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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sonhos e Pesadelos


Interpretação de Sonhos e Pesadelos

Acerca de 101 anos atrás SIGMUND FREUD publicava seu histórico livro sobre a interpretação dos sonhos. Nascia nesse momento o fundamento teórico da psicanálise: associação livre de idéias ; o paciente não censurava nenhum pensamento que lhe ocorria, e a interpretação dos sonhos do paciente dentro do referencial criado por FREUD (sendo os pensamentos reprimidos sexuais seu principal objeto).

Essas noções se divulgaram amplamente no decorrer do século vinte, e não cabe nesse breve estudo levantar aspectos teóricos, mas principalmente uma comparação histórica daquilo que a psicanálise julgou ser a raiz do significado do sonho, e se tal estudo permanece válido em nosso contexto atual.

FREUD salientou basicamente que os sonhos seriam essencialmente a tentativa de realização de um desejo reprimido que se alojava no inconsciente, sendo que esse desejo seria primordialmente de natureza sexual ou encerraria aspectos proibidos pelo contexto moral, como exemplo, o incesto ou o que FREUD veio a rotular de "complexo de Édipo" (uma ligação neurótica da criança visando exclusividade na relação afetiva, sem ter que disputar com um dos pais sua atenção).

O sonho era produzido por dois elementos centrais: a "condensação e deslocamento", que respectivamente significam: recolher partes de diferentes períodos do desenvolvimento de uma pessoa, e reproduzi-las através de simbolismos que ocultassem seu verdadeiro significado, evitando que a pessoa entrasse em contato direto com o material proibido ou do qual sentia-se culpada.
 
Outras correntes da psicologia atribuíram metodologias diferentes para a análise dos sonhos, como por exemplo, o estudo do inconsciente pessoal e coletivo, formulado por CARL GUSTAV JUNG, que chamava a atenção para elementos da história da humanidade (mitos ou arquétipos) que representavam elementos coletivos da mesma, presentes em todos os seres humanos, por exemplo, a idéia da religião que é aceita praticamente em todas as culturas, bem como determinados feitos heróicos que são relatados através de inúmeras gerações. Estes elementos estão sempre presentes no psiquismo humano, determinando sua direção e resultados.
 
A essência deste estudo é enfatizar o sonho em nossa realidade atual, como foi descrito anteriormente. E seguindo esse parâmetro, gostaria de enfatizar que o sonho representa principalmente o drama histórico que o ser humano vivencia em determinada época, sendo a essência do sentimento que predomina na alma da pessoa.
 
Não podemos nos esquecer que o contexto da época de FREUD era marcado pela extrema repressão sexual, assim sendo, boa parte dos sonhos de suas pacientes reproduziam toda a miséria afetiva e sexual da época. Em nosso presente momento, qualquer psicólogo tem a clara noção de que os sonhos de nossos pacientes atuais refletem principalmente três esferas: solidão, angústia e principalmente medo.

 Todo o drama diário pela batalha num mundo de competição inveja e ambição é retratada periodicamente na elaboração onírica das pessoas. ALFRED ADLER, contemporâneo de FREUD salientou o complexo de inferioridade e superioridade, como elementos centrais da personalidade humana. É impressionante como observamos ditos aspectos nos sonhos das pessoas. O complexo de inferioridade se manifesta essencialmente através de sonhos de queda, nudez, roubo, perseguição, estupro, perda de membros do corpo, regressão a etapas anteriores, como, por exemplo, sonhar que se está de volta ao ginásio, ou outra etapa qualquer já vivenciada pela pessoa.
 
A compensação de toda essa inferioridade sentida, ou o desejo de superioridade se reproduz em sonhos do tipo: voar, viagens a lugares desconhecidos, experiências místicas de ausência do próprio corpo, contatos com seres extraterrestres, mas, sobretudo em sonhos onde a manipulação e o poder são os elementos dominantes. O próprio sonho de natureza sexual ou de orgasmo, muitas vezes acompanha elementos de poder ou idolatria descritos pelos pacientes. É interessante notar que a simbologia descrita por FREUD de natureza eminentemente sexual nos sonhos, como por exemplo: guarda-chuva, fechaduras, obeliscos, cavernas, etc, foi substituída por elementos da opressão e fracasso social sentidos pela pessoa.
 
Em suma, parece que nosso inconsciente em nossos tempos está sobrecarregado do vazio e carência, e esse espaço cada vez mais é preenchido pelo medo ou pânico. Nesse exato ponto podemos falar do pesadelo.
 
O próprio FREUD se deparou com uma contradição em sua teoria dos sonhos, pois se os mesmos eram a realização de desejos, como ficaria a questão dos pesadelos? Sua resposta para essa questão ocorreu quando o mesmo elaborou a teoria do masoquismo, teoria esta que diz que o prazer se manifesta na dor, numa tentativa de aliviar a tensão e culpa (sendo a essência do masoquista ter que se punir por desejar ou querer o prazer, e dita punição o liberaria para vivenciar seus desejos recalcados), e mais tarde em sua teoria do instinto de morte, sendo este um instinto acionado que visava o retorno ao inanimado, a destruição da vida e do prazer, em suma, destruir a si próprio.
 
FREUD com bastante perspicácia percebeu mais tarde que o pesadelo era uma tentativa do ego de controlar um material reprimido que causava extremo sofrimento à pessoa. Nesse ponto podemos falar da questão temporal dos pesadelos, pois para a pessoa que sofre com os mesmos, fica a sensação de perseguição de algo passado que sempre retorna, uma verdadeira tortura mental que nunca se esgota. Porém se observarmos atentamente a direção de determinados pesadelos descobriremos que seu sentido não está apenas ligado ao passado, mas também ao futuro, ou seja, a meta de vida que a pessoa pretende realizar, pois o pesadelo coloca em cheque através de dolorosa angústia, determinadas atitudes que a pessoa precisa tomar para resgatar seu prazer pessoal e social; como se fosse uma espécie de alerta para determinado problema que necessita de solução urgente.
 
O pesadelo apenas se concretiza no espaço vago deixado pela ausência de prazer e realização pessoal, sendo que o resultado será a tirania de imagens ou vivências dolorosas. Em suma, o pesadelo ocorre numa personalidade onde a fonte diária de prazer não depende de sua vontade ou controle, sendo o terror noturno a conseqüência lógica de tal mecanismo. A ansiedade e expectativa por determinadas experiências gratificantes são transformadas em angústia e decepção através dos sonhos.
Ilustrarei tais conceitos através da análise de alguns pesadelos de pacientes.
 
"Sonhei que era uma criança e tinha sido enterrada viva, e meu túmulo foi violado por saqueadores; chorava e ao mesmo tempo começou a jorrar leite de meu corpo". O conteúdo sexual desse sonho é praticamente explícito, pois se tratava de um paciente que sofria de extrema solidão e carência no lado afetivo e sexual. Porém, é muito comum a categoria de sonhos onde a pessoa está sendo enterrada viva, e quase sempre isso representa determinado potencial que nunca foi utilizado ou aproveitado, sendo que no caso do paciente descrito anteriormente, ficou nítida sua decepção por enterrar algo que ainda estava vivo, e a violação representava um direito negado ao mesmo. O pesadelo nesse caso tinha a intenção de revelar a pessoa que algo de sua humanidade não estava sendo efetivado, sendo que não poderia abrir mão do potencial afetivo sem a tortura de um pesadelo ou uma neurose.
 
"Sonhei que perfurava um poço em minha casa, e apenas jorrava terra, sendo que fiquei apavorado que aquilo invadisse todos os ambientes da casa". Novamente o tema da não efetivação de um potencial aparece, pois de acordo com as discussões feitas com o paciente, determinado pesadelo representava que sua angústia afetiva e emocional lhe atormentava quase que diariamente, sendo que não poderia esquecer ou abandonar algo que permanecia vivo em seu íntimo, o desejo da satisfação amorosa, e mais uma vez, não poderia liquidar algo que clama por satisfação, sendo que a terra representava deixar de lado algo que não estava disposto a abandonar, mas estava enfrentando graves dificuldades para lidar com um emocional tão carente e debilitado.
 
