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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Terapia de Casal



INFIDELIDADE, CIÚMES, MÁGOAS, PERDA DA LIBIDO, TODOS OS SENTIMENTOS QUE PRECISAM SER TRABALHADOS

Texto de Antônio Carlos de Alves de Araújo - Psicólogo (23.11.2011)

É um tanto engraçado que tenha discorrido sobre o tema terapia de casal por tanto tempo, sendo que no início de minha formação jamais tinha visualizado me especializar em tal área. Essa conversão se deu aos pedidos de alguns pacientes na época, aliado ao fato de pouquíssimos profissionais também atuarem na área. Mas bem cedo descobri que assim como os transtornos mentais, fobias e sintomas psicossomáticos, esta é um dos maiores desafios da psicologia para provar sua eficácia em ajudar dois seres em crise, e pior, talvez seja a única área ainda psíquica onde não se pode medicar, pois não podemos aplicar ansiolíticos em uma relação, ou ela se conserta por si mesma ou perece simplesmente, não que gostaria que a medicação fosse inclusa, também nada tenho contra, o ponto é que medicar é um processo amplamente individual, assim como a própria história da psicologia, que embora desenvolvesse trabalhos grupais, se firmou no terreno individual, daí o despreparo quando o assunto é terapia de casal, pois ninguém contava que a psicologia devesse entrar nesse terreno, era coisa de encontro de casais nas igrejas num passado bem recente. O quadro mudou radicalmente, e de uma hora para outra a psicologia foi acionada como um bombeiro precisamente para evitar o despedaçamento de uma relação. Mas então surgiu o primeiro problema operacional e ético, porque a psicologia deveria salvar uma relação, sua função não seria apenas desvendar se o relacionamento é neurótico ou extremamente doentio? Porque o psicólogo deveria acatar o pedido dos pacientes para ajudar no restabelecimento, quando muitas vezes estão juntos por mera formalidade econômica? Sinceramente nunca vi um estudo aprofundado sobre tais questões o que leva a crer que o maior interesse da psicologia foi conquistar um novo mercado. Até este ponto não vejo nada de injusto, mas se pretendo atender uma nova parcela de pessoas, tenho de elaborar novas normas éticas e operacionais de tratamento. Também isto nunca foi feito, simplesmente se transportou a psicanálise ou qualquer outra escola pura e simplesmente para atender casais, nunca houve nenhum desenvolvimento de uma metodologia específica para esse tipo de trabalho, essa sem dúvida alguma é a principal lacuna da área. Outra questão assustadora é que se atendem casais simplesmente com o foco terapêutico no conflito ou discussões do mesmo, quase não se analisa que tipo de casal é, sua dinâmica pessoal, social e até política do ponto de vista se a ideologia de ambos se completa ou é divergente. Aliás, este fator é um dos que mais provocam conflitos e separações se o leitor desejar saber, porque logo descobrem visões totalmente antagônicas na forma de enxergar o mundo, sendo que os uniu foi apenas uma atração ou paixão sexual
Lamento se ofendo algum colega meu, mas o grave defeito da terapia de casal foi à falta de transparência por parte dos pacientes e também do terapeuta. Todos sabem que um casal que procura a terapia sofre de miopia emocional, e se divide em dois tipos, principalmente hoje em dia: aqueles que enfatizam totalmente o aspecto material em detrimento da relação, e os que trocam a relação para vivenciarem suas aventuras ou ilusões perversas, falei transparência, pois até hoje não ouvi ninguém dizer tal coisa seja no meio acadêmico ou em alguma publicação. É estranho e costumo dizer diariamente em minhas consultas a simplificação perigosa do lado pessoal (geralmente tenho quase que fazer um interrogatório para extrair algo, ou contam a vida de ambos em trinta segundos), e no lado material são tão desenvolvidos, vaidosos e proativos. Ou seja, o primeiro ensinamento da terapia de casal é que procuraram justamente a mesma pelo fato da relação nunca ter sido prioridade, e mais a questão temporal, quero dizer, a demora de um ou ambos em se doar verdadeiramente. Isso há muito tempo já observei, é muito mais fácil sair para ganhar dinheiro, suprir sua vaidade ou complexo de inferioridade do que se concentrar numa das mais complicadas tarefas humanas que é se relacionar, o primeiro papel do terapeuta é aniquilar a hipocrisia. Antes de iniciar a descrição dos relacionamentos atuais, gostaria de enfatizar que todas as questões de interesse ou econômicas que descrevi anteriormente ofuscam por completo o objetivo máximo da própria relação, que é cada qual proporcionar alegria para o parceiro, a palavra é simples, mas extremamente complexa quando analisamos a dinâmica de uma relação, e descobrimos que esse elemento jamais existiu, então descobrimos outro quadro, que as pessoas só pensam em qualidades no âmbito pessoal e privado, no sentido de explorarem seus talentos, mas nunca pensando que talento possui em relação ao outro, essa é que é a mais pura verdade. Muitos me perguntam qual seria a melhor qualidade dentro de um dueto que é o casal, e respondo que é sempre estar disponível, este é o sentido mais fixo e objetivo que encontrei até hoje para o quesito amor. Tal condição implica em outra palavra descritiva do amor ou afeto que é responsabilidade.
Em diversos outros textos descrevi um fenômeno curioso que observei não apenas na prática clínica, mas também no convívio dos casais. Quando acontecia algo bom ou algum tipo de elogio, na seqüência seguiam-se novas brigas e discussões sem uma explicação aparente. A resposta é justamente o que disse antes, responsabilidade, a partir do momento em que o outro me elogia ou agrada se cria um vínculo uma necessidade de correspondência, essa é a palavra que muitos rejeitam, este é apenas um dos muitos vírus que atacam os relacionamentos. Também sempre discordei da tese popular que todo relacionamento é complicado, é exatamente o contrário, é totalmente simples; transtornos de personalidade que também podem sabotar uma relação, novamente podemos incorrer em um gravíssimo erro. Como exemplo cito o transtorno bipolar bem conhecido na atualidade, oscilações bruscas de humor e temperamento sem nenhum acontecimento significativo que precipitasse tal quadro. Pois bem, quem falou que um transtorno age como um todo na personalidade? A pessoa pode ser extremamente normal em seu ambiente de trabalho, com os amigos e totalmente bipolar com o parceiro. Esta é uma formulação vital negligenciada pela maioria das ciências médicas, a neurose retira energia, sintomas psicossomáticos e alterações de comportamento de qualquer área para se blindar diante do que teme. No caso a afetividade, posso concluir que há séculos o medo do amor se equivale ao medo da morte. Mas por quê? Novamente ouvimos aquelas respostas simplórias de medo da entrega, ficar vulnerável ao parceiro ou se gostar demais e ser abandonado não toleraria. Respostas que tem algum fundo de verdade, porém apenas mínimo. O medo do amor, de algo que todos sabem ser a coisa mais importante da face da terra só pode ser explicado pela recusa de alguém de abrir mão de outros “brinquedos”. Os mesmos são: disputa de poder, competição, inveja (este sempre foi o central), ambição e timidez. Convenhamos que um sentimento por mais nobre que seja nunca será páreo contra vários que vão ao seu encontro, a luta sempre foi desigual, se dois já não dão conta, imaginem um casal desunido, é tão óbvio não acham? Sempre expus que os relacionamentos são presa fácil dos modelos sociais e econômicos, mas por quê? A resposta seria a mera transposição da ambição para a afetividade, adquiri um bom carro, quero outro melhor, isso passaria em tese para a relação? Quero uma mulher mais bonita? A era do descartável transposta na pessoalidade? Sim, mas não responde completamente a questão, alguém que se deixa arrastar por esse fenômeno econômico dentro da relação não pode apenas ser chamado de egoísta, é uma personalidade faminta por ser notada, cultuada, então um simples relacionamento não basta, há a necessidade de platéia, daí advém à perversão, ambição convertida na aquisição de mais parceiros, nunca foi fantasia, balela, e o tímido tenta fazer isso tudo retirando seu time de campo, adotando um comportamento excêntrico, o que o torna diferenciado.

Falei de tipos de casais no começo do texto, isso geralmente pode ser simplificado na atitude dos mesmos em relação aos filhos, se são lenientes demais, severos ou autoritários, ausentes citando alguns exemplos. Confesso que fico impressionado com a inabilidade dos pais em relação aos filhos nos tempos atuais. Cito não apenas a falta de limites, mas a ausência principalmente de um diálogo mais robusto que toque e convença a criança. Vou dar um exemplo, pensemos na criança que reluta em fazer suas obrigações mínimas tais como o dever de casa ou arrumar simplesmente seu quarto. Quando chega ao final de semana a criança ou o adolescente pede para sair ou ir a algum evento social, daí se segue as brigas e os pais jogando na cara todas as falhas do menor. Tal atitude é improfícua, pois não atinge o psiquismo profundo, apenas uma estrutura de regras que a criança reluta em cumprir. Haveria a necessidade de a criança ser tocada, e isso só acontecerá quando os pais da forma mais calma e equilibrada do mundo aprender a interpretar e devolver para a criança seu modelo psíquico dizendo enfaticamente: “você pretende ser um adulto no final de semana com total liberdade e autonomia, mas durante toda a semana se comportou como criança e até bebê, não dando conta das atividades mais básicas do dia a dia, o que acha dessa brutal contradição?” Certamente se teria resultado melhor se tal fala fosse posta em prática.
Mas vamos a pergunta centra do texto: quando funciona realmente a terapia de casal? Confesso que levei anos para responder precisamente tal questão. Inicialmente achava como a maioria, que o objetivo era resolver conflitos das mais variadas procedências tais como: infidelidade, distúrbios de relacionamento, conflitos com os familiares do casal, sexualidade dentre outros. Embora a terapia de casal essencialmente seja para isso, ainda não é seu mais alto ponto. Também descobri que se o terapeuta se concentrar apenas nisso poderá se frustrar com um possível abandono do tratamento seja por resistência das pessoas em questão ou por motivos financeiros. O auge e objetivo máximo da terapia é simplesmente expor questões de caráter, comportamento, afetividade, amizade ou raiva, rancor ódio e disputa de poder. A partir desse ponto veremos qual é o verdadeiro preparo do casal para lidar com tudo isso, e quanto estão dispostos ao treino para tal empreitada, qual seu maior compromisso quando estão juntos. Descobri também que só se curam embora não goste do termo, prefiro a palavra avançar, àqueles que sempre tiveram um grande comprometimento afetivo desde o início apesar de todas as intempéries, o casal que sempre verdadeiramente se amou esse é o termo irá superar qualquer obstáculo, e procura o terapeuta justamente para preservar esse amor, e não apenas aqueles que procuram a terapia apenas pelo pânico de uma separação ou o medo da solidão, coisas que dizem apenas de um apego neurótico perante uma relação falida. Décadas como terapeuta de casal me ensinou que não adianta nada uma boa interpretação acerca de um mecanismo psíquico, valendo muito mais o despojamento de ambos para admitirem erros ou seus pontos egoístas. Até hoje me impressiona como alguém que diz amar o outro pode ser tão arrogante. É nesse ponto que podemos discutir a célebre frase de que por trás do amor caminha o ódio, verdade? Uma mentira abjeta, nunca uma coisa teve nada a ver com a outra, o ódio numa relação provém de um suposto investimento em alguém que não correspondeu ou insiste em não fazê-lo. O problema do investimento afetivo, e poucos se deram conta é que o mesmo aciona uma imensa ambição pela correspondência, isso é mais do que humano, mas devido à carência ou mágoa ao invés da pessoa lidar com tais questões, simplesmente se deixa arrastar no turbilhão do ódio. Obviamente todos querem ser correspondidos, mas a maioria parece que não está atenta ao fato de que se o outro é capaz de fazê-lo, ou que talvez um ou ambos não consigam admitir uma escolha errada.
A prova máxima se o casal deve permanecer junto, é quando juntamente com o terapeuta exploram um ponto extremamente negativo e fazem do mesmo um farol de motivação e de perseverança, sentindo que depois de tal elaboração não sobrou nenhum elemento de mágoa, isto sim é lutar por um relacionamento, e não as famosas frases tolas de otimismo ou fé sem nenhuma base. O ponto central é a aferição da capacidade do casal em sentir realmente a afetividade, coisa muito pouco explorada pela própria psicologia que se blindou no suposto saber profissional. Esta ciência em minha opinião deveria se concentrar única e exclusivamente no treinamento para quem procurasse a terapia jamais temesse o descrito, a troca profunda entre dois seres, infelizmente a prioridade ainda é uma análise de caráter totalmente individualista e desprovida de uma tônica de casal ou familiar. Outra questão que se coloca é quando encontramos um casal muito perto de uma normalidade rara, onde conseguem esse encontro amoroso, sendo assim, qual seria a responsabilidade de quem realmente recebe o amor? Troca, gratidão, compaixão? Talvez, mas creio que a coisa nesse ponto se torna muito maior, não apenas em relação ao parceiro, mas toda a responsabilidade de perpetuar este relacionamento raro perante todos os ataques de inveja e ciúmes do meio circundante. Esse tipo de casal conseguiu uma proeza perante a maioria, não se tornando anti-social um contra o outro, coisa mais do que comum na prática clínica. Por falar na mesma, há certa lenda que impede muitos de recorrerem à terapia de casal, por achar que a mesma fatalmente levará à separação do mesmo. Isso é uma bobagem plena, por mais inabilitado que seja um terapeuta, jamais o mesmo teria um poder maior do que toda a história e momentos marcantes de um relacionamento. O que pode acontecer, é que o processo terapêutico depois de várias tentativas infrutíferas de reconciliação e apaziguamento, revele que a relação apesar de todo o apego foi uma escolha errônea perante divergências de caráter, personalidade e ideologia, aliás, esta é a função máxima da terapia de casal, ser um tomógrafo completo acerca da convivência entre ambos. 

