíquico. Não cabe neste breve estudo o julgamento moral de determinados valores, mas tão somente o impacto no psiquismo humano. A primeira definição de ansiedade é de que a mesma é o alerta máximo da incompletude em algum setor de nossa vida, sendo o clamor de nossa alma para que determinadas coisas se alterem. A ansiedade é a prova máxima de que em nosso íntimo ainda existe vida e a desejamos na plenitude, embora muitas pessoas achem que a ansiedade é sinal do contrário afirmado acima. Como disse anteriormente é o alerta, e este deve soar para que possamos nos mobilizar no sentido do preenchimento de que carecemos. É exatamente por este motivo que o uso em larga escala dos calmantes é extremamente nocivo do ponto de vista da mudança da pessoa, pois ditas drogas cortam o sino que sempre nos avisa de nossos deveres íntimos.
Estou dizendo até agora do lado positivo da ansiedade, como mola propulsora para determinadas mudanças necessárias na personalidade. Sem dúvida há o outro lado, o da ansiedade patológica, que podemos definir como: o constante estado de agitação, incerteza e principalmente insegurança. Nos estudos sobre a ansiedade pouco se percebeu a enorme relação da mesma com o ciúme. Algumas pessoas inclusive mesclam tão profundamente ambas as sensações, que fica quase que impossível dizer onde começa uma e acaba a outra. Este fenômeno ocorre quando a ansiedade ativa paralelamente o complexo de inferioridade da pessoa, sendo que imediatamente surgem expectativas catastróficas no pensamento, causando grande sofrimento para o indivíduo em questão. O complexo de inferioridade ativado se fixa no ciúme, pois este último tem a característica de algo que constantemente se renova, assim como a ansiedade, sempre a espreita para inundar nossa consciência.
Talvez o fato mais marcante seja o de que em nossos dias somos quase que totalmente incapazes para lidar com a ansiedade, sendo que procuramos todos os tipos de distrações ou fugas para não enfrentarmos dito sentimento. Aliado a este conceito há o lado ideológico e econômico que explora a ansiedade via consumismo e caráter descartável dos relacionamentos. Sabemos como machuca uma reflexão pessoal que nos mostre como mentimos diariamente para nós mesmos, e como nos sentimos imensamente vazios por não nos permitirmos o aprofundamento nos diversos setores de nossa vida.
Sabemos que praticamente não temos amigos, o que só alimenta ainda mais nossa solidão; temos ciência de que fugimos do diálogo profundo para as distrações mais fúteis, principalmente com a pessoa que escolhemos para supostamente amar. A ansiedade passa a ser a última camada genuína do ser humano em nossa atualidade, e mesmo assim todos desejam sua destruição, pois para boa parte das pessoas qualquer coisa é melhor do que o sofrimento, mesmo que isto custe a perda da identidade pessoal ou uma vida psíquica vegetativa. Nossa situação profissional na relação capital e trabalho nos revela em que escala nos situamos no âmbito material; se somos explorados, exploradores, se temos autonomia ou se estamos excluídos. No âmbito psicológico a ansiedade passa a ser quase que o principal instrumento de medição de nossa realidade interna, nos mostrando o grau de nossa carência pessoal.
A essência de qualquer processo de reflexão ou autoconhecimento passa pela sensação daquilo que nos falta. O modo como administramos a carência é que dirá se somos seres destrutivos ou criativos. O essencial é perceber que tipo de pessoa ou reação provocamos nos outros, como por exemplo: simpatia, admiração, segurança, ódio, inquietude, etc. A ansiedade ou o tormento da espera daquilo que não possuímos sempre embutem mensagens para reflexões pessoais, e devemos descobrir quais raciocínios são imperativos na etapa atual de nossas vidas.
O maior inimigo de todo o processo de reflexão acima citado é o medo sem sombra de dúvida. Todos desejam garantia e estabilidade, sendo que a ansiedade revela muitas vezes a necessidade de continuar buscando. Infelizmente quase todos desejam aniquilar a prova máxima de sua insatisfação ou infelicidade, que no caso é a ansiedade. Assim como a febre das academias ou cirurgias plásticas, se deseja também em nossa sociedade uma "estética" para a expressão dos sentimentos, e na mesma não há nenhum espaço infelizmente para o autêntico, e talvez este seja um dos mais terríveis problemas emocionais deste milênio.
Arrisco até a noção de que o imenso crescimento da ansiedade em nossa era corre paralela com a mentira e falta de sintonia com as emoções alheias. Como disse acima, procura-se a plasticidade e futilidade, e as coisas sérias vão sendo deixadas de lado.
Temos de admitir o fato da nossa dificuldade em buscarmos novas saídas ou o pavor do novo. Muitas vezes não desejamos nos utilizar de nosso potencial, e este é um dos aspectos psíquicos sombrios que temos de conviver quase que diariamente. A ansiedade neste aspecto nada mais é do que a incapacidade de se lidar com o processo do tempo. Embora biologicamente saibamos que não o temos de sobra, psiquicamente preferimos a constância de uma perturbação ou infelicidade, com o objetivo de encobrirmos nosso total despreparo frente a morte ou qualquer tipo de perda, e apesar do conceito citado ser mais do que óbvio, é muito mais fácil o sofrimento rotineiro ao invés da angústia profunda perante o desconhecido. O confronto com nosso imenso vazio existencial simplesmente é "pânico", e preferimos os atos banais que atuamos diariamente. Qualquer escola de psicologia sempre apregoou sobre a resistência perante as mudanças. Nosso psiquismo é ou se tornou gregário ou conservador, e este é um fato de que não podemos omitir em hipótese alguma. Assim como determinados historiadores conservadores sempre apontaram que as revoluções só nos brindaram com mortes ou destrutividade, nossa mente segue o mesmo raciocínio, temendo sempre o fracasso perante uma nova experiência. A história coletiva e pessoal serve para a manutenção da estrutura social e rotina do indivíduo, e a ansiedade é praticamente o único agente subversivo que pode abalar o sistema citado. A essência da filosofia é a certeza de que na maioria das vezes o pensamento é meramente uma amostra colhida do contexto social onde se vive, e a ansiedade nos chama para a responsabilidade individual da aceitação ou não da meta de vida que adotamos. 


Autor: Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

0 comentários: