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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Suicídio e Timidez

Pretendo neste estudo apontar os aspectos psicológicos que levam ao suicídio; bem como fazer um paralelo com a timidez, já que demonstrarei que ambos os processos caminham em paralelo; apenas a forma ou o resultado comportamental é que diferem. Há muito que estes dois fenômenos deveriam ser prioridade de uma política séria de saúde mental, pois as conseqüências são devastadoras; tanto no nível de perdas humanas, como um comprometimento total na qualidade das relações sociais. Obviamente a problemática é mundial; vide o episódio no Japão sobre o suicídio coletivo dos "hikikomoris" (tímidos ou reclusos). Neste caso específico a timidez caminhou para o suicídio, devido às pressões de uma determinada cultura que talvez não preste a atenção devida ao relacionamento humano, mas tão somente ao desempenho profissional e competição, embora não seja um aspecto encontrado apenas no Japão.


A timidez como demonstrei em vários outros trabalhos* não é apenas um retraimento ou vergonha de se colocar no âmbito social, mas uma conduta neurotizada de tentar obter um poder ou vantagem através da não divisão do potencial íntimo do sujeito. O tímido teme a situação de prova a todo o momento; quando se retira do contato cria uma ficção de vitória por não ter que passar por determinado apuro, mesmo que isto lhe custe um prazer futuro. Foi o psicólogo ALFRED ADLER, contemporâneo de FREUD, que primeiro percebeu o simbolismo da timidez. Para o mesmo, o tímido tinha como meta de vida disfarçar seu profundo complexo de inferioridade. Ao contrário do que muitos imaginam, se tornam pessoas bem sucedidas do ponto de vista econômico, visando compensarem o lado pessoal rebaixado. O tímido na verdade comete uma espécie de "estelionato social"; sua lei é retirar, sendo que os aspectos de egoísmo estão totalmente presentes. Nos relacionamentos afetivos são aquelas pessoas que insistem em manter uma vida totalmente privada; como exemplos máximos: jamais permitem uma conta bancária em conjunto, seus ganhos e posses são mistérios para o parceiro; detestam discutir qualquer assunto relacionado a sentimentos; parece que o casamento foi uma coisa que lhes aconteceu e não uma escolha pessoal; seu prazer máximo é aguardar uma determinada ausência do outro para que possam se dedicar a determinado hábito ou prazer que não desejam compartilhar; enfim, aliam o prazer ao anonimato.

O último estágio do processo da timidez é a depressão profunda ou o transtorno do pânico e até o suicídio, quando a pessoa não consegue mais nenhum tipo de satisfação devido a sua conduta masturbatória perante a vida. O suicídio entra exatamente neste ponto, sendo um último apelo ou protesto em relação a um poder desejado ou que foi retirado da pessoa. Ao contrário do que muitos pensam, o suicídio não é o último estágio do sofrimento, mas um atalho mórbido para não o vivenciar, sendo que assim como o tímido sua meta é a fuga. Não farei aqui nenhuma menção aos casos de doenças terminais ou eutanásia, pois estão numa categoria à parte; apenas enfocarei os aspectos psicológicos do suicídio nos casos que não há essa pressão por doença física. O suicídio e timidez têm como temática básica à questão de como enfrentar a profunda solidão. O primeiro não enxerga nenhuma alternativa para resolver o dilema; o segundo se acostumou e desfruta da mesma.
 
O suicida desenvolve o pensamento de que não possui "nenhuma chance" sobre seus dilemas. Mas o por que desta radicalidade com tantas evidências de recomeço que a vida oferece? A questão passa por um aspecto temporal. Determinado trauma ou experiência de angústia pode causar a deturpação da noção do tempo, dando a impressão clara que determinado evento será novamente repetido. O suicida visa exatamente fugir dessa sua certeza inevitável do recomeço de sua dor. É como se seu passado tivesse destruído todas as suas defesas mentais, restando eliminar sua vida para não sucumbir perante a repetição citada. A fé sempre falha numa personalidade onde o tempo denota pura angústia.O suicida acabou se treinando para esquecer suas virtudes e fugir da dor que está novamente batendo a porta Neste ponto é vital fazermos uma diferenciação entre a teimosia e perseverança. A primeira é típica da personalidade suicida ou tímida, pois a leitura mental é linear, baseada no sofrimento ou em determinado saudosismo que a pessoa não deseja se despojar. Tanto o tímido como o suicida acha que seus esforços são em vão para mudar determinada condição. Apenas a conduta difere, sendo que o tímido adota uma introversão de comportamento e o suicida acaba por extroverter sua raiva contra si próprio. A perseverança ao contrário, é a mais pura arte de tentar ou buscar o não atingido através da convicção plena no potencial pessoal. O tempo não deixa de ser um prazer ou mestre para aqueles que se detém no processo, e não em resultados imediatos. A paciência é sinônima de vida, sendo que a rebelião é válida para darmos determinado passo, não para nos evadirmos de nossas tarefas.