Mas também há uma questão maior que não posso me evadir em nossa realidade. Perante tanta problemática nos relacionamentos, tais como: infidelidade e traição, falta de afetividade e compromisso, decepções de todo o tipo; qual então será o modelo de uma futura relação? Lamento o pessimismo, mas o futuro será o que já estamos vendo agora, relacionamentos baseados na mais pura perversão sexual ou de caráter, onde um ou ambos jamais se sentirão preenchidos na relação, buscando seja outros parceiros abertamente ou veladamente, ou de comum acordo. Ou então o cenário será a simples satisfação dos impulsos sexuais sem nenhum tipo de comprometimento, uma coisa bem diferente de o famoso ficar, pois poderá haver paixão, interesse, mas sem o estabelecimento de normas fixas para a relação. O que poucos percebem é que esse quadro coloca na mais pura provação o próprio sentido da relação, será que somos capazes de amar, ou vamos nos esconder nessa simples tese entre monogamia ou poligamia? Queremos realmente a família que tanto se defendeu nos ambientes religiosos ou morais? Queremos o complemento com o outro ou a mera satisfação de nossas fantasias individuais? Não se trata aqui de impor nenhum argumento ou tese moralista, pois acreditem que para mim tanto faz se a pessoa tem consciência de sua escolha ou comunicou ao seu parceiro seu mais profundo caráter, o que quero deixar imensamente sublinhado, é que tal questão não diz apenas de uma perversão ou não como coloquei, mas que o quadro caótico descrito diz se realmente estamos gostando de si mesmos, ou se tudo isso é um ódio projetado contra o desgosto da vida moderna econômica e afetiva, que se parasitaram por completo. O que é um relacionamento? Um dia dois se encontraram, tiveram prazer em várias áreas e desejam a continuidade baseada não apenas no respeito, pois isso é simplório, mas, sobretudo no compromisso de cada qual ter a eterna responsabilidade pela satisfação do outro, ao contrário do perverso, que gosta apenas da variação incessante de objetos afetivos ou sexuais. Obviamente não estou dizendo que alguém que almeja a separação seja um perverso, que só queira daqui em diante “curtir a vida”, mas que no fundo a separação é um ato de amor para quem o perdeu na relação e aceita a aventura de tentar encontrá-lo adiante, mas com o compromisso severo de nunca de nunca desistir.
Todos sempre me perguntam quando é possível uma melhora efetiva da relação, em termos dos mais dramáticos problemas, tais como: infidelidade e traição, perda da libido sexual, problemas com familiares. Para responder sucintamente diria que uma infidelidade só se cura se a mesma foi perpetrada quase que acidentalmente, ou por digamos assim um grande vazio carencial da pessoa em questão, se foi como uma vingança contra o parceiro como já disse em outros textos, a chance de reverter o processo é mínima. Sobre a sexualidade a coisa é um tanto mais simples, a terapia deve aferir se a perda da libido funciona como um desejo para uma futura separação, um desejo perverso por ter mais parceiros ou simplesmente um problema de fundo psíquico do sujeito em questão, a análise precisa desses componentes nos dirá sobre a chance de salvarmos a relação. Sobre problemas com familiares, devemos analisar o grau de maturidade dos pacientes, se abraçaram a nova família com o parceiro ou filhos, ou se ainda estão presos em sua família pretérita, desejando salvaguardar sua infantilidade e dependência. Ainda devemos averiguar o grau de disputa ou inveja dos pacientes em relação aos seus familiares e vice-versa, para sabermos precisamente quem ou quais elementos estão sabotando a relação. Todos sempre dizem acerca do enjôo ou esvaziamento da relação depois de alguns anos será que a coisa é tão definida assim? Assim como em outros processos biopsíquicos, penso que é um erro pensar dessa forma. Sempre advoguei sob pesadas críticas que jamais alguém se cansa de um hobby, alimento ou determinada diversão, pelo contrário, os incrementam quase que diariamente ou semanalmente, porque seria o contrário com a pessoa que se escolheu? Claro que muitos dirão da decepção, que tinham uma imagem do parceiro que simplesmente se esvaneceu. A resposta é simplória demais, devendo novamente lembrar as armadilhas de uma relação: competição, inveja, disputa de poder e timidez. Obviamente perante alimentos ou prazeres pessoais tais elementos não ameaçam a consecução do prazer individual. Devemos ainda separar duas vertentes básicas, normalidade e perversão. O indivíduo sadio experimente o objeto amado e tenta repetir dita experiência através do processo longo do convívio. O perverso experimenta esse prazer, quer repeti-lo, porém variando desesperadamente de parceiro, como disse acima faz da ambição afetiva sexual sua meta de vida.
Mas não é apenas o perverso que sofre dessa chamada “ambição afetiva”, como disse antes é um triste sinal dos tempos a transposição de valores econômicos para a parte emocional, se boa parte das pessoas se desiludem de uma conquista material após meses ou até dias, porque tal processo político e ideológico também não iria contaminar a esfera sentimental? Simples, mas perigosamente mal debatido e compreendido. Muitos me falam da falta de amor ou o que o mesmo está quase extinto como eu mesmo digo, mas o fato é que está sendo regido pelas leis de mercado. A única blindagem contra isso é o reforço da terapia na estrutura de caráter, como um treino ou exercício físico diário para não se perder a forma, do contrário, a relação não persistirá perante tantos ataques. A essência é essa, exercício constante, e falando de relação o mesmo se dá apenas num único treino, o diálogo.

Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Drogas

Drogas: Crack: Estudo psicológico e social

Este estudo é um guia para a extrema aflição de pais ou responsáveis e amigos de pessoas que viveram ou vivem esta verdadeira tragédia moderna e nada silenciosa diria. Não irei abordar nenhum aspecto médico dos efeitos do consumo da droga, pois não seria minha área, me atendo exclusivamente aos fenômenos psicológicos. Para não perder tempo à essência de dita droga é a aceleração em todos os sentidos, uma espécie de “banda larga” de todas as drogas; o que o álcool ou outros entorpecentes levariam anos para consumir o indivíduo, esta o faz em pouquíssimo tempo. O próprio modo de uso da droga denota seu simbolismo: lata de alumínio, cinza de cigarro, tudo que podemos não apenas considerar lixo, mas ao mesmo tempo diz da frieza e falta absoluta de preocupação com qualquer aspecto da saúde, aliás o que dirá dos efeitos da exposição do alumínio no organismo. O suposto atrativo desta droga é o baixo custo da mesma (cerca de 5 reais a pedra), porém, ledo engano, já que é a droga que mais leva a perdas financeiras por incrível que pareça, pois a pessoa a fuma durante dois, três dias quase que ininterruptamente, pois o efeito dura cerca de dez minutos, então no final das contas é uma falsa imagem de droga barata, pois seu consumo é desenfreado. Na verdade o crack é a loucura potencializada do próprio sistema de consumo que talvez inveje o mesmo, um produto para ser consumido diariamente, apelando de todas as formas possíveis para obtê-lo.

O perfil do usuário da droga passa essencialmente pela solidão, já que boa parte dos usuários gosta de consumir a droga sozinhos, em hotéis ou motéis, a não ser que não tenham recursos para o mesmo, consomem em grupo. A quase ausência de cheiro da droga (levemente borracha queimada), facilita seu uso em quase qualquer local, este é um dos fatores que também ajudou a disseminar tal entorpecente. Inicialmente a droga como disse era consumida quase que por indigentes digamos, (nos estados unidos é conhecida como a cocaína dos mendigos), para após se disseminar em todas as classes sociais; o fato é que guardando as devidas proporções, é uma droga que leva o individuo `a total mendicância, mantendo parece seu rótulo de origem. Diz-se que vários outros tipos de drogas induzem ao uso do crack, tipo maconha e álcool. A afirmação é absolutamente verdadeira, pois se ativa uma euforia que é a base para o início do consumo do crack, adiante irei discorrer sobre esse ponto. O fato é que repetindo o que disse tudo leva a aceleração em nossa sociedade, seja o crack que irá matar mais rápido, anabolizantes, sites de namoro que aceleram os relacionamentos, cortando fases cruciais dos mesmos, cirurgias de estômago para apressar regimes, então se criou também uma droga acelerada em todos os aspectos (dependência e efeitos colaterais).

