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sábado, 30 de outubro de 2010

Solidão ou Conviver com uma Relação Fracassada?


(Análise psicológica do “antes só do que mal acompanhado”)

A primeira conseqüência para tão freqüente parábola moderna é o extremo desgaste ou cansaço de nosso espírito. Parece que para muitas pessoas o dilema apresentado se torna inexorável em determinada altura da vida, seja por carências antigas oriundas da família ou traumas afetivos. De nada adianta alguém lembrar a pessoa sobre o otimismo ou que sempre há uma saída, pois simplesmente o sujeito vê tudo nessa parte como algo inatingível. Não se trata nem de depressão ou conformismo, mas total inércia perante um desejo que jamais se realiza.O que sempre me chamou a atenção nestes anos todos de prática profissional, é o longo tempo que muitos demoram a perceber que a escolha do parceiro foi totalmente errônea. A razão disso é o famoso preconceito e condicionamento que se precisa de tempo para se conhecer intimamente alguém, ou então ficar na expectativa de que o mesmo irá mudar e algum dia preencherá nossos anseios. Essa tradição é totalmente falsa, na verdade afirmo categoricamente que só precisaríamos de cerca de um mês para conhecermos alguém, desde que não fôssemos tão tímidos e expuséssemos francamente nossas metas e modo de ser.

A grande verdade talvez é que a maioria das pessoas nunca almejou escolher realmente a pessoa certa, mas tão somente seduzir, possuir e conquistar, uma espécie de extensão do consumismo vigente sobreposto na área emocional. Outro mito absurdo é o de que os opostos se atraem, exatamente o contrário, principalmente num esquema de vida e sociedade tão intolerante e excludente como o nosso. Por outro lado seria direito de todos supostamente trocarem com pessoas parecidas, minimizando as raízes dos conflitos. O fato não é descobrir que o outro é exatamente diferente, mas perceber que simplesmente ambos estão totalmente presos na esfera do ódio ou qualquer outro tipo de sentimento negativo que os torna idênticos, independentemente dos motivos das discussões. Está custando caro em nossa era as duas esferas; seja a solidão ou um relacionamento totalmente mal sucedido. Com o fim dos papéis impostos outrora entre homem e mulher a relação caiu na mais absoluta competição e disputa. Não que o modelo antigo fosse mais saudável, mas tinha a certeza de uma certa segurança e continuidade. O problema atual com tal liberdade é que a mesma cobra o preço altíssimo do pânico à solidão, que faz com que a pessoa não consiga mais discernir sobre como um relacionamento a está afetando sob todos os aspectos. Infelizmente o que vale é vencer, não perder, seduzir e coisas afins. A variante do apego sustenta o sofrimento no mais alto grau.

A solidão em síntese seria a impossibilidade de conviver com as diferenças que não batem com o projeto pessoal e hermético do indivíduo, assim como a incapacidade talvez do mesmo em atrair algo semelhante com seu anseio ou desejo, não necessariamente sexual, mas sobretudo comportamental. Solidão é uma espécie de gozo individual através de uma certeza constante de desfrutar de sua rotina, desejando contraditoriamente alguém e sabendo de que a suposta pessoa pode interferir em seus planos individuais; um grande conflito com toda a certeza, mas o fato é que o desejo do encontro jamais cessará. Infelizmente em nossa era se procura para não achar. A verdade é que quase todos apenas conseguem vivenciar todos os sentimentos que se parecem com a mais pura dependência: paixão, apego, ciúmes como exemplos, e infelizmente não há o mesmo êxito na arte da doação ou renúncia, assim como na aceitação do outro ou o convívio com suas diferenças. Todas as futuras tribulações são causadas exatamente por todos desejarem apenas que sejam servidos, deixando suspensas suas responsabilidades e doações afetivas. O egoísmo há muito é um carcinoma constante dentro dos relacionamentos, e parece que hoje em dia é encarado com a máxima naturalidade, sequer causa estranheza ou vergonha, assim como a inveja, embora todos vivam disfarçando esses sentimentos. A acentuação egóica na esfera emocional sempre será um fator do mais puro conflito e sofrimento, apesar de todos estarem cegos sobre esse ponto.

É claro que numa cultura totalmente narcisista ninguém irá se importar com seu semelhante, e sim cultuar sua suposta superioridade, seja no lado econômico ou estético. A própria sedução só deixaria de ser um elemento destrutivo se houvesse uma certeza de continuidade do investimento no parceiro, e não apenas para atingir simplesmente uma meta de conquista. O “antes só do que mal acompanhado” reflete que ambas as opções só produzem insatisfação, infelicidade e deterioração da capacidade da troca. Se constantemente estamos infelizes ao lado de alguém, ou passamos boa parte do tempo solitários, é mais do que certo de que nossa capacidade de divisão e compartilhamento será afetada. Antes só do que mal acompanhado reflete também uma desistência ou total conformismo perante a derrota na esfera emocional. Claro que não estou pregando que ninguém tenha de aturar um relacionamento fracassado, mas deverá descobrir porque constantemente atrai tipos totalmente opostos em relação aos seus anseios. Os conflitos que vemos nos relacionamentos realmente seriam uma espécie de defesa ou proteção para a pessoa que se sente desprestigiada ou mal amada? Ou teriam o sentido de mascarar a grande agonia por ter uma responsabilidade afetiva e sexual para com o outro? 

A questão sobre o que atraímos em termos de relacionamentos ainda é um grande mistério. Como via de regra se atrai alguém que irá causar tanto conflito e dor? O próprio FREUD também se confundiu nessa área, ao assinalar que o princípio básico do inconsciente era a busca de prazer. Mas se o mesmo era o soberano, como ficava a questão do sadomasoquismo nas relações sexuais? Então formulou o conceito de que havia dois instintos; EROS- instinto de vida e preservação da mesma, através do gozo e ato sexual, e THANATOS- instinto de morte e retorno ao inanimado, destrutividade em todas as esferas. Embora polêmica até hoje, tal tese merece não apenas nosso respeito mas, sobretudo mais empenho e estudo. O fato é que se existe um instinto de morte quando o mesmo se instala? Diria que quando o sujeito tem a certeza subjetiva de ter sido um estorvo ou rejeitado familiarmente e em conseqüência ter tido uma vida afetiva conturbada. Tudo isso parece muito óbvio, mas o fato que quase ninguém se dá conta é que a rejeição sempre é fruto também da comparação com outras pessoas ou famílias, que exacerbam a inveja e frustração do indivíduo. O instinto de morte significa sobretudo que o critério e julgamento não dependem mais da pessoa, mas totalmente do ambiente ao seu redor, não há mais espaço ou chance de amor próprio, pelo menos é assim que o sujeito sente seu drama diário.

Qualquer pessoa não muito inteligente sabe que a destrutividade humana se iniciou quando se trocou a solidariedade e cooperação por competição e disputa. Mas qual afinal a razão de se procurar um gozo no destaque? Em outros estudos mencionei o desejo de imortalidade que inunda todas as formas de poder. Este é outro ponto em que há uma brecha na teoria psicanalítica; o gozo sexual e fantasias do gênero são buscados a cada segundo como apregoa o ramo psicológico citado, porém não são páreos para o desejo de imortalidade citado, pois apenas o “poder terreno” tem o derivativo de estabelecer supostamente uma dinastia de continuidade. O prazer tem o efeito totalmente diluído quando se adentra a questão não apenas do sentido da vida, mas os fatos inexoráveis da mesma, a morte como exemplo máximo. O prazer acaba sendo um derivado da ilusão da conquista e sedução, sendo imagens arcaicas de natureza sexualizada que carregamos conosco; o poder como foi mencionado tenta desviar o acerto de contas acerca da finitude de nossa existência. Seja a pessoa narcisista no sentido estético ou erótico, por se achar bonita e desejável ou aquele que adquiriu um espírito notável de liderança, ambos acabam desprezando a intimidade e cumplicidade de um relacionamento, justamente por esse compromisso de um ego arraigado em si mesmo.