"Uma mulher estava deitada numa cama, e estava pegando fogo, tentando me puxar, vi a figura de um homem ao meu lado, a mulher se carbonizou por completo, e fiquei apenas chamuscada".
Esse pesadelo é extremamente interessante, como resposta do inconsciente à resolução de determinado conflito psíquico.
 
Tratava-se de uma pessoa que na infância havia sido molestada sexualmente, sendo que por diversas vezes sua vida correu real perigo, pois sua agressora a segurava pela mão a beira de um poço, ameaçando lhe arremessar para baixo. Apesar da gravidade do trauma citado, sua vida afetiva e sexual permanecia intacta, sendo que seu pesadelo representava claramente o final de seu conturbado histórico infantil, e assim sendo, estava livre para prosseguir sua jornada afetiva, com o mínimo de resquícios de suas dolorosas vivências.
 
Alguém poderia dizer que o homem no sonho da paciente acima descrito representaria a relação terapêutica, no sentido de depositar no elemento masculino suas esperanças de reparação e alívio emocional. Embora tal análise tenha algum mérito, a realidade é que dita experiência manteve intacto o sentimento de poder da paciente, como dizia o psicólogo ALFRED ADLER, e nada mais justo que tal fato ocorresse, pois o próprio psiquismo encontra maneiras de compensar os danos sofridos na trajetória do desenvolvimento.
 
 A autocomiseração foi substituída pela urgência de ser reconhecido o evento traumático na própria terapia, que sempre deve ser conduzida para resgatar o potencial do paciente não apenas por ter sobrevivido a tal evento, mas, sobretudo para lhe dar uma dimensão superior, no intuito de libertar a pessoa em todos os sentidos, e provando para a mesma que suas energias ainda continuam presentes e a disposição de algo maior e melhor, e o sonho acima descrito é a prova contundente do poder de reparação que o pesadelo possui, assinalando que o poder pessoal da paciente citada anteriormente permanecia vivo e a espera de ser mobilizado.
 
EXEMPLOS DE SONHOS E PESADELOS QUE REVELAM A NECESSIDADE DE AJUDA TERAPÊUTICA

Muitos têm uma idéia errônea acerca dos pesadelos, achando que sua gravidade varia conforme o tema ou o tipo de reação produzida. Embora a sensação emotiva após um pesadelo ou sonho seja a base central que devamos nos apoiar, nem sempre tal conduta é fidedigna na apuração do inconsciente da pessoa. Não há regras fixas na análise e interpretação dos sonhos, e como disse acima, só o estreito contato com o paciente e conhecimento do mesmo pode nos fornecer bases seguras para descobrirmos os intrincados caminhos ocultos dos sonhos. Assistimos nos dias de hoje, mais uma tentativa dos laboratórios lucrarem com os distúrbios do sono, se montando uma verdadeira parafernália científica para provar que os pesadelos são de origem eminentemente fisiológica, descartando a própria origem da psicologia que foi baseada na análise dos sonhos por SIGMUND FREUD. Não se trata aqui de fincar tese em nenhum tipo de corporativismo, mas, ser honesto o suficiente para perceber o drama das relações e núcleo econômico de nossa sociedade como fatores de contaminação de nosso íntimo. Imputar distúrbios psíquicos somente a fatores químicos ou hormonais é no mínimo sabotar a possibilidade de mudança do ser humano. Tudo também é um reflexo ou conseqüência de um modelo de vida que adotamos ou fomos obrigados a incorporar. Obviamente não estou contra a pesquisa médica, mas, apenas ressalto que a mesma deve ter a suficiente humildade para se integrar em outras áreas, coisa que nem sempre acontece.

