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quinta-feira, 10 de março de 2011

Impotência Sexual Psicológica e Perda de Ereção

 (sexualidade como prazer ou avaliação?)

Este é um tema que a cada dia que passa se torna mais intrigante, nebuloso, terrível e diria perigoso em qualquer consultório de psicologia. Como muitos sabem minha formação e especialização se deu em terapia de casal, mas pelo fato de ser homem, logo no início de minha carreira vários homens me procuravam e até quase me pressionavam que tratasse dessa questão tão delicada para o público masculino e também feminino. No início fiquei relutante em aceitar tais casos, mas com a prática clínica descobri processos extremamente complexos por detrás do problema da chamada disfunção erétil ou impotência sexual. Geralmente este tipo de paciente já tentou sem sucesso tratamento médico e drogas estimulantes da libido sexual, no desespero absoluto se lembram de recorrer à psicoterapia. Outra coisa que sempre me impressionou é que raramente atendi alguém acima de quarenta anos, todos praticamente são jovens entre 18 e 30 anos, que raramente tinham um histórico de tabagismo ou drogas. Obviamente esse fato vai totalmente contra o esperado, contrariando todo um saber médico acerca de vitalidade ou questão hormonal. Não demorou muito para eu perceber que algo estava muito errado nesse contexto. Nunca houve também uma cronologia lógica de trauma na área sexual, quase todos os relatos são difusos, sendo que os pacientes conseguiram ereção normal com a primeira namorada ou segunda, sendo que na terceira ou adiante começou a aparecer o problema, sem um motivo específico, excetuando alguns casos em que a parceira antes do ato sexual já apontava que iria cobrar um ótimo desempenho do companheiro. Mesmo em análise nunca houve fortes indícios de qualquer tipo de stress nessa área, apenas alguns relatos que na primeira relação sexual fizeram com certa pressa de medo dos pais chegarem a casa, mas nada mais contundente que a psicologia pudesse detectar uma obstrução no desempenho normal da sexualidade.

Fatalmente me deparei com a resposta de que o problema estava longe da esfera orgânica, mas, sobretudo num contexto de atitudes e valores sociais e psicológicos. Todos os pacientes sempre relataram forte complexo de inferioridade não em relação ao tamanho do pênis, mas sobre seu desempenho no ato sexual. O pânico máximo sempre foi o medo da crítica, mas não como rejeição, mas como uma espécie de exame laboratorial que diria se o indivíduo é capaz ou não no ato de dar e receber prazer. O ato sexual ou a mulher, que deveria ser vista como o momento máximo de prazer daquele dia ou semana é encarada como uma espécie de juiz, onde a pessoa terá que prestar uma espécie de depoimento forçado, e como se sente culpado ou inseguro imita a prática que vemos no noticiário diariamente, de suspeitos que dão as desculpas mais ilusórias para não comparecerem perante a justiça. O sexo virou então um vestibular dos mais difíceis, e como o candidato se acha despreparado, fatalmente dará um jeito de sabotar sua presença. 

Na prática o pânico desse paciente é o pronunciamento da palavra motel por parte da companheira, sinônimo de terror perante a situação de prova descrita. Mas cabe fazermos uma reflexão política e sociológica sobre o tema. O início da era de FREUD se deu no problema da repressão sexual daquela época, principalmente sobre as mulheres, se desenvolveu então a doença psicológica chamada de histeria, uma contenção de afetos e sexualidade que resultavam em gravíssimos sintomas físicos como perda de movimentos, e até cegueira. Pois bem, estamos assistindo ao mesmo fenômeno depois de dois séculos só que no lado invertido, na questão masculina, assim sendo, a impotência sexual psíquica diz de um homem histérico, reprimido em sua autoestima e valor próprio. Seria a hora da revanche? Outro fenômeno que observo há tempos, é que nunca tive tantos pacientes homens tendo de encarar uma traição feminina. O problema maior é que se tudo isso for uma espécie de vingança social e inconsciente contra o patriarcado do passado, o que restará é a mais absoluta solidão para ambos os sexos. Mas analisando a esfera clínica do problema o caso até que é bem simples. Não há nenhuma necessidade de tomografia computadorizada para alguém distinguir se tem uma impotência orgânica ou psicológica, costumo orientar que o teste é o mais ridículo de todos, ou seja, se o indivíduo consegue uma ereção na masturbação, obviamente seu problema não é orgânico, mas, sobretudo quando se encontra ao lado de alguém onde se incumbiu da tarefa de ter o máximo desempenho possível, a situação de teste que venho descrevendo neste estudo. E como fica o lado da mulher nisso tudo? Também sempre observei posturas totalmente antagônicas, ou a revolta e escárnio contra o parceiro que não lhe realiza sexualmente, para não falar da desconfiança de uma possível traição ou infidelidade, ou então uma postura absolutamente passiva perante o caso, uma indulgência que só agrava o problema, é por isso que pontuo que qualquer distúrbio sexual num relacionamento é total responsabilidade de ambas as partes, quem não fizer essa confissão estará incorrendo no erro gravíssimo da competição ou projeção de suas incapacidades perante o parceiro, isto vale tanto para a impotência psicológica quanto para a frigidez feminina.

Notem que o problema da sexualidade há muito tempo foi tomado por fatores de ordem política e social, a regra básica que desejo passar neste breve estudo é que qualquer um que encarar a sexualidade como uma competição, prova de fogo, desafio ou coisa similar, fatalmente poderá sofrer com o distúrbio citado, é como a lei da física do empuxo de Archimedes, todo sólido mergulhado num fluido retornará com a mesma força ou potência despendida. O problema maior é que tudo isso teria de ser óbvio na mente de qualquer pessoa, mas vejo exatamente o oposto, a pessoa desesperada para tentar provar uma potência competitiva e não um prazer afetuoso perante a companheira. Mas o leitor irá se perguntar se qualquer pessoa que tenha problema com sua autoestima sofrerão de impotência sexual? A resposta depende da reação do indivíduo perante sua auto-imagem. Num primeiro caso pode se desenvolver a impotência ou perda da ereção, caso a atitude do indivíduo seja mais tímida ou retraída, na segunda opção, onde o indivíduo tenha uma atitude mais agressiva ou de desafio poderá ocorrer o que julgo que é o pólo oposto da impotência sexual, a chamada perversão sexual, ou neurose obsessiva em relação ao sexo. O perverso além de sua estrutura de caráter que moldou sua problemática necessita da compulsão justamente para provar que não é um castrado no termo psicanalítico, ou que mesmo tendo sérios problemas de estima, todos querem ver seu corpo ou ter relações com o mesmo. Aliás, esses dois tipos já dão a tônica dos maiores problemas da sexualidade nos dias atuais. Pode sem dúvida alguma haver uma junção dos dois tipos, aquele sujeito que não consegue uma ereção justamente por estar totalmente preso a fantasias sexuais de masturbação, que rechaçam o ato sexual real, mas em todos os casos afirmo categoricamente a desconfiança da pessoa em ser alguém realmente desejado ou querido por seu meio. 

Como disse anteriormente, chega a ser irônico tal problema em nosso tempo, justamente quando supostamente se venceu a barreira da moralidade sexual, quando todos poderiam fazer sexo em demasia, assistimos o contrário, fuga e medo perante o mesmo. Novamente insisto na questão social, que associou tal prazer a uma escala de valor de disputa e competição. Infelizmente não temo em dizer que para boa parte das pessoas, tanto homens como mulheres, o ato sexual nem é visto mais como um prazer, mas como um tributo que temos de pagar ou provar, é como a história de termos de comprar algo valioso apenas para não ficarmos por baixo perante vizinhos ou amigos. Como na questão do casamento, a sociedade abriu a porta há décadas para que os mais diversos vírus contaminassem a essência da sexualidade, e obviamente milhares estão pagando o preço. Com certeza seria amplamente criticado se não fornecesse neste texto algumas dicas para enfrentar o problema. Pois bem, a primeira delas é desconfiar de qualquer tipo de tratamento mirabolante, como aqueles que surgiram nos anos setenta que estimulavam determinada posição, ou pressão da cabeça do pênis para evitar a ejaculação precoce por exemplo. O tratamento deve ser feito pelo próprio paciente, cabendo ao terapeuta o papel de uma espécie de supervisor. O primeiro passo obviamente é descartar qualquer anomalia orgânica que deve ser conferida pelo urologista. Identificada a questão de natureza psíquica além de refazer a estima do sujeito devemos começar analisando seus pensamentos conscientes e inconscientes sobre o tema. Sobre a questão de qual posição sexual se deve começar a treinar para a superação do problema o quadro é polêmico, pois além de depender de cada indivíduo, também devem ser observadas as características físicas de cada um, como peso, idade, estatura. O que costumo orientar pela prática clínica é que a posição clássica do homem por cima da mulher será uma das mais difíceis de serem alcançadas na problemática da impotência, pois além de ser uma posição onde o homem praticamente dá a tônica do ato, entra o componente visual diretamente com a parceira, mais difícil para pessoas tímidas ou retraídas. Claro que isto não pode ser generalizado, mas a orientação é começar pelas carícias ou preliminares para que sucessivamente o paciente conquiste etapas onde se sinta seguro para o ato em si. Pode parecer simples demais, mas para quem sofre do problema é tão complicado como dizer para o drogado abandonar seu vício, a terapia se justifica basicamente por isso, apoio e perda de qualquer sentimento de vergonha ou ameaça, fatores fulminantes no desempenho adequado da sexualidade.

