Pages

Translate

English French German Spain Italian Dutch Russian Japanese Korean Arabic Chinese Simplified

domingo, 5 de dezembro de 2010

Violência (Análise Psicológica)

Neste estudo pretendo apenas enfocar os aspectos psicológicos da violência, não entrando no mérito de questões econômicas e sociais, por achar não apenas estar fora de meu âmbito profissional, mas principalmente por serem temas que já foram exaustivamente debatidos, e sinto uma brecha enorme no âmbito da psicologia. Só para efeitos de nosografia devemos entender que há uma distinção entre violência, agressividade e destrutividade. As três se entrecruzam quase que sistematicamente. Um sentimento de agressividade pode gerar uma violência física ou não, como também pode gerar um ato destrutivo. A questão é mais de grau, deixando claro que a destrutividade é o último estágio, gerando um assassinato ou um suicídio. Obviamente a agressividade é intrínseca ao ser humano, podendo ser extremamente benéfica se bem usada, um exemplo simples é a pessoa aceitar um grande desafio para si mesma, necessitará usar uma perseverança que nada mais é do que uma sublimação da agressividade. Porém, tanto a violência quanto a destrutividade, são pulsões humanas das mais primitivas e irracionais possíveis, restos ontogenéticos dos primeiros hominídeos que logicamente viviam num planeta hostil praticamente 24 horas por dia, onde a luta pela sobrevivência era quase que insuportável. Assim sendo, reativar a violência e destrutividade é como trazer o espírito do australoptecus para viver em um apartamento em SÃO PAULO, um verdadeiro absurdo. Apenas desejei dar ao leitor um panorama onde possa se situar perante algumas distinções. Outro problema que as pessoas geralmente desconhecem ou negligenciam é que há uma espécie constante de escambo entre os sentimentos, gerando quase sempre uma transmutação nos mesmos. Todos pensam na violência lendo diariamente a coluna policial, ou assistindo as barbáries que a televisão mostra. Isto é apenas uma parte ínfima da questão, pois poucos irão se lembrar que uma insegurança pessoal gera um ciúme possessivo que irá gerar agressividade e talvez a destrutividade. Outros também irão se esquecer que por mais que prometeram nunca reproduzir uma dinâmica familiar desestruturada, conseguem causar mais danos morais e psíquicos do que seus ancestrais fizeram com eles.

O primeiro pólo gerador da violência não é algo genético como se pensou durante décadas, genética é sempre predisposição, nunca a certeza de um comportamento. O embrião da violência é quase que um casal de gêmeos, frustração por não ter tido um ambiente seguro, de carinho e intimidade, e o segundo é a imitação, quando a criança aprende que o desafeto e a desarmonia são elementos comuns do cotidiano, como escovar os dentes. A agressividade, no grau negativo é o pai mais do que biológico da violência, sendo uma reação e defesa contra a situação de privação e desamparo, é ter sido atacado e subtraído no afeto, para depois atacar e literalmente se vingar de todo o seu infortúnio. Embora considere tudo o que escrevi até o presente como o máximo do óbvio, é fundamental relembrar tais teses, pois senão seremos vítimas de uma análise totalmente midiática, explorando chavões e sensacionalismo. Novamente digo o óbvio que a agressividade está na natureza humana. Quantas guerras o homem já travou? Entre 1740 e 1974, o planeta teve 13 bilhões de habitantes e assistiu a 366 guerras de grandes dimensões, ao custo de 85 milhões de mortos. O resultado dessas guerras parece ter sido um prêmio à agressão, pois em dois terços delas o agressor saiu-se vencedor e, quanto à duração, 67% terminaram em prazo inferior a quatro anos” Francisco Doratioto, Maldita Guerra”. Então nem precisamos discutir sobre como uma reação básica do ser humano pode se tornar em algo tão mortal. E há outra coisa ainda pior, se falarmos em guerra se pensa quase sempre no conflito armado, se esquecendo que uma das mais terríveis variantes da guerra moderna é o problema dos milhões de refugiados no mundo.
Mas voltando ao problema da violência do ponto de vista psicológico, devemos explorar mais seus mecanismos. A psicologia de SIGMUND FREUD fincou com bastante maestria que o grande problema psíquico do século dezenove era a repressão da sexualidade, não que não ocorressem outros, mas a sexualidade abafada naquela época e circustância era o gerador da maior parte das mazelas psicológicas. Pois bem, falando da violência qual seria seu maior centro nevrálgico em nosso tempo atual? Alguns certamente arriscariam as questões econômicas e sociais que não quis debater neste estudo. Embora não tire a importância em se analisar ditas questões, do ponto de vista psicológico é quase que inútil. A grande raiz e pai biológico da violência em nossa era é a solidão, por mais estranho que pareça. Tentarei comprovar minha tese. Vivemos numa verdadeira loucura do pertencimento, ninguém obviamente quer ser rejeitado ou excluído, o problema é que o pânico da solidão atingiu um grau tão elevado como disse em outro estudo, que vale tudo para ser aceito, indo desde uma religião, seita, à torcida organizada de futebol com o objetivo de praticar a violência, ou então espancar homossexuais na rua, como temos assistido lamentavelmente. Está se esvaindo o raciocíno crítico para o pertencimento, se uma jovem de treze anos está rodeada de garotas de sua idade que lhe dizem que já fizeram sexo, se sente compelida a fazê-lo para não se sentir excluída de seu meio. Se o garoto torcedor de um clube, sabe que seus colegas sistematicamente vão ao estádio para arrumar brigas, fatalmente achará natural fazer o mesmo.

