Pages

Translate

English French German Spain Italian Dutch Russian Japanese Korean Arabic Chinese Simplified

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Lei de Liberdade

Pergunta 825 - Haverá no mundo posições em que o homem possa jactar-se de gozar de absoluta liberdade? - "Não, porque todos precisais uns dos outros, assim os pequenos como os grandes."
Pergunta 843 - Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos? - "Pois quem tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina."
1 - DIREITO DE LIBERDADE
Intrinsecamente livre, criado para a vida feliz, o homem traz, no entanto, ínsitos na própria consciência, os limites da sua liberdade.
Jamais devendo constituir tropeço na senda por onde avança o seu próximo, é-lhe vedada a exploração de outras vidas sob qualquer argumentação, das quais subtraia o direito de liberdade.
Sem dúvida, centenas de milhões de seres transitam pela infância espiritual, na Terra, sem as condições básicas para o autodiscernimento e a própria condução. Apesar disso, a ninguém é lícito aproveitar-se da circunstância, a fim de coagir e submeter os que seguem na retaguarda do progresso, antes competindo aos melhor dotados e mais avançados distender-lhes as mãos, em generosa oferenda de auxílio com que os educarão, preparando-os para o avanço e o crescimento.
Liberdade legítima decorre da legítima responsabilidade, não podendo aquela triunfar sem esta.

A responsabilidade resulta do amadurecimento pessoal em torno dos deveres morais e sociais, que são a questão matriz fomentadora dos lídimos direitos humanos.
Pela lei natural todos os seres possuímos direitos, que, todavia, não escusam a ninguém dos respectivos contributos que decorrem do seu uso.
A toda criatura é concedida a liberdade de pensar, falar e agir, desde que essa concessão subentenda o respeito aos direitos semelhantes do próximo.
Desde que o uso da faculdade livre engendre sofrimento e coerção para outrem, incide-se em crime passível de cerceamento daquele direito, seja por parte das leis humanas, sem dúvida nenhuma por meio da Justiça Divina.
Graças a isso, o limite da liberdade encontra-se inscrito na consciência de cada pessoa, que gera para si mesma o cárcere de sombra e dor, a prisão sem barras em que expungirá mais tarde, mediante o impositivo da reencarnação, ou as asas de luz para a perene harmonia.
A liberdade é a grande saga dos povos, das nações, da Humanidade que lutam através dos milênios contra a usurpação, a violência, a hegemonia da força dominadora, sucumbindo, sempre, nessas batalhas os valores éticos, vencidos pelo caos da brutalidade.
Livre o homem se tornará, somente, após romper as férreas algemas que o agrilhoam aos fortins das paixões.
A sua luta deve partir de dentro, vencendo-se, de modo a, pacificando-se interiormente, usufruir dessa liberdade real que nenhuma grilheta ou presídio algum pode limitar ou coibir.
Enquanto, porém, arrojar-se à luta sistemática de opinião de classe, de grei, de comunidade, de fé, de nação, estimulará a desordem e a escravidão do vencido.
Todo vencedor guerreiro, porém, é servo de quem lhe padece às mãos, qual ocorre com os guardiães de presidiários, que se fazem, também, presos vigiando encarcerados.
Prega e vive o amor conforme o ensinou Jesus. Ensina e usa a verdade em torno da vida em triunfo, de que está referto o Evangelho, a fim de seres livre.
Atém-te aos deveres que te ensinam engrandecimento e serviço ao próximo.
O trabalho pelos que sofrem limites e tumultos ensinar-te-á autoconhecimento, favorecendo-te com o júbilo de viver e a liberdade de amar.
Na violência trágica do Gólgota não vemos um vencido queixando-se, esbravejando impropérios e explodindo em revolta. Sua suprema sujeição e Seu grandioso padecimento sob o flagício da loucura dos perseguidores gratuitos atingem o clímax no brado de perdão a todos: ingratos, cruéis, insanos, em insuperável ensinamento sobre a liberdade de pensar, falar e agir com a sublime consciência responsável pelo dever cumprido.
2 - O BEM SEMPRE
O bem que deixes de fazer, podendo fazê-lo, é um grande mal que fazes.
Quando convidado a informar sobre alguém, referes-te ao seu lado positivo, dando oportunidade ao outro para renovar as suas paisagens íntimas infelizes, sem o constrangimento de saber que os demais estão inteirados das suas dificuldades.
Se alguém agir mal em referência a ti, inutilmente passarás o acontecimento adiante.
Muito ajuda aquele que não divulga as mazelas do próximo.
Hábito salutar se deve impor o cristão para o feliz desiderato, na comunidade em que realiza as suas experiências evolutivas: policiar a palavra.
Infelizmente, a invigilância em relação ao verbo tem sido responsável por muitos dissabores e conflitos que não se justificam. Aliás, coisa alguma constitui desculpa honesta para contendas e perturbações.
A civilização e a cultura, engendrando os valores éticos da educação, constituem eficientes recursos para que o homem se liberte das paixões inferiores que geram desforços, agressões, pelejas, através dos quais resvala, inexoravelmente, de retorno às expressões primitivas, que já deveria haver superado.
Toda interpelação agressiva, qualquer verbete ferinte, cada reação violenta constitui ingrediente para a combustão do ódio e a semeação nefasta da amargura.
Útil quão urgente o esforço pela preservação da paz íntima, mesmo quando concitado ao desvario ou diretamente chamado ao desforço pessoal.
Dos hábitos mentais - suspeita, ciúme, inveja, animosidade, fixação -, como dos condicionamentos superiores pelo exercício do pensamento - reflexão, prece, humildade, auto-exame - decorrem as atitudes, quando se é surpreendido pela antipatia espontânea de alguém, em si mesmo inditoso.
Reagirás sempre, conforme cultives o pensamento. Falarás e agirás conforme as aquisições que armazenares nos depósitos mentais, através das ocorrências do cotidiano.
Assim, atenta, quanto possível, para os valores dignificantes do teu próximo, exercitando-te nas visões relevantes e contribuirás com expressivos recursos em favor da economia de uma Terra feliz, à qual aspiras na vivência contínua do bem sempre.
3 - SEGURANÇA ÍNTIMA
Embora atingido pela aleivosa insinuação da inveja, não te deixes arrastar à inquietação.
Não obstante a urdidura da maledicência tentando envolver-te em suas malhas, não te perturbes com a sua insídia.
Mesmo que te percebas incompreendido, quando não caluniado pelos frívolos e despeitados, não te aflijas.
Segurança interior deve ser a tua força de equilíbrio, a resistência dos teus propósitos.
Quem é fiel a um ideal dignificante não consegue isentar-se da animosidade gratuita, que grassa soberana, e nem sequer logra permanecer inatacável pela pertinácia da incúria ...
Somente os inúteis poderiam acreditar-se não agredidos.
O bom operário, todavia, quando na desincumbência dos deveres, experimenta as agressões de todo porte com que os cômodos e insatisfeitos pretendem desanimá-lo.
De forma alguma concedas acesso à irritação ou à informação malsã na tua esfera de atividades.
Quando se sentires compreendido, laureado pelos sorrisos e beneplácitos humanos, quiçá estejas atendendo aos interesses do mundo, contudo não te encontrarás em conduta correta em relação aos compromissos com Jesus.
Quem serve ao mundo e a ele se submete certamente não dispõe de tempo para os deveres relevantes, em relação ao Espírito. A recíproca, no caso, é verdadeira.
Não te eximirás, portanto, à calúnia, à difamação, às artimanhas dos famanazes da irresponsabilidade, exceto se estiveres de acordo com eles.
Não produzem e sentem-se atingidos por aqueles que realizam, assim desgastando-se e partindo para a agressividade, com as armas que lhes são afins.
Compreende-os, malgrado não te concedas sintonizar com eles nas faixas psíquicas em que atuam.
Não reajas nem os aceites.
Suas farpas não devem atingir-te.
Eles estão contra tudo. Afinal estão contra eles mesmos, por padecerem de hipertrofia dos sentimentos e enregelamento da razão.
Segurança íntima é fruto de uma consciência tranqüila, que decorre do dever retamente cumprido, mediante um comportamento vazado nas lições que haures na Doutrina de Libertação espiritual que é o Espiritismo.
Assim, não te submetas nem te condiciones às injunções de homens ou Entidades, se pretendes servir ao Senhor ...
Toda sujeição aos transitórios impositivos das paixões humanas, em nome do ideal de vida espiritual, se transforma em escravidão com lamentável desrespeito aos compromissos reais assumidos em relação ao Senhor.
Recorda-te d'Ele, crucificado, desprezado, odiado por não se submeter aos impositivos da mentira e das vacuidades humanas, todavia triunfante sempre pela Sua fidelidade ao Pai.
4 - ERRO E QUEDA
"Não erreis, não vos enganeis, meus amados irmãos." (Tiago: 1 -16)
O salutar conselho do apóstolo Tiago continua muito oportuno e de grande atualidade para os cristãos de hoje.
Erro - compromisso negativo, amarra ao passado. Ao erro cometido impõe-se sempre a necessidade de reparação.
Quem conhece Jesus não se pode permitir o desculpismo constante, irresponsável que domina um sem número de pessoas.
Por toda parte se apresentam os que mentem e traem, enganam e dilapidam, usurpam e negligenciam, exploram e envilecem, aplaudidos uns, homenageados outros, constituindo o perfeito clã dos iludidos em si mesmos. Sem embargo, o mal que fazem ao próximo prejudica-os, porquanto não se furtarão a fazer a paz com a consciência, agora ou depois.

Anestesiados os centros do discernimento e da razão, hoje ou amanhã as conjunturas de que ninguém se consegue eximir impor-lhes-ão reexame de atitudes e de realizações, gerando neles o impositivo do despertamento para as superiores conceituações sobre a vida.
Enquanto se erra, muitas vezes se diz crer na honestidade e valia da ação, como a ocultar-se em ideais ou objetivos que têm aparência elevada e honesta. Todavia, todo homem, à exceção dos que transitam nas faixas mais primitivas da evolução ou dos que padecem distúrbios psíquicos, tem a noção exata do que lhe constitui bem e mal, do que lhe compete, ou não, realizar.
Dormem nos recessos íntimos do ser e despertam no momento próprio as inabordáveis expressões da presença divina, que se transformam em impulsos generosos, sentimentos de amor e fé, aspirações de beleza e ideal nobre que não se podem esmagar ou usar indevidamente sem a correspondente conseqüência, que passa a constituir problemas e dificuldade na economia moral-espiritual do mau usuário.
Refere-se, porém, especificamente, o Apóstolo austero do Cristo, aos erros que o homem pratica em relação à concupiscência e à desconsideração para com o santuário das funções genésicas.
O Espírito é sempre livre para escolher a melhor forma de evolução. Não fugirá, porém, aos escolhos ou aos alcatifados que lhe apraz colocar pela senda em que jornadeia.
Em razão disso, a advertência merece meditada nos dias em que, diminuindo as expressões de fidelidade e renúncia, se elaboram fórmulas apressadas para as justificativas e as conivências com a falência dos valores morais, que engodam os menos avisados.
Os seus fâmulos crêem-se progressistas e tornam-se concordes para fruírem mais, iludindo-se quanto ao que chamam "evolução da ética".
Não te justifiques os erros. Se possível, evita errar.
Desculpa os caídos e ajuda-os, mas luta por manter-te de pé.
Ao corroborar a necessidade imperiosa da preservação moral do aprendiz do Evangelho, adverte Paulo, na sua Primeira Epístola aos Coríntios, conforme se lê no capítulo dez, versículo doze: "Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe, não caia".
Perfeitamente concorde com a lição de Tiago, os dois ensinamentos são inadiável concitamento à resistência contra as tentações.
A tentação representa uma avaliação em torno das conquistas do equilíbrio por parte de quem busca o melhor, na trilha do aperfeiçoamento próprio.
Assim, policia-te, não caindo nem fazendo outrem cair.
Pensamento otimista e sadio, palavra esclarecedora, sem a pimenta da malícia ou da censura e atitudes bem definidas no compromisso superior aceito, serte-ão abençoadas forças mentais e escoras morais, impedindo-te que erres ou que caias.
5 - NA ESFERA DOS SONHOS
Os interesses recalcados, as aspirações frustradas, os tormentos íntimos, complexos, malconduzidos dormem temporariamente no inconsciente do homem e assomam quando emoções de qualquer porte fazem-no desbordar, facultando o predomínio de conflitos em formas perturbadoras, gerando neuroses que se incorporam à personalidade, inquietando-a.
Da mesma forma os ideais de enobrecimento, os anelos de beleza, o hábito das emoções elevadas, a mentalização de planos superiores, as aquisições e lutas humanistas repousam nos departamentos da subconsciência, acordando, freqüentemente, e produzinndo euforia, emulações no homem, ajudando-o no seu programa de paz interior e de realizações externas.
O homem é sempre aquilo que armazena consciente ou inconscientemente nos complexos mecanismos da mente.
Quando se dá o parcial desprendimento da alma por meio do sono natural, açodado pelos desejos e paixões que erguem ou envilecem, liberam-se as memórias arquivadas que o assaltam, em formas variadas de sonhos nos quais se vê envolvido.
Permanecem nesse capítulo os estados oníricos da catalogação freudiana, em que as fixações de ordem sexual assumem expressões de realidade, dominando os múltiplos setores psíquicos da personalidade.
Além deles, há os que decorrem dos fenômenos digestivos, das intoxicações de múltipla ordem por conseqüência dos estados alucinatórios momentâneos que produzem.
Concomitantemente, em decorrência do cultivo de idéias deprimentes ou das otimistas, a alma em liberdade relativa sente-se atraída pelos locais que lhe são inacessíveis, enquanto na lucidez corpórea, e, fortemente arrastada por esse anseio de realização, desloca-se do envoltório físico e visita aqueles com os quais se compraz e onde se sente feliz. Disso decorrem encontros agradáveis ou desditosos em que adquire informes sobre ocorrências futuras, esclarecimentos valiosos, ou, conforme o campo de interesse que cada qual prefira, experimenta as sensações animalizantes, frui, em agonia, as taças vinagrosas dos desejos inconfessáveis, continuando o comércio psíquico com Entidades vulgares, perversas ou irresponsáveis que se lhe vinculam ao pensamento, dando origem a longos e rudes processos obsessivos de curso demorado e de difícil liberação.
Nos estados de desprendimento pelo sono natural, a alma pode recordar o seu pretérito e tomar conhecimento do seu futuro, fixando essas impressões que assumem a forma de sonhos nos quais as reminiscências do ontem, nem sempre claras, produzem singulares emoções. Outrossim, a visão do porvir, as revelações que haure no intercâmbio com os desencarnados manifestam-se como positivos sonhos premonitórios de ocorrência cotidiana.
Quanto mais depurada a alma, possibilidades mais amplas depara, sucedendo, no sentido inverso, seu embrutecimento e materialização, os desagradáveis e perturbadores sucessos na esfera dos sonhos.
Multiplicam-se e perpassam em todas as direções ondas mentais, que percorrem distâncias imensas, sintonizando com outras que lhes são afins e que buscam intercâmbio.
Em decorrência, pouco importa o espaço físico que separa os homens, desde que estes intercambiam mentalmente na faixa das aspirações, interesses e gostos que os caracterizam e associam ...
Quando dorme o corpo, não adormece o Espírito, exceto quando profundas hebetações e anestesiamentos íntimos lhe perturbam os centros da lucidez.
Automática e inconscientemente, libera-se do corpo e arroja-se aos recintos que o agradam, por que anseia e de que supõe necessitar ...
Quando, porém, se exercita nos programas renovadores e preserva os relevantes fatores da dignificação humana, sutilizam-se as suas vibrações, sintonizando nas ondas que o erguem às Esferas da Paz e da Esperança, onde os Seres ditosos, encarregados dos labores excelentes dos homens, facultam que se mantenham diálogos, recebendo recursos terapêuticos e lições que se incorporam à individualidade, indelevelmente ...
Nas esferas dos sonhos - nos Círculos Espirituais elevados ou nos tormentosos, conforme a preferência individual - engendram-se muitas, incontáveis programações para o futuro humano, nascendo ali ou se corporificando, quando já existentes, os eloqüentes capítulos das vidas em santificação, como as tragédias, os vandalismos, as desditas inomináveis ...
Vive no corpo físico considerando a possibilidade da desencarnação sem aviso prévio.
Cada noite em que adormeces, experimentas um fenômeno consentâneo ao da morte.
Dormir é morrer momentaneamente. Desse sono logo retornas, porque não se te desatam os liames que fixam o Espírito ao corpo.
Podes, porém, pelas ocorrências que experimentas na esfera dos sonhos, ter uma idéia do que te sucederá nos Círculos da Vida, após o desenlace definitivo.
Por tal imperativo, aprimora-te, eleva-te, supera-te, mediante o exercício dos pensamentos salutares e das realizações edificantes.
Não apenas fruirás de paz por decorrência da consciência reta, como te prepararás para a vida real, porquanto, examinada do ângulo imortalista, o homem, na Terra, encontra-se numa esfera de sonhos, que normalmente transforma, por invigilância ou rebeldia, em desditoso pesadelo.
6 - EXIGÊNCIAS DA FÉ
Permitir-se a fé - um ato de coragem.
Abandonar vícios e imperfeições - atitude estóica perante a vida.
Superar impedimentos da própria leviandade - esforço hercúleo de elevação.
Facultar-se consciência do dever - maioridade espiritual.
O ato de crer implica, inevitavelmente, o dever de transformar-se, abdicando dos velhos hábitos para impor-se disposições impostergáveis na tarefa da edificação interior.
A comodidade da negação, a permanência da indiferença, a prosaica atitude de observador contumaz encontram, na fé religiosa, o seu mais temível adversário, porquanto, esta impele o homem a modificações radicais, arrancando-o da inércia em que se compraz para a dinâmica relevante que conduz à felicidade real.
Luta-se contra a crença quanto às realidades da vida indestrutível pela morte e, todavia, ei-la inata no espírito humano. Essa reação, porém, muitos a justificam no utilitarismo de que se servem, no parasitismo emocional em que se acomodaram e preferem, inconseqüentes ... No entanto, mais do que pela falta de "razões" e de "fatos" sobre a supervivência, que os negadores, alegam, não dispõem, isto sim, da coragem para recomeçar em bases novas, "abandonar tudo", renunciar-se e seguir adiante, cobrindo as pegadas deixadas por Jesus.
Impõe-te valentia para desfazer-te do "homem velho" e referta-te com os estímulos da fé, ressarcindo dívidas, remotas e próximas, contribuindo, assim, para o mundo melhor do futuro, mediante a tua própria melhora.
Refletindo nas lições do Evangelho, compreenderás o imperioso convite da fé, e, experimentando as atitudes espíritas, mediante o intercâmbio dos habitantes dos "dois mundos", o espiritual e o material, perceberás o porquê da urgência de incorporar-te à falange dos que crêem e lutam, dos que amam e servem, dos que, morrendo, nascem para a vida verdadeira e ditosa ...
Além de libertar-te das fúteis querelas e exibições que ocorrem no picadeiro do corpo físico, a fé te concederá visão reconfortante e plenitude em todos os teus dias.
Valoroso, mantém-te confiante nos postulados evangélicos e permite-te, sem titubeios, a fé, com a resolução de quem está disposto a pelejar infatigável até a vitória final com Jesus. 

Joanna de Ângelis

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Terapia de Casal na Infidelidade Conjugal

Sem sombra de dúvida o processo da traição e infidelidade é o mais dolorido para um dos membros do casal, ou até para ambos. Falo em processo, pois é exatamente esta palavra que descreve a situação. Tudo porque a infidelidade não é algo que simplesmente aconteceu rapidamente, mas foi sendo construída no percurso do relacionamento. Suas causas principais: insatisfação sexual ou na relação, ausência de diálogo e comunicação, incompatibilidade de personalidades, desejo de vingança. O mais interessante é que o casal na maioria das vezes não enxerga estes elementos óbvios, atribuindo a infidelidade tão somente a um suposto desvio de caráter ou conduta moral. Chegam à terapia desejando ainda salvar a relação, porém, estão presos nos mais obscuros sentimentos humanos; rancor, mágoa e ódio. O estabelecimento da causa da traição deve ser o primeiro objetivo para o terapeuta e casal, para se achar uma trilha nesse verdadeiro nevoeiro que se tornou a relação. Sempre adianto para todos que se o objetivo foi à vingança contra o outro, as chances de êxito são praticamente nulas, pois é dificílimo para qualquer pessoa suportar e conviver com tal ato doloso dirigido contra a mesma. Se as causas são as outras citadas anteriormente, o quadro se torna mais otimista. Sempre afirmei que o grande problema da traição não é nem tanto a mágoa, que existe obviamente, mas ativar um processo defensivo para quem a sofreu. Explicando melhor, quem foi traído tem a tendência num segundo momento de se eximir de qualquer erro ou processo de mudança, colocando no traidor toda a responsabilidade não apenas pelo erro cometido, mas também para se iniciar um novo processo de descoberta e desenvolvimento pessoal. Este é o grande problema, ativar defesas do inconsciente tanto na terapia quanto na relação. Também costumo apontar para os dois lados que aquele casamento como conheciam morreu completamente, ou partem para uma nova estrutura e conhecimento mútuo, ou ficarão na estaca zero e pior, com toda a dor do que aconteceu.
O problema da traição como todos sabem é o que vem na seqüência, ativação ou potencialização de nefastos sentimentos, tais como: ciúme excessivo, paranóia, compulsão para vigiar cada passo do parceiro, ou seja, a infidelidade tem a característica peculiar de adoecer ambas as partes. Digo isto não baseado em um cunho moralista, mas apenas ressaltando que a quebra do vínculo também faz romper toda a estima do companheiro lesado, e isto sem dúvida alguma é a pior coisa da traição, pois por mais que haja racionalização, e a pessoa traída saiba que não iniciou este ato terrorista contra o relacionamento, sempre acaba seguindo aquela tendência de familiares de drogados que se martirizam dizendo em que ponto cometeu erros para as coisas se encaminharem de tal jeito. Esta é a primeira neurose que o terapeuta deve atacar na terapia. Em seguida vem a pergunta clássica dirigida ao terapeuta sobre se tal caso tem alguma chance de êxito. Embora esta indagação caia no mais profundo senso comum, é vital a explorarmos com todo empenho e seriedade. Se alguém me pergunta se será capaz algum dia de perdoar, lhe respondo na hora que depende de como lida ou insufla seu ódio pessoal, destrinchando todos os elementos contraditórios que se seguem; amor pelo parceiro, revolta e desejo de vingança, não aceitação da perda, mas uma rotina diária de inconformismo, queixas e acusações. Volto a insistir que o problema da traição não é de natureza moral ou religiosa, mas essa energia que arrasta um ou ambos para a mais pura doença emocional. Disse anteriormente que quando a questão é vingança o processo praticamente se torna insuperável, assim como aquelas situações clássicas de ter traído com o melhor amigo ou amiga, novo dilema total, pois novamente a superação é quase que impossível por se tratar de uma perda ou traição dupla, sem dúvida alguma o tipo de caso mais nefasto.
Estou dizendo até agora que a traição tem a característica peculiar de ativação de elementos ocultos, sinto que devo me aprofundar nessa questão mesmo correndo o risco de ser repetitivo, mas enfatizando que a infidelidade ou traição trazem à tona o pior problema psicológico do parceiro que sofreu essa agonia, seria como na física o fenômeno do empuxo de ARQUIMEDES, uma força deslocando semelhante no sentido contrário, poucos se deram conta de tal fenômeno, uma substituição gradual do outrora amor pelos mais rancorosos processos psicológicos. Mas como tudo isso é possível? Primeiramente a angústia e inconformismo perante uma provável perda que o companheiro traído jamais sequer ousou em pensar, segundo, o orgulho ferido obviamente que ativa um desejo nefasto de vingança, mesmo sendo contra os princípios éticos da pessoa. É nessa parte que no transcorrer dos anos aprendi a essência da terapia de casal; num primeiro momento o terapeuta deve se comportar como uma espécie de bedel, restringindo manifestações extremamente agressivas que possam causar malefícios inimagináveis para ambas as partes, num segundo momento estimular que cada parte trate individualmente seu lado psicológico desde a mais tenra infância até hoje em dia, e em terceiro o que pouquíssimos casais conseguem explorar, toda a dinâmica psicológica do relacionamento, tipo: quais os fatores inconscientes e conscientes que juntaram o casal, quais pontos tanto da sexualidade como do dia a dia jamais foram explorados, que futuro ambos projetam para dito relacionamento, quais reais compromissos realmente cercam ou protegem a relação de fatores como doença, dificuldade econômica, ausência de libido, tédio e insatisfação. Percebam que tais questões são o centro de tudo, muito mais do que o fator da traição em si mesma.
Mas o papel do terapeuta afora as etapas citadas deve ser de total neutralidade afetiva, pois tomar partido numa situação tão desgraçada quanto à traição é uma tentação considerável. A terapia deve seguir uma análise investigativa sobre quais elementos suscitaram tal enfermidade no relacionamento. Costumo pontuar que se ambos chegaram até o consultório do psicólogo é porque ainda não tem nenhuma definição conclusiva, cabendo a ambas as partes se abrirem o máximo possível para compreenderem a dinâmica de tudo o que ocorreu. Vou entrar agora em outro ponto mais do que polêmico, mas vital para este estudo, afinal de contas o que a psicologia ou terapia de casal encara de fato como sendo uma verdadeira traição ou infidelidade? Excetuando os casos típicos onde um dos parceiros flagrantemente arrumou o que todos conhecem como a figura do amante, a questão é bastante complexa de responder. Diria que depende de todo o histórico psicológico de quem sofreu a traição, pois a construção do mesmo é que fará com que a pessoa enxergue tal coisa como uma traição ou não. Vou dar alguns exemplos para facilitar minha mensagem. Já vi pessoas que não consideram o fato do marido ter ido ao prostíbulo como uma traição, outras sequer admitem que o marido assista a um determinado filme pornográfico. A própria legislação ainda não avançou nesse terreno, considerando apenas a conjunção carnal como uma traição de fato, soube inclusive que há projetos tramitando no congresso sobre considerar traição, troca de mensagens sexuais via os recursos eletrônicos de nossa atualidade. O fato que ressalto é que tudo isso depende do passado de cada um e o trauma que carrega em relação ao que o outro deve ser moral e eticamente. Mas se um paciente insiste em me perguntar o que considero como traição, sempre respondo que deve ser uma percepção da realidade e bom senso. Não posso admitir que um filme seja uma traição, apenas que pode ser prejudicial se interferir no relacionamento sexual de ambos. Sobre troca de carícias sexuais via recurso eletrônico costumo pontuar que é o começo da pavimentação da estrada que levará ao ato de infidelidade. Sobre a questão masculina de recorrer a prostíbulos, digo que não seria uma traição contra a parceira, mas contra a própria relação, pois quando determinado homem utiliza deste expediente estabelece inconscientemente uma competição visando levar uma vantagem extra no relacionamento. Desculpe talvez certa impregnação de moral, mas se não há regras não existe o próprio relacionamento, apenas agregação de dois seres debaixo de determinados contratos.
Todas essas palavras teriam um valor inestimável se fossem aplicadas num patamar preventivo. Assim como o câncer e outras enfermidades, a traição deveria ser diagnosticada a tempo. O grande problema é que todos os casais recorrem à psicoterapia quando todas as bombas já foram lançadas. Então enfatizo a importância da prevenção. Os casais deveriam procurar ajuda no começo de tudo, quando notassem perda da libido, excesso de pornografia ou perversão sexual, tédio no relacionamento, angústia em relação ao que considera como etapas não vividas em seu desenvolvimento e, sobretudo ausência de um diálogo profundo. Ou se começa a rever todos os valores ou todo esse sofrimento se perdurará até a extinção do ser humano. Um fator que me impressiona na terapia de casal é a falta de auto-análise por parte de ambos. Quase todos dizem que sempre fizeram sua parte e que o companheiro é o ingrato ou que não enxerga as qualidades do outro. Isto em alguns casos até pode ser verdade, mas o fato é que quase ninguém consegue perceber quais são as reais necessidades do outro. Obviamente não estou obrigando ninguém para ser uma espécie de psicólogo do outro, mas que dedique um pouco de seu tempo para tentar perceber ou captar as angústias alheias. Generosidade para com o parceiro nunca podem ser exclusivamente no âmbito material, sedução ou o chamado romantismo. Muito mais importante do que a panacéia citada diariamente sobre flores, jantares e coisas do tipo, é perceber uma necessidade do outro que a própria pessoa ainda nem se deu conta, isto é um dos atos mais maravilhosos de amor, pois se ajuda a construir uma autêntica transformação, a pessoa será genuinamente grata por terem lhe apontado algo que num futuro lhe trouxe benefício e a princípio sequer desconfiava de sua importância, este fenômeno é corriqueiro na psicoterapia, deveria ser largamente transposto para os relacionamentos.
Impressiona-me a vulnerabilidade do ego perante o fenômeno da traição. Tantas dúvidas e questões colocadas de forma completamente aleatória. Como exemplo, cito a questão do parceiro traído questionar o outro sobre se sua pessoa hoje em dia lhe causa tédio, ou o popular enjoar da relação. Uma baixa estima obviamente produz esse tipo de dúvida. O que também poucos percebem é que mesmo sendo o mais estimado objeto sexual ou moral, tudo depende do que o parceiro consciente e inconscientemente procura. Quem falou que determinado homem ou mulher está satisfeito com a máxima beleza ou altivez sexual de seu parceiro? Quem disse que ser uma exemplar mãe, esposa ou pai irá estabilizar eternamente a relação? Embora tais qualidades sejam fundamentais, não irão blindar o relacionamento. Lamento tocar na ferida mais profunda, mas o fato é que tudo isso não terá sentido se o parceiro persistir num lado sabotador ou obscuro de sua personalidade. A pessoa traída também tem de fazer uma auto-análise onde irá descobrir que nunca conheceu efetivamente seu parceiro. Talvez tal fato também se torne um dos pontos mais dolorosos no fenômeno da traição. Não conhecer o outro é sentir-se ludibriado, essa é a mais pura verdade. Embora me depare diariamente com o reverso, a pessoa saber muito bem que o parceiro lhe faz mal, mas insiste numa teimosia que nada mais é do que apego, carência ou pânico da solidão. Chegamos à conclusão suprema que a traição pode ser um fenômeno de mão dupla, ser enganado, humilhado e assaltado afetivamente, mas por outro lado trair também é não apenas não se gostar, mas postergar uma relação absolutamente fracassada, aceitar serenamente um estado de infelicidade crônica, ou viver na ilusão perversa que o outro nos suprirá algum dia, quando jamais tivemos qualquer sinal até o presente momento, aliás, essa questão do tempo também é fundamental, quanto tempo necessitamos realmente para conhecermos profundamente nosso parceiro? 10 anos, 20, a vida toda? Porque isso ocorre? Necessidade de permanecermos em nossas ilusões ou projeções? Enfim, todo esse sofrimento só terá um sentido se na seqüência seguir a mágica do amadurecimento, autoconhecimento e respeito por si mesmo, este se dá apesar da imensa dor na compreensão dos fatos e acontecimentos, eliminando totalmente a cegueira causada pela enxurrada emocional, compreensível num primeiro momento, mas devastadora se persistir. A positividade de tão nefasto fenômeno que é a traição é simplesmente tirar uma radiografia completa de nossa história afetiva e sexual, o que realmente necessitamos, em que ponto fantasiamos ou fomos imaturos, e, sobretudo o quanto nos preparamos para o universal processo da perda.
Créditos: Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Lei de Justiça, Amor e de Caridade