Alguns pais cujos filhos são dependentes de crack me disseram incrivelmente que um dia gostariam de experimentá-lo a fim de entender tanto amor e dedicação perante a droga. Isto é mais uma prova do devastador poder desta droga, pois ao contrário de outras arrasta quase que todos para seu redemoinho malévolo. O crack é o resto de cocaína misturada com bicarbonato de sódio, amônia e água destilada que resulta nas pedras que são fumadas no cachimbo ou lata; nesta última se amassa a mesma, se coloca cinza de cigarro junto com a pedra, se fazendo orifícios na lata, se acende e a pedra vai se consumindo e o usuário traga a fumaça pelo bocal. É cerca de 6 a 10 vezes mais forte que a cocaína, fazendo o efeito para o cérebro em apenas 15 segundos após a inalação; causa aumento de pressão, suor intenso, aceleração dos batimentos cardíacos, insônia e desnutrição quase que completa. Já é a droga mais consumida na classe média alta, em função de vários fatores (acessibilidade, quase ausência de cheiro e o baixo preço, pois a lei da economia também impera nesse setor, embora como disse seja um falseamento a droga custar pouco).

Os usuários relatam em boa parte dos casos sentirem idéias ou delírios paranóicos que vão ser flagrados consumindo o crack, ou puras idéias de perseguição ou que serão assassinados; tais fenômenos também ocorrem com outras drogas, mas parece que a paranóia é o ponto crucial desta. Outro fator preponderante é que o consumo quase sempre foi motivado anteriormente por um suposto estado de euforia, como se a sensação de felicidade empurrasse o usuário para o consumo do entorpecente. A verdade é que a droga é a tentativa mais tresloucada de perpetuar algo impossível, um eterno estágio de satisfação ou êxtase. Taxativamente digo que o usuário desta e de outras drogas sofre de transtorno bipolar ou a antiga síndrome da dupla personalidade. Por um lado todos notam que são pessoas extremamente amáveis, sedutoras, agradáveis, sendo que todos desejam sua convivência ou companhia. São doadoras por natureza, cordiais, ajudam os mais necessitados e solícitos no infortúnio alheio. Mas a droga rapidamente revela sua outra faceta de crueldade, egoísmo e pouca relevância com o sofrimento dos familiares e amigos. O estado de drogadicção faz com que toda a agressividade latente venha à tona; usando a própria simbologia do crack, é como uma lata que colocássemos dentro do mar para retirar a areia do fundo, no caso todos os instintos caóticos e destrutivos que um ser humano pode vivenciar. A questão social e psicológica pouco debatida em relação aos entorpecentes, não é necessariamente uma droga em questão, mas que a coisa se assemelha ao desenfreado consumo tecnológico, ou seja, qual será a grande novidade de um televisor ou aparelho eletrônico, e paralelamente o que virá após cocaína, crack ou outros entorpecentes? O mecanismo é o mesmo e todos tem de estar atentos para tal fenômeno. Que qualquer droga é nociva já é mais do que um apanágio na literatura médica, a grande questão é o porque sempre determinado problema se reveste de uma capa ou roupa nova; imitação do modelo de consumo é claro.

Qualquer tentativa de tratamento passa inicialmente pela compreensão mais do que profunda que se criou com a droga um deus corruptor, que lhe fornece um prazer onde o preço é inquestionável: a total escravidão psíquica e física da pessoa. Um outro problema muito sério na questão da droga é o conceito da chamada co-dependência. Esta é via régia consciente e inconsciente que mais alimenta pelo lado psíquico a permanência da drogadicção. São os familiares ao redor do drogado que sob a justificativa de estarem imersos no problema, acabam tirando uma vantagem absolutamente neurótica da situação. Necessitam do cuidar do outro como um farol para sua vida que até então estava pacata ou sem sentido. Há uma espécie de pacto com o sofrimento, pois o mesmo desvia todo o foco da atenção de problemas pessoais e existenciais não resolvidos. Quantos pais na vivência clínica que observei atuavam tal fenômeno, principalmente ao vê-los dando dinheiro ao filho mesmo sabendo que o mesmo iria consumir drogas, com a desculpa de evitar que caísse na marginalidade, ou ainda quantos tratamentos não observei serem interrompidos quando se diagnosticou que algum familiar também deveria se submeter a uma psicoterapia. A co-dependência apesar de todo o infortúnio dá vida e preenchimento para aquela pessoa que se encontrava ociosa do ponto de vista psicológico, é também uma posse e apego sobre o outro, sendo a certeza de que apesar de tudo o que está vivenciando poderia talvez adiar o confronto com sua solidão pessoal ou carência, por isso a entrega plena para o problema do filho ou parente.

Outra essência psicológica da co-dependência fica bem evidente: necessidade de regressão a estágios primários ou infantis de cuidado ou amparo por parte do usuário, e reconquista de um poder absoluto sobre a pessoa por parte dos familiares. É um retorno à fase oral no drogadicto com aquele imenso prazer de sucção sentido quando era bebê, acompanhado de um familiar nas necessidades anteriores ou posteriores desse estágio. É imensa a sedução de regredir a uma etapa onde necessitará de cuidado extremo, e do outro lado à sobrevivência do drogado dependerá quase que inteiramente dos responsáveis ou familiares, esse é o traçado exato da co-dependência, voltar ao vínculo de outrora, só que por um lado totalmente trágico ou neurotizado. Sem dúvida a conseqüência de todo esse processo é a doença que se instalará em todos que participam disso.

Mas afinal de contas quais os substratos inconscientes que reforçam a compulsão? Agressividade, solidão, narcisismo, carência, timidez. Fica difícil dizer qual deles é preponderante. Em quase todos os usuários a agressividade e revolta latente sempre foram à tônica de seu psiquismo. A solidão juntamente com a carência forma o repertório psicológico do sujeito; a timidez é sempre freqüente, odiando falar de si próprio, aliás esta última é um ícone da maioria dos usuários do crack ou outras drogas, pois o dito entusiasmo, euforia ou alegria que poderiam ser compartilhados com alguém, são totalmente “privatizados” numa esfera química, compulsiva, doentia e totalmente individualista. O narcisismo também é um grande aliado do problema, sendo que a maioria dos usuários sofre desse distúrbio, seus familiares conhecem muito bem os sintomas: arrogância, prepotência, teimosia, falar demais e escutar pouco, provocações dentre outros. Afora esse histórico narcisista podemos inferir que se vangloriam por sensações únicas que a droga lhes proporciona, uma espécie de xamã às avessas em nosso cotidiano.

O crack sob a ótica psicológica é escolhido principalmente por aquelas pessoas que apresentam um caráter extremamente narcisista como disse, mas o leitor deve se perguntar porque uma droga tão “suja” possa ser referência para tal personalidade? Exatamente pela dialética da questão, alguém com extremo orgulho ou vaidade se lança no mais profundo abismo de perder tudo o mais rapidamente possível, o famoso processo da compensação ou contradição agindo sempre de forma inconsciente. Esse é exatamente o poço de todos que se aventuram em tal empreitada, achando que teriam o controle sobre algo tão macabro, é o erro mais mortal de todos e até ingenuidade, pois se nem com o álcool a pessoa consegue uma parceria equilibrada, o que dirá de algo que é o resto de uma química tão destrutiva. Voltamos ao narcisismo principalmente da juventude achando que poderia desafiar aquilo que não tem nenhuma competência para lidar, essa é outra questão psíquica da droga, se testar, desafiar e depois ficar totalmente preso na armadilha. A conseqüência psicológica mais nefasta que observei nos usuários do crack é a amplificação ao extremo da ansiedade. Mesmo nas raras ocasiões onde se encontram sem o uso, seu comportamental delata a todo o instante dito fenômeno, não conseguindo a concentração e eficácia para qualquer tipo de projeto ou raciocínio, ou seja é uma droga que continua agindo quase que indefinidamente, não importando num dado momento se há ou não o consumo, mas sobretudo a persistência dos sintomas; é um processo um tanto diferente da crise de abstinência alcoólica, onde há a falta mas não existe tanto o efeito, no crack não dá para diferenciar o que é a dita crise e o efeito propriamente, e sempre o condutor disso tudo é a extrema ansiedade. O crack na própria definição de alguns usuários é a “raspa mais profunda de um lixo produzido pelo capeta”, o fato interessante também segundo os usuários é o clima não só de terror ou paranóia descritos anteriormente, mas a imensa carga negativa criada pela droga, já que diversas pessoas morreram brutalmente na cadeia de produção e venda da mesma. Este fato do clima circundante perante a droga é novo e deveria ser objeto de um estudo mais aprofundado.

O drogado sem nenhuma sombra de dúvida é uma pessoa sensível, sendo que a droga era sua esperança de tentar algo diferente, uma ruptura com o horror do tédio diário em nossa sociedade. Além do fracasso de tal meta, há ainda um elemento pior que o mesmo nunca se dá conta, de que sua doença conseguiu até atrair a solidariedade e compaixão de seu meio, o que seria precisamente a cura para qualquer tédio, mas infelizmente a nuvem de entorpecimento em sua percepção não lhe permite que visualize tal fato. Um outro problema em relação aos familiares é o forte sentimento de inveja desenvolvido por alguns irmãos por terem a certeza de estar se privilegiando uma pessoa que a despeito de todo o sacrifício depositado, não consegue não apenas ser grata, mas que também não estabelece mais nenhum tipo de vínculo, excetuando com a droga. Não se pode falar de cura para o crack, justamente por ele ter sido eleito como algo divino na estrutura psíquica do usuário. Assim como jamais se pode destruir o conceito de deus, na droga se dá o mesmo justamente pela religiosidade que a mesma contém ao reverso. Não há qualquer prova científica do uso de drogas poder ser genético, o que há no início é um distúrbio psíquico que levou ao uso para depois se tornar um fator químico. 

O tão alardeado conceito da curiosidade de experimentar uma droga é totalmente limitado do ponto de vista psicológico. Pois esta pessoa com a curiosidade geralmente é um adolescente carente, solitário ou com forte complexo de inferioridade, ou então alguém como disse extremamente narcisista onde sua ousadia faz a escolha pela “banda larga das drogas” já nas primeiras vezes. É preciso não se criar mitos, ninguém tem curiosidade de chegar perto de uma cobra extremamente venenosa, a não ser que queira um exibicionismo suicida. Qualquer curiosidade quanto a algo que interfere na mente do sujeito denota de cara um problema mal resolvido do ponto de vista psíquico, e é importante todos saberem disso, pois do contrário estaríamos romantizando o uso da droga. Outro mito é que a droga é uma fuga dos problemas do cotidiano, ninguém poderá se furtar das adversidades da vida, e todos tem consciência disso. A droga é uma muleta para alguém que num determinado ponto assumiu ou sentiu-se derrotado, ou não soube elaborar sua revolta pessoal, ou ainda que teima em que seu meio fosse exatamente o modelo que tem em sua mente. Quando ouvimos aquele famoso relato que necessitou da bebida ou qualquer outra coisa para aliviar um pouco a timidez, a esfera mental da pessoa já sabe que se encontra na perda ou com um sério problema que não consegue resolver, assim sendo a droga passa a ser a válvula de escape para o não confronto com o mais puro medo, pois insisto que a pessoa já sabe de antemão que não iria efetuar tal projeto sonhado, não é a fuga, mas dissimular seu complexo de inferioridade.