É totalmente incompleta a análise do senso comum que diz que a culpa é dos pais que não acompanharam a educação dos filhos. Embora tal afirmação tenha seu mérito o problema é que os pais nem desconfiam ou se importam sobre o altíssimo grau de solidão que seus filhos estejam vivenciando. Como disse em outro texto, a solidão é a vitrine sem vidro, é sentida como humilhante, uma derrota total dentro da afetividade, como um produto que o supermercado nem aceita expor. Tal sentimento obviamente irá gerar uma contra-reação, inicialmente de frustração e a seguir de ódio. Já que fui excluído do suposto ambiente normal, tal gangue, facção ou ideologia totalitária poderá me adotar e mitigar esse horrendo sentimento de fracasso. Segue-se o abrandamento da censura positiva ou moral ética, para um apelo desesperado e destrutivo para o pertencimento. É quase que implorar por um uniforme, só que ao vestí-lo o indivíduo se sente num belo adorno como sentiam os soldados nazistas ou romanos, sendo que o uniforme é uma espécie de canal para as mais destrutivas pulsões humanas. Visto o uniforme e mostro minha voracidade e vício pelo ódio, visto o uniforme e todo o meu complexo de inferioridade se acaba, mesmo sabendo que sou apenas um número tolo ecoando canções ou hinos contra um comportamento ou prática que nem conheço direito, visto o uniforme e tenho um verdadeiro delírio que agora sou superior e estou protegido pelo grupo, podendo planejar e executar qualquer ação que me dê o gozo de humilhar ou massacrar alguém. Visto o uniforme e tenho um deus único que é a ferocidade, irmão também gêmeo da destrutividade. Mas o ser humano não deve se organizar? Obviamente, mas qualquer agremiação implica em acolher, não em excluir, implica ajuda e nunca perseguição, implica em amizade, companheirismo e solidariedade, jamais em humilhação, discriminação ou insensibilidade. Outra coisa bem estranha é que com tanta entidade em defesa seja lá do que for, nunca se viu tanta discriminação ou violência, o problema é que excluindo os interesses políticos que sempre existem, não estão atentas para esse cabedal psicológico, se fixando num discursor centralizador ou de cunho primário, se desejamos realmente combater a violência, o primeiro passo é conhecê-la a fundo. Apesar de ter estudado em um colégio extremamente conservador e autoritário, lembro-me de uma lição muito importante que recebíamos na aula de ética. Éramos ensinados a ver como exemplo uma pessoa deficiente com compaixão, não era nenhum sentimento de pena, sendo que o professor apenas olhava para nós e dizia que como não tínhamos deficiência alguma aparente, nossa obrigação para com o próximo era o dobro, pois tínhamos talvez mais saúde ou agilidade, o que cobrava de nós mais empenho para compreender e ajudar o outro, talvez esse tipo de aula fosse hoje considerada discriminatória.