Pergunta 875 - Como se pode definir a justiça? - " A justiça consiste em cada um respeitar os direitos dos demais."
Pergunta 886 - Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus? - "Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas."

1 - ANTE O AMOR

Quando te encontres semivencido pelos problemas que comumente assaltam o homem na trilha da evolução, já experimentando o ressaibo da amargura e do desencanto, ou quando, à borda do resvaladouro, na direção do crime e da alucinação, antes da decisão aconselhada pela ira ou pela violência, pergunta ao Amor a trilha que deves tomar e o Amor te responderá com sabedoria como prosseguires, não obstante o céu nublado e os caminhos refertos pela perplexidade e pelo pavor.
Talvez não consigas alcançar imediatamente a meta da paz que persegues nem a logres em caráter mediato-próximo.
No entanto, não desfaleças na tentativa.
O amor te falará em mansuetude e brandura, paz e esperança.
Todo esse conjunto de valores exigir-te-á grande esforço e aguardarás tempo, a fim de que se materialize, modificando o contingente das realizações habituais.
Apesar da aspereza que a decisão amorosa te exigirá, fruirás desde o início da decisão uma tranqüilidaade que decorre da consciência liberada das amarras infelizes do personalismo enfermiço quanto do egoísmo perturbador.
No Amor - causa primeira de todas as coisas, porquanto a Criação é um ato de amor - se iniciam e se findam todas as ambições, encontrando-se respostas para todas as situações da problemática moral e humana.
Ante o Amor, a dificuldade torna-se desafio, a dor faz-se teste,
a enfermidade constitui resgate,
a luta se converte em experiência, a ingratidão ensina,
a renúncia liberta,
a solidão prepara
e o sacrifício santifica ...
Naturalmente o Amor impõe necessidades e valores retributivos, quiçá desconhecidos no momento da doação.
Quando, porém, alguém recebe o magnetismo do Amor, sem que o perceba, vitaliza-se, acalma-se, renova-se e ama. Nem sempre devolve àquele que lhe doa a força do Amor, não obstante retribui a dádiva, esparzindo-a e dirigindo-a a outrem. E isso é o mais importante.
Talvez seja necessário que o teu amor atinja o martírio para alcançar o fim a que se destina. Entretanto, se te negas à doação total, eis que não amas, verdadeiramente, apenas impões transitório capricho que desejas receber transformado num amor que te irrigue e sustente, sem que o mereças, porém.
Desse modo, recorda Jesus, em qualquer circunstância ou posição em que te encontres, e, à semelhannça d'Ele, consulta e responde com amor, não fazendo ao teu próximo o que não gostarias que este te fizesse.
O Amor tudo resolve. Experimenta-o desde agora. 

2 - DESARMAMENTO ÍNTIMO

Aclaras que reagiste com ira descontrolada porque já aguardavas a agressão do outro.
Explicas que, informando das ciladas que estavam armadas contra ti, não tiveste tempo de refletir, desferindo, então, o primeiro golpe.
Justificas que, ferido mil vezes pela impetuosidade dos desequilíbrios que desgovernam a Terra, foste forçado à decisão infeliz.
Conjecturas que, em verdade, poderias ter sido mais brando. No entanto, saturado pela recidiva dos problemas afligentes, não tiveste outra alternativa, senão a do gesto tresloucado.
Informas que, a fim de não seres esmagado pelas circunstâncias, preferiste tomar a dianteira, na ação indébita.
De fato, como constatas, embora sob justificativas não justificáveis, estás armado intimamente contra os outros.
Feres, pensando assim evitar a tentativa do outro. Acossas, na suposição de que te poupas à perturbação nefasta do outro.

Esmagas, considerando ser a forma eficaz de poupar-te à sanha do outro que se compraz em afligir e malsinar.
Todavia, convenhamos, o outro é o teu irmão. Violento, inditoso, agressivo, vingador, porque, infelizmente, não tem encontrado entendimento e ajuda, fraternidade e afeição ...
Tu que és amigo do Cristo, que tens dado à família sofrida da Terra, aos desorientados do caminho, em nome d'Ele?
Desarma-te interiormente e agirás melhor. Agridem-te porque também agrides, se a oportuniidade é tua.
Magoam-te porquanto farias o mesmo, fosse teu o ensejo propício.
Somente modificarás as tristes paisagens morais do Orbe se exteriorizares pacificação e beleza, ternura e confiança que deves manter gravadas nos recessos do Espírito.
Não sejas tu, sob motivo algum, o violador, o agente do mal.
Propõe-te à harmonia e dá oportunidade ao teu irrmão, mesmo que sejas convidado a pagar o tributo desse gesto de socorro.
Quem ama sempre se transforma em mártir do amor. E o amor somente é autêntico, quando imola quem ama.
Não fora essa grandiosa realidade, e Jesus não se teria permitido imolar por amor a nós todos, comprovando que, se não nos despojarmos das armas morais interiores que engendram a guerra, não triunfará o Bem de que Ele se fez ímpar vexilário, que te propões restaurar e manter na atualidade. 

3 - CARIDADE PARA COM OS ADVERSÁRIOS

No fundo, o adversário gratuito, que se converte em perseguidor contumaz e sistemático, amargando tuas horas e anatematizando teus esforços dirigidos para o bem, não deve receber tua reação negativa.
Justo te precatares contra a irritação e a cólera, em relação a ele.
Não poucas vezes sentirás a presença da revolta e dos nervos em desalinho, em face da constrição que te é infligida, convertendo-se em duro acicate ao ódio ou pelo menos ao revide. Apesar disso, arma-te de paciência e age com prudência.
O vendaval enrija as fibras do arvoredo, o fogo purifica os metais, a drenagem liberta o lodo, o cinzel aprimora a pedra e a dor acrisola o Espírito.
Observado pela má vontade e confundido pela impulsividade dos perseguidores, serás convidado ao exercício da abnegação e da humildade, preciosas virtudes mediante as quais resgatarás dívidas de outra procedência, enquanto eles, a seu turno, despertarão para a responsabilidade depois.

Porque te persigam, não é lícito te convertas em sicário também.
Todos nos encontramos na Terra em exercício de sublimação espiritual.
Embora te sintas arder nas provocações e sofrer pelas injustiças impostas, não te cumpre qualquer revide infeliz.
Apazigua as paisagens íntimas e prossegue dedicado aos misteres abraçados.
Enquanto te fiscalizem, acusem, duvidem de ti, utilizarás mais a prudência e a temperança, auferindo maior soma de benefícios.
No fragor da perseguição, oferta a tua prece de gratidão em favor dos que se converteram em inimigos gratuitos da tua paz, reservando-te caridade para com eles.
Se insistires desculpando-os, constatarás que, não obstante desconheçam, fazem-se teus mestres ignorados, graças a cuja permanente antipatia ascenderás na direção do Grande Incompreendido da Humanidade que prossegue até hoje esperando por todos nós. 

