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sábado, 30 de outubro de 2010

Solidão ou Conviver com uma Relação Fracassada?


(Análise psicológica do “antes só do que mal acompanhado”)

A primeira conseqüência para tão freqüente parábola moderna é o extremo desgaste ou cansaço de nosso espírito. Parece que para muitas pessoas o dilema apresentado se torna inexorável em determinada altura da vida, seja por carências antigas oriundas da família ou traumas afetivos. De nada adianta alguém lembrar a pessoa sobre o otimismo ou que sempre há uma saída, pois simplesmente o sujeito vê tudo nessa parte como algo inatingível. Não se trata nem de depressão ou conformismo, mas total inércia perante um desejo que jamais se realiza.O que sempre me chamou a atenção nestes anos todos de prática profissional, é o longo tempo que muitos demoram a perceber que a escolha do parceiro foi totalmente errônea. A razão disso é o famoso preconceito e condicionamento que se precisa de tempo para se conhecer intimamente alguém, ou então ficar na expectativa de que o mesmo irá mudar e algum dia preencherá nossos anseios. Essa tradição é totalmente falsa, na verdade afirmo categoricamente que só precisaríamos de cerca de um mês para conhecermos alguém, desde que não fôssemos tão tímidos e expuséssemos francamente nossas metas e modo de ser.

A grande verdade talvez é que a maioria das pessoas nunca almejou escolher realmente a pessoa certa, mas tão somente seduzir, possuir e conquistar, uma espécie de extensão do consumismo vigente sobreposto na área emocional. Outro mito absurdo é o de que os opostos se atraem, exatamente o contrário, principalmente num esquema de vida e sociedade tão intolerante e excludente como o nosso. Por outro lado seria direito de todos supostamente trocarem com pessoas parecidas, minimizando as raízes dos conflitos. O fato não é descobrir que o outro é exatamente diferente, mas perceber que simplesmente ambos estão totalmente presos na esfera do ódio ou qualquer outro tipo de sentimento negativo que os torna idênticos, independentemente dos motivos das discussões. Está custando caro em nossa era as duas esferas; seja a solidão ou um relacionamento totalmente mal sucedido. Com o fim dos papéis impostos outrora entre homem e mulher a relação caiu na mais absoluta competição e disputa. Não que o modelo antigo fosse mais saudável, mas tinha a certeza de uma certa segurança e continuidade. O problema atual com tal liberdade é que a mesma cobra o preço altíssimo do pânico à solidão, que faz com que a pessoa não consiga mais discernir sobre como um relacionamento a está afetando sob todos os aspectos. Infelizmente o que vale é vencer, não perder, seduzir e coisas afins. A variante do apego sustenta o sofrimento no mais alto grau.

A solidão em síntese seria a impossibilidade de conviver com as diferenças que não batem com o projeto pessoal e hermético do indivíduo, assim como a incapacidade talvez do mesmo em atrair algo semelhante com seu anseio ou desejo, não necessariamente sexual, mas sobretudo comportamental. Solidão é uma espécie de gozo individual através de uma certeza constante de desfrutar de sua rotina, desejando contraditoriamente alguém e sabendo de que a suposta pessoa pode interferir em seus planos individuais; um grande conflito com toda a certeza, mas o fato é que o desejo do encontro jamais cessará. Infelizmente em nossa era se procura para não achar. A verdade é que quase todos apenas conseguem vivenciar todos os sentimentos que se parecem com a mais pura dependência: paixão, apego, ciúmes como exemplos, e infelizmente não há o mesmo êxito na arte da doação ou renúncia, assim como na aceitação do outro ou o convívio com suas diferenças. Todas as futuras tribulações são causadas exatamente por todos desejarem apenas que sejam servidos, deixando suspensas suas responsabilidades e doações afetivas. O egoísmo há muito é um carcinoma constante dentro dos relacionamentos, e parece que hoje em dia é encarado com a máxima naturalidade, sequer causa estranheza ou vergonha, assim como a inveja, embora todos vivam disfarçando esses sentimentos. A acentuação egóica na esfera emocional sempre será um fator do mais puro conflito e sofrimento, apesar de todos estarem cegos sobre esse ponto.

É claro que numa cultura totalmente narcisista ninguém irá se importar com seu semelhante, e sim cultuar sua suposta superioridade, seja no lado econômico ou estético. A própria sedução só deixaria de ser um elemento destrutivo se houvesse uma certeza de continuidade do investimento no parceiro, e não apenas para atingir simplesmente uma meta de conquista. O “antes só do que mal acompanhado” reflete que ambas as opções só produzem insatisfação, infelicidade e deterioração da capacidade da troca. Se constantemente estamos infelizes ao lado de alguém, ou passamos boa parte do tempo solitários, é mais do que certo de que nossa capacidade de divisão e compartilhamento será afetada. Antes só do que mal acompanhado reflete também uma desistência ou total conformismo perante a derrota na esfera emocional. Claro que não estou pregando que ninguém tenha de aturar um relacionamento fracassado, mas deverá descobrir porque constantemente atrai tipos totalmente opostos em relação aos seus anseios. Os conflitos que vemos nos relacionamentos realmente seriam uma espécie de defesa ou proteção para a pessoa que se sente desprestigiada ou mal amada? Ou teriam o sentido de mascarar a grande agonia por ter uma responsabilidade afetiva e sexual para com o outro? 

A questão sobre o que atraímos em termos de relacionamentos ainda é um grande mistério. Como via de regra se atrai alguém que irá causar tanto conflito e dor? O próprio FREUD também se confundiu nessa área, ao assinalar que o princípio básico do inconsciente era a busca de prazer. Mas se o mesmo era o soberano, como ficava a questão do sadomasoquismo nas relações sexuais? Então formulou o conceito de que havia dois instintos; EROS- instinto de vida e preservação da mesma, através do gozo e ato sexual, e THANATOS- instinto de morte e retorno ao inanimado, destrutividade em todas as esferas. Embora polêmica até hoje, tal tese merece não apenas nosso respeito mas, sobretudo mais empenho e estudo. O fato é que se existe um instinto de morte quando o mesmo se instala? Diria que quando o sujeito tem a certeza subjetiva de ter sido um estorvo ou rejeitado familiarmente e em conseqüência ter tido uma vida afetiva conturbada. Tudo isso parece muito óbvio, mas o fato que quase ninguém se dá conta é que a rejeição sempre é fruto também da comparação com outras pessoas ou famílias, que exacerbam a inveja e frustração do indivíduo. O instinto de morte significa sobretudo que o critério e julgamento não dependem mais da pessoa, mas totalmente do ambiente ao seu redor, não há mais espaço ou chance de amor próprio, pelo menos é assim que o sujeito sente seu drama diário.

Qualquer pessoa não muito inteligente sabe que a destrutividade humana se iniciou quando se trocou a solidariedade e cooperação por competição e disputa. Mas qual afinal a razão de se procurar um gozo no destaque? Em outros estudos mencionei o desejo de imortalidade que inunda todas as formas de poder. Este é outro ponto em que há uma brecha na teoria psicanalítica; o gozo sexual e fantasias do gênero são buscados a cada segundo como apregoa o ramo psicológico citado, porém não são páreos para o desejo de imortalidade citado, pois apenas o “poder terreno” tem o derivativo de estabelecer supostamente uma dinastia de continuidade. O prazer tem o efeito totalmente diluído quando se adentra a questão não apenas do sentido da vida, mas os fatos inexoráveis da mesma, a morte como exemplo máximo. O prazer acaba sendo um derivado da ilusão da conquista e sedução, sendo imagens arcaicas de natureza sexualizada que carregamos conosco; o poder como foi mencionado tenta desviar o acerto de contas acerca da finitude de nossa existência. Seja a pessoa narcisista no sentido estético ou erótico, por se achar bonita e desejável ou aquele que adquiriu um espírito notável de liderança, ambos acabam desprezando a intimidade e cumplicidade de um relacionamento, justamente por esse compromisso de um ego arraigado em si mesmo.

O certo seria considerar todo projeto individualista como o ápice da loucura. É óbvio que tal conceito está totalmente na contramão da sociedade egoísta e competitiva. Todos desejam sucesso, crescimento, poder e prazer, dentre outras coisas, e é mais claro ainda que o exagero em uma dessas áreas é que provoca todos os problemas individuais e sociais. Mas será que os elementos citados que todos buscam são para poucos? Há mecanismos inconscientes ainda pouco estudados de atração e repulsão, levando o sujeito para determinada corrente ou destino. O pólo individualista é loucura pois todo o esforço se perderá caso não haja divisão ou continuidade. A mais profunda tristeza e aridez afetiva serão o testamento daqueles que sempre temeram ser explorados em vários aspectos, retendo tudo o que puderam. No final das contas existe uma tremenda contradição no modo de vida em nossa atualidade, pois se todos almejam mesmo a continuidade ou imortalidade ao menos simbolicamente, deveriam aprender não apenas a arte da divisão, mas do ensinamento profundo para com o outro. Coisas complicadas e difíceis num mundo mimado que deseja tudo pronto sem lutar para a melhora ou construção de algo original.

Como disse no começo do estudo ambas as opções são péssimas, tanto a solidão quanto um relacionamento fracassado. Mas devemos examinar a fundo a gênese desse sofrimento todo. O grande vilão é a posse e o terrível sentimento de perda, que ninguém em nossa atualidade deseja para si próprio. Parece muito fácil a resposta, mas poucos percebem que a posse é uma defesa psicológica das mais vorazes contra a sensação devastadora do sentimento de desamparo. Outro problema extremo é que a posse mascara e adia a terrível angústia de num futuro próximo ter de lidar com a saudade, por mais negativo ou frustrante que fosse o relacionamento. Há mais de uma década percebo que há um consenso nessa área amorosa, e o mesmo passa por simplesmente não ficar sozinho ou ser abandonado. Infelizmente as coisas acontecem contra o sonho ou vontade de quem investiu tanto em determinado desejo. É óbvio que uma sociedade que evocou tanto a liberdade negativa e até diria promiscuidade nas relações, e ainda a timidez em relação a se entregar profundamente para o companheiro, colherá a imprevisibilidade neste setor no mais alto grau possível. Querer a posse, mas almejar ser livre ou sem obrigações (o “moderno ficar”); a leitura dessa contradição nada mais é do que o egoísmo e mimo num grau alarmante para as necessidades pessoais e coletivas.

Para chegarmos realmente ao âmago da questão precisamos refletir o porque da extrema dificuldade de compreensão para com o companheiro, e mais vital ainda, quando a mesma seria positiva ou prejudicaria a pessoa? Realmente tal proposição irá despertar a ambição das pessoas no tocante a uma saída para determinada questão. Quando realmente podemos mimar uma pessoa sem afetá-la; como equacionar a questão sobre a anulação pessoal com o outro durante a vida toda versus a impulsividade e agressividade que só agregam solidão e desespero. Isso tudo representa o divisor de águas entre a antiguidade e nossa era atual se paramos para pensar com mais cuidado. Parece que ambos os modelos falharam ou continuarão falhando no tocante à busca da felicidade ou satisfação do indivíduo. Aliás, cabe colocar o que seria realmente a felicidade em nossos tempos, e a resposta soa com naturalidade: vencer sempre o processo de competição e comparação com determinada pessoa ou grupo. Essa tarefa determina a síntese de nossa solidão. É bastante claro que poucos vencerão tal dilema criado por nossa sociedade; se a cada dia o ser humano se torna mais individualizado ou egocentrado, obviamente ficará mais difícil encontrar alguém que supostamente o tolere ou até adivinhe suas mais profundas necessidades.

A psicanálise e psicologia historicamente insistiram no conceito de Édipo ou familiar para trazer as neuroses da pessoa, supostamente o desbloqueio disso seria a felicidade; total engano, pois a mesma seria o hábito e possibilidade de treiná-la e exercitá-la desde os mais remotos tempos de infância, não apenas tomando como exemplo o amor entre os pais, mas sobretudo o quanto estimulou a criança para vir a ser realmente alguém especial e íntegro, em todas as etapas de seu desenvolvimento. Mas não seria até um tanto simples passar esse amor ao filho, ou determinados problemas econômicos e psicológicos se sobrepõem perante tal tarefa? Na essência o que torna alguém fraco ou pusilânime é a convicção que passará por todas as dificuldades sem nenhum apoio. A solidão máxima é ter de desbravar a estrada do sofrimento sem nenhuma companhia ou garantia de afeto. O problema passa além da dificuldade, mas sim ter de lidar com o inesperado absolutamente sem nenhum conhecimento prévio, problema mais do que genético na raça humana.

Esmiuçando um pouco mais a questão, como se forma o processo exagerado da solidão ou então solidão a dois e relações mais do que intempestivas? Em diversos outros estudos evoquei o problema da timidez não apenas como medo e afastamento perante a crítica, mas o não engajamento na arte da troca. O tímido odeia falar de si próprio por não aceitar em hipótese alguma que alguém exponha determinada fraqueza sua, o que torna uma construção de poder ao contrário, domina pela não participação, não passando por apuros emocionais. Pois bem, esse núcleo já se forma na personalidade desde a infância, quando a criança sentiu determinado prazer ou vantagem ao vivenciar uma espécie de prazer quando estava sozinha, ao contrário do que muitos possam pensar de que a mesma acabaria chorando ou entrando em pânico. O gozo de não dividir ou desfrutar apenas para si própria se instala exatamente nesse momento. É como se fosse um pagamento devido ao tímido por ter que aturar a solidão, já que passou por tão terrível experiência, justificando eternamente seu egoísmo, agora sancionado por uma teoria macabra de sua mente. Obviamente o receio da crítica continua vivo, caso o tímido adotasse outra postura. Os pais deveriam estar atentos para que as crianças não se habituassem com práticas comprometedoras de sua sociabilidade, percebendo quando seus filhos se deleitam ao estarem sozinhos e sem quaisquer responsabilidades para com o próximo.

Um novo problema que podemos inferir nesse estudo é o que chamo de solidão a três. Defino como uma estagnação ou paralisia do casal frente a novos contatos ou amizades, seja por ciúmes de um ou ambos os parceiros, ou por absoluta comodidade do casal. O efeito de tal conduta é o incremento não apenas da insatisfação da relação, mas também intensas crises conjugais e até existenciais. O casal sempre irá incorrer no declínio ao se recusar a oxigenar sua história e sociabilidade. Quem amarga à plenitude da solidão vive queixoso, mas também é uma certa unanimidade se falar do distanciamento que uma paixão ou amor provoca no meio circundante do casal. O mais inacreditável é exatamente isso, tanto aquele que não tem absolutamente ninguém, quanto o que se entregou quase que na totalidade à sua paixão, sofrem quase sempre da mais absoluta carência, angústia e insegurança. Os históricos de ambos os processos quase sempre culminam numa rota de privação e fome afetiva. Também em outros trabalhos meus observei que o problema amoroso pode se tornar totalmente destrutivo, tanto psicologicamente quanto fisicamente, e quase todos já perceberam esse terrível fator. As seqüelas de uma relação frustrada exacerbam todo tipo de sintomas psicossomáticos, sendo que na experiência clínica já me deparei deste uma simples gastrite até o surgimento de um câncer fulminante, pela soma intensa de sofrimento e frustração. Mas como perceber quando o caminho amoroso converge para a destrutividade? Afora as brigas e discussões intermináveis de um relacionamento que jamais dará certo, diria que o fator primordial é quando se coloca totalmente no outro uma expectativa de redenção ou uma auréola de salvador da afetividade do sujeito. Esse é o caminho mais curto para o desenvolvimento da destrutividade descrita, pois caso a união não dê certo, o físico já está à espreita para se manifestar.

A transposição para um outro ser humano de uma espécie de conteúdo mítico ou de caráter de redenção só piora tudo, como historicamente assistimos a transposição da religião para o personalismo dos líderes na era do comunismo, causando todo tipo de violência e atrocidades que a história demonstrou, não que nosso sistema também não faça tal coisa, a diferença é a camuflagem. Lamento desapontar àqueles que são viciados em se anular ou entregar seu ego na totalidade para o parceiro, mas a verdadeira experiência amorosa requer a extinção do medo, infantilismo e solidificação da confiança por parte de ambos. Se um dos parceiros não desenvolve o exposto, não tardará para que todo tipo de problemática surja rapidamente. Nenhuma racionalização por melhor que seja consegue superar um abalo emocional. Porém, é mister cada um fazer uma espécie de inventário quando a relação terminou e descobrir onde se localizou o pólo central da destrutividade. Este pode ser definido não necessariamente pela agressividade, mas simplesmente pela recusa de um ou ambos de aproveitarem a oportunidade do prazer a dois. Se alguém abdicou do parceiro que realmente provou seu valor ou amor, não se pode tolerar ou permitir o sofrimento da perda, e sim compreendermos a estrutura doentia da personalidade de nosso ex-parceiro. Não se trata de treinar ninguém para uma suposta autoconfiança forçada, mas simplesmente encarar a realidade. Perceber que o núcleo da destrutividade citada se exacerbou justamente pela incapacidade de um ou ambos em lidarem com o conflito é fundamental.