O certo seria considerar todo projeto individualista como o ápice da loucura. É óbvio que tal conceito está totalmente na contramão da sociedade egoísta e competitiva. Todos desejam sucesso, crescimento, poder e prazer, dentre outras coisas, e é mais claro ainda que o exagero em uma dessas áreas é que provoca todos os problemas individuais e sociais. Mas será que os elementos citados que todos buscam são para poucos? Há mecanismos inconscientes ainda pouco estudados de atração e repulsão, levando o sujeito para determinada corrente ou destino. O pólo individualista é loucura pois todo o esforço se perderá caso não haja divisão ou continuidade. A mais profunda tristeza e aridez afetiva serão o testamento daqueles que sempre temeram ser explorados em vários aspectos, retendo tudo o que puderam. No final das contas existe uma tremenda contradição no modo de vida em nossa atualidade, pois se todos almejam mesmo a continuidade ou imortalidade ao menos simbolicamente, deveriam aprender não apenas a arte da divisão, mas do ensinamento profundo para com o outro. Coisas complicadas e difíceis num mundo mimado que deseja tudo pronto sem lutar para a melhora ou construção de algo original.

Como disse no começo do estudo ambas as opções são péssimas, tanto a solidão quanto um relacionamento fracassado. Mas devemos examinar a fundo a gênese desse sofrimento todo. O grande vilão é a posse e o terrível sentimento de perda, que ninguém em nossa atualidade deseja para si próprio. Parece muito fácil a resposta, mas poucos percebem que a posse é uma defesa psicológica das mais vorazes contra a sensação devastadora do sentimento de desamparo. Outro problema extremo é que a posse mascara e adia a terrível angústia de num futuro próximo ter de lidar com a saudade, por mais negativo ou frustrante que fosse o relacionamento. Há mais de uma década percebo que há um consenso nessa área amorosa, e o mesmo passa por simplesmente não ficar sozinho ou ser abandonado. Infelizmente as coisas acontecem contra o sonho ou vontade de quem investiu tanto em determinado desejo. É óbvio que uma sociedade que evocou tanto a liberdade negativa e até diria promiscuidade nas relações, e ainda a timidez em relação a se entregar profundamente para o companheiro, colherá a imprevisibilidade neste setor no mais alto grau possível. Querer a posse, mas almejar ser livre ou sem obrigações (o “moderno ficar”); a leitura dessa contradição nada mais é do que o egoísmo e mimo num grau alarmante para as necessidades pessoais e coletivas.

Para chegarmos realmente ao âmago da questão precisamos refletir o porque da extrema dificuldade de compreensão para com o companheiro, e mais vital ainda, quando a mesma seria positiva ou prejudicaria a pessoa? Realmente tal proposição irá despertar a ambição das pessoas no tocante a uma saída para determinada questão. Quando realmente podemos mimar uma pessoa sem afetá-la; como equacionar a questão sobre a anulação pessoal com o outro durante a vida toda versus a impulsividade e agressividade que só agregam solidão e desespero. Isso tudo representa o divisor de águas entre a antiguidade e nossa era atual se paramos para pensar com mais cuidado. Parece que ambos os modelos falharam ou continuarão falhando no tocante à busca da felicidade ou satisfação do indivíduo. Aliás, cabe colocar o que seria realmente a felicidade em nossos tempos, e a resposta soa com naturalidade: vencer sempre o processo de competição e comparação com determinada pessoa ou grupo. Essa tarefa determina a síntese de nossa solidão. É bastante claro que poucos vencerão tal dilema criado por nossa sociedade; se a cada dia o ser humano se torna mais individualizado ou egocentrado, obviamente ficará mais difícil encontrar alguém que supostamente o tolere ou até adivinhe suas mais profundas necessidades.

A psicanálise e psicologia historicamente insistiram no conceito de Édipo ou familiar para trazer as neuroses da pessoa, supostamente o desbloqueio disso seria a felicidade; total engano, pois a mesma seria o hábito e possibilidade de treiná-la e exercitá-la desde os mais remotos tempos de infância, não apenas tomando como exemplo o amor entre os pais, mas sobretudo o quanto estimulou a criança para vir a ser realmente alguém especial e íntegro, em todas as etapas de seu desenvolvimento. Mas não seria até um tanto simples passar esse amor ao filho, ou determinados problemas econômicos e psicológicos se sobrepõem perante tal tarefa? Na essência o que torna alguém fraco ou pusilânime é a convicção que passará por todas as dificuldades sem nenhum apoio. A solidão máxima é ter de desbravar a estrada do sofrimento sem nenhuma companhia ou garantia de afeto. O problema passa além da dificuldade, mas sim ter de lidar com o inesperado absolutamente sem nenhum conhecimento prévio, problema mais do que genético na raça humana.

Esmiuçando um pouco mais a questão, como se forma o processo exagerado da solidão ou então solidão a dois e relações mais do que intempestivas? Em diversos outros estudos evoquei o problema da timidez não apenas como medo e afastamento perante a crítica, mas o não engajamento na arte da troca. O tímido odeia falar de si próprio por não aceitar em hipótese alguma que alguém exponha determinada fraqueza sua, o que torna uma construção de poder ao contrário, domina pela não participação, não passando por apuros emocionais. Pois bem, esse núcleo já se forma na personalidade desde a infância, quando a criança sentiu determinado prazer ou vantagem ao vivenciar uma espécie de prazer quando estava sozinha, ao contrário do que muitos possam pensar de que a mesma acabaria chorando ou entrando em pânico. O gozo de não dividir ou desfrutar apenas para si própria se instala exatamente nesse momento. É como se fosse um pagamento devido ao tímido por ter que aturar a solidão, já que passou por tão terrível experiência, justificando eternamente seu egoísmo, agora sancionado por uma teoria macabra de sua mente. Obviamente o receio da crítica continua vivo, caso o tímido adotasse outra postura. Os pais deveriam estar atentos para que as crianças não se habituassem com práticas comprometedoras de sua sociabilidade, percebendo quando seus filhos se deleitam ao estarem sozinhos e sem quaisquer responsabilidades para com o próximo.

Um novo problema que podemos inferir nesse estudo é o que chamo de solidão a três. Defino como uma estagnação ou paralisia do casal frente a novos contatos ou amizades, seja por ciúmes de um ou ambos os parceiros, ou por absoluta comodidade do casal. O efeito de tal conduta é o incremento não apenas da insatisfação da relação, mas também intensas crises conjugais e até existenciais. O casal sempre irá incorrer no declínio ao se recusar a oxigenar sua história e sociabilidade. Quem amarga à plenitude da solidão vive queixoso, mas também é uma certa unanimidade se falar do distanciamento que uma paixão ou amor provoca no meio circundante do casal. O mais inacreditável é exatamente isso, tanto aquele que não tem absolutamente ninguém, quanto o que se entregou quase que na totalidade à sua paixão, sofrem quase sempre da mais absoluta carência, angústia e insegurança. Os históricos de ambos os processos quase sempre culminam numa rota de privação e fome afetiva. Também em outros trabalhos meus observei que o problema amoroso pode se tornar totalmente destrutivo, tanto psicologicamente quanto fisicamente, e quase todos já perceberam esse terrível fator. As seqüelas de uma relação frustrada exacerbam todo tipo de sintomas psicossomáticos, sendo que na experiência clínica já me deparei deste uma simples gastrite até o surgimento de um câncer fulminante, pela soma intensa de sofrimento e frustração. Mas como perceber quando o caminho amoroso converge para a destrutividade? Afora as brigas e discussões intermináveis de um relacionamento que jamais dará certo, diria que o fator primordial é quando se coloca totalmente no outro uma expectativa de redenção ou uma auréola de salvador da afetividade do sujeito. Esse é o caminho mais curto para o desenvolvimento da destrutividade descrita, pois caso a união não dê certo, o físico já está à espreita para se manifestar.