4 - CONFIANÇA E AMOR

Se confias na Providência Divina não te agastes em face das incompreensões que te surpreendam no ideal do bem a que te dedicas.
Possivelmente encontrarás pessoas que desfilam na Terra cercadas de bajuladores e ovacionadas pelo entusiasmo geral, sem que, no entanto, se dediquem a qualquer mister de enobrecimento. Por isso mesmo são elogiadas, por outros equivocados que se demoram na inutilidade.
Se te reservas a alegria do serviço nobre, não esperes resultados favoráveis aos teus empreendimentos superiores.
Certamente há muitos que coletam provisões de simpatia e entusiasmo com facilidade, não obstante permaneçam insatisfeitos.
Se preferes a dedicação exclusiva à Seara do Cristo, defrontarás empecilhos e malquerenças onde esperavas que medrariam amor e fraternidade.
É provável que noutros campos de ação compareçam sorrisos e gentilezas de caráter exterior, porquanto os homens são sempre homens - nem anjos nem demônios - lutando contra as imperfeições onde quer que se encontrem.
Se esperas conseguir a perseverança no lídimo serviço da Verdade, não descoroçoes ante injustiças e difamações.
Existem, sim, os que são ditosos e transitam aureolados por títulos de benemerência, requestados por uns e aplaudidos por outros, não, porém, indenes à sanha da inveja, à chuva do despeito, feridos pela flecha da impiedade dos negligentes e malfeitores contumazes.
Na Terra, a felicidade somente é possível quando alguém se esquece de si mesmo para pensar e fazer tudo que lhe seja possível em favor do seu próximo.
A felicidade perfeita, se existisse no mundo, diluir-se-ia ante uma criança infeliz, um enfermo ao abandono, um velhinho relegado ao esquecimento ...
Não pretendas, portanto, ouropéis enganosos, cortesias especiais, reconhecimento imediato, favoritismo ou, mesmo, entendimento fraternal. ..
Como não é correto cultivar pessimismo, não é proveitoso sustentar ilusão de qualquer matiz.
Se confias na Misericórdia de Deus, trabalha sem desfalecimento e ama em qualquer circunstância, sem distinção nem preferências, recordando Jesus, que embora Modelo ímpar, não encontrou, ainda, no mundo o entendimento nem a aceitação que merece.

5 - AUXÍLIO A SOFREDORES

Diante deles, os sofredores de qualquer jaez, policia a conduta no ato de ajudá-los.
Tragam-te ao conhecimento problemas econômicos, morais ou de saúde, não te revistas de falsa superioridade, assumindo a aparência de benfeitor, com que poderás constrangê-los, adicionando às já existentes, novas aflições.
Cada dificuldade se resolve mediante recurso específico.
Não os padronizes, igualando suas dores somente porque façam parte da imensa massa de padecentes da Terra.
Este deseja externar aflições e receber amizade. Aquele anseia por socorro imediato, pelo pão ou o medicamento e, talvez, no desespero em que se vê colhido, não disponha das palavras próprias, fazendo-se impertinente, rebelde, inquieto.
Esse, ferido nos dédalos da alma por dardos venenosos, está prestes a sucumbir e necessita de um amigo.
Aqueloutro, desarvorado por inquietações psíquicas e emocionais, perdeu o contato com a realidade objetiva e desvaria, ansiando por alívio.
Propõe-te solidariedade e alcança-os com os teus sentimentos fraternos.
Não os objurgues, amargando o pão que por acaso disponhas para ofertar-lhes.
Nada lhes exijas, em face da moeda ou da palavra que lhes distendas.
Se te escassearem meios externos com que lhes diminuas as penas, recorre ao auxílio espiritual sempre valioso: a prece, a água fluidificada, o passe para a restauração das suas forças.
Sempre possuis algo para doar.
Há quem ajude avinagrando a linfa da generosidade. Muitos confortam e reprocham simultaneamente. Diversos socorrem e advertem, chamando a atenção para a dádiva que dispensam.
Uns abrem os braços à dor, mas não ocultam o enfado, a saturação logo nos primeiros tentames, isto quando não exteriorizam o azedume e a censura rude.
Estão na provação hoje, os que não souberam utilizar-se dos bens da vida com a necessária correção no passado.
Sofrem os que iniciam o processo evolutivo por meio da dor-burilamento.
Batem-te à porta, buscam-te o socorro, pedem-te compreensão. Não lhes recuses o amor.
Jesus recomendou-nos com a Sua autoridade inconteste: "Batei e abrir-se-vos-á; buscai e achareis; pedi e dar -se-vos-á."
Se esperas encontrar à tua disposição a Misericórdia Divina, amanhã, sê, agora, o mensageiro dela em relação aos que te batem à porta, te pedem e te buscam, executando o mais meritório esforço na caridade sem jaça: dar e dar-se sempre sem limite. 

6 - TERAPÊUTICA DO AMOR
 
Perante os irmãos desencarnados, em desfalecimento moral e amargura perturbadora, reflete a tua situação íntima antes de dirigir-lhes a palavra; nos abençoados momentos de intercâmbio mediúnico.
Eles apresentam o resultado da imprevidência e do desacato às soberanas leis do equilíbrio, ora colhidos pela dor que os amesquinha.
Não se conscientizaram das responsabilidades que lhes repousavam sobre os ombros. Fugindo ao dever, derraparam pelas encostas sombrias da turbação íntima em que ainda se encontram.
Se te não cuidares, neles já poderás identificar o que te aguarda.
Vêm em busca de auxílio; ajudam-te, porém, mediante a silenciosa advertência do que te ocorrerá, caso não te firmes nas disposições e atitudes salutares.
Por isso, unge-te de compreensão e fala-lhes com a ternura de irmão e o respeito de amigo.
O amor que lucila em ti e te apazigua, leni-los-á e o argumento sincero, sem floreios nem azedume, despertá-los-á.
De forma alguma incidas na discussão infrutífera ou no preciosismo da linguagem vazia de significação fraternal.
Sem a preocupação de fazer retórica, lembra-te que te ouve, além daquele que se utiliza da instrumental idade mediúnica, momentaneamente, um público curioso, ávido de sensacionalismo, com céticos e cínicos, enfermos e atônitos, perseguidores e maus reunidos pela excelsa misericórdia de Nosso Pai, a fim de que, também, possam desfrutar da abençoada oportunidade.
Evita a astúcia do sofisma pelo jogo das palavras.
Não te encontras numa pugna verbal, da qual devas sair vencedor. A tua preocupação deve ser a de esclarecer e medicar a ulceração que lhe consigas identificar. Os resultados pertencerão ao Senhor.
Incitado ao debate por aqueles que se comprazem em perturbar, declina com humildade, da justa improcedente.
Nem vencer o interlocutor, nem mesmo convencê-lo, antes, socorrê-lo, deve ser a inspiração que te emule ao diálogo.
Diante deles, os desencarnados que sofrem, embora alguns não se dêem conta, coloca-te na posição de quem usa a terapêutica espiritual do amor em si mesmo.
Como não é justo o arrazoado contundente, nunca é oportuno o pieguismo improdutivo.
Desde que coexistem os dois mundos - aquele no qual se encontram e o em que deambulas - os problemas, por sua equivalência, merecem o mesmo tratamento.
Sê, então, autêntico, no sentido positivo.
Não aparentes uma posição superior, conselheiral, rebuscada, autoritária ou excessivamente piedosa, simulada, com rasgos de uma emoção que não sintas.
O bem é simples e a sua linguagem singela dispensa as pesadas bagagens da aparência. Exterioriza-se sutilmente, antes que estronde dominador ...
Não acreditarão na tua palavra os desencarnados com os quais dialogues.
Todo conceito nobre ajudá-los-á. Todavia, permeia-te dos ensinos que lhes ministres. Incorpora-os ao comportamento cotidiano, não apenas porque te ajudarão a ascender e libertar-te das paixões, como porque os teus ouvintes te acompanharão a verificarem se apenas falas, ou se vives as disciplinas que ministras, lutando contra as imperfeições que profligas.
Em última análise, quem se faz instrutor deve valorizar o ensino, aplicando-o em si próprio.
Com natural esforço, a pouco e pouco despoja-te das mazelas que afeiam a transparência das tuas realizações e aproveita o ensejo de, mantendo contato com os irmãos que já defrontam a consciência livre, aprenderes que te encontras no mundo em processo de purificação, precioso e relevante, e o não podes desperdiçar.
As palavras repassadas de lealdade, que fluem da fonte inexaurível da experiência pessoal, possuem cativante, envolvente magnetismo que lhes atesta a excelência.
Pondera, pois, na tua transitória situação. Quiçá, no futuro, invertam-se os papéis: quem ora te busca, poderá estar no teu lugar, enquanto lhe ocupes a posição.
A desencarnação e a reencarnação constituem portas de acesso à vida em expressões diferentes.
Se, apesar de tudo, desejando esclarecer os nossos irmãos em desalinho espiritual, não lobrigares o êxito que te parece ideal, não descoroçoes.
Toda tentativa de amar e ajudar é sempre válida, senão para quem pede, ao menos para quem se dispõe a doar.
E se hoje não te puderem entender os desencarnados entorpecidos pela anestesia da leviandade, posteriormente valorizarão a tua tentativa de serví-los, e, por isso, não te amarão e respeitarão menos.
Tudo é válido na economia do BEM, na Casa do Pai Celestial, em que, por enquanto, transitamos entre as vibrações da estação terrena.