Embora pareçam semelhantes temos de distinguir clinicamente a impotência sexual psicológica da perda de ereção durante o ato. A primeira pode ser definida como a ausência de libido antes mesmo do ato em si, ou então ereção somente nas preliminares, sendo que a impotência irá ocorrer quando advier a prova final da penetração como venho expondo neste estudo. A perda da ereção durante o ato ou sua curta duração diz mais de características psíquicas ou de personalidade do sujeito em questão. É incrível como há um paralelo entre sexo e essas características citadas. Não raramente recebo pacientes com disfunção erétil que começam falando abertamente do problema e vão aprofundando a questão, mas logo em seguida sua fala vai se esvaindo caindo numa apatia ou perda do assunto, é exatamente uma reprodução literal do que acontece em seu ato sexual, o vigor dura segundos ou minutos, parecendo que sua energia sempre se encontra esvaziada. O que acontece nestes casos é que a pessoa tem estímulo e vontade para o ato sexual, mas, rapidamente pensamentos quase que totalmente inconscientes invadem a psique bloqueando por completo a excitação ou dando simplesmente uma mensagem que não serão bem sucedidos na relação. A síntese de todo esse processo é que esse tipo de pessoa nunca acreditou que possa ser uma verdadeira fonte de prazer ou excitação para o outro como disse no começo do texto, sua desconfiança perante seu potencial erótico parece que permanece quase que eterna, a despeito de todos os esforços despendidos para reverter tal quadro, é algo absolutamente arrebatador e que tira completamente o foco sexual da pessoa.

Temo honestamente pelo pior, ou as autoridades de saúde pública começam a fazer algo relacionado ao problema, tipo pesquisa em larga escala, palestras, grupos de discussões ou assistiremos em breve o risco de suicídio de jovens motivados por essa problemática, aliás, muitos de meus pacientes já relataram ter pensado nisso diversas vezes, em seu desespero pessoal por se sentirem tolhidos de algo tão básico. Assim como na era de FREUD, o fenômeno se torna da máxima gravidade quando determinada ideologia ou estilo de vida compromete o inconsciente e aspectos elementares da natureza humana. Se funções vitais se tornam bloqueadas devemos repensar se está valendo a pena sangrar até a morte por valores tão deturpados ou que tiram o indivíduo de seu eixo de satisfação ou prazer. A ação do poder público passa a ser vital, pois o grande problema neste tipo de caso é a falta de estímulo e empenho desde a terapia ou qualquer outro tratamento, podendo se comparar a casos onde a pessoa tem câncer e se questiona se vale a pena o tratamento já que está fadada a falecer, é exatamente esse pensamento que a pessoa que sofre de impotência sexual psicológica nutre quase que diariamente. Vale lembrar até de uma antiga profecia de FREUD, se não me engano em seu texto o futuro é uma ilusão, faz um comentário acerca do socialismo, onde dizia que se extinguisse a competição econômica a mesma migraria para a esfera sexual, pois bem, embora o socialismo tenha derrocado, o que se assistiu foi uma reprodução literal do modelo econômico de conflito e medo para toda a esfera da sexualidade, sendo que a mesma se tornou um microcosmo de toda uma peça sócio-política engendrada há séculos pela humanidade. O que se conquistou é mais uma área de medo e receio, pior, no mais profundo da esfera privada e íntima de uma pessoa, obviamente a conseqüência de tão nefasto processo será o incremento cada vez maior do processo da solidão, que infelizmente parece ser o único seguro contra ter de competir o tempo todo, seja nas relações econômicas ou sexuais. Seja o problema da depressão ou sexualidade, temos de ter em mente que apenas uma medicação jamais irá curar nossos mais profundos receios, sendo assim, é mister que em terapia seja refeita toda a trajetória do sujeito que perdeu quase por completo o ânimo ou estímulo, do contrário só estaremos reforçando estruturas neuróticas bastante solidificadas, e não esquecendo que sexualidade sempre foi a preocupação máxima de cada homem, e se o mesmo não conseguiu superar tal problema que lhe consome horas de desespero, devemos levar em conta que a problemática não apenas é séria, mas que irá demandar o máximo esforço do terapeuta, tentando elaborar toda a resistência e em suma esse verdadeiro enigma moderno no âmbito sexual.
Créditos: Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

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