A transposição para um outro ser humano de uma espécie de conteúdo mítico ou de caráter de redenção só piora tudo, como historicamente assistimos a transposição da religião para o personalismo dos líderes na era do comunismo, causando todo tipo de violência e atrocidades que a história demonstrou, não que nosso sistema também não faça tal coisa, a diferença é a camuflagem. Lamento desapontar àqueles que são viciados em se anular ou entregar seu ego na totalidade para o parceiro, mas a verdadeira experiência amorosa requer a extinção do medo, infantilismo e solidificação da confiança por parte de ambos. Se um dos parceiros não desenvolve o exposto, não tardará para que todo tipo de problemática surja rapidamente. Nenhuma racionalização por melhor que seja consegue superar um abalo emocional. Porém, é mister cada um fazer uma espécie de inventário quando a relação terminou e descobrir onde se localizou o pólo central da destrutividade. Este pode ser definido não necessariamente pela agressividade, mas simplesmente pela recusa de um ou ambos de aproveitarem a oportunidade do prazer a dois. Se alguém abdicou do parceiro que realmente provou seu valor ou amor, não se pode tolerar ou permitir o sofrimento da perda, e sim compreendermos a estrutura doentia da personalidade de nosso ex-parceiro. Não se trata de treinar ninguém para uma suposta autoconfiança forçada, mas simplesmente encarar a realidade. Perceber que o núcleo da destrutividade citada se exacerbou justamente pela incapacidade de um ou ambos em lidarem com o conflito é fundamental.


Temos talvez de encarar o fato de que talvez nosso parceiro ou nossa própria pessoa sempre desejou caminhar pela trilha da mediocridade. Quanto inconformismo por não se poder canalizar a energia em alguém que não apenas se recusa em aceitá-la, mas também não deseja a evolução, e pior ainda, tal pessoa sabe que talvez seu parceiro seria o ideal para ajudar na concretização disso tudo. A revolta, depressão e tristeza se instalam exatamente neste ponto. Tal processo poderia ser confundido com sabotagem, mas a verdadeira análise é que se trata de uma inveja fulminante contra o outro, sendo assim, vale a autodestrutividade simplesmente para não coroar o potencial do companheiro. Infelizmente para muitos, discutir tal fenômeno ainda é uma espécie de tabu. Quem trabalha com casais simplesmente cansou de ver relacionamentos fracassarem justamente quando a inveja se instalou no cotidiano do casal.

Quando há uma extrema dificuldade de superar uma relação que se rompeu, mesmo que se tenha a certeza de que não haveria a mínima chance de dar certo, podemos fortemente suspeitar que não é apenas a posse, o medo de ficar sozinho, sensação de derrota, ciúmes de ser trocado; além desses elementos citados, o que soa mais alto é o mais puro complexo de inferioridade agindo de uma forma bastante camuflada, através de um tipo que chamaria de gratidão mórbida pelo ex-parceiro ter ficado ou desejado o sujeito algum dia, já que no inconsciente da pessoa acometida por esse problema a carência e miserabilidade afetiva reinam em absoluto, fazendo com que desenvolva uma certeza de que nunca mais alguém irá desejar sua companhia. Quanto menor a autoconfiança ou maior a rejeição a si próprio, mais apego às imagens e acontecimentos do passado irão ocorrer.

Voltando ao problema da inveja creio que sua superação equivale ao ser humano trabalhar o pânico da morte, ambos são a grande medida para o autoconhecimento. Seria fundamental fazermos sempre uma retrospectiva de quanta inveja sentimos no transcorrer de nosso desenvolvimento. É a máxima ingenuidade possível achar que um casal que se ama não desenvolveria a inveja no núcleo de sua relação; mesmo entre pais e filhos a mesma se instala corriqueiramente; a intimidade seja ou não de natureza sexual, jamais irá blindar o sujeito contra investidas emocionais das mais variadas formas e categorias, principalmente as consideradas negativas. O epicentro da inveja não deixa de ser uma grande desculpa criada pelo indivíduo por ter vivido um passado de carência e privação emocional, assim sendo, acha que todos lhe devem, se tornando mimado e desenvolvendo comportamentos destrutivos para com seus semelhantes, já que só visualiza seu ego, sendo um total explorador de seu meio, coisa natural para o mesmo. Suas armas incluem a sedução, mentira e falsas promessas de ser alguém presente. Apenas por um breve momento consegue fornecer o que o outro necessita, justamente pela sedução apontada anteriormente. 


Talvez o grande problema é focar sempre no dano que o outro nos causou, ao invés da reflexão profunda sobre incapacidade, despreparo e histórico de carência emocional. O traçado deste último não é uma espécie de maldição, mas tão somente a somatória do que não conseguimos resolver ou vivenciar a dois. Particularmente detesto a velha máxima de que não podemos culpar o outro por nossos problemas, é que tal ditado sempre deixa a porta aberta para que o outro possa fazer o que bem entende; pois bem, mas a proposição inicial é acertada do ponto de vista racional, devemos primeiramente nos concentrar em nossos próprios erros. Culpando ou não alguém, o problema é que quase sempre permanecemos na mesma situação, famintos daquilo que sempre necessitamos. A velha lenda criada por JEAN PAUL SARTRE perde o rumo nesse sentido, “o inferno não são os outros”, ao contrário do que dizia, mas o poder do outro é justamente amplificar o que não resolvemos ou vivemos. Como disse acima, se a carência leva a santificar ou transformar o outro numa espécie de salvador da afetividade, podem apostar que a relação não tarda a se tornar tortura sendo que um dos parceiros fará o papel de algoz do lado emocional do outro. Não esqueçamos que a carência é sinônima de privação, e a sociedade aprendeu a excluir totalmente aqueles que mais necessitam de apoio e amparo, ao mesmo tempo em que contraditoriamente fomenta a autopiedade e solidariedade no sofrimento neurótico.

Outra coisa que ajudaria em demasia é se os pais desde cedo se ocupassem não apenas com a garantia econômica de seus filhos, mas, sobretudo os observassem atentamente na infância e adolescência a fim de notarem se estão desenvolvendo comportamentos de irregularidade afetiva e timidez. Um ser humano inteligente sabe que para se viver com satisfação e dignidade neste mundo não basta apenas a sobrevivência como foi na era primitiva do ser humano; mais do que nunca nossos tempos colocam o desafio imenso da parte pessoal e psicológica, totalmente negligenciado e que acarreta todo tipo de distúrbio psicossomático e emocional. Enfim, tanto conflito, disputa de poder nos relacionamentos, qual a verdadeira origem de tamanha dificuldade? Será o casamento apenas um ícone obsoleto pregado pela cultura religiosa ou tem alguma chance de evolução? A resposta final é que todo o exposto neste estudo é reflexo de um fenômeno bastante simples, nunca em nosso histórico de vida priorizamos a parte pessoal, apenas isso, quando não há treino ou condicionamento físico, pode apostar que o jogo já está mais do que perdido. Encaramos afeto como simples distração ou apenas alguém para não ficarmos sozinhos, e a verdade é que cada dia mais todos os processos sociais de disputa, inveja dentre outros, adentram enormemente a relação pessoal, e simplesmente nos sentimos impotentes ou indolentes para reagirmos perante tal tragédia. Creio que apenas cada um em seu íntimo pode operar uma profunda reflexão que possa levar a uma radical mudança comportamental, desde que o indivíduo anseie por isso é claro. Por último, a máxima do “antes só do que mal acompanhado”, vale precisamente quando o suposto prazer da relação seja sexual ou não, é fonte de tormento, distúrbio e rouba por completo a valiosíssima paz de espírito, tão difícil em nossa atualidade. 

Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

sábado, 23 de outubro de 2010

Deliquência, Perversidade e Violência

A onda crescente de delinqüência que se espalha por toda a Terra, assume proporções catastróficas, imprevisiveis, exigindo de todos os homens probos e lúcidos acuradas reflexões. Irrompendo, intempestivamente, faz-se avassaladora, em vigoroso testemunho de barbárie qual se loucura de procedência pestilencial se abatesse sobre as mentes, em particular grassando na inexperiente juventude, em proporções inimagináveis, aflitivas.
Sociólogos, educadores, psicólogos e religiosos preocupados com a expressiva mole de delinqüentes de toda lavra, especialmente os perversos e violentos, aprofundam pesquisas, improvisam soluções, experimentam métodos mal elaborados, aderem aos impositivos da precipitação, oferecem sugestões que triunfam por um dia e sucumbem no imediato, tudo prosseguindo como antes, senão mais turbulento, mais inquietador.
Os milênios de cultura e civilização parece que em nada contribuíram a benefício do homem que, intoxicado pela violência generalizada, adotou filosofias esdrúxulas, em tormentosa busca de afirmações, mediante o vandalismo e a obscenidade, em fugas espetaculares para as origens.
Numa visão superficial das conseqüências calamitosas desse estado sociomoral decorrentes, asseveram alguns observadores que a delinqüência, a perversidade e a violência fluem, abundantes, dos campos das guerras sujas e cruéis, engendradas pela necessidade da moderna tecnologia de libertar os países superdesenvolvidos do excesso de armamentos belicos e dos equipamentos militares ultrapassados, gerando focos de conflitos a céu aberto entre povos em fases embrionárias de desenvolvimento ou subdesenvolvidos, martirizados e destroçados a expensas dos interesses econômicos alienígenas, dominadores, arbitrários, no entanto, transitórios ...
Indubitavelmente, a Humanidade vê-se compelida a responder por esse pesado ônus, fruto do egoísmo de homens e governos impenitentes que fomentam as desgraças imediatas, geratrizes de males que tais ...
O homem, condicionado à técnica da matança desenfreada e selvagem, atormentado pelo medo contínuo, submetido às demoradas contingências da insegurança, incerteza e angústia disso resultantes, adestrado para matar antes e examinar depois, a fim de a si mesmo poupar-se, obrigando-se a cruciais situações, ingerindo drogas para sustentar-se, açular sensações, aniquilar sentimentos, só muito dificilmente poderá reencontrar-se, mesmo que transladado em campos de combate para as comunidades pacíficas e ordeiras.
A simples injunção de uma paz assinada longe do caos dos conflitos onde perecem vidas, ideais e dignidade, jamais conseguirá transformar de improviso um vetereno um pacato cidadão.
Além desse fator odioso, com suas intercorrências, referem-se os estudiosos aos da injustiça social vigente entre as diversas classes humanas, de que padecem os proletários e os menos favorecidos sempre arrojados às posições subalternas ou nenhures, mal remunerados, ou sem salário algum, subnutridos, abandonados.
Atirados aos redutos sórdidos das favelas, guetos e malocas, vivendo de expedientes, dependentes uns dos outros, em aventuras, urdem na mais penosa miséria econômica, da qual se derivam as condições mesológicas deploráveis - causas de enfermidades orgânicas e psíquicas de diagnose difícil quão ignorada; geradoras de ódios, brutalidades e sevícias, nos quais se desarticulam os padrões dos sentimentos substituídos por frieza emocional resultante de inditosa esquizofrenia paranóide - os deforços contra a sociedade indiferente que os relega a estágio primitivo, sub-humano.
As vezes, sobrevivem alguns descendentes, vítimas inermes do meio ambiente, cujos hábitos e costumes arraigados jungem-nos a viciações de erradicação difícil, quando não perturbante, de que não se conseguem libertar, estiolando-se mais tarde...
Todavia, devemos considerar, à margem das respeitáveis opiniões dos técnicos e especialistas no complexo problema, as condições morais das famílias abastadas - tendo-se em conta que a delinqüência flui, também, abundante e referta, assustadora e rude, em tais meios assinalados pela linhagem social e pela tradição cujos exemplos, nem sempre salutares, substituem o cumprimento dos retos deveres pelo suborno ou os transferem para realização a servos e pedagogos remunerados, enquanto os pais se permitem desconsiderações recíprocas, desprezo a leis e costumes, impondo seus caprichos e desaires como normas aceitas, convenientes, sobre as quais estatuem as diretrizes do comportarnento agindo, de maneira desprezível, apesar da aparência respeitável..
A leviandade de mestres e educadores imaturos, não habilitados moralmente para os relevantes misteres de preparação das mentes e caracteres em formação, contribüi, igualmente com larga quota de responsabilidade no capítulo da delinqüência juvenil, da agressividade e da violência vigentes, ameaçadoras, câncer perigoso a dizimar com crueldade o organismo social do Planeta.
Experiências em laboratórios com ratos hão demonstrado que a superdensidade de espécimes em área reduzida torna-os violentos, após atravessarem períodos de voracidade alimentar, de abuso sexual até a exaustão, fazendo-os, depois, perigosos e agressivos, indiferentes às outras faculdades e interesses. Crêem os especialistas em demografia, que o problema é semelhante no homem que vive estrangulado nos congestionados centros urbanos, onde as cifras da delinqüência se fazem superlativas, cada dia ultrapassando as anteriores.
Destaquemos, aqui, a falência das implicações morais e da ética religiosa do passado, que depois da constrição proibitiva a todos os processos evolutivos viam-se ultrapassadas, sentindo necessidade de atualização para a sobrevivência, saltando do estágio primário da proibição pura e simples para o acumpliciamento e acomodação a pseudos valores novos, não comprovados pela qualidade de conteúdo. A permissividade total concedida por alguns receosos pastores, em caráter experimental, contribuiu para a morte do decoro e a vigência da licenciosidade que passou a vulgarizar a temática evangélica em indesculpável servilismo das paixões dominantes...
O delinquente no entanto, padece não raro, de distúrbios endógenos ou exógenos que o impelem ou predispõem à violência, que se desborda ante os demais contributos sociais, econômicos, mesológicos ..
Sem qualquer dúvida, a desarmonia endócrina, resultante da exigência hereditária, as distonias psíquicas se fazem vigorosos impositivos para a alienação e a delinqüência. Muitos dramas psicológicos e recalques que procedem do próprio Espírito aturdido e infeliz espocam como complexos destrutivos da personalidade, expulsando-os para os porões do desajuste da emoção e para a rebeldia sistemática a que se agarram, buscando sobreviver, não raro enlouquecendo pela falta de renovação e pela intoxicação dos fluidos e miasmas psíquicos que cultivam.
Além disso, os distúrbios orgânicos, as seqüelas de enfermidades várias, os traumatismos ocasionados por golpes e quedas são outra fonte de desarranjos do discernimento, ensejando a fácil eclosão da violência e da agressividade.
Pulula, ainda, nos complexos mecanismos da reencarnação em massa destes dias, o mergulho no corpo somático de Espíritos primários nos quadros da evolução, necessitados de progresso e ajuda para a própria ascensão, e que, não encontrando os estímulos superiores para o enobrecimento, são antes, conduzidos à vivência das sensações grosseiras em que transitam, desbordando os impulsos agressivos e os instintos violentos com que esperam impor-se e usufruir mais fogosas cargas de gozos nas quais se exaurem e sucumbem. Aderem à filosofia chã de viver intensamente um dia, a lutarem e viverem todos os dias.
A simples preocupação dos interessados - e a questão nos diz respeito a todos nós não resolve, se medidas urgentes e praticas, mediante uma política educativa generalizada, não se fizerem impor antes da erupção de males maiores e das suas conseqüências em progressão, apavorantes. Teríamos, então, as cidades transformadas em imensos palcos para o espetáculo cada vez mais rude da delinqüência e dos seus famigerados comparsas.
Tem-se procurado reprimir a delinqüência sem se combaterem as causas fecundas da sua multiplicação. Muito fácil, parece, a tarefa repressiva; inútil, porém, quando se transforma em um fator a mais para a própria violência.
A terapêutica para tão urgente questão há de ser preventiva, exigindo dos adultos que se repletem de amor nas inexauríveis nascentes da Doutrina de Jesus, a fim de que, moralizando-se, possam educar as gerações novas, propiciando-lhes clima salutar de sobrevivência psíquica e realização humana.
A valorização da vida e o respeito pela vida conduzirão pais, mestres, educadores, religiosos e psicólogos a uma engrenagem de entendimento fraternal com objetivos harmônicos e metódicos - exemplos capazes de sensibilizar a alma infantil e conduzi-la, com segurança às metas felizes que deve perseguir.
Por coerência, espiritualmente renovado e educado, o homem investirá contra a chaga vergonhosa da injustiça social, contra os torpes métodos que fomentam a miséria econômica e seus fâmulos, contra o inditoso e constritivo meio ambiente pernicioso, contra o orgulho, o egoísmo e a indiferença.
Os portadores de perturbação psíquica de qualquer procedência e violentos serão amados e atendidos por uma Medicina mais humana e mais interessada nos pacientes que preocupada em auferir lucros e homenagens com que muitos dos seus profissionais se envilecem, na tortuosa correria para a fama e o poder...
O homem iluminado interiormente pela flama cristã da certeza quanto á sobrevivência do Espírito ao túmulo e da sua antecedência ao berço, sabendo-se herdeiro de si mesmo, modifica-se e muda o meio onde vive, transformando a comunidade que deixa de a ele se impor para dele receber a contribuição expressiva, retificadora.
Os homens são, pois, os seus feitos.
A sociedade, são os homens que a constituem. A vida humana resulta dos Espíritos que a compõem.
Com sabedoria incontestável, elucidou Jesus, o Incomparável Psicólogo, que prossegue vitorioso, não obstante os séculos transcorridos: "Busca, primeiro, o Reino de Deus e Sua Justiça e tudo o mais te será acrescentado", demonstrando que, em o homem se voltando para a Pátria Espiritual - a verdadeira - e suas questões, de fundamental importância, os demais interesses serão resolvidos como efeito natural das aquisições maiores.
Nesse cometimento todos estamos engajados e ninguém se pode omitir, porquanto somos igualmennte responsáveis pelas ocorrências da delinqüência, perversidade e violência - esses teimosos remanescentes da natureza animal do homem em luta consigo mesmo para insculpir o bem e libertar dos grilhões do primarismo terreno a sua natureza espiritual.
Toda contribuição de amor, como de paciência, toda dádiva de luz, como de saber são valiosa oferenda para o amanhã de paz e ventura que anelamos.

Joanna de Angelis

domingo, 17 de outubro de 2010

Análise Psicológica da Competição

A competição é uma espécie de camaleão, se adaptando ou se escondendo em praticamente todos os outros sentimentos ou relacionamentos, tipo: amor, paixão, amizade, relacionamento pais e filhos, casamento dentre outros. Nada é mais excitante para o espírito humano do que a competição, dando vida e força ou ainda um sentido para determinado desejo, meta ou necessidade. Em contrapartida seus efeitos colaterais são terríveis e todos os conhecem: complexo de inferioridade quando se perde, destrutividade, isolamento e timidez (esta oriunda pelo receio de competir abertamente), carência e sabotagem de uma relação afetiva que teria tudo para ser totalmente genuína. A competição remete a raízes genéticas ou atávicas do ser humano, onde num passado longínquo tal fenômeno se misturava totalmente à sobrevivência perante um mundo totalmente hostil, podendo aqui tal tese se inserir no famoso estudo de CHARLES DARWIN sobre a “seleção natural de espécies”, onde o mais adaptado iria sobreviver perante as intempéries da natureza.  Mas em nossa sociedade contemporânea o que mudou no quesito da competição? Será que temos ainda de enfrentar animais selvagens, fúria da natureza ou coisas semelhantes? Certamente em determinados casos tal fato é verdadeiro, porém o ponto central de tal discussão é que desde a revolução industrial houve gradativamente um transporte de todo o modelo econômico de exclusão social e competição para o lado pessoal e afetivo. Nossas relações se tornaram meramente uma extensão ou continuidade da luta de classes ou interesses apregoada por KARL MARX, como observei em diversos outros estudos de minha autoria. O stress moderno Causado na luta pela sobrevivência, na verdade jamais esteve ausente do cotidiano do ser humano, apenas tomou uma forma nunca vista anteriormente, produzindo um medo com certeza muito maior que os primeiros seres humanos sentiam perante a natureza que não conseguiam controlar. Hoje a agonia é causada pela opinião alheia, busca da aceitação social, vaidade e coisas do gênero. Mas cabe uma pergunta fundamental, o porquê do prazer da solidariedade e companheirismo é totalmente solapado pela sedução de competir, principalmente com o ente mais próximo? Esta incoerência é explicada pela questão do amor ser colocado em último plano frente às prioridades de nosso cotidiano.

Para os que almejam tirar a prova do que estou dizendo, é só pensarmos em nossa realidade atual; gostamos de nos atualizar em tudo: pós-graduação, bens materiais ou coisas do tipo, menos nossos problemas de relacionamento ou afetivos, que insistimos em postergar o máximo possível. Mas afinal de contas não nos interessamos mais pelo lado pessoal exatamente pelo mesmo não nos gerar lucro? A resposta seria incompleta se pensássemos somente nesse fator, pois a grande questão é a incompetência emocional de nossos tempos, assim como nossa imensa culpa que advém quando lidamos com conflitos íntimos para os quais jamais fomos treinados. A culpa se torna o oposto da competição, onde somos adestrados para essa última desde os primórdios de nossa infância. A dívida mais insuportável que sentimos em nossa alma é para com outro ser humano, principalmente o mais próximo, mas que ao mesmo tempo nos sentimos indolentes para saldá-la. A coisa se torna tão séria nesse ponto, que podemos certamente dizer que a competição norteia quase que absolutamente o próprio sentimento do amor. Mas qual o resultado de tal fusão em nossa era? Obviamente há um declínio da compaixão, solidariedade e da própria humanidade do relacionamento, o que sobra é que uma relação amorosa já vale muito à pena se ambos os parceiros não se prejudicarem mutuamente, ou o popular não trazer azar um ao outro; parece incrível, mas é totalmente nossa realidade.


A competição está próxima à uma droga, narcotizando o conflito em relação à si próprio, projetando completamente a batalha ou desafio no outro. É impressionante como o ser humano sempre necessitou fugir de si mesmo a qualquer custo. A verdade é que a consciência profunda é um fardo; e o famoso provérvio “conhece-te a ti mesmo” é puro desespero em nossa era de projeção como mencionei anteriormente. O competidor é por natureza um ser solitário e tímido; tem a certeza de que seus dotes pessoais são ineficazes para a garantia afetiva dentro de determinada comunidade social, assim sendo, precisa se destacar, alimentando constantemente a inveja do meio circundante, à fim de que notem sua presença. A competição substitui totalmente a generosidade, dedicação e doação pela volúpia de poder sobre outro ser humano, não dando nenhum espaço para a reflexão de determinada conduta pessoal, ou impacto da personalidade do sujeito perante o grupo. O exercício do poder não é e nunca foi mero sadismo como muitos pensam, mas, sobretudo uma blindagem potente contra quaisquer sentimentos de inferioridade. “Agora posso passar desapercebido em relação à todas minhas fraquezas pessoais, e mesmo assim serei aclamado”; esta é sem dúvida a reza máxima do poder. O poder é contra a adaptação saudável, transformação e equilíbrio; sua finalidade última é perpetuar um ego destroçado e capenga na arte do amor e companheirismo. Mas cabe a pergunta sobre o porque o poder se tornou tão maléfico no decorrer da história? A resposta é que o mesmo sempre se alimentou da indolência do espírito do cidadão comum, com total ausência de raciocínio político ou crítica. Neste ponto, o poder começa a sugar toda a energia coletiva, que seria a veia revolucinária ou de mudança da coletividade. Que pena que os movimentos históricos de esquerda do século vinte não enxergaram tal fenômeno. O poder passa então a ser eminentemente radical e autoritário, desafiando tudo e todos, já que conta com a incompetência coletiva  para o desafio. O resultado é pura escravização de idéias ou conceitos, já que poucos se arriscam ao desafio citado ou ao comando. Claro que para quem detém o poder o medo sempre reinará, porém, a certeza do absolutismo advém não apenas da alienação das massas, mas, a convicção de que o cidadão comum não quer mais perder tempo neste mundo com a arte da transformação.


Mais interssante ainda é perceber como a competição adentra por completo quase todos os mecanismos psíquicos; pensemos por exemplo na questão da sexualidade, e principalmente no problema da impotência sexual ou ejaculação precoce. Qualquer psicólogo competente já percebeu que tais fenômenos são oriundos do medo do desempenho, ou então da pessoa ser posta em situação de prova, que nada mais é do que a competição levada totalmente para a esfera psicológica ou biológica. Vivemos num mundo automático de idéias e respostas, e sobra muito pouco espaço para uma criatividade genuína que possa nos libertar da agonia diária que sentimos. Outra verdade muito importante é que o chamado respeito pelo próximo nada mais é do que refrear a vontade de invadir o espaço vital deste último, evitando a descarga inconsciente da agressividade sem nenhuma lapidação. Todos sabem que devemos entender as falhas ou subdesenvolvimento em alguma área da pessoa amada, mas se ater ao ponto que acabei de mencionar é a garantia de alguma paz no relacionamento. Mas como diferenciar a paciência em contraste com uma atitude conformista ou inútil para o desenvolvimento do outro? A resposta é que não devemos desafiar determinado conteúdo reprimido que a pessoa não pode ainda elaborar, independente do certo ou errado colocado pela norma moral, pois isso se torna desagregador em todos os aspectos. O fato é que devemos apenas revelar nosso total descontentamento quando sabemos que nosso semelhante teria condições até com relativa facilidade de superar seu dilema pessoal, mas insiste numa prática viciosa de lamúria ou submissão ao sofrimento com o qual se acostumou, reclama, mas insiste em preservá-lo a todo momento.

Afirmo com a máxima certeza profissional que a competição se estabelece totalmente num relacionamento quando o mesmo é capenga no quesito diálogo. Tal fenômeno negativo é o passe livre para todo tipo de fantasia destrutiva adentrar a relação, se tornando o guia do cotidiano da convivência entre ambos. Retomando o que disse inicialmente, a competição ama a mescla com determinados sentimentos: dinheiro, ambição, narcisismo e desejo de superioridade. O fato é que a tragédia psicológica máxima é a recusa de se enxergar verdadeiramente a vida. Pela extrema fragilidade humana, obviamente o complexo de segurança sempre foi a loucura máxima do ser humano em todas as épocas. Este complexo sempre norteou o comportamento competitivo, seja na beleza, estética ou busca de conhecimento ou poder. Posto isto, acho que podemos desvendar completamente o segredo da política: no passado absolutismo como direito natural da preservação de uma elite instituída; no surgimento da era capitalista o sentido da sobrevivência do mais apto perante às regras sociais, sem nenhum remorso frente à moralidade ou ética, independentemente dos preceitos religiosos. Notem que sempre o desejo de superioridade pautou as relações coletivas. A hipocrisia é a blindagem contra a visão exata do altar de exclusão social em todos os níveis ou fenômenos humanos. Depois assistimos o surgimento do socialismo como estrutura política que visou a mitigação da diferença macabra entre as classes sociais. Tal ideologia aceitou passivamente se corromper pela negação absoluta dos mais sórdidos sentimentos humanos, tipo: inveja, ódio e revanchismo, projetando tudo isso em outra classe social, adotando o que havia de pior na alma humana como timoneiro da conduta política e econômica. O ser humano simplesmente sente profundo ódio e rancor, e nunca determinada ideologia soube lidar com tais fenômenos.


A competição imprime uma marca sem fim, ameaça momentaneamente ceder, para depois de determinado contrato ou acordo estabelecido recrudescer numa potência alarmante, “jogando na cara do parceiro” o esforço feito nesse hiato de conflito. A competição nos relacionamentos tem duas facetas: talvez a primeira e mais dolorosa seja a escolha mais do que errada de nosso companheiro; e a segunda, a negação do vício de sempre necessitar de figuras projetivas à fim de canalizar todo o ódio reprimido pelo sujeito. O fato é que o ser humano sempre se mostrou incapaz de lidar com o problema gravíssimo da solidão, sendo que não consegue assimilar que a competição amplifica este último. Se analisarmos o desenvolvimento infantil, notamos que a criança ou o adolescente necessita ganhar determinada disputa para sua autoafirmação, porém, num futuro não muito distante, assistimos as consequências de tal necessidade ter infectado totalmente o lado emocional da pessoa, é então que a inocência perdida se transforma no dilema de um rancor quase que eterno; mesmo a psicologia é um tanto ineficaz para lidar com tal questão. Acho que o que podemos fazer é apenas alertar sobre determinados sentimentos ou fenômenos e suas consequências: inteligência, sucesso, autosuficiência, negação da finitude conduzem invariavelmente ao mais absoluto vazio existencial. Infelizmente o ser humano sempre fracassa ou não tem mecanismos hábeis na arte de transferir potência ou poder para outrem, penso que a maior prova disso tudo é a instituição casamento, onde a falta da troca conduz ao isolamento à dois.

A competição denuncia a ambição em praticamente todas as áreas, onde a consequência é o conflito entre dois pólos: o topo e a decadência após determinada conquista. O drama é que passamos quase que toda a vida desejando, lutando e consumindo ardentemente nossas energias no primeiro tópico, e jamais somos treinados para o inferno do segundo. A competição denuncia também a ambiguidade de escolhas; sabemos que a bondade, generosidade e honestidade geram infortúnio e ruína econômica; ao mesmo tempo que viver disputando nos leva à solidão dilacerante. Pensemos na seguinte metáfora: necessitamos ser animais mais do que selvagens na floresta da competição e sobrevivência que o modelo social nos obriga; e chegamos em casa com a boca cheia de sangue para o fenômeno da afetividade. Infelizmente nossa era denuncia que tudo é um intenso binômio que termina invariavelmente em conflito, distúrbios psicossomáticos ou infelicidade. Diferentemente de nossos ancestrais chamados de “primitivos”, o fato é que não conseguimos há muito tempo proteger um ao outro, no máximo nos distraímos com a companhia de alguém. Perdemos quase que por completo o prazer ou gozo da aceitação em comunidade justamente pelo fenômeno da competição ou loucura do destaque. Até as crianças já notaram que determinados sentimentos positivos parecem aflorar apenas em situações de intensa catástrofe, exploradas incessantemente pela mídia moderna. Quando deveríamos realmente nos manifestar a nívelcoletivo? Diria que quando realmente pudéssemos contribuir com algo original e verdadeiramente criativo.

Jamais houve a necessidade da solidariedade ser testada numa espécie de circo ou palco, ou por imposição de propaganda. Caso isso ocorra, o resultado é pura alienação, onde algo que poderia ser genuíno acaba virando objeto de consumo descartável, vemos tal fato diariamente. A competição é um deus que empresta sua energia para tudo o que for efêmero, descartável e passageiro, detestando qualquer coisa não diria durável, mas que tenha base, solidez e empenho de verdade. A competição detesta raízes, pois esta última implica em respeito, dedicação e vontade de reparo. Competir é aquela ilusão narcisista da unicidade ou autosuficiência, como se realmente pudéssemos ter todos os bens materiais à fim de que nunca mais precisássemos dos outros, pelo temor da negação ou rejeição. Assim como a fama, poder e dinheiro geram a ilusão da imortalidade, a competição gera a ilusão da felicidade sem compromisso, liberdade com total solidão, achando que esta última nunca irá atormentar nosso espírito, e principalmente achar que isolados sabemos manejar com sabedoria e eficiência nossos recursos materiais ou emocionais.

 Créditos: Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Lei do Trabalho

Pergunta 674: A necessidade do trabalho é lei da Natureza? - "O trabalho é lei da Natureza, por isso mesmo que constitui uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque lhe aumenta as necessidades e os gozos".
Pergunta 675: Por trabalho só se devem entender os ocupações materiais? - "Não; o Espírito trabalha, assim como o corpo. Toda ocupação útil é trabalho."

1 - A BÊNÇÃO DO TRABALHO
Sob pretexto algum te permitas a hora vazia. Justificando cansaço ou desengano, irritabilidade ou enfado, desespero íntimo ou falta de estímulo, evita cair no desânimo que abre claros na ação do bem, favorecendo a intimidade e inspirando as idéias perniciosas.
Se supões que todos se voltam contra os teus propósitos superiores, insiste na atividade, que falará com mais eficiência do que tuas palavras.
Coagido pela estafa, muda de atitude mental e renova a tarefa, surpreendendo-te com motivação nova para o prosseguimento do ideal.
Vitimado por injunções íntimas, perturbadoras, que enraízam no teu passado espiritual, redobra esforços e atua confiante.
O trabalho é, ao lado da oração, o mais eficiente antídoto contra o mal, porquanto conquista valores incalculáveis com que o Espírito corrige as imperfeições e disciplina a vontade.
O momento perigoso para o cristão decidido é o do ócio, não o do sofrimento nem o da luta áspera.
Na ociosidade surge e cresce o mal. Na dor e na tarefa fulguram a luz da oração e a chama da fé.
Maledicências e intrigas, vaidade e presunção, calúnias e boatos, despeito e descrédito, inquietação e medo, pensamentos deprimentes e tentações nascem e se alimentam durante a hora vazia.
Os germes criminógenos de muitos males que pesam negativamente sobre a economia da sociedade desenvolvem-se durante os minutos de desocupação e ociosidade.
Os desocupados jamais dispõem de tempo para o próximo, atarantados pela indolência e pela inutilidade que fomentam o egoísmo e desenvolvem a indiferença.
O trabalho se alicerça nas leis de Amor que regem o Universo.
Trabalha o verme no solo, o homem na Terra e o Pai nas Galáxias.
A vida é um hino à dinâmica do trabalho. Não há na Natureza o ócio.
O aparente repouso das coisas traduz a pobreza dos sentidos humanos.
A vida se agita em toda parte.
O movimento é lei universal em tudo presente.
Não te detenhas a falar sobre o mal. Atua no bem. Não te escuses à glória de trabalhar pelo progresso de todos, do que resultará a tua própria evolução.
Cada momento sabiamente aproveitado adiciona produtividade na tua sementeira de esperança.
O trabalho de boa procedência, em qualquer direção, produz felicidade e paz.
Dele jamais te arrependerás.
Não esperes recompensa pela sua execução. Produze pela alegria de ser útil e ativo, içando o coração a Jesus, que sem desfalecimento trabalha por todos nós, como o Pai Celeste que até hoje também trabalha. 

2 - TRABALHO DE ÚLTIMA HORA

A pretexto de cansaço ou necessidade urgente de repouso, não postergues a ensancha abençoada do trabalho que agora te chega, na Vinha do Senhor.
Dínamo gerador do desenvolvimento e estímulo da ordem, o trabalho é manifestação de sabedoria, desde que o esforço encetado se dirija à execução superior.
Sejam quais forem as circunstâncias, reverencia o trabalho como meio e meta para a harmonia íntima e o equilíbrio externo.
Enquanto trabalhas, olvidas problemas e superas limitações, consubstancializas ideais e incrementas a felicidade. Em retribuição, a atividade ordeira te proporciona esperanças, modificando as paisagens por mais complexas e pressagas se te apresentem.
Convidado à Seara do Senhor, não examines dificuldades nem recalcitres ante as necessidades urgentes com que depares.
Mediante a operação socorrista na lavoura dos corações, lograrás vantajosas conquistas contra os contumazes verdugos do Espírito: egoísmo, paixão, ódio que dormem ou que se agitam nos dédalos da vida mental. ..
Quase sempre ajudas com a esperança de imediata retribuição e reages porque não recebes em seguida ...
Considere as circunstâncias em que os outros atuam e conferes resultados, arbitrando com a visão distorcida do que supões merecer.
A honra do trabalhador, no entanto, se exterioriza pela satisfação do labor executado.
O serviço de Deus é comum para todos, facultando operações incessantes com que se pode desenvolver a felicidade na Terra.
Pouco importa a hora que se haja compreendido a significação do divino chamado.
Assim, não te deixes perturbar ante os que estão à frente, nem lamentes os que seguem à retaguarda.
Importa-te em proceder com dedicação desde hoje, aqui e agora.
Descobre uma entre as mil maneiras de atuar edificando e serve, atendendo o chamado do Senhor, que prossegue aguardando os que desejam trabalhar na Sua vinha.
Nenhum olhar para trás, nenhuma medida de distância à frente.
Os últimos chamados, qual o que ocorre contigo, receberão a recompensa prometida, não obstante o pouco tempo de que disponham para trabalhar com Jesus e por Jesus. 

3 - BENS MATERIAIS

A riqueza, sob qualquer aspecto considerada, é bênção que Deus concede ao homem para a felicidade deste e que lhe compete bem utilizar, multiplicando-a em dons de misericórdia e progresso a benefício do próximo.
Torná-la oásis reduzido para o próprio prazer, em pleno deserto de recursos onde medram a dor e a miséria de todo porte, é fraqueza moral que se converte em algema de demorada escravidão.
Todas as concessões da vida rendem juros conforme a direção e a aplicação que se lhes dêem ...
Os bens materiais ensejam o progresso e devem fomentá-lo, porquanto a própria evolução humana impõe necessidades que os homens primitivos desconheciam.
As exigências da higiene e do conforto, da preservação da saúde e das experiências de evolução facultam a aplicação de valores que, simultaneamente, organizam o sistema de crescimento e desenvolvimento do indivíduo como do grupo em que vive.
Não cabe, porém, a ninguém o direito de usufruir, seja o que for, em detrimento das possibilidades do próximo.
Criminosa a exploração que exaure as forças naturais e entenebrece o caráter humano.
Desse modo, a direção que o homem dá aos recursos materiais, mediante a aplicação egoísta ou a utiliização benéfica, faz que tal se transforme em grilhão ou liberdade, desgraça ou dita.
Administradores, que todos somos, transitoriamente, dos haveres, enquanto na vilegiatura carnal, seremos convocados a contas para relatórios, apresentando o que fizemos das concessões divinas que passaram pelas nossas mãos.
O dinheiro, a propriedade, a posição social relevante, a saúde, a inteligência, a mobilidade, a lucidez são bens que o Espírito recebe como empréstimo divino para edificar-se e construir a ventura.
Qualquer emprego malsão engendra escassez e limitação que transformam em aflição e desespero.
O mordomo infiel retorna à Terra na sujeição escravizadora, que lhe cobra o desperdício ou a usura de que se fez vítima inerme.
Multiplica pelo trabalho e pela ação benéfica todos os bens de que disponhas: do corpo, da mente, do Espírito.
Aquinhoado com os valores perecíveis que dormem ou se movimentam nas tuas mãos, recorda os filhos da agonia ao teu lado, nas tábuas da miséria e do abanndono ...
Um dia, sem que o queiras, deixarás todas as coisas e valores, ante o impositivo da desencarnação, seguindo contigo, apenas, os valores morais legítimos, decorrentes dos bens materiais que converteste em esperança, alegria, progresso e paz, qual semeador de estrelas que, após transitar por caminho de sombras, conseguiu transformá-lo numa Via-láctea de brilhantes celestes. 