Voltando ao tema dos pesadelos, a pergunta que todos se fazem é quando os mesmos realmente são indicativos de um distúrbio psicológico? A primeira resposta passa pelos chamados sonhos recorrentes, com uma mesma temática seguidas vezes. Como exemplo cito o sonho de estar de volta a escola, colegial ou faculdade, sendo que o indivíduo já completou tal etapa. No primeiro texto falei que esse tipo de sonho revela alguma incompletude da pessoa, ou um processo inacabado. O fato é que tal sonho irá “martelar” a mente do indivíduo até que o mesmo perceba sua fuga de um processo que teme ou teima em não resolver. O simbolismo da volta ao aprendizado escolar é mais do que claro, sendo que a pessoa “cabulou” literalmente “um evento traumático de extremo sofrimento ou angústia. Notem que este tipo de sonho não possui nenhum conteúdo apavorante, mas revela a inércia da pessoa perante seu medo ou complexo de inferioridade. O psiquismo passa a punir alguém que acha que pode tranqüilamente se furtar de determinada operação não concluída. É até um processo lógico, se pararmos para refletir mais detalhadamente. Mas quais pontos não resolvidos este tipo de sonho mostra? Geralmente eventos de inveja e comparação perante o meio do sujeito, sendo que o mesmo fugiu efetivamente de uma situação de prova que talvez não pudesse assimilar. Sonhar com uma etapa anterior significa também que a pessoa acumulou um exacerbado sentimento de culpa perante uma situação, regredindo oniricamente ao evento traumático.  Os sonhos são a prova psíquica de que não usamos nosso potencial mental na vida consciente. Eles nos oferecem desconhecimento e uma certa excitação para aquele que empreende efetivamente sua jornada interior

Sonhar com perseguições de assaltantes, seqüestros, armas de fogo; caso tais acontecimentos não tenham realmente acontecido na realidade, denotam medo e insegurança da pessoa no tocante a perder algo valioso. Antigamente este tipo de sonho era muito interpretado em conflitos de ordem afetiva, se relacionando assalto ao medo de perder alguém especial. Embora isto possa ocorrer, creio que este tipo de sonho têm hoje em dia um aspecto eminentemente social, revelando principalmente o pânico do desemprego e miséria econômica. Não podemos nos esquecer que o simbolismo psíquico altera ou se mantém conforme os valores ditados pela sociedade. Se pudesse ser feita uma pesquisa em cima deste conceito, descobrir-se-ia que este tipo de sonho citado ocorria em demasia no final da década de 20, no transcorrer do crack da bolsa de valores que causou enorme depressão econômica. Sonhos de caráter erótico quase nunca revelam distúrbios psicológicos, mas, ao contrário do que muitos pensam, não dizem necessariamente de uma tentativa inconsciente de satisfação sexual; alertam para o fato de que a pessoa está carenciada e insatisfeita nessa área. 

A seguir, relatarei pesadelos ou sonhos que afetaram em demasia os pacientes, e tentarei fazer sua análise para que este estudo possa abranger o maior número possível de pessoas e situações. Novamente observo o fato de que não é o tema ou susto que dá a dimensão do problema psicológico, mas tão somente como se insere na vida do indivíduo.
“Sonhei que minha casa possuía cômodos que eu desconhecia; comecei então a fazer uma visita aos mesmos, num misto de alegria e preocupação com o que poderia acontecer ou o que iria encontrar. Meu medo de insetos ou outros animais era muito grande; subindo na parte de cima da casa, notei que um determinado cômodo estava para despencar; só me regozijava o fato de ter descoberto que poderia ter mais um quarto”. O paciente tinha este sonho com certa freqüência, e passou a se incomodar com o mesmo por não perceber seu significado. Medo de insetos ou determinados animais, remonta à infância, sendo que é algo comum, desprovido de maiores detalhes psicológicos. O interessante é o próprio indivíduo no sonho desconhecer a capacidade física ou os recursos de que dispõe. Este sonho o alerta para uma estagnação em sua vida, e o quanto poderia crescer, caso expandisse seu conhecimento ou atuação. O cômodo que ameaça despencar reflete o medo de mudar ou iniciar algo, está em cima da casa inclusive, o que denota simbolicamente arrojo ou algo mais expansivo. Finalmente a satisfação de um quarto maior, reflete embotamento afetivo e limitação de seus sonhos ou projetos, pois está encerrado em determinado lugar.
O pesadelo a seguir é impressionante no tocante ao sofrimento que causou à pessoa:
“Tive uma certa discussão e fui parar num hospital psiquiátrico; senti uma tremenda injustiça; e por mais que argumentasse sabia de que nada adiantaria. Planejava minha fuga; mas acabei contido por diversas vezes; sendo que ia ser medicado e tomar eletrochoques. Fui levado a sala de uma psiquiatra que com toda a frieza do mundo nem quis saber de minhas explicações. O mais estranho é que quando olhava em volta não haviam pessoas com distúrbios psicológicos, mas indivíduos que não aceitaram humilhações impostas pela sociedade. Num vacilo da segurança consegui chegar até o portão de entrada, não encontrei guardas; apenas alguns internos esperando para sair. Notei que havia uma lista na parede, do tipo daquelas de um resultado de vestibular, e percebi que meu nome constava entre os primeiros. Num primeiro momento sabia que aquilo tudo era um pesadelo e que iria acordar, mas, sentia que novamente a imagem daquele terror invadia minha mente.” 

Realmente é incrível como nosso inconsciente pode ser tão torturante em determinadas situações, e o simbolismo da psicose ou loucura incubada no mesmo soava como uma horrenda humilhação. A extrema politização da temática é interessante, sendo que não nos causa estranheza todo tipo de injustiça e violência que se comete num lugar desses, em nome do enquadramento social. Mais incrível ainda é não encontrar o tipo “lunático”, mas pessoas comuns que simplesmente ousaram questionar determinadas regras; é quase que o roteiro de um filme dramático e real. O fato de estar nas primeiras colocações numa lista de vestibular revela a lendária dicotomia entre a loucura e genialidade, e a própria pessoa acaba não distinguindo qual das duas é sua verdade interna. O paciente contou que teve este sonho após se encontrar no mesmo dia com uma pessoa que considera infeliz e negativista, sendo que acreditou numa espécie de influência negativa contra sua pessoa, isto seria possível? A psicologia tradicional advoga que o sonho é posse exclusiva de quem o teve, excluindo qualquer tipo de influência citada. Penso ser este um conceito racional e limitado, pois assim como um vírus é transmitido para milhares de pessoas, o mesmo acaba acontecendo com o processo psíquico. Se a pessoa se encontra debilitada ou sua sensibilidade não possui canais de contenção, fatalmente absorverá literalmente o “lixo” do processo mental do outro. 

A própria psicologia historicamente descreveu este processo como contratransferência- sendo os sentimentos do terapeuta em reação ao que o paciente lhe passa, causando distúrbio e conflito no primeiro. A questão da negatividade passa por forçar que o outro seja uma espécie de receptor para os conflitos não resolvidos da pessoa, e a única solução é manter um certo desinteresse ou distanciamento quando sentirmos nossa limitação em poder efetivamente fazer algo pelo outro. Não se trata de ausência de compaixão, mas mantermos também nossa saúde psíquica. A sabedoria também passa pela conscientização de quando realmente podemos ser úteis.
“Sonhei que estava num determinado lugar; haviam vários equipamentos eletrônicos de toda espécie, porém, não conseguia os desligar, e uma senhora muito idosa apontava todas as falhas nas engenhocas; percebi então que aquela casa tinha sido minha há várias décadas ou em outra reencarnação”. Novamente vemos o duelo dos opostos neste sonho. A tecnologia moderna, mas sempre falhando versus alguém antigo mas cheio de sabedoria. A senhora no sonho tinha o significado para este paciente de que sua capacidade afetiva não tinha sido realizada até o presente momento. Na elaboração em consultório o mesmo se conscientizou que os anos se passaram e nunca tinha experenciado uma relação profunda. Notem que o retorno a casa ou crença na reencarnação é exatamente o ponto que estava discutindo acima, enquanto determinado conteúdo psíquico não for resolvido, seu retorno virá sob os mais variados temas e disfarces. A dívida mental nunca expira. 

“Sonhei que tinha sido escolhido para ser visitado por um grande astro de cinema; quando o mesmo chegou começou um grande tornado; notei que parte de minha casa estava destruída e a água começava a entrar; logo comecei uma luta corporal com o astro citado; depois tudo se acalmou e nos tornamos amigos. Ele foi embora e contei para todos os meus conhecidos a sorte de ser visitado por uma celebridade; foi quando notei que a assessora do mesmo não tinha ido embora, e tomei uma enorme bronca por estar relatando detalhes íntimos do ator”. Este sonho têm muito a ver com o distúrbio psicológico chamado de “neurose de êxito”. Já acompanhei centenas de pessoas que lutam incansavelmente por uma promoção ou cargo, e assim que o obtém, entram numa espécie de “choque ou paralisia psíquica”, temendo a perda a todo o momento, ou achando que não conseguirão desempenhar satisfatoriamente a nova função. Muitos atribuem esse processo a uma culpa internalizada; apenas acrescento uma incrível dificuldade de lidar com a inveja ou competição. A terapia é primordial nestes casos, pois há elementos inconscientes que irão sabotar qualquer progresso do sujeito.
“Estava junto de uma antiga namorada, que foi praticamente a única pessoa que considero que realmente amei ou que no mínimo queria sua presença o tempo todo; começamos a trocar afeto e senti uma ternura indescritível; de repente ela começou a mexer em meu relógio e descobriu uma série de recursos que eu não tinha notado. Tudo mudou, ela se tornou agressiva e distante; havia uma festa e tentei me servir de comida e bebida, porém, notei que todos tinham apanhado seu prato e não localizava o lugar onde poderia me servir. Notei que a casa era do tipo daquelas mansões mal assombradas de filmes. Comecei a ficar preocupado com o meu retorno, pois era um lugar distante e o caminho de volta era perigoso. Ela reclamou de extremas dificuldades econômicas, e simplesmente lhe agradeci por ter tido a possibilidade de lembrar que sua pessoa me proporcionou os melhores momentos de minha vida”. Este é um sonho que toca a fundo o centro afetivo de um ser humano. O simbolismo do relógio e seus variados recursos prova como o tempo é uma fração de segundos na memória que sempre se mantém viva quando foi sensibilizada em determinada ocasião. Novamente o tema do retorno. Quase podemos concluir que 90% de um sonho é a mais pura saudade. O inconsciente clama pela volta de uma satisfação ou gozo, assim como deseja também repetir a dor de um trauma. Enfim, nossa mente é um misto do mais puro gozo e horror. Esta é a dialética máxima do inconsciente. O mais interessante é a evolução do paciente no tocante a uma experiência de rejeição ou fracasso. Admitiu não só sua paixão, mas reconheceu o poder que outra pessoa teve sobre sua história emocional. Precisamos parar de sentir raiva ou ódio perante o fracasso deste tipo de vivência, e admitir que somos influenciados ou até “enfeitiçados” quando nosso desejo foge do controle. Faz parte do íntimo humano. Devemos estar preparados para abrir mão do desejo de poder sobre uma gratificação que almejamos e o destino sublinhou que não seria possível. A morte ou finitude soa alto na mais pura experiência de excitação ou felicidade.
 
“No fundo do quintal de minha casa estavam construindo um prédio; minha ex-namorada e a mãe dela estavam comigo e íamos comprar um apartamento; em outro sonho ela tinha engravidado de outra pessoa e assim mesmo pedia para que voltássemos”. Este relacionamento acabou de uma forma extremamente dolorosa para o paciente, fato que o motivou a procurar a terapia. Seu sofrimento na época era quase que intolerável, se somando extensas crises de angústia. Teve este pesadelo quando já havia se recuperado, provando que seu inconsciente ainda o mantinha numa espécie de expiação ou penitência que insistia em o atormentar. Seria mais do que óbvio falarmos aqui de posse ou apego, sendo que a partir do momento que sua vaidade ou narcisismo foram atacados, começou a contra reação de profundo sofrimento. O paciente em questão já tinha encontrado outra namorada, onde segundo seu relato conseguia mais prazer e satisfação. Mas então por que as lembranças do passado ainda o atormentavam? A resposta não é o fato da perda, mas um auto punição constante por sentir que errou em determinada etapa do relacionamento e não conseguir superar tal fato. Parece redundante, mas boa parte do sofrimento não têm necessariamente relação com quem nos feriu, mas nosso próprio julgamento implacável de não tolerar uma falha pessoal. Não se trata do perdão próprio, e sim abdicar do severo juiz internalizado em nosso inconsciente. Devemos refletir sempre nosso precário equilíbrio psíquico, e como sentimos tanto medo numa dimensão temporal tão pequena que é nosso dia.  