Joanna de Ângelis

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Análise sobre o Medo e as Fobias

Se excluirmos a questão sobre o dinheiro e trabalho, parece que nossa mente apenas vive focalizando dois pólos opostos: seja na fantasia e devaneio de uma satisfação qualquer; ou no mais completo pensamento de medo. O objetivo deste estudo é a formulação de um teste psicológico prático para a aferição do grau de medo presente na personalidade do sujeito; devendo ser aprofundado entre o psicólogo e paciente durante a psicoterapia. A primeira questão seria:

* Quantos pensamentos de medo e fantasia têm aproximadamente durante o dia? Quais são os mesmos e sua temática central? A fantasia embora tenha a função de entretenimento, não deixa de ser um pesado fardo por revelar toda a carência da pessoa. As imagens mentais do medo não são necessariamente o vício sobre determinada antecipação de algo catastrófico, mas assim como a fantasia reforça o tédio e amargura perante o distanciamento daquilo que elegemos como sonho. O preenchimento de uma ausência quase sempre se completa com a mais pura agonia ou caos psíquico. Pensemos em certas fobias do tipo: verificar várias vezes se a porta está fechada ou a chave do gás. O significado inconsciente de tal conduta não é apenas o medo do acidente ou um dever e obrigação imposta pela mente. Sua raiz remete a uma disciplina internalizada que visa a fuga a qualquer custo da crítica ou rejeição. A mente de uma forma constante almeja o distanciamento de um passado ou uma situação que foi humilhante para a pessoa; desenvolvendo um trabalho extra como compensação e defesa contra novos ataques. A psicanálise no decorrer da história imputou conteúdos sexualizados para quase todo o tipo de fobia. Torna-se um tanto hilário se pensarmos no medo de dirigir como protagonista de algum conflito de ordem sexual; pode até ser que exista de alguma maneira, mas temos de tomar cuidado para não perdermos o foco da situação.
A estrutura social nos coloca não apenas o dilema da sobrevivência econômica, mas qual valor temos perante os outros. O cerne de várias fobias passa pela questão do poder do sujeito perante o meio e como o manipula. No caso citado do medo de dirigir, quase sempre encontramos uma pessoa que historicamente apresentou grandes dificuldades com a crítica e agressividade. O medo de ser atacada e lhe tomarem seu espaço ou ego pessoal é transportado para a esfera do dirigir onde todos esses elementos são testados incessantemente. A segunda questão seria:

* Em que época da vida lembra que começaram a se desenvolver tais pensamentos onde o núcleo é o medo? Confia plenamente que os traumas vividos representam fielmente sua condição atual? Gostaria apenas de fazer um parêntese sobre o que está sendo desenvolvido neste estudo. É óbvio que ninguém jamais conseguirá viver sem o medo ou se abster de sonhar ou desejar algo. Ambas as coisas são parte intrínseca da condição humana. O que cabe é a conscientização sobre nossa deficiência na obtenção da parte prática de viver bem. Sobre a questão acima levantada é interessante notar como quase todos têm um perfil traçado exatamente acerca da origem de sua insatisfação ou infelicidade, como se a mente respondesse de forma lógica aos desafios apresentados. A própria natureza do trauma ou conflito é a arte da dissimulação visando a manutenção constante de determinado estado afetivo. A cognição e pensamento do ser humano visam a constante repetição dos eventos, na esperança de poder os controlar algum dia. Nenhuma pessoa seria estúpida o suficiente para se acostumar ao sofrimento, mas o que a mesma não percebe são seus esforços internos para se deter em determinado hábito. Mas neste ponto já podemos formular a pergunta central do texto e que desafia a psicologia desde seu princípio:

* Por que tememos tão intensamente as mudanças?
Quando ocorre uma mudança no indivíduo para algo melhor ou mais produtivo, o primeiro desafio do mesmo é estar atento e saber lidar com a mais pura inveja. Esta traz temores inconscientes de toda ordem, não exatamente de perder o que foi conquistado, mas o terrível sentimento de culpa por estar em uma situação diferenciada. Podemos afirmar que tanto os elementos construtivos ou destrutivos do ser humano sempre irão permanecer intactos no substrato inconsciente. Se o esquema econômico e social fez com que, por exemplo, a solidariedade se tornasse supérflua no rol da sobrevivência, a mesma irá se deslocar para outra esfera; na identificação e solidarização com a infelicidade absoluta do outro e obrigação de seguir o mesmo traçado. Todos sabemos da dificuldade e dor de ver o outro muito melhor do que nós mesmos, e quando alguém consegue destaque ou detém determinado potencial, fatalmente o travará perante esta torcida consciente e inconsciente da negatividade. Precisamos treinar muito para acreditarmos em nossa auto estima. JEAN PAUL SARTRE dizia que o “inferno é o outro”; tal afirmativa encerra um contra-senso; por um lado realmente o outro é o inferno no tocante a inveja perante algo que temos ou detemos; mas também sempre precisaremos de uma platéia, seja por nossos anseios narcisistas e agressivos, ou por um desejo genuíno de tentarmos nos integrar na coletividade. ALFRED ADLER, contemporâneo de FREUD e criador da psicologia social, achava que o senso de uma real comunidade, no sentido profundo de amparar o outro era a meta máxima do desenvolvimento emocional da pessoa. O ser humano não é nem bom ou mal por natureza, mas carrega todos os potencias de energias ou afetos que se cristalizarão em conformidade com o meio e subjetividade de quem reage ao mesmo.

· Outra pergunta fundamental é: Qual o receio ou medo de proporcionar prazer a alguém? Este é mais um dos dilemas de nossa era no tocante a relacionamentos. O pavor de dar o melhor de si e não obter retorno ou impacto sobre o outro permeia toda a esfera afetiva. O lacônico “ficar”, é o produto mais fiel desse processo. Na verdade o contraponto do consumismo é a total economia psíquica e sentimental de prover o que se possui de melhor para alguém.

· Sobre as fobias em si; qual sua origem? Como exemplos: medo de elevador ou lugares fechados, qual o significado? Um dos mais antigos e primeiros colaboradores de FREUD chamado OTTO RANK, elaborou uma teoria que denominou “trauma do nascimento”. A própria condição biológica de como a criança vinha ao mundo já era por si só um fator do mais puro stress. Se sentir confinado remeteria a esta antiga imagem mnêmica, seguindo tal postulado. Embora não possamos desprezar tal tese, creio que a mesma é correta, mas se encontra de certa forma invertida do ponto de vista psicológico. Não é bem a imagem do nascimento que se agrega ao medo, mas seu correlato, a morte. O medo do confinamento representa a emissão simbólica de flashes acerca do destino inevitável da humanidade; achando que o sufocamento é seu elemento central, obviamente por uma associação biopsíquica ao elemento ar; prova disto é o antigo medo de ser enterrado vivo. Mas não é apenas a questão do confinamento ou ausência do elemento vital do ar que dão a dimensão do medo que estamos analisando. Pensemos no medo do elevador; seria um tanto simplista o associar também a morte ou sufocamento. A psicanálise também sempre fez relação deste distúrbio novamente com a questão da sexualidade. Simbolicamente estar diante de outras pessoas representaria uma falha narcísica, como se seu “pênis” ou atributo pessoal estivesse sendo testado ou comparado. Notem que por mais surrealista que possa parecer tal interpretação, não deixa de ser uma relativa verdade; prova disso é a fantasia sexual de efetuar relações sexuais dentro do elevador, que seria uma reação a tal medo citado. O que ficou de fora nessa análise toda é o elemento social da questão. O medo do elevador denota também uma personalidade tímida e refratária ao contato social; ou uma grande dificuldade de se sentir natural perante estranhos. A fobia social é o embate final sobre a aferição de sua mais profunda intimidade em relação ao meio. ADLER brilhantemente classificou determinadas fobias como a “fuga da situação de prova”, e como a pessoa se recusava a fazer qualquer tipo de teste, sairia “vitoriosa” no plano mental simplesmente pela não participação.

· Como fica a síndrome do pânico dentro do que foi citado até agora?
Pensemos num dos sintomas da referida moléstia-o medo de sair na rua. Qualquer psicólogo um pouco experiente já percebeu fazendo um levantamento pregresso da história do sujeito, que antes da afecção acometer o mesmo, sua personalidade era exatamente oposta; mostrava coragem, espírito empreendedor, liderança acima de tudo. Porém, em determinado momento começou a ocorrer o processo inverso. Isto é o que ADLER denominava como “arranjo psíquico”, um protesto mental contra as tarefas ou responsabilidades que o sujeito não desejava mais carregar. O desejo de sair, encontrar pessoas e tudo o mais ainda persistiria, só que agora a perspectiva mudava radicalmente; a doença seria uma forma prática de forçar o ambiente a lhe proporcionar todas as suas necessidades de modo que desaparecessem suas obrigações ou esforços pessoais. Não é muito mais simples e eficiente estar paralisado a espera de que alguém nos acuda ou venha em socorro dos nossos anseios? Não se trata de negar a doença, mas perceber sua mais profunda raiz na dimensão psíquica e sociológica. É uma tarefa das mais ingratas nos posicionarmos diariamente, sendo que quando descobrimos um atalho, vale de tudo, até suportar um sofrimento alto para evitarmos novos constrangimentos, embora contraditoriamente a doença traga talvez o pior de todos. A medicina e psiquiatria ostensivamente negam tal núcleo, em função da massificação e banalização dos medicamentos. O conforto da pílula pelo menos deveria acompanhar uma frase ou palavra do médico com o intuito de resgatar a potência perdida do sujeito.

· Será realmente importante discutir determinados medos de insetos ou animais?(baratas, ratos, cobras, como exemplos); não seriam estes um disfarce para encobrir questões mais amplas e difíceis para a personalidade? Sem nenhuma sombra de dúvida; embora tais medos citados remontem aos primórdios do ser humano quando ainda vivia em cavernas, e estava sujeito a ataques dos mais variados animais ou insetos, se tornando componentes atávicos ou até mesmo genéticos. Nos dias atuais tais fobias relacionadas dizem muito mais da fuga dos verdadeiros problemas do sujeito como foi citado, do que qualquer outra coisa. O que estou tentando dizer como centro deste texto é que a fobia não passa de uma denúncia ou instrumento que a pessoa utiliza para expor seu sofrimento de forma disfarçada, por vergonha ou temor de passar a mensagem direta. A fobia é a timidez de revelar a infelicidade de forma real e prática, o desgosto profundo de uma alma que sente que não têm apoio e consideração em relação ao meio.