4 - FRACASSO E RESPONSABILIDADE

Muito cômodo atribuir-se o insucesso das realizaações a outrem, transferindo responsabilidades.
Incapaz de encarar o fracasso do verdadeiro ângulo pelo qual deve ser examinado, o homem que faliu acusa os outros e exculpa-se, anestesiando os centros do discernimento, mediante o que, espera evadir-se do desastre.
Há fatores de vária ordem que contribuem poderosamente em todo e qualquer cometimento humano.
O homem de ação, porém, graças aos seus valores intrínsecos reais, responderá sempre pela forma como conduz o programa que tem em mãos para executar assim, portanto, pelos resultados do empreendimento.
Pessoas asseveram, em face dos desequilíbrios que se permitem: "Não tinha outra alternativa. Fui induzido pelos maus amigos."
Outras criaturas afirmam após a queda: "Os Espíritos infelizes ganharam a batalha, após a insistência e a perseguição que eu não mais agüentava."
Diversos justificam a negligência sob o amparo do desculpismo piegas e da desfaçatez indébita.
Luta sem desfalecimento e perseverança no posto, em qualquer circunstância, são as honras que se reservam ao candidato interessado na redenção.
O vinho capitoso flui da uva esmagada. O pão nutriente surge do trigo triturado.
A água purificada aparece após vencer o filtro sensível.
Os dons da vida se multiplicam mediante as contribuições poderosas da transformação, da renovação, do trabalho.
Não te escuses dos dissabores e desditas, acusando o teu irmão. Mesmo que ele haja contribuído para a tua ruína, és o responsável. Porque agiste de boa-fé com leviandade, ou tutelado pela invigilância, não te deves acreditar inocente.
Cada um sintoniza com o que lhe apraz e afina.
O Evangelho, na sua beleza e candidez de linguagem, registra e nos recorda a incisa e concisa lição do Mestre: "Sede mansos como as pombas e prudentes como as serpentes."
Sem que estejas em posição belicosa, colocado em situação contrária, abre a alma ao amor para com todos, porém vigia "o coração porque dele procedem as nascentes da vida".
Diante de qualquer fracasso, refaze as forças, assume responsabilidade e tenta outra vez. Quiçá seja esse o feliz instante de acertares, logrando êxito. 

5 - CONSIDERANDO O ARREPENDIMENTO

Por mais anestesiados se encontrem os centros do discernimento intelectual, dia chega em que ele se instala ...
Passe o tempo sob a aflição do tóxico que perturba a faculdade da razão, momento surge em que se reajustam os núcleos da atividade do pensamento e ele brota ...
Apesar da intensidade clamorosa dos fatores perturbantes que destroem os sentimentos superiores da vida, ao impacto dos projéteis da ira alucinada, do ódio avassalador, do ciúme desequilibrante ou do amor próprio enlouquecido, levando a criatura a atitudes infelizes, chega a oportunidade em que aparecem os pródromos da sua presença ...
O arrependimento sempre se manifesta na consciência em débito para com a vida.
A princípio, ei-lo como lembrança da falta cometida de que já se não supunha existir qualquer sinal; posteriormente, a recordação do momento infeliz que se estabelece; mais tarde, a idéia rediviva dominante e, por fim, a obsessão do remorso, avassaladora.
Insidioso e maleável, o arrependimento é câncer que se apropria do homem que se deixou colher em falta, pela vindita ou pelo desforço.
Há pessoas que dizem: "Arrependo-me de me não ter vingado."
Algumas exclamam: "Arrependo-me de não ter expulsado o inimigo à minha porta."
Outros proferem: "Arrependo-me do bem que fiz." Algumas contraditam: "Amarguro-me, sim, porque fui eu quem o ajudou e arrependo-me da hora inditosa em que nutri a víbora que hoje me picou ... "
Em verdade, devemos arrepender-nos das más ações que cometemos, louvando sem cessar os momentos briosos do auxílio que dispensamos e agradecendo a Deus a oportunidade em que poderíamos ter ferido, mas não o fizemos, o ensejo de vingança, sem havermos descido a rampa da desgraça, a ocasião de negarmos o bem, tendo distendido a escudela da generosidade.
O arrependimento que enseja reabilitação do gravame é convite da consciência ao refazimento da obra malsucedida. Se, todavia, a vítima transitou e a perdeste de vista, o acúleo do arrependimento se converte em cravo que se fixa no cerne do Espírito, qual presença da dor que infligiste, até que se te depurem os fatores negativos que causaste.
Não te permitas, portanto, trair, enganar, acusar, ferir, mesmo que tenhas razão. Se a tens, obviamente, não se faz necessário descartar-te de quem te prejudica, porquanto estás melhor do que ele. Se não a tens, não te compete a tarefa do desforço, desde que o teu padecimento é o corretivo para as tuas imperfeições.
Em qualquer circunstância, poupa-te desde hoje ao impositivo escravizante que te surpreenderá amanhã.
Arrependimento sadio das faltas cometidas é compromisso assumido com as tarefas a executar.
Arrependimento perturbador que ultraja a consciência torna-se problema que se afigura de difícil solução.
Caso não te disponhas a tudo recomeçar sob o beneplácito da Misericórdia Divina que nos colocou no mundo para amar e amar, servir e servir, porque é da Lei que "somente pela caridade os homens serão salvos", padecerás do arrependimento perturbador que nada edifica. 

6 - TRANQUILIDADE

Conceituas tranqüilidade qual se fora inércia ou indolência, dever ausente, lazer demorado.
Em face disso pensas em férias, recreação, letargo, com que supões lenir aflições íntimas, solucionar problemas e complexidades do cotidiano.
Talvez consigas, em misteres de tal natureza, renovar forças, catalisar energias, predispor-te. Sem o esforço interno, intransferível com que te defrontarás, assumindo posição decisiva para os embates de reeducação, dificilmente lograrás êxito.
A tranqüilidade independe de paisagens, circunstâncias e ocasiões. Estabelece-se no Espírito como resultado de uma consciência pacificada, que decorre, a seu turno, de uma vivência moral e social concorde com os postulados de enobrecimento espiritual.
Fatores externos criam, às vezes, possibilidades, circunstâncias para as aquisições do Espírito. É, porém, nas refregas da evolução, lapidando imperfeições e arestas, que o homem se autodescobre, conhece-se e premia-se com a ação libertadora.

O cansaço, o desaire, a perseguição, a dor, não obstante aflijam, jamais logram romper a armadura da tranqüilidade real.
Quando existe harmonia interior os ruídos de fora não ecoam perturbadoramente.
Se condicionas a tua tranqüilidade a lugares, pessoas e fatores externos, submetes-te, apenas, ao anestésico condicionante para o lazer dos sentidos.
Se necessitas de silêncio, melodias, ginásticas para a tranqüilidade, apenas estás no rumo. Sem que te possas manter sereno no retiro da natureza ou na atividade das ruas, entre sons harmoniosos e a poluição sonora, ritmos ginastas e a esfalfa das correrias nas leiras da caridade junto ao próximo, a tua aquisição ainda é miragem diletante, que facilmente se diluirá.
Se te enerva a espera ou te desagradam o cansaço e o medo, fruis somente comodidades, encontrando-te longe da tranqüilidade real.
Um Espírito tranqüilo não se atemoriza nem se enfada, não se desarranja nem se rebela, porquanto, pacificado pela consciência reta, vibram nele as energias da renovação constante e do otimismo perene.
Jesus, no Sermão da Montanha ou no Gólgota, manteve-se o mesmo.
Estatuindo a carta magna para a Humanidade, louvou Deus e, padecendo a injustiça humana, agradeceu ao Pai, enquanto perdoou aos homens.
Íntegro, confiante, demonstrou até o momento último que a tranqüilidade é preciosa aquisição com que a vitória da vida coroa as lutas nas incessantes batalhas do existir. 


Joanna de Ângelis