O fato é que quase todos estão presos no passado de privação de afetividade ou experiências traumáticas nesse polo emocional. Já virou moda na psiquiatria e psicologia designações modernas para velhos transtornos, assim sendo, chamo esse estar preso ao passado de síndrome da incapacidade para a perda afetiva, onde o indivíduo simplesmente se utiliza do recurso da apelação no último grau possível, é frequente em meu consultório logo no início de uma nova consulta o paciente me inquirir: “doutor pelo amor de deus, me dê uma ajuda ou fórmula para combater isso, não suporto de jeito algum estar só, lembro de tudo e de todos os lugares que estive com meu último parceiro”. Costumo responder que se dez parceiros o humilharam, tortutaram psicologicamente ou denunciaram você por alguma incapacidade emocional ou sexual, não é sem fundamento todo o seu sofrimento. Mas se alguma pessoa realmente se importar a fundo com seus sentimentos, excluindo interesse sexual ou coisa similar, você com certeza foi ou será redimido. Pode ser que essa pessoa ainda não apareceu, mas certamente irá encontrá-la no final do túnel de seu vício em relação ao pretérito, quando isso ocorrer, você terá o dever de colocar tal fato no caixa a favor de seu ego, e jamais aceitar a loucura da impossibilidade de um recomeço.
O apego é o sentimento mais devastador da condição humana, é uma contra-reação à naturalidade da morte e perdas. Voltando a violência, o problema de quem almeja a mesma, não é tanto uma falta de humildade perante seus complexos que não consegue elaborar, mas, sobretudo, um orgulho e incapacidade nata para admitir profundamente que necessita de ajuda o mais urgente possível, contra o devastador sentimento de solidão, carência e inferioridade. Caso não o faça continuará na esfera do conflito, da agressão para esquecer sua dor dilacerante de se sentir preterido na mais alta esfera da afetividade pura e singela.

A permissividade também é outro fator gerador da violência. Aqui o leitor certamente remeter-se-à falta de limites nas crianças e jovens em decorrência de pais ausentes ou culposos por trabalharem o dia todo e deixarem seus filhos na escola por exemplo, então tentam compensar essa ausência suprindo todo o desejo material da criança chegando ao exagero muitas vezes. Mas novamente vou achar que tal explicação é incompleta ou primária. O materialismo excessivo fornecido pelos pais não diz necessariamente da culpa dos mesmos, pois conheço várias famílias onde os genitores lidam muito bem com a questão de trabalharem fora, sem nenhum remorso de deixar a criança no berçário por exemplo. O que se esconde por trás da questão material novamente é a terrível solidão vivida pelos próprios pais, seja individualmente ou no casamento, assim sendo, transportam seu vazio para o material, que se pensarmos profundamente não deixa também de ser um vácuo ou vazio, pois aplaca a angústia por um tempo muito curto. O lado material fornece uma sensação de pertencimento, devido obviamente ao status e competição reinantes na sociedade, se posso comprar algo caro ou de valor coletivo, sem dúvida alguma me sinto recuperando um poder pessoal que talvez há muito tempo tenha perdido. Porém, como disse, esse efeito é efêmero, igual de uma droga com um curto tempo de prazer, para após voltar com mais ênfase ainda a ingrata solidão. Se pensarmos na questão dos casais, dois são os fatores centrais de relacionamentos conturbados, o primeiro como sempre coloco é a falta de uma comunicação profunda, fazendo com que o casal passe anos ou décadas numa espécie de vácuo acerca do conhecimento perante a alma do outro, o segundo tão perigoso quanto este citado é uma espécie de censura que o casal se coloca na arte de conversar, tudo que é dito é visto como uma agressão ou então gera uma distorção radical de significado, ocasionando brigas e discussões, então o casal opta pelo silêncio. Aliás é o tipo de casal que infelizmente está na moda nos consultórios, é uma espécie de migração de uma ditadura política para uma afetiva e emocional, sinto até que as pessoas almejam tal estilo de vida, dado um conservadorismo não apenas do ponto de vista político, mas tem uma base cultural, nos costumes diários, querem viver sob o manto negro do obscurantismo, onde o líder sem sombra de dúvida é a agressão ou o ódio. Parece enfim, que procuram uma relação para escoarem todos os seus dramas passados e presentes, assim como os grupos citados, procuram não o afeto e prazer, mas a discriminação e acusação para com o parceiro, aceitando com naturalidade esse pacto diabólico. Enfim, se alguém desejar realmente combater não apenas a violência social, mas aquela que emana de sua pessoalidade diária, tem de pensar seriamente não apenas de consultar um psicólogo, mas sobretudo, estar preparado para analisar, elaborar, e refletir sobre todos os seus conteúdos emocionais e de personalidade, e o primeiro passo para tal finalidade é o controle de sua projeção perante outros, destes conteúdos citados.

Agradeço a sugestão para escrever o texto do doutor em sociologia IRINEU FRANCISCO BARRETO JR.

Créditos: Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

0 comentários: