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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Poder

"O ambicioso pelo poder no fundo detesta sua vida, suas ações apenas visam deixar uma marca para a posteridade, revelando dessa forma sua ira contra a mortalidade e finitude ". - ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO

"Um dos maiores problemas de personalidade de nossa era é a rejeição ou frustração, o estudo do poder deveria ser uma medida para enxergarmos nossas virtudes e defeitos. Procuramos na vaidade, beleza ou sucesso, o poder, porém jamais seremos realmente reconhecidos dessa forma, pois tudo isso é absolutamente finito e putrefato, a essência do verdadeiro e genuíno poder é transferência e doação, alguém carregar ou sentir sua experiência, crescer com a mesma, pois dessa forma jamais deveríamos ter sentido solidão ou angústia ." ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO

É indiscutível a contribuição que a psicologia deu no tocante a sexualidade. Como estaríamos em termos de prazer sexual se não fossem as pioneiras contribuições de FREUD E WILHEM REICH? * Talvez nem pudéssemos usar o termo prazer, sendo que o surgimento da psicanálise através de FREUD desvendou a era das trevas na qual a sexualidade humana estava mergulhada. Pensem num casal da idade média, e se seria possível discutir a relação sexual de ambos ou suas fantasias, nesse sentido, embora com toda a prudência exigida, diria que a psicanálise foi uma das únicas manifestações durante séculos, a desvencilhar a sexualidade do papel puramente reprodutivo e biológico, e seria interessante se estudar as conseqüências disso. Um outro psicólogo ERICH FROMM colocou com muita propriedade que a revolução dos costumes sexuais e sociais de nosso século, não foi gratuita, mas que o preço que a sociedade moderna pagou e paga por essa caminhada é a ansiedade e angústia, pois no modelo feudal havia a segurança da estratificação de papéis pessoais e sociais rígidos, e nos tempos atuais parece que a única certeza é a ansiedade citada pelo autor. 

Embora FREUD no final de sua vida afirmasse que a repressão do componente sexual, seria o fator gerador da cultura, ele mesmo observou durante décadas os malefícios que um instinto sexual reprimido causava na psique humana. A elaboração das mais primitivas fantasias sexuais pelo paciente, o libertava dos grilhões da neurose ou comportamento obsessivo, permitindo a fluidez do amor e trabalho, os pontos que definiam o homem normal segundo FREUD. 

Nenhum estudioso das ciências sociais negaria a importância de se estudar um instinto e seu impacto na alma humana, porém no caso da psicologia a primazia da sexualidade abafou outros elementos tão ou mais dinâmicos do que a primeira. Cito a questão do desejo de poder, praticamente ignorado, exceto pelo psicólogo ALFRED ADLER pioneiro e único estudioso das manifestações do poder no comportamento e psique humana.
Pois bem, por que então o componente do poder não foi tão esmiuçado quanto à questão sexual? A resposta é um tanto simples, mas aterradora, pois descobriremos uma gama enorme de interesses desde políticos, ou então a não revelação das raízes de nosso ser. Quando ADLER falou de poder e a conseqüente sensação de inferioridade ou superioridade que o mesmo produz, estava se referindo ao topo das relações humanas, ou seja, o modo como nós vivemos diariamente e como gostaríamos ou deveríamos viver. Qual instinto humano afora o poder, poderia nos proporcionar a solução ou pelo menos a minimização dos piores problemas sociais do mundo tipo: fome, distribuição das riquezas, direito a um futuro? Pois é exatamente pelo fato do poder passar por todo o acima descrito, que não é amplamente estudado, fixa-se então apenas a periferia dos problemas psíquicos, sendo que sofremos por coisas que achamos estritamente pessoais, sem nos darmos conta da amplitude social desse sofrimento. 
ADLER salientava que por debaixo da esfera sexual se escondiam os mais puros desejos de poder, então a insistência em determinado conteúdo sexualizado nada mais era do que um fator encobridor de um outro tipo de desejo. Tomemos por ex. a questão do complexo de Édipo, o desejo do menino ou menina por um de seus genitores, ADLER sabiamente enfatizou que tal complexo escondia um forte desejo da criança em ser mimada ou amparada, pois desejar sexualmente um dos pais, significava realizar todas as suas necessidades dentro do lar, inclusive a esfera sexual, sem ter que buscar alguém estranho, poupando tempo e evitando qualquer tipo de rejeição ou o que ele chamava de situação de prova.Falar que o instinto sexual é o farol da alma humana é uma metáfora que esconde outros tipos de relação social, pois ninguém precisa ser um psicólogo para saber que o grande conflito nos relacionamentos humanos não advém da satisfação sexual não realizada, mas tão somente de uma necessidade de moldar o outro frente aos nossos anseios e expectativas. Vivemos projetando aquilo que gostaríamos que o outro fosse, e nos cercamos de todas as desculpas possíveis para nunca admitirmos tal fato. Aliás, o relacionamento amoroso segundo o próprio ADLER é a prova definitiva do ser humano no tocante ao seu preparo social, é através dele que saberemos para onde o indivíduo caminha, se para a cooperação, troca, companheirismo, ou então para a competição, disputa e domínio de outro ser. 