Temos talvez de encarar o fato de que talvez nosso parceiro ou nossa própria pessoa sempre desejou caminhar pela trilha da mediocridade. Quanto inconformismo por não se poder canalizar a energia em alguém que não apenas se recusa em aceitá-la, mas também não deseja a evolução, e pior ainda, tal pessoa sabe que talvez seu parceiro seria o ideal para ajudar na concretização disso tudo. A revolta, depressão e tristeza se instalam exatamente neste ponto. Tal processo poderia ser confundido com sabotagem, mas a verdadeira análise é que se trata de uma inveja fulminante contra o outro, sendo assim, vale a autodestrutividade simplesmente para não coroar o potencial do companheiro. Infelizmente para muitos, discutir tal fenômeno ainda é uma espécie de tabu. Quem trabalha com casais simplesmente cansou de ver relacionamentos fracassarem justamente quando a inveja se instalou no cotidiano do casal.

Quando há uma extrema dificuldade de superar uma relação que se rompeu, mesmo que se tenha a certeza de que não haveria a mínima chance de dar certo, podemos fortemente suspeitar que não é apenas a posse, o medo de ficar sozinho, sensação de derrota, ciúmes de ser trocado; além desses elementos citados, o que soa mais alto é o mais puro complexo de inferioridade agindo de uma forma bastante camuflada, através de um tipo que chamaria de gratidão mórbida pelo ex-parceiro ter ficado ou desejado o sujeito algum dia, já que no inconsciente da pessoa acometida por esse problema a carência e miserabilidade afetiva reinam em absoluto, fazendo com que desenvolva uma certeza de que nunca mais alguém irá desejar sua companhia. Quanto menor a autoconfiança ou maior a rejeição a si próprio, mais apego às imagens e acontecimentos do passado irão ocorrer.

Voltando ao problema da inveja creio que sua superação equivale ao ser humano trabalhar o pânico da morte, ambos são a grande medida para o autoconhecimento. Seria fundamental fazermos sempre uma retrospectiva de quanta inveja sentimos no transcorrer de nosso desenvolvimento. É a máxima ingenuidade possível achar que um casal que se ama não desenvolveria a inveja no núcleo de sua relação; mesmo entre pais e filhos a mesma se instala corriqueiramente; a intimidade seja ou não de natureza sexual, jamais irá blindar o sujeito contra investidas emocionais das mais variadas formas e categorias, principalmente as consideradas negativas. O epicentro da inveja não deixa de ser uma grande desculpa criada pelo indivíduo por ter vivido um passado de carência e privação emocional, assim sendo, acha que todos lhe devem, se tornando mimado e desenvolvendo comportamentos destrutivos para com seus semelhantes, já que só visualiza seu ego, sendo um total explorador de seu meio, coisa natural para o mesmo. Suas armas incluem a sedução, mentira e falsas promessas de ser alguém presente. Apenas por um breve momento consegue fornecer o que o outro necessita, justamente pela sedução apontada anteriormente. 


Talvez o grande problema é focar sempre no dano que o outro nos causou, ao invés da reflexão profunda sobre incapacidade, despreparo e histórico de carência emocional. O traçado deste último não é uma espécie de maldição, mas tão somente a somatória do que não conseguimos resolver ou vivenciar a dois. Particularmente detesto a velha máxima de que não podemos culpar o outro por nossos problemas, é que tal ditado sempre deixa a porta aberta para que o outro possa fazer o que bem entende; pois bem, mas a proposição inicial é acertada do ponto de vista racional, devemos primeiramente nos concentrar em nossos próprios erros. Culpando ou não alguém, o problema é que quase sempre permanecemos na mesma situação, famintos daquilo que sempre necessitamos. A velha lenda criada por JEAN PAUL SARTRE perde o rumo nesse sentido, “o inferno não são os outros”, ao contrário do que dizia, mas o poder do outro é justamente amplificar o que não resolvemos ou vivemos. Como disse acima, se a carência leva a santificar ou transformar o outro numa espécie de salvador da afetividade, podem apostar que a relação não tarda a se tornar tortura sendo que um dos parceiros fará o papel de algoz do lado emocional do outro. Não esqueçamos que a carência é sinônima de privação, e a sociedade aprendeu a excluir totalmente aqueles que mais necessitam de apoio e amparo, ao mesmo tempo em que contraditoriamente fomenta a autopiedade e solidariedade no sofrimento neurótico.