O suicida como dizia Adler reclama um poder a todo tempo, não permitindo que a interação dele com o chamado "destino" permeie sua vida. Almeja ser o carrasco de si por não aceitar a submissão a qualquer tipo de evento que fuja de seu domínio. Aceitar apenas o peso do presente, ou a angústia do passado e a certeza de um futuro continuado de sofrimento é negar a dimensão da vida sob todos os ângulos possíveis. Jamais existirá uma situação única de sofrimento ou até mesmo de criatividade; enfim, jamais estaremos sós, a não ser que fechemos as portas para a percepção da verdade. O fato é que tanto o suicida quanto o tímido adquiriram uma total intolerância de se sentirem fracos por determinado período.

Voltando a questão exposta anteriormente da cisão temporal, poderíamos perguntar o por que apenas do lado negativo prevalecer na mente? Uma experiência de extrema gratificação jamais conseguirá tal efeito? Então o lado positivo está fadado à negligência ou esquecimento? A resposta é que o chamado trauma abala totalmente o sentido de poder pessoal e sentimento de superioridade. Nenhum ser humano almeja galgar uma posição de destaque para depois a perder. O problema é que este deleite que já fazia parte do cotidiano do indivíduo, quando retirado, tem o efeito devastador de potencializar todos os temores de determinada pessoa. A psicanálise sempre acreditou que esta fenda no narcisismo ou vaidade do sujeito se relacionava ao famoso "complexo de Édipo", sendo que a criança jamais aceitava ser preterida no papel amoroso perante um dos genitores. Tal abordagem sempre foi parcial; não é a perda do papel de destaque que abala, mas uma profunda convicção neurótica enraizada no elemento do ódio, que jamais aceita "perder" sob qualquer hipótese. É absolutamente incrível como várias escolas psicanalíticas deram tanta importância a fase oral (amamentação) e não a souberam interpretar. A essência do período infantil é "sugar" em todos os aspectos; na adolescência a ênfase é no desligamento perante os pais para que supostamente possa ser experimentada a liberdade ou determinados prazeres proibidos na fase anterior; o poder adulto se traduz principalmente na sobrevivência econômica, segurança material e emocional. Todo ser humano avança e retrocede nestes três pólos; e a tarefa da psicologia é simples: verificar quais deles estão inundando o consciente e inconsciente da pessoa.

 Há décadas ouvimos a falácia de que o suicida pode ser corajoso pelo seu ato. Jamais pode haver coragem na fuga de um processo doloroso que faz parte da vida, por mais que o detestemos. O tímido ao contrário do suicida consegue sobreviver, mas ambos têm em comum o ódio perante si próprios. No mito do complexo de Édipo há uma passagem simbólica sobre a essência da vida quando há a necessidade de se decifrar o enigma da esfinge; que resumidamente pergunta o que começa andando em quatro pernas (criança); depois duas (adulto); e finalmente três (a velhice simbolizada por uma bengala); o fato é que não é apenas o envelhecimento ou decrepitude que dão o sentido da vida, mas principalmente todas as fantasias de poder que tivemos em todas as épocas da vida e como se dissiparam; o que realmente conquistamos? Uma das únicas prevenções contra o suicídio é ter em mente a certeza de que tal ato não é motivado por nenhum acontecimento trágico, mas o fato de não ter historicamente ninguém para compartilhar seu drama. A solidão é o alicerce e combustível para toda incursão no desespero. Todo distúrbio psicológico é um tipo de comportamento que arrebata a consciência dando uma tônica de algo vitalício. Talvez todo o drama se deva a ficar estagnado na tristeza pessoal e social, se esquecendo da capacidade de proporcionar algum tipo de ânimo. 

