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terça-feira, 5 de julho de 2011

Sites de Namoro

O Primeiro Estudo Psicológico no País Acerca das Consequências do Namoro Virtual.
É inegável a difusão da informática em todos os setores da vida moderna, o relacionamento interpessoal não poderia ser uma exceção. Trata-se, portanto, de uma modalidade bastante recente das pessoas se conhecerem e que já está fazendo por merecer um estudo mais aprofundado. O chamado namoro virtual, é fruto destes novos tempos. A violência urbana, a extrema solidão de nossas vidas, a ausência de amizades verdadeiras, a banalização do sexo, dos relacionamentos, tudo isso e muitos outros fatores alimentaram o surgimento desse contato virtual. Obviamente, essa nova maneira de conhecimento entre as pessoas encerra algo de positivo, pois de algum modo está se procurando gente através desse recurso. Gostaria, porém de ressaltar alguns pontos, no meu modo de pensar um tanto perturbadores nesse tipo de relação. Para chegar a essa conclusão pesquisei durante seis meses cerca de cinco sites de namoro virtual.

A primeira constatação é a total compartimentalização de elementos e sentimentos humanos, ou seja, aquilo que poderia facilitar de certa maneira a escolha, através das características descritas pela pessoa, vira uma espécie de vídeo game do drama que todos vivem, a difícil procura e entendimento nas relações afetivas, o medo da frustração, o temor à mágoa, o pânico de amar. Quase a totalidade das pessoas inscritas, independentemente da idade, relatou em suas descrições que ainda acreditam na alma gêmea, porém esse relato quase nunca vem acompanhado do que cada um poderia fazer para obter tal coisa (é como se esperasse que algo por puro acaso acontecesse). É claro que a fantasia exerce uma força muito grande nas pessoas, a espera fica sendo tipo um bingo, onde aguarda-se que o seu número seja sorteado.

A passividade na espera ganha também um destaque especial. Algumas pessoas disseram que inclusive já tinham mensagens prontas, gravadas no computador. Quando chega a fase da saída do virtual, a troca de telefonemas e conseqüente encontro pessoal surge mais um código: a extrema brevidade da relação. O elemento da ansiedade nesse tipo de contato que começou pelo virtual, chama a atenção, pela rapidez do estabelecimento de uma relação. Recentemente, um jornal noticiou um casamento, após apenas três meses de conhecimento do casal.A reprodução mercantilista e empresarial se incorpora na mentalidade das pessoas; pois muitas colocam que querem uma pessoa na faixa etária de no máximo 35 anos, reproduzindo a exclusão que vemos em nossa sociedade. Será que essa verdadeira ejaculação precoce de uma relação não estaria escondendo algo?

Podemos apenas taxá-la de fruto do nosso tempo? Quando agiliza-se um processo assim tão complexo, como é a questão do amor, corre-se o risco de pular etapas ou rituais extremamente importantes para nossa saúde afetiva. O amadurecimento da relação é totalmente cortado nesse ponto, uma vez que, o que realmente conta é NÃO FICAR SOZINHO. Penso ser esse o elemento central nisso tudo. O estar sozinho em nossa sociedade, é sinônimo de fracasso e completa inferioridade pessoal. A cobrança feita pelo meio exerce uma pressão quase insuportável e, sendo assim as pessoas correm para exibir os resultados, se esquecendo de ir a fundo na qualidade do relacionamento estabelecido. O elemento de produto nesse tipo de procura é inegável, sendo que curiosamente ambos os sexos praticamente só respondem emails acompanhados de fotos, o que prova que os dois lados procuram inegavelmente o fator estético ao contrário do que poderia se pensar. É este o realce que ambas as partes fazem em seu perfil, quando há algum item para se descrever. 

A coisificação e alienação em nossa sociedade são mais do que óbvias. A grande questão é que a virtualidade acaba impondo ou reproduzindo regras em algo que deveríamos ter uma ampla liberdade, o relacionamento humano, quando este é reduzido a uma suposta vitrine num supermercado, para que as pessoas possam ganhar tempo, me parece que é chegada a hora de parar e pensar para onde estamos indo, pois nada pode ser mais nefasto para a saúde afetiva ao se fazer uma espécie de “test drive” nas relações humanas. Esta reflexão não é em hipótese alguma a condenação do serviço virtual citado, muito pelo contrário, poderia ser até uma rica forma de expansão de contatos. A questão é de como a estamos usando?, qual o grau de desespero humano em cada um que pode afetar a coletividade? São perguntas, acredito eu, que devemos nos fazer, sob o risco de mais uma vez contaminarmos uma nova aquisição.

Temos que começar a ter um raciocínio de conjunto e não tão somente individual. Queremos ardentemente encontrar alguém, lutar pelo nosso direito à felicidade pessoal, porém isso está condicionado a vários fatores que nos esquecemos muitas vezes. Só para lembrar de alguns: qualidade dos relacionamentos, solidariedade entre as pessoas, companheirismo nas relações de trabalho, cultivo do diálogo, da discussão no ambiente familiar (alguém ainda faz isso?), sensibilidade, interesse social, etc. Não adianta, jamais seremos capazes de construir um belo oásis apenas para nosso deleite próprio, porque o fracasso numa relação afetiva está diretamente relacionado a um fracasso nas relações sociais.

O pioneiro da Psicologia Social, ALFRED ADLER, costumava dizer sabiamente que são quatro os fatores que moldam nossa personalidade: nossa posição e medida do amor que recebemos de nossa família, doenças que puderam abalar nosso desenvolvimento, nossa aparência e o modo como encaramos isso, educação e sentido social, ou seja, o quanto nos importamos com os outros.

A conclusão é que neste recurso, na maioria das vezes "procura-se para não achar", devido à intensidade do temor de novo sofrimento como foi exposto neste estudo. O mais incrível é a percepção da inversão de determinada norma; sendo absolutamente inofensivo na adolescência, devido ao caráter lúdico e exploratório; porém, não é recomendado para maiores de 30 anos (obviamente a idade citada apenas possui um caráter referencial), pois tais pessoas precisam se conscientizar que a necessidade do recurso eletrônico é um reflexo preciso da falta de prioridade do lado sentimental no transcorrer de suas vidas. O namoro virtual é uma das denúncias mais exatas e chocantes da falta de investimento real e verdadeiro na questão amorosa. 

Antonio Carlos Alves de Araujo - Psicólogo - C.R.P: 31341/5

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