Esse ponto central da teoria ADLERIANA remonta a questão da educação em nossa sociedade, pois a verdade é que jamais tivemos professores no decorrer de nosso desenvolvimento, que nos ensinassem uma maior preocupação com outros seres humanos, fomos sempre educados para obtermos sucesso e destaque, sendo que o ajudar alguém um pouco mais atrasado, jamais foi prioridade numa escola, sua função histórica e social acabou sendo o treinamento da competição, ambição pessoal e exclusão. Não reconhecer o poder como meta profunda da personalidade, é aniquilar todos os esforços para a busca de um ser humano melhor. Digo isso no sentido ético, pois é notório que deveríamos buscar relações de poder onde a responsabilidade fosse a ênfase, e não regalias puramente pessoais. Convencionou-se a comparar o poder com algo destrutivo ou negativo, o que é o mais grave erro, pois sem poder não há potência, não há energia, apenas uma substância amorfa, desprovida de vida. O poder na perspectiva de ALFRED ADLER era sinônimo de criatividade, a auto estima e confiança de alguém para produzir alguma coisa em benefício de outro ser, não é um estado de vaidade, mas a sensação de plenitude por se pensar e falar coisas quase que universais, a partir do momento em que nos preocupamos como estão vivendo outros seres humanos, se é que estão vivendo. 

O exacerbado estudo da psicanálise na esfera sexual, jamais nos proporcionará o descrito acima. ADLER costumava até brincar com esse tão apregoado conceito do prazer sexual FREUDIANO, dizendo que após cometer um delito, uma das primeiras coisas que um "marginal" fazia é ir a um prostíbulo. O que ADLER estava tentando dizer com isso, é que a esfera sexual jamais poderia libertar o homem de sua conduta destrutiva, pois um bandido é capaz do gozo sexual, mas jamais o mesmo pensará numa estrutura de poder que contemple a melhora da vida das pessoas. O poder quando não discutido ou elaborado em suas mais arraigadas entranhas, leva a dois estágios absolutamente destrutivos. O primeiro é a externalização de toda a carga de ódio e sede de posse, criando todo o tipo de liderança fanática ou destrutiva que a história nos revelou. O segundo faz parte do tipo de pessoa que ADLER descreveu como sendo aquela que cria sua própria neurose, a fim de obter vantagens pessoais, como exemplo, ele citava o que hoje denominamos a síndrome do pânico, em seu sofrimento, retraimento e isolamento, a pessoa acaba construindo um mundo a parte, onde manipula os outros através de sua doença, pois sua debilidade é uma arma para forçar que o meio lhe providencie amparo e até mesmo seu sustento, não arcando com suas responsabilidades pessoais, ou como descrevi acima, não passando pelo que ADLER descrevia como situação de prova, adiando possível desapontamento, frustração ou sentimento de inferioridade. Se alguém duvidar disso, pense naquele vestibulando que se preparou o ano inteiro e no dia do exame adoece, pense naquela pessoa que acabou de ser promovida e é acometida de uma inesperada crise de medo, ansiedade ou depressão. 

Caso o tema poder não esteja inserido em uma perspectiva de cooperação ou que dê um real sentido a vida, acabaremos utilizando suas partes mais perniciosas descritas acima. Se somos ensinados a competir, tirar vantagens em todos os sentidos, por que não regrediríamos a um estágio infantil, forçando outros a nos ampararem? Volto a insistir que nunca fomos treinados a sermos cooperativos, e o que é pior, o poder da solidariedade e ajuda são abordados unicamente na esfera religiosa, como se fosse algo absolutamente místico fazer o ser humano transformar seu caráter. O problema central de nossa era é o egoísmo extremamente arraigado nas nossas relações, assim sendo, o conceito FREUDIANO de normalidade-amor e trabalho, está absolutamente incompleto, pois o mesmo só diz da adaptabilidade do ser humano, ADLER enxergou de forma pioneira a necessidade do ser humano ir além, sendo que o homem normal, é aquele que apesar de toda a lição egóica, consegue transcender seu espaço puramente privado e contribui com algo para a coletividade, é deixar algo não só de útil, mas principalmente alguma coisa que reforce os laços entre os seres humanos, que mostre como a vida se torna melhor com amizade e não desconfiança, que realmente alguém seja valorizado por seus semelhantes não por ocupar um cargo especial, mas tão somente pelo seu exemplo de vida e confiança na melhora de nossa sociedade, que seu trabalho, estudo e esforço, não sejam apenas mais uma lápide erigida em sua memória, mas que possam realmente ser aproveitados e tragam benefícios concretos aos demais Seres humanos, enfim, que possamos viver sem o sentimento de nos sentirmos sempre numa terra estranha e hostil como dizia Adler. 

* WILHEM REICH- inicialmente colaborador de FREUD, rompeu com o mesmo seguindo uma linha teórica que apregoava que a luta política e social passava necessariamente pela capacidade da pessoa em sentir o orgasmo e êxtase, sendo que o indivíduo não satisfeito, era a presa favorita de regimes totalitários. 

Créditos: Texto de Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo 

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