O tímido ou suicida é o mais puro ator da amargura que ninguém deseja presenciar, como também é um péssimo representante da esperança. Desejar realmente salvar uma vida é não condenar a incapacidade de alguém para as funções coletivas; tentando "garimpar" na pessoa algo de especial que a mesma desconhece. Esta deve ser a função prioritária da psicoterapia nos dois tipos citados. Obviamente tal tarefa não é nada fácil, pois tanto o tímido quanto o suicida tentam culpar eternamente seu meio por não lhes terem propiciado mais potência pessoal; a ousadia de se retirar do meio social denota total desprezo pelas pessoas, apesar de ambos se acharem excêntricos ou até corajosos por tal ato. A mensagem é que não irão aceitar mais nenhuma regra ou obrigação de compartilhar algo de sua pessoa; sendo que eles mesmos agora serão os senhores absolutos no tocante ao manejo do sofrimento, ou se devem ou não continuar existindo Falando mais uma vez da prevenção, esta deveria se ater ao ponto da perda do controle, fazendo com que determinado indivíduo caminhe para o inusitado, se afastando da sociedade. As duas moléstias são a afirmação absoluta da solidão extrema como remédio para as aflições pessoais; se vingando de um mundo totalmente insensível e difícil no trato pessoal. Não que tal concepção esteja incorreta, mas penso que todos devem estar fartos de denúncias que não acompanham ações de transformação. O suicida tem a plena certeza de que sua extinção será um ato revolucionário, quando na verdade é a mais terrível desistência perante tudo o que imaginamos. 

A retirada social diz também do sentimento ou sensação de traição; ambos são inconformistas com a não durabilidade ou corte de determinada gratificação ou desejo de continuidade. Neste ponto, talvez os pais possam refazer o histórico do nascimento do egoísmo social, como exemplo, quando a criança relutou de todas as formas possíveis diante da vinda de um irmão; na adolescência o sofrimento e desespero descabido por não terem consumido determinada paixão. Se houve tentativa de suicídio, não se trata apenas do fato de tentar chamar a atenção, mas o estabelecimento de determinado apelo mórbido perante situações de crise. Lembro-me de um pesadelo certa vez relatado por um paciente, que o abalou profundamente: "Havia uma briga ou acerto de contas entre gangues, e traiçoeiramente um deles tirou uma espécie de arco e flecha de aço, desses dos filmes de ação e cegou cruelmente seu oponente".Quando acordou teve uma sensação real e desesperadora que seu fim estava próximo; fosse por possuir uma doença incurável, ou por não conseguir sair de seus conflitos pessoais, já que havia passado por uma separação conjugal totalmente conflitante. O incrível neste caso é que seu pesadelo revela a somatória avassaladora de todos os seus medos possíveis e imagináveis. Seu inconsciente abriu as portas da consciência para todos os temores. Entrou num profundo quadro de depressão e se aproximou seriamente do suicídio. O caso apresentado relata fielmente a fragilidade de determinada personalidade frente a expectativas irracionais ou até reais; mostrando a incapacidade para as elaborar.

O fato a ser esclarecido é quando ocorre a perda total da autoconfiança, como é típico dos suicidas. A resposta embora um pouco esdrúxula, passa por uma questão de treinamento. Assim como outras necessidades fisiológicas, nossa mente precisa constantemente adotar uma postura sadia. ALFRED ADLER falava da importância corriqueira de selecionar um grupo de pessoas e dizer para as mesmas o quanto eram importantes e queridas pelo sujeito. Tal ação teria a finalidade de abrandar a inundação da consciência pelo irracional, se fixando numa tarefa de harmonia e solidariedade. Como está difícil hoje em dia selecionar tal grupo! Penso que é muito mais fácil dissuadir qualquer tipo de trauma, pesadelo, ou conteúdo intrapsíquico, do que partir para a prática afetiva. Mais uma vez nos deparamos com uma das essências da timidez: peregrinar por todo o sofrimento individual possível apenas para escapar das obrigações de relacionamentos sociais.

É totalmente propício neste estudo estabelecer em que circunstâncias psicológicas ocorrem de fato o suicídio. A resposta é uma total intersecção entre a personalidade tímida e suicida; ocultando de todos o desejo de praticar o ato abominável contra si próprio. O suicida faz questão de brindar seu meio com a máxima novidade possível; a extinção de sua pessoa. O desaparecimento pessoal trará a punição eterna contra todos que desprezaram suas vocações não efetuadas; semeando todas as condições para que no presente e futuro se desenvolva o ápice da culpa em seu meio. A impaciência sobre sua vida é compensada pela certeza e paciência perante seu propósito de vingança que está por vir. O ato é um epitáfio para protestar sobre como suas sensações e sentimentos não causaram o impacto que gostaria. Compartilhar a dor e pensar no companheirismo estão fora de questão, mantendo a solidão máxima de sua intenção nefasta. Logicamente a desistência do suicida é motivada pela fuga total da contrariedade. Sempre devemos tomar o máximo de cuidado para não nos tornarmos "maus perdedores".