“ Íamos eu e minha família viajar para o RIO GRANDE DO SUL, num belo carro; eu os fazia esperar, pois voltava sempre a minha casa para verificar se algum item estava pendente, tipo: luz acesa, gás, etc; percebi um homem que estava relatando toda sua história de angústia sentimental, e porque nunca conseguiu a felicidade no ramo afetivo; pegava minha moto e ia para uma encruzilhada extremamente perigosa, onde passavam vários caminhões, carros e pneus soltos. Tive a certeza inexorável que morri naquele instante. Voltei e via duas antigas amigas minhas passeando na rua. Entrei no carro de minha família e perguntei quanto durava a viagem- treze horas respondeu meu irmão; dei a pedido de meu pai um grande abraço nele, talvez pela primeira vez na minha vida; não consegui fazer o mesmo com minha mãe; como troféu percebi que tinha recebido um falo(pênis).” Este é o tipo de sonho que traz todo um resumo da angústia de certa trajetória de vida do paciente. O distanciamento familiar e dor resultante; ir para um lugar distante no extremo sul do país, representava sua fuga do conflito emocional quase que intolerável; o homem se analisando como projeção de si próprio na terapia e a grande dificuldade ou desafio de resolver tal questão; a encruzilhada como total embotamento afetivo e social; o voltar à sua casa e verificar as coisas, como representante de atos obsessivos- compulsivos; encontrar suas antigas amigas como fator não apenas de saudade, mas arrependimento por ter perdido oportunidades afetivas; o abraço como expressão da dificuldade de trocar carinho com seu pai, o tendo em sua mente como alguém autoritário; o ódio internalizado contra a mãe, a ignorando afetivamente e transportando esse núcleo neurótico para as mulheres em geral; segurar o falo ou pênis como representante da angústia de castração(o famoso complexo de Édipo, onde o menino disputa com o pai a primazia do objeto afetivo e teme perder o pênis por seus desejos incestuosos), no caso poder-se-ia ter uma leitura dupla: homossexualidade ao desejar o falo do pai e vitória por o ter castrado e ficado com o" totem"(inverteu a angústia de castração citada). Porém, não podemos neste caso apenas nos determos na análise psicanalítica deste simbolismo, embora seja engenhoso tal raciocínio. Toda essa esfera sexualizada mascara o profundo complexo de inferioridade em relação ao pai, que segundo o paciente lhe despertava inveja por ter sido muito mais bem sucedido do que ele, tanto no aspecto econômico, quanto por ter constituído uma família; o ódio do paciente neste caso era por sentir que nunca tinha sido treinado para sair de sua condição solitária. Como ADLER dizia: “o complexo de Édipo e vários mecanismos que a psicanálise deu ênfase na sexualidade apenas mascaram a verdadeira natureza de uma alma sedenta pelo desejo de poder, que não consegue dividir seu íntimo num modelo de cooperação e senso de comunidade.” 