Outra coisa que ajudaria em demasia é se os pais desde cedo se ocupassem não apenas com a garantia econômica de seus filhos, mas, sobretudo os observassem atentamente na infância e adolescência a fim de notarem se estão desenvolvendo comportamentos de irregularidade afetiva e timidez. Um ser humano inteligente sabe que para se viver com satisfação e dignidade neste mundo não basta apenas a sobrevivência como foi na era primitiva do ser humano; mais do que nunca nossos tempos colocam o desafio imenso da parte pessoal e psicológica, totalmente negligenciado e que acarreta todo tipo de distúrbio psicossomático e emocional. Enfim, tanto conflito, disputa de poder nos relacionamentos, qual a verdadeira origem de tamanha dificuldade? Será o casamento apenas um ícone obsoleto pregado pela cultura religiosa ou tem alguma chance de evolução? A resposta final é que todo o exposto neste estudo é reflexo de um fenômeno bastante simples, nunca em nosso histórico de vida priorizamos a parte pessoal, apenas isso, quando não há treino ou condicionamento físico, pode apostar que o jogo já está mais do que perdido. Encaramos afeto como simples distração ou apenas alguém para não ficarmos sozinhos, e a verdade é que cada dia mais todos os processos sociais de disputa, inveja dentre outros, adentram enormemente a relação pessoal, e simplesmente nos sentimos impotentes ou indolentes para reagirmos perante tal tragédia. Creio que apenas cada um em seu íntimo pode operar uma profunda reflexão que possa levar a uma radical mudança comportamental, desde que o indivíduo anseie por isso é claro. Por último, a máxima do “antes só do que mal acompanhado”, vale precisamente quando o suposto prazer da relação seja sexual ou não, é fonte de tormento, distúrbio e rouba por completo a valiosíssima paz de espírito, tão difícil em nossa atualidade. 

Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

5 comentários:

Wanderley Elian Lima disse...

OLá Janilton
A pior solidão é a solidão a dois. Suportar um pessoa que já não lhe dá o menor prazer, só pelo medo de ficar sozinho, é a situação mais degradante um um ser pode viver.
Grande abraço

Rosana Madjarof disse...

Janilton,

Primeiramente quero te dar os parabéns por você ter conseguido esta postagem no OCIOSO, que, por sinal, é muito digna de um agregador como o OCIOSO, e tenho a certeza que esta será a primeira de muitas outras que virão.

Já divulguei até no Twitter... rsss

Quanto ao estudo em si, posso dizer que uma relação fracassada é muito pior do que a solidão, pois a solidão pode ser uma opção, enquanto o fracasso de uma relação já não é a mesma coisa, pois, se assim aconteceu, é porque algo não deu certo no meio do caminho, e quando um cristal lapidado se quebra, quebra-se, também, o encanto e o fascínio que existia nessa relação.

Parabéns pela excelente matéria.

Adorei!

Bjs.

Janilton disse...

Wanderley, muito obrigado pela sua participação e comentário.

Amiga Rosana, é um prazer em vê-la aqui. Muito obrigado pela participação e comentário, e quero agradecer também pela divulgação desta postagem no twitter.

Um grande abraço aos dois.

Claudine Ribeiro G. Netto disse...

Olá amigo Janilton
Excelente postagem.
A pior solidão é a dois, quando duas pessoas deixão de se entender e não vêem uma a outra dentro da mesma casa,o correto é se separarem para não entrarem em conflitos, principalmente se desta relação tiveram proles. As crianças sentem quando os pais não se entendem e não se amam mais.
Abraços.

Janilton disse...

Claudine, muito obrigado pela sua participação. Realmente a pior solidão é a dois. Mas estar só tbm não é confortável. São duas situações desagradáveis dependendo de cada pessoa. Têm pessoas que partem pra outra ou fazem algo em busca da felicidade, não ficam presas a uma relação fracassada e nem sozinhas. Acredito que são pessoas digamos "proativas". Outras ficam presas a uma relação que não existe mais, e acabam sofrendo a tal solidão a dois. É preciso trabalhar a mente, pois nada é para sempre, tudo é efêmero. É difícil superar uma perda, isso é óbvio, mas a pior perda é quando a pessoa morre, que temos de alguma forma se conformar. Estar em comunhão com Deus é a saída para todas as tribulações.

Abraços!