ADLER observou apropriadamente que os casos de suicídio não são em função de coisas graves: doença, desemprego ou falência, perda de um filho, por exemplo; embora possam ocorrer nestas circunstâncias. A questão que ele descobriu é a banalidade de situações que convergem para tal ato. A contrariedade cotidiana pelo "pouco" sempre será muito mais grave. ADLER também constatou o histórico do comportamento infantil que poderia num futuro desencadear tal processo: crianças que simulavam doenças; desmaios; total perda de apetite; etc. O complexo de inferioridade possui uma de suas vertentes exatamente neste ponto; ampliar uma experiência corriqueira de infortúnio para uma dimensão extremamente exagerada. ADLER acreditava que até fisicamente este processo ocorria, quando um determinado órgão era transformado na somatória dos conflitos (inferioridade de órgão-como assim chamava). A psicosomática moderna comprova tal tese. A sabedoria é a plena aceitação de perder algo que há um bom tempo nos causa pesar; assim sendo, a teimosia citada anteriormente é sempre um reforço para medidas desenfreadas. O suicida radicaliza mais uma vez este conceito para a vida como um todo. O tímido se encolhe perante todas estas sensações.

Muitos falam da suposta curiosidade ou protesto contra a morte, que levaria o suicida a cometer tal ato, forçando sua antecipação. Penso mais uma vez que nada disto procede. A essência da questão é uma personalidade em total desequilíbrio. Nenhum ser humano irá apressar algo que é duradouro por sua natureza. O ponto é a intolerância frente ao medo. Psicologicamente o suicida teme completamente a morte; o que ocorre é uma reação psicótica perante este temor desproporcional, contrariando por completo a verdade de seu íntimo. O suicida superdimensiona esta fenda mental, agindo apressadamente para dissuadir sua incompletude perante o susto e medo. Como seria interessante que a medicina se concentrasse no estudo de tal questão, ao invés de procurar apenas fatores bioquímicos. O suicida assim como os tímidos, em última instância negam suas verdades: infelicidade e bloqueio histórico para pedir ajuda. A única saída é se conscientizarem na psicoterapia de que suas vidas têm sido a fuga por completo de situações que desencadeiem uma sensibilidade para qual nunca aceitaram treinamento; percebendo como sempre foi torturante ter que se expor.

Infelizmente a própria psicologia não "ousa" muitas das vezes em casos considerados problemáticos, se atendo a velhas fórmulas ou conceitos teóricos ineficazes perante o contexto de nossa época. A psiquiatria nivela ou socializa todas as enfermidades pela medicação. Ambas têm sido ineptas na empatia com o sofrimento do homem moderno, sendo o fruto de um modelo de civilização totalmente decadente. A melhora da qualidade de vida do ponto de vista material traz compensatóriamente um aumento exorbitante do medo generalizado da pessoa; e isso não é apenas conseqüência do apego, mas da impossibilidade de explorarmos os contatos e relações afetivas. A timidez já é há muito tempo o distúrbio psicológico que traduz fielmente nosso modelo social; forçando todos ao conformismo e abstinência da satisfação pessoal.

Quanto maior a atitude egoísta ou de retirada social, maior será a ilusão de uma blindagem que nos poupe do sofrimento e decepção pelas expectativas que alimentamos por determinada pessoa. O que acontece nos dias de hoje é à busca da salvação do ego pessoal através da concentração em determinado pólo. Superestima-se uma habilidade pessoal ou profissional com o intuito da fuga da rejeição. Seja a beleza; o computador para o tímido; dinheiro; ou até mesmo a inteligência, todos tentam a sobrevivência num mundo onde a própria alma se tornou uma espécie de vitrine; escondendo as demais potencialidades do ser humano. Todos se tornam míopes no sentido não apenas de visualizarem suas reais possibilidades; mas também no tocante as reais conseqüências de suas capacidades perante uma sociedade onde o consumo engoliu todas as características humanas. Enfim, o suicídio, timidez e solidão são a exposição mais precisa do inferno de nossa alma, embora os três elementos possuam características de introversão.


Antonio Carlos Alves de Araujo - psicólogo

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