 SONHOS PREMONITÓRIOS 

 
Este é um tema que desperta uma curiosidade extrema em quase todo mundo. Afinal de contas, é possível um sonho prever alguma coisa? A resposta é muito complicada se levando em conta a dificuldade de provas científicas. Para simplificar diria que depende da crença internalizada na pessoa, ou promulga um ato de fé em dito acontecimento, ou simplesmente ignora tal episódio. Descarto apenas aquelas manifestações clássicas onde alguém acordou no meio da noite e recebeu a visita de uma parente que veio a falecer exatamente naquele momento. A pesquisa comprova que tais relatos geralmente são distorcidos, e que o sujeito em questão teve dito sonho após saber da notícia, e sua mente cometeu um equívoco temporal. Não estou generalizando todo o tipo desta experiência, apenas me baseio no que pude perceber nos detalhes de relatos desta natureza. O fato é que para quem acredita neste tipo de sonho vale uma regra: jamais alguém detém o controle ou pode consecutivamente perceber tais acontecimentos transcendentais quando assim o desejar. A experiência varia conforme o grau de apego ou ligação do indivíduo em relação a determinada pessoa ou evento. O próprio FREUD em sua clássica obra sobre a interpretação dos sonhos, se referiu a passagem bíblica sobre o sonho acerca da fartura e miserabilidade no EGITO; o livro do Pentateuco falava dos sete anos de abundância e conseqüente miserabilidade para aquele povo. Tal passagem prova como há milênios a mente humana é fascinada pela capacidade de prever algum acontecimento. Muitos achariam que tal obsessão está ligada ao apego ou ao medo da morte, devido que o sonho não deixa de ter o simbolismo desta última. Morremos diariamente, e o sonho possui um simbolismo de continuidade de consciência quando não detemos mais o controle sobre nosso organismo. Este enigma é o que mais assola o psiquismo da humanidade desde sua alvorada.
A psicologia de CARL GUSTAV JUNG, seguidor inicialmente de FREUD, chamou de sincronicidade o fenômeno dos sonhos premonitórios. A mesma seria uma ligação entre dois eventos sem uma aparente relação entre causa e efeito. O próprio JUNG quando estava rompendo com FREUD, relatou uma experiência nesse sentido: “Estavam conversando sobre eventos transcendentais, e FREUD sempre se colocava como cético perante tais fenômenos. JUNG então disse que naquele instante a estante faria um estralo, fato que aconteceu. Disse ainda que o fenômeno se repetiria, acontecendo novamente. FREUD então num ar de espanto teve uma ausência ou espécie de desmaio”. Posteriormente em um trabalho seu, FREUD negou todo o acontecido. Nos primeiros anos de minha formação, me surpreendi com um sonho de um rapaz com baixa instrução cultural. O sonho se referia ao famoso julgamento de NUREMBERG; sobre os crimes de guerra praticados pelos nazistas. Incrivelmente este rapaz que nem possuía o ginásio, acertou quando sonhou que 12 pessoas foram condenadas a morte(número exato das execuções); o mais impressionante é que conseguiu visualizar no sonho e  guardar o nome em alemão de pelo menos seis pessoas e me contar. Notem que sonho não é de natureza premonitória, mas revela um fato histórico realmente ocorrido e que a pessoa desconhecia. Descartei que na época o mesmo pudesse ter lido alguma coisa a respeito, pois sua profissão exigia trabalhar umas 17 horas por dia, e mal entendia um texto que lhe mostrassem. Outro fato era que o rapaz vivia uma relação extremamente autoritária com seu pai, sendo que esta questão poderia ter desperto uma ligação com o que JUNG denominou de inconsciente coletivo, ou o acervo de todas as imagens, simbolismos e história da humanidade; se identificando inconscientemente e captando “arquivos” de um dos maiores períodos repressivos no decorrer dos tempos.
O próximo sonho é fantástico no tocante ao tema: “Sonhei que estava num avião a caminho de um país que não distinguia bem o nome, me pareceu(erit); havia muita discussão a bordo; de repente houve uma forte explosão e senti que todos morremos. Na última visão enxerguei cerca de umas 50 pessoas desesperadas”. Este sonho me foi contado por um colega de faculdade no dia 03 de janeiro de 1986. Por volta do dia 18 do mesmo mês e ano, li uma reportagem que dizia que ocorreu um desastre aéreo na ETIÓPIA(antiga ERITRÉIA) no dia anterior, sendo que 54 pessoas morreram, e a causa suposta do acidente talvez fosse um atentado contra o governo marxista daquele país na época. A princípio a reação foi como se fosse um comum filme de suspense, mas os fatos falam por si mesmo, e como disse anteriormente cabe a cada um a escolha sobre o que acreditar. Qual a lógica deste tipo de sonho, e por que alguém pode ter uma suposta previsão com um acontecimento em uma região tão distante? Difícil responder, apenas devemos continuar a pesquisa num caráter sério para entendermos melhor os mecanismos que possuímos e usamos sem nenhum propósito lógico, até por que a mente nos dá uma mensagem de total obscurantismo quando o assunto requer uma atenção que foge dos padrões de nossa racionalidade.   
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FREUD, SIGMUND. A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS(OBRAS COMPLETAS). MADRID:BIBLIOTECA NUEVA, 1981
ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. BUENOS AIRES: EDITORA PAIDÓS, 1912

Créditos: Texto de Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

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