· Medo da crítica; falar em público; comer (anorexia nervosa e bulimia); perder o emprego ou insegurança econômica. Todos eles são os reais medos sem nenhum atalho ou maquiagem. Notem que se observarmos atentamente, além do temor a crítica citada possuem a mesma base central; o lidar com a autoridade. Pensemos na insegurança de perder o emprego. O que aconteceu com essa pessoa no passado? Teve conflitos de trabalho ou com determinadas regras, temendo a repetição? Por que não poderia colocar suas habilidades em outro lugar? O receio da idade ou do preconceito do sistema vigente? Não é a mesma coisa da obsessão por um corpo perfeito, que dará a ilusão de ser apreciada ou desejada continuadamente; fugindo do mais terrível pesadelo que é a rejeição? O medo de falar não é a mesma coisa? Como estruturamos nossa relação com a autoridade seja real ou simbólica (um valor conferido pelo sistema), dará a dimensão de todo o nosso caráter: submisso ou passivo; desafiador; cooperativo, e por fim retraído. O ser humano procura obviamente sempre um patamar de segurança e estabilidade, detestando mudanças bruscas que o obriguem a nova labuta pelo recomeço do que julga serem suas necessidades. Mas então neste ponto não poderíamos falar tanto sobre o medo como centro da questão, e sim de como todos de tornam acomodados e indolentes para novos desafios. Descobrir que tipo de autoridade está internalizada no inconsciente da pessoa e de que forma sempre reagirá perante a mesma é tarefa profilática que o psicólogo deverá exercer.

· Ninguém pode contestar que a opinião alheia é quase que um deus absoluto em nossa era, e que milhões de pessoas permutam suas mais profundas convicções e talentos pessoais para se evadirem da crítica e agressividade do meio. Restam apenas alguns tipos que se tornaram até “excêntricos”, por não temerem a estrutura social. A própria psicologia durante décadas reforçou a terrível mentira de que o ideal da pessoa era estar bem com ela mesma; se esquecendo de que diariamente todos os esforços são para chamar a atenção de alguém para uma personalidade totalmente carente. A carência além de também ser temida, traz à tona sua irmã gêmea que é sem dúvida o maior medo de todos: a solidão.
· Qual o grau de solidão que sentiu no decorrer da vida e como lidou com o mesmo? A solidão além de nos mostrar de forma imediata à privação de nossas necessidades, agrega também o elemento da inveja, pois começamos a pensar que apenas nosso ser não conseguiu comungar daquilo que é vital ou prazeroso. Há uma base histórica familiar que originou tão dolorosa sensação de desamparo, devendo o psicólogo a refazer, sob o risco da pessoa nunca sentir confiança em seu íntimo. A gênese da solidão além da falta ou carência é um sentimento absoluto de derrota, fazendo com que a pessoa desesperadamente tente mostrar algo de si que seja valioso, para não ser riscada em absoluto do mapa das relações sociais. Tal esforço infelizmente acaba sendo em vão, pois sua sensação de inferioridade não permite que cative as pessoas ao seu redor. Pensemos nos atuais “ORKUTS”, “*”SITES DE NAMORO” e coisas do gênero. O sistema social além de criar toda a solidão consegue uma forma de lucrar com a mesma”. Em nossa era a expressão: “antes só do que mal acompanhado”, é pura escusa ou racionalização; os instrumentos virtuais de busca de parceiros citados provam o grau enorme de miserabilidade afetiva e social; num quadro destes é muito difícil discriminar quando a solidão seria até saudável para se fazer uma reflexão pessoal, sendo que a sensação de perda do potencial é muito mais forte, pela ausência de testemunhas sobre seu valor próprio; coisa que a solidão provoca.

· Como ficam os transtornos obsessivos-compulsivos(tocs)? Geralmente o tipo de transtorno e incidência remete a uma personalidade que passou por grave crise pessoal e tenta se recuperar. A obsessão está ligada diretamente a uma espécie de pensamento mágico ou superstição, numa forma simbólica de ritual ou proteção contra a repetição do evento traumático. O problema é que tal proteção acaba custando caríssima, pois produz uma constante escravização sobre imagens ou comportamentos cotidianos e rotineiros que absorvem a energia do sujeito. A tarefa do psicólogo é sistematizar minuciosamente o tipo de ato obsessivo e fazer junto ao paciente o levantamento em que situações o mesmo ocorre e sua significação. A pessoa deve perceber que o medo não deixa de ser um ato solitário; sua raiz e potência se reforçam no anonimato. O medo teme compartilhar sua essência, assim como o status ou dinheiro, segue a estrutura social vigente de egoísmo e apenas pensar e trabalhar por si mesmo. O medo sempre lembrará ao sujeito de que o mesmo é infeliz e não terá chance de superação de seu dilema, impossibilitando a catarse pessoal para uma vida plena. Uma terapia bem sucedida é a que despertou um mínimo de motivação e felicidade no paciente. Enfim, a grande arma do medo é a associação com a solidão, para não apenas isolar o indivíduo, mas, também subtrair seus recursos. Inteligência é a capacidade de pedir e agregar ajuda ao seu redor, sendo que ninguém necessitaria de status ou fama para tal finalidade. Se a história da psicologia provou que não temos nenhum poder sobre os processos inconscientes; que pelo menos possamos efetivar a potência da reação; isto representa a coletividade psíquica da humanidade. A caixa preta do sofrimento só será aberta quando traçarmos um caminho paralelo de criatividade e constante sabedoria perante nossos dilemas não resolvidos.
 

· BIBLIOGRAFIA:
ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. BUENOS AIRES: EDITORA PAIDÓS, 1912.

Créditos: Antônio Carlos Alves de Araújo – Psicólogo

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Medo da Crítica

Este é um assunto da máxima importância não apenas pelo lado psíquico, mas também pelas relações sociais que o tema envolve. É quase um total consenso à dificuldade absoluta de qualquer pessoa tolerar ou aceitar uma determinada crítica. A mesma é vista como um ataque direto a tudo aquilo que a pessoa adquiriu por um longo tempo e com uma dose muito grande de sacrifício e renúncia. O sujeito se sente desnudado, essa é a palavra precisa que define a questão. Muitos se esquecem que tudo o que fizeram na maioria das vezes estavam desacompanhados, sendo iminente mais cedo ou tarde o crivo do outro. A crítica pode tanto reforçar a fé própria do sujeito em seu potencial, como exacerbar uma convicção irreal ou totalitária, ou tirar completamente a auto-estima. Esta é sem dúvida a dicotomia máxima no assunto. Até se atingir o ponto genial de uma crítica opinativa atravessamos todo o tormento e mal estar de nos sentirmos humilhados e traídos. Este é o preço a ser pago para conseguirmos desobstruir nossa limitada percepção. Todos enfocam a distinção entre crítica positiva e negativa, se esquecendo que o aspecto mais importante é dizer algo para alguém com real chance de mudança, e a grande tarefa é aferir profundamente quando isso é possível. Criticar é sem dúvida alguma um dos mais puros atos de amor e compaixão, na medida que mostramos ao outro a possibilidade não apenas de um novo caminho, mas que a pessoa talvez tenha se martirizado a vida toda por um propósito ínfimo. Criticar deveria ser visto como mostrar a coisa mais séria num relacionamento ou comportamento humano.
O ponto principal da crítica é estimular a reação do outro, mostrar que a contrariedade ou raiva pode ser usada para um propósito positivo, lançando o indivíduo numa espécie de solidão introspectiva, reflexiva e criativa. A coisa destrutiva na crítica é quando a mesma apenas reflete um instrumental de manipulação do poder, rebaixando pura e simplesmente todo o acervo do outro, sendo apenas uma arma de competição, isto seria por definição o que se chama de crítica destrutiva. Na verdade, o grande medo das pessoas em relação à crítica é de que a mesma revele a parte de miserabilidade pessoal que tanto teimaram em esconder. A crítica pode se transformar num instrumento da máxima traição justamente quando não é proferida, deixando alguém cego quanto aos vícios e erros de conduta. Não criticar é a mais pura manifestação de abandono e desamparo. Alguns não aceitam críticas de pessoas desconhecidas, outros ao contrário não a toleram quando parte de seu núcleo mais íntimo. Em ambos os casos a tônica é o mais profundo complexo de inferioridade; no primeiro vigora a timidez e receio de estranhos, no segundo a dor da rejeição ou disputa para o reconhecimento no âmbito familiar ou conjugal. A crítica em muitos casos é uma espécie de espelho ou reflexo de uma parte negativa da pessoa que necessita ser vivenciada constantemente, quase que uma obrigatoriedade de “ficar mal”; poderia ser classificada de uma neurose obsessiva de autopunição, sendo o outro um mero artifício para tal finalidade. Se alguém discorda é só pensar nos inúmeros exemplos de coisas absolutamente superficiais que roubam o humor do indivíduo.
É interessante a diferença de como homens e mulheres reagem perante críticas. Ao contrário do folclore popular, o homem é muito mais suscetível perante um comentário acerca de sua vaidade, quer seja seu receio em relação ao tamanho do pênis, ou qualquer coisa que coloca em risco seu gozo perante a masculinidade; diria que hoje em dia o quanto conquistou o sucesso econômico ainda é o ponto central. Na mulher o medo é em relação às suas funções maternas, ou o quanto pode ser realmente gostada e amada. A mulher aguarda a dedicação plena do homem para que possa acreditar em sua autoestima. Sua independência econômica é uma farsa quando transportada para outro âmbito. Reclama cuidado e atenção redobrada, enquanto luta para provar seu valor. Não sabe mais qual a prioridade em sua vida.
O sofrimento quase que perpétuo da crítica é quando se desperta uma competição que se sente perdida, ou com grande dose de atraso na comparação com alguém. A crítica mede o ritmo, conteúdo, superfície e aceitação, por tudo isso é que é tão temida. Se pensarmos nas relações de trabalho no modelo econômico atual, toda crítica se transforma na mais pura paranóia e medo da exclusão social. Não é por acaso que o ambiente de trabalho provoca um dos maiores focos do chamado stress. Conseguir um trabalho por si só já é difícil, imagine então lidar com sua competência pessoal a todo instante num ambiente hostil, onde se projeta quase sempre o mais puro ódio e inveja; esta última na maioria das vezes é o subproduto mais fiel da crítica. Podemos perguntar se alguém que desde a tenra infância foi reforçado positivamente ou gostado, tolera melhor a crítica? De certa forma sim, pois desenvolveu um tipo de imunidade perante a contrariedade.
A veia mais vívida do amor dos pais é ensinar ao filho sua total importância no mundo apesar do percalço causado por algo ou alguém. Os pais modernos se tornaram ridículos nessa questão, pois além de esquecê-la constantemente, priorizam o abafamento da crítica contra seus filhos estimulando apenas a competição a qualquer custo. Ensinar a absorver e processar determinado atrito ou conflito é muito mais amoroso e evolutivo do que qualquer tipo de vingança ou revide. Mesmo que seu filho supere outro na força ou qualquer tipo de habilidade, tal fato sempre resultará num conflito, seja a ansiedade constante de se por a prova, ou a culpa que advém da explosão emocional. Está na hora dos pais deixarem o consumismo de lado e tentarem educar um pouco a alma de seus filhos.
Cirurgias de estômago, academias, plásticas, há toda uma propaganda atual visando à maximização da saúde, quando na verdade tudo isso serve ao simples propósito da fuga perante a crítica; Chegar num patamar econômico, social e estético onde não seja atingido, este é o propósito mais realista do homem comum e alienado em nossa sociedade consumista. Representar papéis é apenas o que importa, sendo que não há nenhum tipo de treino para que uma pessoa perceba quais são suas características mais profundas, e as conseqüências disso em seu meio circundante. Por que será amada ou odiada ficará a critério do mais puro acaso. Não precisamos nem lembrar do sofrimento futuro que tal coisa irá acarretar. Busca-se fama, poder e sucesso como instrumentos que afastarão eternamente o sujeito do julgamento negativo alheio, sendo uma absoluta ilusão perante os desafios que a vida impõe.
Um outro núcleo do medo da crítica é uma somatória histórica de carência na pessoa, sendo que tal condição psíquica nunca foi muito dissecada pela psicologia. A carência via de regra é confundida com a solidão, o que é um enorme erro, pois há pessoas extremamente solitárias com uma boa dose de autoestima. A carência é a ausência do toque no “eu mais profundo”, sendo aquela pessoa que não se conhece de forma alguma, que se torna mera reprodutora das idiossincrasias culturais vigentes; é o sujeito indolente quanto ao despertar de seu potencial e criatividade, ficando sempre na espera que o outro o guie, abafando sua ansiedade e angústia existencial. O solitário é aquele que não consegue de certa forma dividir seja seu aspecto positivo ou negativo, o carente pode até fazê-lo, mas é insaciável e insatisfeito consigo próprio, talvez seja um dos representantes máximos do que poderíamos chamar de infelicidade.
O fato é que nosso esquema econômico e social a cada dia cria uma tensão maior do ponto de vista individual e pessoal, sendo que o medo da crítica vai aumentando numa proporção estratosférica. Notem que a hipocrisia ganha terreno em todas as relações, e a sinceridade ou a opinião criativa é vista como sinônimo de agressividade. Todos sabem de tal fato absurdo, mas a grande maioria continua se omitindo, com a desculpa mais do que infeliz de “evitar problemas”, ou o medo do ostracismo. Fingir papéis é o instrumento que conduzirá sem sombra de dúvida à depressão e vazio interior, talvez seja o preço que deva ser pago por todos aqueles que fazem poupança com o seu verdadeiro eu. Tornar-se incapaz de assimilar ou reagir de forma madura é sinal de infantilidade e desespero. Vivemos a epidemia social de que a crítica é sinônima absoluta de agressão, angústia ou quebra da relação. Na verdade todos foram muito mimados. Uso esse termo dentro da perspectiva do psicólogo ALFRED ADLER, que dizia que o mesmo não é aquele que foi brindado com todo o tipo de regalias econômicas, mas tão somente diz da personalidade que a todo custo luta por uma hegemonia perante seus semelhantes. O mimado espera que todos lhe proporcionem destaque, sejam familiares ou estranhos. Ao mimado só interessa ser o número um, não importando interagir, mas apenas chamar a atenção para si mesmo. Quando descobre que o meio não cederá às suas pressões igual à família o fez, se torna retraído e tímido.
A superação do medo nunca é possível, pois a sociedade investe no mesmo, sendo o núcleo de vários processos sociais: consumo, aparência e destaque econômico. O medo apesar da queixa de todos reinará absoluto enquanto determinados processos não forem conscientizados e assimilados: imitação, comparação, inferioridade e inveja. A crítica se insere em todos eles. Se refletirmos profundamente, uma das coisas mais inúteis é a lamentação da perda perante algo que historicamente jamais investimos. A crítica muitas vezes desvenda tal segredo que teimamos em guardar. Perante tal circunstância só há dois caminhos possíveis: inserir o recurso emocional num projeto maduro e próspero, tanto individual como em conjunto, ou então a depressão, que nada mais é do que uma espécie de “profissão moderna”, que tem como objetivo expandir o papel de vítima para todo o meio do indivíduo, e a concomitante necessidade de remédios para sufocar o confronto com si mesmo.
Mas até agora tenho discorrido sobre a função e o impacto da crítica no sentido da contrariedade; e o que dizer do reverso, ou seja, da aversão e vergonha de alguém perante uma crítica positiva ou elogio? Sem dúvida tal evento a princípio nos causa consternação e indignação, pois numa sociedade tão hipócrita e que fomenta a bajulação, como pode uma pessoa não gostar do reforço positivo? Extraindo o incômodo de alguém por um elogio superficial cabe investigarmos o que acontece nesses casos. A pessoa que não tolera uma crítica positiva ou elogio sincero é acometida de um processo de sabotagem pessoal, sendo que a tônica é omitir não apenas sua potencialidade, mas também sua capacidade de troca no plano positivo. Não se trata do simplório conceito do medo da satisfação, mas a insistente necessidade de vivenciar e repetir experiências catastróficas reais ou imaginárias. Quando se reconhece determinada capacidade de um ser humano, automaticamente se cria uma responsabilidade para a pessoa beneficiária de tal condição, sendo que a mesma quer fugir de dita condição, não necessariamente por uma indolência de sua alma, mas principalmente pelo mais profundo pânico de não corresponder perante a nova função delegada. A mediocridade é o seguro eterno contra o medo de errar e ousar, sendo a neurose a conseqüência da escolha no patamar sempre anterior ao desenvolvimento da pessoa. A essência de todo esse processo é um clamor pessoal, um diálogo do sujeito com seu mais profundo íntimo que implora a seguinte condição: “por favor, me afaste de minha competência e recurso próprio; me mantenha em minha posição de dependência e desequilíbrio”.
O problema dos conceitos globais na psicologia é exatamente o que falei acima, quem disse que todos são presos do Édipo ou também almejam o poder? A questão básica é a impossibilidade para o prazer pessoal. Pessoas com medo da crítica possuem a doce ilusão que tudo sempre se resolverá na diplomacia, que a injustiça cometida ou sentida será revertida; a espera do perdão ou reparo do outro, isto é o mais absoluto exemplo de desperdício de vida. O crescimento advém justamente quando abandonamos qualquer expectativa ou ilusão. Outra definição social da neurose é a esperança constante da mudança da atitude ou conceito de alguém em relação às nossas expectativas ou anseios; sendo uma construção metafórica e irreal de que temos bastante “tempo”, apesar de nossa sentença biológica inexorável. O surrealismo da imortalidade no confronto com a contradição da história pessoal de todas as perdas e decepções, enfim a mais abstrata e ilusionista idéia possível. Não se trata de se tornar insensível, mas que não abandonemos algo importante apenas porque fomos frustrados. A traição externa abre o portal para que façamos a mesma coisa conosco no nível psicológico. Como no fundo são frágeis nossas convicções e crenças, embora gostemos de alardear o contrário.
KARL MARX enfatizou o conceito da “mais valia”, que seria o aumento da produtividade através de mais horas trabalhadas pelo empregado sem a concomitante remuneração; uma expropriação do direito de alguém para favorecer o lucro e retenção do outro. Não pretendo neste estudo adentrar conceitos ideológicos, mas apenas dizer que o grande erro da visão marxista foi justamente sua aplicação no plano econômico, como se a descoberta da injustiça praticada pelo capital, não estivesse também enraizada na classe trabalhadora, só esperando o momento revolucionário de assumir a condição de exploradora. Ninguém na face da terra até hoje conseguiu eliminar a luta de classes, e isso é bastante óbvio. O que quero dizer é que o conceito marxista é totalmente aplicável no âmbito psíquico. A mais valia citada ocorre em nosso inconsciente, quando não conseguimos gastar ou trocar nosso lado afetivo ou o prazer propriamente dito. A retenção ou economia dos afetos é a queixa mais comum que ouço dos diversos casais analisados; existe o potencial, mas parece que há uma eterna espera da prática, e o que se vê é uma total expropriação da felicidade e satisfação em prol do conflito e tortura no convívio diário.
O inconsciente assume a função da elite exploradora quando o ego se enche de medo e receio perante si mesmo e os outros. Como todos sabem, nosso pior inimigo jaz nas profundezas de nossa mente e alma, tomando a forma diabólica de uma energia que sempre nos derruba. É impressionante como alguém que se submete a uma psicoterapia profunda descobre as sabotagens que efetuou no decorrer de sua vida. O inconsciente assume a função da punição perante uma personalidade retraída ou temerosa da criatividade e potencialidade. Não há tolerância com alguém que resiste a vivenciar a plenitude de sua capacidade, em função de uma idéia fictícia de economia para tentar ganhar tempo ou uma pseudo-imortalidade, em função do medo de “gastar tudo”, caso se proponha ao compromisso profundo. O fato é que a vida que temos levado não nos deixa quase que nenhum tempo para todas as considerações efetuadas neste estudo, e esse é o fator mais que preocupante. A própria psicoterapia não deveria ser encarada como uma ferramenta emergencial para abafar a angústia de alguma dor, mas pura e simplesmente um complemento de um processo de reflexão e introspecção diária, pois do contrário essa arte do autoconhecimento se torna tão somente uma ferramenta do desespero. 

BIBLIOGRAFIA:
ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. BUENOS AIRES: EDITORA PAIDÓS, 1912.

Créditos: Antônio Carlos Alves de Araújo – Psicólogo