O problema da suposta cura das drogas, não passa apenas pela dificuldade de superação do pólo químico, mas poucos perceberam que a droga é um catalisador ao extremo do apego e medo da mudança, sendo o atestado máximo da descrença em algo diferente, um alinhamento da neurose obsessiva compulsiva com uma rotina de caos. Na seqüência elaborei alguns passos apenas do ponto de vista psicológico, uma espécie dos 12 passos do AA estritamente psíquico como disse, para que usuários e familiares reflitam talvez com um profissional toda a problemática.


1) Aceitar que sua busca inicial pelo crack ou qualquer outra droga foi motivada não apenas pela curiosidade ou embalo, mas nasceu do espírito competitivo do sujeito, além do forte desejo de infringir limites, revolta (contra a família ou o meio social), solidão, comparação, tristeza e inveja perante algo material ou pessoal. A droga sempre irá representar um conflito psicológico assumido ou não.

2) A extrema necessidade de consumo cresceu em paralelo ao absoluto fracasso e indolência de sua vida pessoal, e a droga representa a potencialização de um comodismo na sua rotina de infelicidade e destrutividade.

3) A falta de tentativa para uma recuperação está associada à sua profunda insensibilidade em relação às pessoas que realmente gostam e se importam com o indivíduo, e tal desleixo se torna um instrumento sádico contra si próprio e seu meio.

4) A busca pela droga representa a timidez ou incapacidade de troca do sujeito, privatizando determinado prazer de forma alucinatória, se recusando a satisfação no plano real.

5) O drogado nunca almejou depositar a confiança em alguém, por arrogância ou prepotência, tais fatores inibem verdadeiras ações de ajuda ou restauração.

6) O drogado é um imenso narcisista, e tal característica sempre o levou a extrapolar qualquer senso de limite, isso se torna um aliado em sua extravagância que apenas trouxe dor e sofrimento para seus familiares e amigos.

7) Sua ambição desmedida contraditoriamente o leva a perder tudo, não apenas em função da droga, mas acaba forçando também que seu meio invista tudo apenas nele, não bastasse esse egoísmo não assimilado pelo sujeito, o mesmo nunca tem o valor real das coisas, a regra é apenas obtê-las, não importando se terão ou não uma duração. Notem que boa parte dos drogados tem como peculiaridade serem talentosos ou com espírito empreendedor, porém acabam sempre no fundo do poço por não refrearem seus instintos megalomaníacos.

8) Perceber que a ansiedade sempre foi à alavanca mestre para o início do comportamento de drogadicção, e o fracasso em controlar a mesma é nunca ter feito realmente um inventário psicológico sobre suas reais necessidades ou desejos, estes sempre foram difusos no decorrer de sua história de vida.

9) Perceber que a palavra “cura” não tem nenhum significado no caso da droga, já que será um espírito ou entidade que rondará seu psiquismo até o final de sua vida, assim sendo, o projeto para a melhora passa por a cada dia sabotar a primazia e hegemonia do vício.

10) Sendo novamente enfático, a compulsão é quase que incurável, desse modo o próprio indivíduo deverá fazer a transposição da mesma para atos e comportamentos que o beneficiem, e contar com a ajuda de si mesmo e profissional de que conseguirá tal empreitada.

11) Quando sair de uma internação ou estiver “limpo”, amplificar ao máximo a sensação de bem estar que a ausência da droga fornece e perceber como é valioso tal momento. O fato é que se a droga era uma religião, tem agora de cultivar essa devoção no sentido contrário, exaltando diariamente sua capacidade de recuperação e mudança.

12) Este talvez seja o princípio mais simples e o mais importante, saber que sozinho jamais conseguirá superar tal dificuldade, pois a droga é como a imagem de um lutador profissional contra um amador, assim sendo necessita-se de ajuda ou mais pessoas para lutar contra tão forte oponente, enfim, o orgulho ou arrogância contra um adversário com o dobro da capacidade só levará o indivíduo à derrota.

13) Perceber como a mentira foi sempre à substância mais aderente na problemática da droga, e que deve lutar diariamente para não se utilizar a mesma seja em qualquer área, pois assim como algumas drogas levam a outras, a mentira certamente pavimenta sempre uma estrada para a recaída.

14) Novamente falando em ansiedade perceber as seqüelas da mesma em atitudes ou comportamentos diários, e ter consciência de que quanto mais tentar uma hegemonia ou imposição de seus conceitos ou idéias, mais poderá voltar ao estado de outrora, pois outro conceito da droga é a insistência de um passado comportamental do ponto de vista psicológico. 

Texto totalmente produzido pela experiência clínica do autor.

Texto de Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Criminoso e o Crime

No conceito que geralmente se faz do mal, sob seus vários aspectos, confunde-se o mal, propriamente dito, com aquele que o pratica.

Dessa lamentável confusão advêm não pequenos erros de apreciação, quanto à maneira eficiente de combater-se o mal.

Para bem agirmos em prol do saneamento moral, precisamos partir deste princípio: o crime não é o criminoso, o vício não é o viciado, o pecado não é o pecador, do mesmo modo e pelo mesmo critério que o doente não é a doença. Assim como se combatem as enfermidades e não os enfermos, assim também se devem combater o crime, o vício e o pecado, e não o criminoso, o viciado e o pecador.

O mal não é intrínseco no indivíduo, não faz parte da natureza íntima do Espírito; é, antes, uma anomalia, como o são as enfermidades. O bem, tal como a saúde, é o estado natural, é a condição visceralmente inerente ao espírito. Um corpo doente constitui um caso de desequilíbrio, precisamente como um espírito transviado, rebelde, viciado, ou criminoso.
Há tantas variedades de distúrbios psíquicos quantas de distúrbios físicos, aos quais a medicina rubrica com variadíssimas denominações. A origem do mal, quer no corpo, quer no espírito, é a mesma : infração das leis de higiene.

O homem frauda essa lei por ignorância, por fraqueza e, finalmente, pelo impulso de certas paixões que o dominam. Não devemos votá-lo ao desprezo por isso, nem, muito menos, malsiná-lo como réprobo, pois, em tal caso, se justificaria tratar-se de igual modo os enfermos.

Aliás, em épocas felizmente remotas, se procedeu assim com relação aos enfermos de moléstias infectuosas. Esses infelizes eram tidos como vítimas da cólera divina e, por isso, perseguidos desapiedadamente pela sociedade.

A ignorância torna os homens capazes de todas as insânias. Pois é essa mesma ignorância, com referência aos transviados da senda nobre da vida, que gera a repulsa e mesmo o ódio contra os delinquentes. Os velhos códigos humanos, assim civis que religiosos, foram vazados nos moldes dessa confusão entre o ato delituoso e o seu agente.

Quando Jesus preconizou o — amai os vossos inimigos; fazei bem aos que vos fazem mal — não proclamou somente um preceito altamente humanitário, proferiu uma sentença profundamente pedagógica e sábia. A benevolência, contrastando com a agressão, é o único processo educativo capaz de corrigir e regenerar o pecador.

Cumpre notar, e o declaramos com toda a ênfase, que nada tem esta doutrina de comum com o sentimentalismo piegas, estéril e, às vezes, prejudicial. Trata-se de repor as coisas nos seus lugares.

Para varrer-se o mal da face da Terra, é preciso que se apliquem métodos naturais, conducentes a esse objetivo. O método natural é a educação do espírito. Com o velho sistema de castigar, ou eliminar as vítimas do crime e do vício, nada se logrará de positivo, conforme os fatos atestam eloquentemente.

A medicina jamais pensou na eliminação dos enfermos; toda a sua preocupação está em curar as doenças. Pois o processo deve ser o mesmo, em se tratando dos distúrbios que afetam o moral dos indivíduos.

Felizmente, os primeiros pródromos de uma reforma radical neste sentido já se observam nos meios mais avançados. O único castigo capaz de produzir efeito na regeneração dos culpados é o que se traduz pela natural consequência dolorosa do erro ou mal cometido, consequência que recai fatalmente sobre o culpado. É necessário fazer que o delinquente reconheça esse fato, e isto se consegue por meio da instrução moral.

Toda punição imposta de fora, como revide social, é contraproducente, conforme os fatos, em sua irretorquível expressão, têm comprovado mil vezes.

É muito fácil encarcerar ou eletrocutar um criminoso. Educá-lo é mais difícil, mais trabalhoso, demanda esforço, tempo, saber e caridade. Por isso, o Estado manda os criminosos à forca e as religiões remetem os pecadores, que não são da sua grei, para o inferno.

Mas, se aquele é o único processo eficaz, procuremos empregá-lo, e não este, anticientífico, imoral e cruel.

A educação vence e previne o mal. O homem educado conhece o senso da vida, age conscienciosamente com critério, com discernimento: é um valor social. É pela educação que se hão de vencer os vícios repugnantes (haverá algum que o não seja?), que se hão de domar as paixões tumultuarias que obliteram a inteligência e a razão. E, de tal modo, sanear-se-á a sociedade.

Retirem-se os delinquentes do convívio social, como se faz com o pestoso que ameaça a salubridade pública; mas, como a este, preste-se àquele a assistência que lhe é devida: educação.

E não se suponha, outrossim, que só os criminosos devem ser educados. A obra de educação é obra de salvação, é obra religiosa em sua alta finalidade, é obra científica e social em sua expressão verdadeira. Eduquem-se a todos, cada um na sua esfera, até que a educação se transforme, em cada indivíduo, numa auto-educação contínua, ininterrupta.

Na educação do espírito está o senso da vida, está a solução de todos os seus problemas.

Vinícius

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Perante a Consciência

A verdade divina penetra-me e transforma-me.
Ao deixar-me impregnar, renovo-me, e todas as acusações que me fazem os
frívolos e maus não me atingem, não me perturbam.
Permito-me seguir a trilha da libertação com entusiasmo e paz.
A verdade divina inunda-me a consciência. Penso e ajo com correção. 


Entre os flagelos intimos que vergastam o ser humano, produzindo inomináveis aflições, a consciência de culpa ganha destaque.
Insidiosamente instala-se e, qual ácido destruidor, corrói as engrenagens da emoção, facultando a irrupção de conflitos que enlouquecem.
Decorrente da insegurança psicológica no julgamento das próprias ações, abre um abismo entre o que se faz e o que se não deveria haver feito, supliciando, com crueza, aquele que lhe sofre a pertinaz perseguição.
Considerando a própria fragilidade, o indivíduo se permite comportamentos incorretos que lhe agradam às sensações para, logo cessadas, entregar-se ao arrependimento autopunitivo, com o qual pretende corrigir a insensatez. De imediato, assoma-lhe a consciência de culpa, que o perturba.
Perversamente, ela pune o infrator perante si mesmo, porém não altera o rumo da ação desencadeada, nem corrige aquele a quem fere. Ao contrário, não obstante cobradora inclemente, desenvolve mecanismos inconscientes de novos anseios, repetidas práticas e sempre mais rigorosa punição ...
Atavismo de comportamentos religiosos, morais e sociais hipócritas, que não hesitavam em fazer um tipo de recomendação com diferente ação, deve ser eliminada com rigor e imediatamente.
O que fizeste não mais podes impedir ou evitar.
Disparado o dardo, ele segue o rumo. Avaliza, desse modo, seus efeitos e repara-os, quando negativos.
Se a tua foi uma ação reprochável, corrige-a, logo possas, mediante novas atividades reparadoras. .
Se resultou em conflito pessoal a tua atitude, que não corresponde ao que crês, como és, treina equilíbrio e põe-te em vigília.
Fraco é todo aquele que assim se considera, não desenvolvendo o esforço para fortalecer-se.
Quando justificas o teu erro com auto-flagelação reparadora, logo mais retornarás a ele.
Propõe-te encarar a existência conforme é e as circunstâncias se te apresentam.
Erradica da mente as idéias que consideras impróprias, prejudiciais, conflitivas. Substitui-as vigorosa mente por outras saudáveis, equilibradas, dignificantes. Quando não dispões de um acervo de pensamentos superiores para a reflexão, vais colhido pelos de caráter venal, pueris, perniciosos, que se te fazem familiares, impulsionando-te à ação correspondente .
Toda realização se inicia na mente. Desenhada no plano mental, vem materializar-se ao primeiro ensejo.
Pensa, portanto, com correção, liberando-te das idéias malsãs que te gerarão consciência de culpa.
Sempre que errares, recomeça com o entusiasmo inicial. A dignidade, a harmonia, o equilíbrio entre a consciência e conduta têm um preço: a perseverança no dever. Se, todavia, tiveres dificuldade em agir corretamente, em razão de a atitude viciosa encontrar-se arraigada em ti, recorre à oração com sinceridade, e a Consciência Divina te erguerá à paz. 
Joanna de Ângelis

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Poder

"O ambicioso pelo poder no fundo detesta sua vida, suas ações apenas visam deixar uma marca para a posteridade, revelando dessa forma sua ira contra a mortalidade e finitude ". - ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO

"Um dos maiores problemas de personalidade de nossa era é a rejeição ou frustração, o estudo do poder deveria ser uma medida para enxergarmos nossas virtudes e defeitos. Procuramos na vaidade, beleza ou sucesso, o poder, porém jamais seremos realmente reconhecidos dessa forma, pois tudo isso é absolutamente finito e putrefato, a essência do verdadeiro e genuíno poder é transferência e doação, alguém carregar ou sentir sua experiência, crescer com a mesma, pois dessa forma jamais deveríamos ter sentido solidão ou angústia ." ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO

É indiscutível a contribuição que a psicologia deu no tocante a sexualidade. Como estaríamos em termos de prazer sexual se não fossem as pioneiras contribuições de FREUD E WILHEM REICH? * Talvez nem pudéssemos usar o termo prazer, sendo que o surgimento da psicanálise através de FREUD desvendou a era das trevas na qual a sexualidade humana estava mergulhada. Pensem num casal da idade média, e se seria possível discutir a relação sexual de ambos ou suas fantasias, nesse sentido, embora com toda a prudência exigida, diria que a psicanálise foi uma das únicas manifestações durante séculos, a desvencilhar a sexualidade do papel puramente reprodutivo e biológico, e seria interessante se estudar as conseqüências disso. Um outro psicólogo ERICH FROMM colocou com muita propriedade que a revolução dos costumes sexuais e sociais de nosso século, não foi gratuita, mas que o preço que a sociedade moderna pagou e paga por essa caminhada é a ansiedade e angústia, pois no modelo feudal havia a segurança da estratificação de papéis pessoais e sociais rígidos, e nos tempos atuais parece que a única certeza é a ansiedade citada pelo autor. 

Embora FREUD no final de sua vida afirmasse que a repressão do componente sexual, seria o fator gerador da cultura, ele mesmo observou durante décadas os malefícios que um instinto sexual reprimido causava na psique humana. A elaboração das mais primitivas fantasias sexuais pelo paciente, o libertava dos grilhões da neurose ou comportamento obsessivo, permitindo a fluidez do amor e trabalho, os pontos que definiam o homem normal segundo FREUD. 

Nenhum estudioso das ciências sociais negaria a importância de se estudar um instinto e seu impacto na alma humana, porém no caso da psicologia a primazia da sexualidade abafou outros elementos tão ou mais dinâmicos do que a primeira. Cito a questão do desejo de poder, praticamente ignorado, exceto pelo psicólogo ALFRED ADLER pioneiro e único estudioso das manifestações do poder no comportamento e psique humana.
Pois bem, por que então o componente do poder não foi tão esmiuçado quanto à questão sexual? A resposta é um tanto simples, mas aterradora, pois descobriremos uma gama enorme de interesses desde políticos, ou então a não revelação das raízes de nosso ser. Quando ADLER falou de poder e a conseqüente sensação de inferioridade ou superioridade que o mesmo produz, estava se referindo ao topo das relações humanas, ou seja, o modo como nós vivemos diariamente e como gostaríamos ou deveríamos viver. Qual instinto humano afora o poder, poderia nos proporcionar a solução ou pelo menos a minimização dos piores problemas sociais do mundo tipo: fome, distribuição das riquezas, direito a um futuro? Pois é exatamente pelo fato do poder passar por todo o acima descrito, que não é amplamente estudado, fixa-se então apenas a periferia dos problemas psíquicos, sendo que sofremos por coisas que achamos estritamente pessoais, sem nos darmos conta da amplitude social desse sofrimento. 
ADLER salientava que por debaixo da esfera sexual se escondiam os mais puros desejos de poder, então a insistência em determinado conteúdo sexualizado nada mais era do que um fator encobridor de um outro tipo de desejo. Tomemos por ex. a questão do complexo de Édipo, o desejo do menino ou menina por um de seus genitores, ADLER sabiamente enfatizou que tal complexo escondia um forte desejo da criança em ser mimada ou amparada, pois desejar sexualmente um dos pais, significava realizar todas as suas necessidades dentro do lar, inclusive a esfera sexual, sem ter que buscar alguém estranho, poupando tempo e evitando qualquer tipo de rejeição ou o que ele chamava de situação de prova.Falar que o instinto sexual é o farol da alma humana é uma metáfora que esconde outros tipos de relação social, pois ninguém precisa ser um psicólogo para saber que o grande conflito nos relacionamentos humanos não advém da satisfação sexual não realizada, mas tão somente de uma necessidade de moldar o outro frente aos nossos anseios e expectativas. Vivemos projetando aquilo que gostaríamos que o outro fosse, e nos cercamos de todas as desculpas possíveis para nunca admitirmos tal fato. Aliás, o relacionamento amoroso segundo o próprio ADLER é a prova definitiva do ser humano no tocante ao seu preparo social, é através dele que saberemos para onde o indivíduo caminha, se para a cooperação, troca, companheirismo, ou então para a competição, disputa e domínio de outro ser. 

Esse ponto central da teoria ADLERIANA remonta a questão da educação em nossa sociedade, pois a verdade é que jamais tivemos professores no decorrer de nosso desenvolvimento, que nos ensinassem uma maior preocupação com outros seres humanos, fomos sempre educados para obtermos sucesso e destaque, sendo que o ajudar alguém um pouco mais atrasado, jamais foi prioridade numa escola, sua função histórica e social acabou sendo o treinamento da competição, ambição pessoal e exclusão. Não reconhecer o poder como meta profunda da personalidade, é aniquilar todos os esforços para a busca de um ser humano melhor. Digo isso no sentido ético, pois é notório que deveríamos buscar relações de poder onde a responsabilidade fosse a ênfase, e não regalias puramente pessoais. Convencionou-se a comparar o poder com algo destrutivo ou negativo, o que é o mais grave erro, pois sem poder não há potência, não há energia, apenas uma substância amorfa, desprovida de vida. O poder na perspectiva de ALFRED ADLER era sinônimo de criatividade, a auto estima e confiança de alguém para produzir alguma coisa em benefício de outro ser, não é um estado de vaidade, mas a sensação de plenitude por se pensar e falar coisas quase que universais, a partir do momento em que nos preocupamos como estão vivendo outros seres humanos, se é que estão vivendo. 

O exacerbado estudo da psicanálise na esfera sexual, jamais nos proporcionará o descrito acima. ADLER costumava até brincar com esse tão apregoado conceito do prazer sexual FREUDIANO, dizendo que após cometer um delito, uma das primeiras coisas que um "marginal" fazia é ir a um prostíbulo. O que ADLER estava tentando dizer com isso, é que a esfera sexual jamais poderia libertar o homem de sua conduta destrutiva, pois um bandido é capaz do gozo sexual, mas jamais o mesmo pensará numa estrutura de poder que contemple a melhora da vida das pessoas. O poder quando não discutido ou elaborado em suas mais arraigadas entranhas, leva a dois estágios absolutamente destrutivos. O primeiro é a externalização de toda a carga de ódio e sede de posse, criando todo o tipo de liderança fanática ou destrutiva que a história nos revelou. O segundo faz parte do tipo de pessoa que ADLER descreveu como sendo aquela que cria sua própria neurose, a fim de obter vantagens pessoais, como exemplo, ele citava o que hoje denominamos a síndrome do pânico, em seu sofrimento, retraimento e isolamento, a pessoa acaba construindo um mundo a parte, onde manipula os outros através de sua doença, pois sua debilidade é uma arma para forçar que o meio lhe providencie amparo e até mesmo seu sustento, não arcando com suas responsabilidades pessoais, ou como descrevi acima, não passando pelo que ADLER descrevia como situação de prova, adiando possível desapontamento, frustração ou sentimento de inferioridade. Se alguém duvidar disso, pense naquele vestibulando que se preparou o ano inteiro e no dia do exame adoece, pense naquela pessoa que acabou de ser promovida e é acometida de uma inesperada crise de medo, ansiedade ou depressão. 

Caso o tema poder não esteja inserido em uma perspectiva de cooperação ou que dê um real sentido a vida, acabaremos utilizando suas partes mais perniciosas descritas acima. Se somos ensinados a competir, tirar vantagens em todos os sentidos, por que não regrediríamos a um estágio infantil, forçando outros a nos ampararem? Volto a insistir que nunca fomos treinados a sermos cooperativos, e o que é pior, o poder da solidariedade e ajuda são abordados unicamente na esfera religiosa, como se fosse algo absolutamente místico fazer o ser humano transformar seu caráter. O problema central de nossa era é o egoísmo extremamente arraigado nas nossas relações, assim sendo, o conceito FREUDIANO de normalidade-amor e trabalho, está absolutamente incompleto, pois o mesmo só diz da adaptabilidade do ser humano, ADLER enxergou de forma pioneira a necessidade do ser humano ir além, sendo que o homem normal, é aquele que apesar de toda a lição egóica, consegue transcender seu espaço puramente privado e contribui com algo para a coletividade, é deixar algo não só de útil, mas principalmente alguma coisa que reforce os laços entre os seres humanos, que mostre como a vida se torna melhor com amizade e não desconfiança, que realmente alguém seja valorizado por seus semelhantes não por ocupar um cargo especial, mas tão somente pelo seu exemplo de vida e confiança na melhora de nossa sociedade, que seu trabalho, estudo e esforço, não sejam apenas mais uma lápide erigida em sua memória, mas que possam realmente ser aproveitados e tragam benefícios concretos aos demais Seres humanos, enfim, que possamos viver sem o sentimento de nos sentirmos sempre numa terra estranha e hostil como dizia Adler. 

* WILHEM REICH- inicialmente colaborador de FREUD, rompeu com o mesmo seguindo uma linha teórica que apregoava que a luta política e social passava necessariamente pela capacidade da pessoa em sentir o orgasmo e êxtase, sendo que o indivíduo não satisfeito, era a presa favorita de regimes totalitários. 

Créditos: Texto de Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sonhos e Pesadelos


Interpretação de Sonhos e Pesadelos

Acerca de 101 anos atrás SIGMUND FREUD publicava seu histórico livro sobre a interpretação dos sonhos. Nascia nesse momento o fundamento teórico da psicanálise: associação livre de idéias ; o paciente não censurava nenhum pensamento que lhe ocorria, e a interpretação dos sonhos do paciente dentro do referencial criado por FREUD (sendo os pensamentos reprimidos sexuais seu principal objeto).

Essas noções se divulgaram amplamente no decorrer do século vinte, e não cabe nesse breve estudo levantar aspectos teóricos, mas principalmente uma comparação histórica daquilo que a psicanálise julgou ser a raiz do significado do sonho, e se tal estudo permanece válido em nosso contexto atual.

FREUD salientou basicamente que os sonhos seriam essencialmente a tentativa de realização de um desejo reprimido que se alojava no inconsciente, sendo que esse desejo seria primordialmente de natureza sexual ou encerraria aspectos proibidos pelo contexto moral, como exemplo, o incesto ou o que FREUD veio a rotular de "complexo de Édipo" (uma ligação neurótica da criança visando exclusividade na relação afetiva, sem ter que disputar com um dos pais sua atenção).

O sonho era produzido por dois elementos centrais: a "condensação e deslocamento", que respectivamente significam: recolher partes de diferentes períodos do desenvolvimento de uma pessoa, e reproduzi-las através de simbolismos que ocultassem seu verdadeiro significado, evitando que a pessoa entrasse em contato direto com o material proibido ou do qual sentia-se culpada.
 
Outras correntes da psicologia atribuíram metodologias diferentes para a análise dos sonhos, como por exemplo, o estudo do inconsciente pessoal e coletivo, formulado por CARL GUSTAV JUNG, que chamava a atenção para elementos da história da humanidade (mitos ou arquétipos) que representavam elementos coletivos da mesma, presentes em todos os seres humanos, por exemplo, a idéia da religião que é aceita praticamente em todas as culturas, bem como determinados feitos heróicos que são relatados através de inúmeras gerações. Estes elementos estão sempre presentes no psiquismo humano, determinando sua direção e resultados.
 
A essência deste estudo é enfatizar o sonho em nossa realidade atual, como foi descrito anteriormente. E seguindo esse parâmetro, gostaria de enfatizar que o sonho representa principalmente o drama histórico que o ser humano vivencia em determinada época, sendo a essência do sentimento que predomina na alma da pessoa.
 
Não podemos nos esquecer que o contexto da época de FREUD era marcado pela extrema repressão sexual, assim sendo, boa parte dos sonhos de suas pacientes reproduziam toda a miséria afetiva e sexual da época. Em nosso presente momento, qualquer psicólogo tem a clara noção de que os sonhos de nossos pacientes atuais refletem principalmente três esferas: solidão, angústia e principalmente medo.

 Todo o drama diário pela batalha num mundo de competição inveja e ambição é retratada periodicamente na elaboração onírica das pessoas. ALFRED ADLER, contemporâneo de FREUD salientou o complexo de inferioridade e superioridade, como elementos centrais da personalidade humana. É impressionante como observamos ditos aspectos nos sonhos das pessoas. O complexo de inferioridade se manifesta essencialmente através de sonhos de queda, nudez, roubo, perseguição, estupro, perda de membros do corpo, regressão a etapas anteriores, como, por exemplo, sonhar que se está de volta ao ginásio, ou outra etapa qualquer já vivenciada pela pessoa.
 
A compensação de toda essa inferioridade sentida, ou o desejo de superioridade se reproduz em sonhos do tipo: voar, viagens a lugares desconhecidos, experiências místicas de ausência do próprio corpo, contatos com seres extraterrestres, mas, sobretudo em sonhos onde a manipulação e o poder são os elementos dominantes. O próprio sonho de natureza sexual ou de orgasmo, muitas vezes acompanha elementos de poder ou idolatria descritos pelos pacientes. É interessante notar que a simbologia descrita por FREUD de natureza eminentemente sexual nos sonhos, como por exemplo: guarda-chuva, fechaduras, obeliscos, cavernas, etc, foi substituída por elementos da opressão e fracasso social sentidos pela pessoa.
 
Em suma, parece que nosso inconsciente em nossos tempos está sobrecarregado do vazio e carência, e esse espaço cada vez mais é preenchido pelo medo ou pânico. Nesse exato ponto podemos falar do pesadelo.
 
O próprio FREUD se deparou com uma contradição em sua teoria dos sonhos, pois se os mesmos eram a realização de desejos, como ficaria a questão dos pesadelos? Sua resposta para essa questão ocorreu quando o mesmo elaborou a teoria do masoquismo, teoria esta que diz que o prazer se manifesta na dor, numa tentativa de aliviar a tensão e culpa (sendo a essência do masoquista ter que se punir por desejar ou querer o prazer, e dita punição o liberaria para vivenciar seus desejos recalcados), e mais tarde em sua teoria do instinto de morte, sendo este um instinto acionado que visava o retorno ao inanimado, a destruição da vida e do prazer, em suma, destruir a si próprio.
 
FREUD com bastante perspicácia percebeu mais tarde que o pesadelo era uma tentativa do ego de controlar um material reprimido que causava extremo sofrimento à pessoa. Nesse ponto podemos falar da questão temporal dos pesadelos, pois para a pessoa que sofre com os mesmos, fica a sensação de perseguição de algo passado que sempre retorna, uma verdadeira tortura mental que nunca se esgota. Porém se observarmos atentamente a direção de determinados pesadelos descobriremos que seu sentido não está apenas ligado ao passado, mas também ao futuro, ou seja, a meta de vida que a pessoa pretende realizar, pois o pesadelo coloca em cheque através de dolorosa angústia, determinadas atitudes que a pessoa precisa tomar para resgatar seu prazer pessoal e social; como se fosse uma espécie de alerta para determinado problema que necessita de solução urgente.
 
O pesadelo apenas se concretiza no espaço vago deixado pela ausência de prazer e realização pessoal, sendo que o resultado será a tirania de imagens ou vivências dolorosas. Em suma, o pesadelo ocorre numa personalidade onde a fonte diária de prazer não depende de sua vontade ou controle, sendo o terror noturno a conseqüência lógica de tal mecanismo. A ansiedade e expectativa por determinadas experiências gratificantes são transformadas em angústia e decepção através dos sonhos.
Ilustrarei tais conceitos através da análise de alguns pesadelos de pacientes.
 
"Sonhei que era uma criança e tinha sido enterrada viva, e meu túmulo foi violado por saqueadores; chorava e ao mesmo tempo começou a jorrar leite de meu corpo". O conteúdo sexual desse sonho é praticamente explícito, pois se tratava de um paciente que sofria de extrema solidão e carência no lado afetivo e sexual. Porém, é muito comum a categoria de sonhos onde a pessoa está sendo enterrada viva, e quase sempre isso representa determinado potencial que nunca foi utilizado ou aproveitado, sendo que no caso do paciente descrito anteriormente, ficou nítida sua decepção por enterrar algo que ainda estava vivo, e a violação representava um direito negado ao mesmo. O pesadelo nesse caso tinha a intenção de revelar a pessoa que algo de sua humanidade não estava sendo efetivado, sendo que não poderia abrir mão do potencial afetivo sem a tortura de um pesadelo ou uma neurose.
 
"Sonhei que perfurava um poço em minha casa, e apenas jorrava terra, sendo que fiquei apavorado que aquilo invadisse todos os ambientes da casa". Novamente o tema da não efetivação de um potencial aparece, pois de acordo com as discussões feitas com o paciente, determinado pesadelo representava que sua angústia afetiva e emocional lhe atormentava quase que diariamente, sendo que não poderia esquecer ou abandonar algo que permanecia vivo em seu íntimo, o desejo da satisfação amorosa, e mais uma vez, não poderia liquidar algo que clama por satisfação, sendo que a terra representava deixar de lado algo que não estava disposto a abandonar, mas estava enfrentando graves dificuldades para lidar com um emocional tão carente e debilitado.
 
"Uma mulher estava deitada numa cama, e estava pegando fogo, tentando me puxar, vi a figura de um homem ao meu lado, a mulher se carbonizou por completo, e fiquei apenas chamuscada".
Esse pesadelo é extremamente interessante, como resposta do inconsciente à resolução de determinado conflito psíquico.
 
Tratava-se de uma pessoa que na infância havia sido molestada sexualmente, sendo que por diversas vezes sua vida correu real perigo, pois sua agressora a segurava pela mão a beira de um poço, ameaçando lhe arremessar para baixo. Apesar da gravidade do trauma citado, sua vida afetiva e sexual permanecia intacta, sendo que seu pesadelo representava claramente o final de seu conturbado histórico infantil, e assim sendo, estava livre para prosseguir sua jornada afetiva, com o mínimo de resquícios de suas dolorosas vivências.
 
Alguém poderia dizer que o homem no sonho da paciente acima descrito representaria a relação terapêutica, no sentido de depositar no elemento masculino suas esperanças de reparação e alívio emocional. Embora tal análise tenha algum mérito, a realidade é que dita experiência manteve intacto o sentimento de poder da paciente, como dizia o psicólogo ALFRED ADLER, e nada mais justo que tal fato ocorresse, pois o próprio psiquismo encontra maneiras de compensar os danos sofridos na trajetória do desenvolvimento.
 
 A autocomiseração foi substituída pela urgência de ser reconhecido o evento traumático na própria terapia, que sempre deve ser conduzida para resgatar o potencial do paciente não apenas por ter sobrevivido a tal evento, mas, sobretudo para lhe dar uma dimensão superior, no intuito de libertar a pessoa em todos os sentidos, e provando para a mesma que suas energias ainda continuam presentes e a disposição de algo maior e melhor, e o sonho acima descrito é a prova contundente do poder de reparação que o pesadelo possui, assinalando que o poder pessoal da paciente citada anteriormente permanecia vivo e a espera de ser mobilizado.
 
EXEMPLOS DE SONHOS E PESADELOS QUE REVELAM A NECESSIDADE DE AJUDA TERAPÊUTICA

Muitos têm uma idéia errônea acerca dos pesadelos, achando que sua gravidade varia conforme o tema ou o tipo de reação produzida. Embora a sensação emotiva após um pesadelo ou sonho seja a base central que devamos nos apoiar, nem sempre tal conduta é fidedigna na apuração do inconsciente da pessoa. Não há regras fixas na análise e interpretação dos sonhos, e como disse acima, só o estreito contato com o paciente e conhecimento do mesmo pode nos fornecer bases seguras para descobrirmos os intrincados caminhos ocultos dos sonhos. Assistimos nos dias de hoje, mais uma tentativa dos laboratórios lucrarem com os distúrbios do sono, se montando uma verdadeira parafernália científica para provar que os pesadelos são de origem eminentemente fisiológica, descartando a própria origem da psicologia que foi baseada na análise dos sonhos por SIGMUND FREUD. Não se trata aqui de fincar tese em nenhum tipo de corporativismo, mas, ser honesto o suficiente para perceber o drama das relações e núcleo econômico de nossa sociedade como fatores de contaminação de nosso íntimo. Imputar distúrbios psíquicos somente a fatores químicos ou hormonais é no mínimo sabotar a possibilidade de mudança do ser humano. Tudo também é um reflexo ou conseqüência de um modelo de vida que adotamos ou fomos obrigados a incorporar. Obviamente não estou contra a pesquisa médica, mas, apenas ressalto que a mesma deve ter a suficiente humildade para se integrar em outras áreas, coisa que nem sempre acontece.

Voltando ao tema dos pesadelos, a pergunta que todos se fazem é quando os mesmos realmente são indicativos de um distúrbio psicológico? A primeira resposta passa pelos chamados sonhos recorrentes, com uma mesma temática seguidas vezes. Como exemplo cito o sonho de estar de volta a escola, colegial ou faculdade, sendo que o indivíduo já completou tal etapa. No primeiro texto falei que esse tipo de sonho revela alguma incompletude da pessoa, ou um processo inacabado. O fato é que tal sonho irá “martelar” a mente do indivíduo até que o mesmo perceba sua fuga de um processo que teme ou teima em não resolver. O simbolismo da volta ao aprendizado escolar é mais do que claro, sendo que a pessoa “cabulou” literalmente “um evento traumático de extremo sofrimento ou angústia. Notem que este tipo de sonho não possui nenhum conteúdo apavorante, mas revela a inércia da pessoa perante seu medo ou complexo de inferioridade. O psiquismo passa a punir alguém que acha que pode tranqüilamente se furtar de determinada operação não concluída. É até um processo lógico, se pararmos para refletir mais detalhadamente. Mas quais pontos não resolvidos este tipo de sonho mostra? Geralmente eventos de inveja e comparação perante o meio do sujeito, sendo que o mesmo fugiu efetivamente de uma situação de prova que talvez não pudesse assimilar. Sonhar com uma etapa anterior significa também que a pessoa acumulou um exacerbado sentimento de culpa perante uma situação, regredindo oniricamente ao evento traumático.  Os sonhos são a prova psíquica de que não usamos nosso potencial mental na vida consciente. Eles nos oferecem desconhecimento e uma certa excitação para aquele que empreende efetivamente sua jornada interior

Sonhar com perseguições de assaltantes, seqüestros, armas de fogo; caso tais acontecimentos não tenham realmente acontecido na realidade, denotam medo e insegurança da pessoa no tocante a perder algo valioso. Antigamente este tipo de sonho era muito interpretado em conflitos de ordem afetiva, se relacionando assalto ao medo de perder alguém especial. Embora isto possa ocorrer, creio que este tipo de sonho têm hoje em dia um aspecto eminentemente social, revelando principalmente o pânico do desemprego e miséria econômica. Não podemos nos esquecer que o simbolismo psíquico altera ou se mantém conforme os valores ditados pela sociedade. Se pudesse ser feita uma pesquisa em cima deste conceito, descobrir-se-ia que este tipo de sonho citado ocorria em demasia no final da década de 20, no transcorrer do crack da bolsa de valores que causou enorme depressão econômica. Sonhos de caráter erótico quase nunca revelam distúrbios psicológicos, mas, ao contrário do que muitos pensam, não dizem necessariamente de uma tentativa inconsciente de satisfação sexual; alertam para o fato de que a pessoa está carenciada e insatisfeita nessa área. 

A seguir, relatarei pesadelos ou sonhos que afetaram em demasia os pacientes, e tentarei fazer sua análise para que este estudo possa abranger o maior número possível de pessoas e situações. Novamente observo o fato de que não é o tema ou susto que dá a dimensão do problema psicológico, mas tão somente como se insere na vida do indivíduo.
“Sonhei que minha casa possuía cômodos que eu desconhecia; comecei então a fazer uma visita aos mesmos, num misto de alegria e preocupação com o que poderia acontecer ou o que iria encontrar. Meu medo de insetos ou outros animais era muito grande; subindo na parte de cima da casa, notei que um determinado cômodo estava para despencar; só me regozijava o fato de ter descoberto que poderia ter mais um quarto”. O paciente tinha este sonho com certa freqüência, e passou a se incomodar com o mesmo por não perceber seu significado. Medo de insetos ou determinados animais, remonta à infância, sendo que é algo comum, desprovido de maiores detalhes psicológicos. O interessante é o próprio indivíduo no sonho desconhecer a capacidade física ou os recursos de que dispõe. Este sonho o alerta para uma estagnação em sua vida, e o quanto poderia crescer, caso expandisse seu conhecimento ou atuação. O cômodo que ameaça despencar reflete o medo de mudar ou iniciar algo, está em cima da casa inclusive, o que denota simbolicamente arrojo ou algo mais expansivo. Finalmente a satisfação de um quarto maior, reflete embotamento afetivo e limitação de seus sonhos ou projetos, pois está encerrado em determinado lugar.
O pesadelo a seguir é impressionante no tocante ao sofrimento que causou à pessoa:
“Tive uma certa discussão e fui parar num hospital psiquiátrico; senti uma tremenda injustiça; e por mais que argumentasse sabia de que nada adiantaria. Planejava minha fuga; mas acabei contido por diversas vezes; sendo que ia ser medicado e tomar eletrochoques. Fui levado a sala de uma psiquiatra que com toda a frieza do mundo nem quis saber de minhas explicações. O mais estranho é que quando olhava em volta não haviam pessoas com distúrbios psicológicos, mas indivíduos que não aceitaram humilhações impostas pela sociedade. Num vacilo da segurança consegui chegar até o portão de entrada, não encontrei guardas; apenas alguns internos esperando para sair. Notei que havia uma lista na parede, do tipo daquelas de um resultado de vestibular, e percebi que meu nome constava entre os primeiros. Num primeiro momento sabia que aquilo tudo era um pesadelo e que iria acordar, mas, sentia que novamente a imagem daquele terror invadia minha mente.” 

Realmente é incrível como nosso inconsciente pode ser tão torturante em determinadas situações, e o simbolismo da psicose ou loucura incubada no mesmo soava como uma horrenda humilhação. A extrema politização da temática é interessante, sendo que não nos causa estranheza todo tipo de injustiça e violência que se comete num lugar desses, em nome do enquadramento social. Mais incrível ainda é não encontrar o tipo “lunático”, mas pessoas comuns que simplesmente ousaram questionar determinadas regras; é quase que o roteiro de um filme dramático e real. O fato de estar nas primeiras colocações numa lista de vestibular revela a lendária dicotomia entre a loucura e genialidade, e a própria pessoa acaba não distinguindo qual das duas é sua verdade interna. O paciente contou que teve este sonho após se encontrar no mesmo dia com uma pessoa que considera infeliz e negativista, sendo que acreditou numa espécie de influência negativa contra sua pessoa, isto seria possível? A psicologia tradicional advoga que o sonho é posse exclusiva de quem o teve, excluindo qualquer tipo de influência citada. Penso ser este um conceito racional e limitado, pois assim como um vírus é transmitido para milhares de pessoas, o mesmo acaba acontecendo com o processo psíquico. Se a pessoa se encontra debilitada ou sua sensibilidade não possui canais de contenção, fatalmente absorverá literalmente o “lixo” do processo mental do outro. 

A própria psicologia historicamente descreveu este processo como contratransferência- sendo os sentimentos do terapeuta em reação ao que o paciente lhe passa, causando distúrbio e conflito no primeiro. A questão da negatividade passa por forçar que o outro seja uma espécie de receptor para os conflitos não resolvidos da pessoa, e a única solução é manter um certo desinteresse ou distanciamento quando sentirmos nossa limitação em poder efetivamente fazer algo pelo outro. Não se trata de ausência de compaixão, mas mantermos também nossa saúde psíquica. A sabedoria também passa pela conscientização de quando realmente podemos ser úteis.
“Sonhei que estava num determinado lugar; haviam vários equipamentos eletrônicos de toda espécie, porém, não conseguia os desligar, e uma senhora muito idosa apontava todas as falhas nas engenhocas; percebi então que aquela casa tinha sido minha há várias décadas ou em outra reencarnação”. Novamente vemos o duelo dos opostos neste sonho. A tecnologia moderna, mas sempre falhando versus alguém antigo mas cheio de sabedoria. A senhora no sonho tinha o significado para este paciente de que sua capacidade afetiva não tinha sido realizada até o presente momento. Na elaboração em consultório o mesmo se conscientizou que os anos se passaram e nunca tinha experenciado uma relação profunda. Notem que o retorno a casa ou crença na reencarnação é exatamente o ponto que estava discutindo acima, enquanto determinado conteúdo psíquico não for resolvido, seu retorno virá sob os mais variados temas e disfarces. A dívida mental nunca expira. 

“Sonhei que tinha sido escolhido para ser visitado por um grande astro de cinema; quando o mesmo chegou começou um grande tornado; notei que parte de minha casa estava destruída e a água começava a entrar; logo comecei uma luta corporal com o astro citado; depois tudo se acalmou e nos tornamos amigos. Ele foi embora e contei para todos os meus conhecidos a sorte de ser visitado por uma celebridade; foi quando notei que a assessora do mesmo não tinha ido embora, e tomei uma enorme bronca por estar relatando detalhes íntimos do ator”. Este sonho têm muito a ver com o distúrbio psicológico chamado de “neurose de êxito”. Já acompanhei centenas de pessoas que lutam incansavelmente por uma promoção ou cargo, e assim que o obtém, entram numa espécie de “choque ou paralisia psíquica”, temendo a perda a todo o momento, ou achando que não conseguirão desempenhar satisfatoriamente a nova função. Muitos atribuem esse processo a uma culpa internalizada; apenas acrescento uma incrível dificuldade de lidar com a inveja ou competição. A terapia é primordial nestes casos, pois há elementos inconscientes que irão sabotar qualquer progresso do sujeito.
“Estava junto de uma antiga namorada, que foi praticamente a única pessoa que considero que realmente amei ou que no mínimo queria sua presença o tempo todo; começamos a trocar afeto e senti uma ternura indescritível; de repente ela começou a mexer em meu relógio e descobriu uma série de recursos que eu não tinha notado. Tudo mudou, ela se tornou agressiva e distante; havia uma festa e tentei me servir de comida e bebida, porém, notei que todos tinham apanhado seu prato e não localizava o lugar onde poderia me servir. Notei que a casa era do tipo daquelas mansões mal assombradas de filmes. Comecei a ficar preocupado com o meu retorno, pois era um lugar distante e o caminho de volta era perigoso. Ela reclamou de extremas dificuldades econômicas, e simplesmente lhe agradeci por ter tido a possibilidade de lembrar que sua pessoa me proporcionou os melhores momentos de minha vida”. Este é um sonho que toca a fundo o centro afetivo de um ser humano. O simbolismo do relógio e seus variados recursos prova como o tempo é uma fração de segundos na memória que sempre se mantém viva quando foi sensibilizada em determinada ocasião. Novamente o tema do retorno. Quase podemos concluir que 90% de um sonho é a mais pura saudade. O inconsciente clama pela volta de uma satisfação ou gozo, assim como deseja também repetir a dor de um trauma. Enfim, nossa mente é um misto do mais puro gozo e horror. Esta é a dialética máxima do inconsciente. O mais interessante é a evolução do paciente no tocante a uma experiência de rejeição ou fracasso. Admitiu não só sua paixão, mas reconheceu o poder que outra pessoa teve sobre sua história emocional. Precisamos parar de sentir raiva ou ódio perante o fracasso deste tipo de vivência, e admitir que somos influenciados ou até “enfeitiçados” quando nosso desejo foge do controle. Faz parte do íntimo humano. Devemos estar preparados para abrir mão do desejo de poder sobre uma gratificação que almejamos e o destino sublinhou que não seria possível. A morte ou finitude soa alto na mais pura experiência de excitação ou felicidade.
 
“No fundo do quintal de minha casa estavam construindo um prédio; minha ex-namorada e a mãe dela estavam comigo e íamos comprar um apartamento; em outro sonho ela tinha engravidado de outra pessoa e assim mesmo pedia para que voltássemos”. Este relacionamento acabou de uma forma extremamente dolorosa para o paciente, fato que o motivou a procurar a terapia. Seu sofrimento na época era quase que intolerável, se somando extensas crises de angústia. Teve este pesadelo quando já havia se recuperado, provando que seu inconsciente ainda o mantinha numa espécie de expiação ou penitência que insistia em o atormentar. Seria mais do que óbvio falarmos aqui de posse ou apego, sendo que a partir do momento que sua vaidade ou narcisismo foram atacados, começou a contra reação de profundo sofrimento. O paciente em questão já tinha encontrado outra namorada, onde segundo seu relato conseguia mais prazer e satisfação. Mas então por que as lembranças do passado ainda o atormentavam? A resposta não é o fato da perda, mas um auto punição constante por sentir que errou em determinada etapa do relacionamento e não conseguir superar tal fato. Parece redundante, mas boa parte do sofrimento não têm necessariamente relação com quem nos feriu, mas nosso próprio julgamento implacável de não tolerar uma falha pessoal. Não se trata do perdão próprio, e sim abdicar do severo juiz internalizado em nosso inconsciente. Devemos refletir sempre nosso precário equilíbrio psíquico, e como sentimos tanto medo numa dimensão temporal tão pequena que é nosso dia.  

“ Íamos eu e minha família viajar para o RIO GRANDE DO SUL, num belo carro; eu os fazia esperar, pois voltava sempre a minha casa para verificar se algum item estava pendente, tipo: luz acesa, gás, etc; percebi um homem que estava relatando toda sua história de angústia sentimental, e porque nunca conseguiu a felicidade no ramo afetivo; pegava minha moto e ia para uma encruzilhada extremamente perigosa, onde passavam vários caminhões, carros e pneus soltos. Tive a certeza inexorável que morri naquele instante. Voltei e via duas antigas amigas minhas passeando na rua. Entrei no carro de minha família e perguntei quanto durava a viagem- treze horas respondeu meu irmão; dei a pedido de meu pai um grande abraço nele, talvez pela primeira vez na minha vida; não consegui fazer o mesmo com minha mãe; como troféu percebi que tinha recebido um falo(pênis).” Este é o tipo de sonho que traz todo um resumo da angústia de certa trajetória de vida do paciente. O distanciamento familiar e dor resultante; ir para um lugar distante no extremo sul do país, representava sua fuga do conflito emocional quase que intolerável; o homem se analisando como projeção de si próprio na terapia e a grande dificuldade ou desafio de resolver tal questão; a encruzilhada como total embotamento afetivo e social; o voltar à sua casa e verificar as coisas, como representante de atos obsessivos- compulsivos; encontrar suas antigas amigas como fator não apenas de saudade, mas arrependimento por ter perdido oportunidades afetivas; o abraço como expressão da dificuldade de trocar carinho com seu pai, o tendo em sua mente como alguém autoritário; o ódio internalizado contra a mãe, a ignorando afetivamente e transportando esse núcleo neurótico para as mulheres em geral; segurar o falo ou pênis como representante da angústia de castração(o famoso complexo de Édipo, onde o menino disputa com o pai a primazia do objeto afetivo e teme perder o pênis por seus desejos incestuosos), no caso poder-se-ia ter uma leitura dupla: homossexualidade ao desejar o falo do pai e vitória por o ter castrado e ficado com o" totem"(inverteu a angústia de castração citada). Porém, não podemos neste caso apenas nos determos na análise psicanalítica deste simbolismo, embora seja engenhoso tal raciocínio. Toda essa esfera sexualizada mascara o profundo complexo de inferioridade em relação ao pai, que segundo o paciente lhe despertava inveja por ter sido muito mais bem sucedido do que ele, tanto no aspecto econômico, quanto por ter constituído uma família; o ódio do paciente neste caso era por sentir que nunca tinha sido treinado para sair de sua condição solitária. Como ADLER dizia: “o complexo de Édipo e vários mecanismos que a psicanálise deu ênfase na sexualidade apenas mascaram a verdadeira natureza de uma alma sedenta pelo desejo de poder, que não consegue dividir seu íntimo num modelo de cooperação e senso de comunidade.” 

 SONHOS PREMONITÓRIOS 

 
Este é um tema que desperta uma curiosidade extrema em quase todo mundo. Afinal de contas, é possível um sonho prever alguma coisa? A resposta é muito complicada se levando em conta a dificuldade de provas científicas. Para simplificar diria que depende da crença internalizada na pessoa, ou promulga um ato de fé em dito acontecimento, ou simplesmente ignora tal episódio. Descarto apenas aquelas manifestações clássicas onde alguém acordou no meio da noite e recebeu a visita de uma parente que veio a falecer exatamente naquele momento. A pesquisa comprova que tais relatos geralmente são distorcidos, e que o sujeito em questão teve dito sonho após saber da notícia, e sua mente cometeu um equívoco temporal. Não estou generalizando todo o tipo desta experiência, apenas me baseio no que pude perceber nos detalhes de relatos desta natureza. O fato é que para quem acredita neste tipo de sonho vale uma regra: jamais alguém detém o controle ou pode consecutivamente perceber tais acontecimentos transcendentais quando assim o desejar. A experiência varia conforme o grau de apego ou ligação do indivíduo em relação a determinada pessoa ou evento. O próprio FREUD em sua clássica obra sobre a interpretação dos sonhos, se referiu a passagem bíblica sobre o sonho acerca da fartura e miserabilidade no EGITO; o livro do Pentateuco falava dos sete anos de abundância e conseqüente miserabilidade para aquele povo. Tal passagem prova como há milênios a mente humana é fascinada pela capacidade de prever algum acontecimento. Muitos achariam que tal obsessão está ligada ao apego ou ao medo da morte, devido que o sonho não deixa de ter o simbolismo desta última. Morremos diariamente, e o sonho possui um simbolismo de continuidade de consciência quando não detemos mais o controle sobre nosso organismo. Este enigma é o que mais assola o psiquismo da humanidade desde sua alvorada.
A psicologia de CARL GUSTAV JUNG, seguidor inicialmente de FREUD, chamou de sincronicidade o fenômeno dos sonhos premonitórios. A mesma seria uma ligação entre dois eventos sem uma aparente relação entre causa e efeito. O próprio JUNG quando estava rompendo com FREUD, relatou uma experiência nesse sentido: “Estavam conversando sobre eventos transcendentais, e FREUD sempre se colocava como cético perante tais fenômenos. JUNG então disse que naquele instante a estante faria um estralo, fato que aconteceu. Disse ainda que o fenômeno se repetiria, acontecendo novamente. FREUD então num ar de espanto teve uma ausência ou espécie de desmaio”. Posteriormente em um trabalho seu, FREUD negou todo o acontecido. Nos primeiros anos de minha formação, me surpreendi com um sonho de um rapaz com baixa instrução cultural. O sonho se referia ao famoso julgamento de NUREMBERG; sobre os crimes de guerra praticados pelos nazistas. Incrivelmente este rapaz que nem possuía o ginásio, acertou quando sonhou que 12 pessoas foram condenadas a morte(número exato das execuções); o mais impressionante é que conseguiu visualizar no sonho e  guardar o nome em alemão de pelo menos seis pessoas e me contar. Notem que sonho não é de natureza premonitória, mas revela um fato histórico realmente ocorrido e que a pessoa desconhecia. Descartei que na época o mesmo pudesse ter lido alguma coisa a respeito, pois sua profissão exigia trabalhar umas 17 horas por dia, e mal entendia um texto que lhe mostrassem. Outro fato era que o rapaz vivia uma relação extremamente autoritária com seu pai, sendo que esta questão poderia ter desperto uma ligação com o que JUNG denominou de inconsciente coletivo, ou o acervo de todas as imagens, simbolismos e história da humanidade; se identificando inconscientemente e captando “arquivos” de um dos maiores períodos repressivos no decorrer dos tempos.
O próximo sonho é fantástico no tocante ao tema: “Sonhei que estava num avião a caminho de um país que não distinguia bem o nome, me pareceu(erit); havia muita discussão a bordo; de repente houve uma forte explosão e senti que todos morremos. Na última visão enxerguei cerca de umas 50 pessoas desesperadas”. Este sonho me foi contado por um colega de faculdade no dia 03 de janeiro de 1986. Por volta do dia 18 do mesmo mês e ano, li uma reportagem que dizia que ocorreu um desastre aéreo na ETIÓPIA(antiga ERITRÉIA) no dia anterior, sendo que 54 pessoas morreram, e a causa suposta do acidente talvez fosse um atentado contra o governo marxista daquele país na época. A princípio a reação foi como se fosse um comum filme de suspense, mas os fatos falam por si mesmo, e como disse anteriormente cabe a cada um a escolha sobre o que acreditar. Qual a lógica deste tipo de sonho, e por que alguém pode ter uma suposta previsão com um acontecimento em uma região tão distante? Difícil responder, apenas devemos continuar a pesquisa num caráter sério para entendermos melhor os mecanismos que possuímos e usamos sem nenhum propósito lógico, até por que a mente nos dá uma mensagem de total obscurantismo quando o assunto requer uma atenção que foge dos padrões de nossa racionalidade.   
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FREUD, SIGMUND. A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS(OBRAS COMPLETAS). MADRID:BIBLIOTECA NUEVA, 1981
ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. BUENOS AIRES: EDITORA PAIDÓS, 1912

Créditos: Texto de Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo