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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Terapia de Casal na Infidelidade Conjugal

Sem sombra de dúvida o processo da traição e infidelidade é o mais dolorido para um dos membros do casal, ou até para ambos. Falo em processo, pois é exatamente esta palavra que descreve a situação. Tudo porque a infidelidade não é algo que simplesmente aconteceu rapidamente, mas foi sendo construída no percurso do relacionamento. Suas causas principais: insatisfação sexual ou na relação, ausência de diálogo e comunicação, incompatibilidade de personalidades, desejo de vingança. O mais interessante é que o casal na maioria das vezes não enxerga estes elementos óbvios, atribuindo a infidelidade tão somente a um suposto desvio de caráter ou conduta moral. Chegam à terapia desejando ainda salvar a relação, porém, estão presos nos mais obscuros sentimentos humanos; rancor, mágoa e ódio. O estabelecimento da causa da traição deve ser o primeiro objetivo para o terapeuta e casal, para se achar uma trilha nesse verdadeiro nevoeiro que se tornou a relação. Sempre adianto para todos que se o objetivo foi à vingança contra o outro, as chances de êxito são praticamente nulas, pois é dificílimo para qualquer pessoa suportar e conviver com tal ato doloso dirigido contra a mesma. Se as causas são as outras citadas anteriormente, o quadro se torna mais otimista. Sempre afirmei que o grande problema da traição não é nem tanto a mágoa, que existe obviamente, mas ativar um processo defensivo para quem a sofreu. Explicando melhor, quem foi traído tem a tendência num segundo momento de se eximir de qualquer erro ou processo de mudança, colocando no traidor toda a responsabilidade não apenas pelo erro cometido, mas também para se iniciar um novo processo de descoberta e desenvolvimento pessoal. Este é o grande problema, ativar defesas do inconsciente tanto na terapia quanto na relação. Também costumo apontar para os dois lados que aquele casamento como conheciam morreu completamente, ou partem para uma nova estrutura e conhecimento mútuo, ou ficarão na estaca zero e pior, com toda a dor do que aconteceu.
O problema da traição como todos sabem é o que vem na seqüência, ativação ou potencialização de nefastos sentimentos, tais como: ciúme excessivo, paranóia, compulsão para vigiar cada passo do parceiro, ou seja, a infidelidade tem a característica peculiar de adoecer ambas as partes. Digo isto não baseado em um cunho moralista, mas apenas ressaltando que a quebra do vínculo também faz romper toda a estima do companheiro lesado, e isto sem dúvida alguma é a pior coisa da traição, pois por mais que haja racionalização, e a pessoa traída saiba que não iniciou este ato terrorista contra o relacionamento, sempre acaba seguindo aquela tendência de familiares de drogados que se martirizam dizendo em que ponto cometeu erros para as coisas se encaminharem de tal jeito. Esta é a primeira neurose que o terapeuta deve atacar na terapia. Em seguida vem a pergunta clássica dirigida ao terapeuta sobre se tal caso tem alguma chance de êxito. Embora esta indagação caia no mais profundo senso comum, é vital a explorarmos com todo empenho e seriedade. Se alguém me pergunta se será capaz algum dia de perdoar, lhe respondo na hora que depende de como lida ou insufla seu ódio pessoal, destrinchando todos os elementos contraditórios que se seguem; amor pelo parceiro, revolta e desejo de vingança, não aceitação da perda, mas uma rotina diária de inconformismo, queixas e acusações. Volto a insistir que o problema da traição não é de natureza moral ou religiosa, mas essa energia que arrasta um ou ambos para a mais pura doença emocional. Disse anteriormente que quando a questão é vingança o processo praticamente se torna insuperável, assim como aquelas situações clássicas de ter traído com o melhor amigo ou amiga, novo dilema total, pois novamente a superação é quase que impossível por se tratar de uma perda ou traição dupla, sem dúvida alguma o tipo de caso mais nefasto.
Estou dizendo até agora que a traição tem a característica peculiar de ativação de elementos ocultos, sinto que devo me aprofundar nessa questão mesmo correndo o risco de ser repetitivo, mas enfatizando que a infidelidade ou traição trazem à tona o pior problema psicológico do parceiro que sofreu essa agonia, seria como na física o fenômeno do empuxo de ARQUIMEDES, uma força deslocando semelhante no sentido contrário, poucos se deram conta de tal fenômeno, uma substituição gradual do outrora amor pelos mais rancorosos processos psicológicos. Mas como tudo isso é possível? Primeiramente a angústia e inconformismo perante uma provável perda que o companheiro traído jamais sequer ousou em pensar, segundo, o orgulho ferido obviamente que ativa um desejo nefasto de vingança, mesmo sendo contra os princípios éticos da pessoa. É nessa parte que no transcorrer dos anos aprendi a essência da terapia de casal; num primeiro momento o terapeuta deve se comportar como uma espécie de bedel, restringindo manifestações extremamente agressivas que possam causar malefícios inimagináveis para ambas as partes, num segundo momento estimular que cada parte trate individualmente seu lado psicológico desde a mais tenra infância até hoje em dia, e em terceiro o que pouquíssimos casais conseguem explorar, toda a dinâmica psicológica do relacionamento, tipo: quais os fatores inconscientes e conscientes que juntaram o casal, quais pontos tanto da sexualidade como do dia a dia jamais foram explorados, que futuro ambos projetam para dito relacionamento, quais reais compromissos realmente cercam ou protegem a relação de fatores como doença, dificuldade econômica, ausência de libido, tédio e insatisfação. Percebam que tais questões são o centro de tudo, muito mais do que o fator da traição em si mesma.
Mas o papel do terapeuta afora as etapas citadas deve ser de total neutralidade afetiva, pois tomar partido numa situação tão desgraçada quanto à traição é uma tentação considerável. A terapia deve seguir uma análise investigativa sobre quais elementos suscitaram tal enfermidade no relacionamento. Costumo pontuar que se ambos chegaram até o consultório do psicólogo é porque ainda não tem nenhuma definição conclusiva, cabendo a ambas as partes se abrirem o máximo possível para compreenderem a dinâmica de tudo o que ocorreu. Vou entrar agora em outro ponto mais do que polêmico, mas vital para este estudo, afinal de contas o que a psicologia ou terapia de casal encara de fato como sendo uma verdadeira traição ou infidelidade? Excetuando os casos típicos onde um dos parceiros flagrantemente arrumou o que todos conhecem como a figura do amante, a questão é bastante complexa de responder. Diria que depende de todo o histórico psicológico de quem sofreu a traição, pois a construção do mesmo é que fará com que a pessoa enxergue tal coisa como uma traição ou não. Vou dar alguns exemplos para facilitar minha mensagem. Já vi pessoas que não consideram o fato do marido ter ido ao prostíbulo como uma traição, outras sequer admitem que o marido assista a um determinado filme pornográfico. A própria legislação ainda não avançou nesse terreno, considerando apenas a conjunção carnal como uma traição de fato, soube inclusive que há projetos tramitando no congresso sobre considerar traição, troca de mensagens sexuais via os recursos eletrônicos de nossa atualidade. O fato que ressalto é que tudo isso depende do passado de cada um e o trauma que carrega em relação ao que o outro deve ser moral e eticamente. Mas se um paciente insiste em me perguntar o que considero como traição, sempre respondo que deve ser uma percepção da realidade e bom senso. Não posso admitir que um filme seja uma traição, apenas que pode ser prejudicial se interferir no relacionamento sexual de ambos. Sobre troca de carícias sexuais via recurso eletrônico costumo pontuar que é o começo da pavimentação da estrada que levará ao ato de infidelidade. Sobre a questão masculina de recorrer a prostíbulos, digo que não seria uma traição contra a parceira, mas contra a própria relação, pois quando determinado homem utiliza deste expediente estabelece inconscientemente uma competição visando levar uma vantagem extra no relacionamento. Desculpe talvez certa impregnação de moral, mas se não há regras não existe o próprio relacionamento, apenas agregação de dois seres debaixo de determinados contratos.
Todas essas palavras teriam um valor inestimável se fossem aplicadas num patamar preventivo. Assim como o câncer e outras enfermidades, a traição deveria ser diagnosticada a tempo. O grande problema é que todos os casais recorrem à psicoterapia quando todas as bombas já foram lançadas. Então enfatizo a importância da prevenção. Os casais deveriam procurar ajuda no começo de tudo, quando notassem perda da libido, excesso de pornografia ou perversão sexual, tédio no relacionamento, angústia em relação ao que considera como etapas não vividas em seu desenvolvimento e, sobretudo ausência de um diálogo profundo. Ou se começa a rever todos os valores ou todo esse sofrimento se perdurará até a extinção do ser humano. Um fator que me impressiona na terapia de casal é a falta de auto-análise por parte de ambos. Quase todos dizem que sempre fizeram sua parte e que o companheiro é o ingrato ou que não enxerga as qualidades do outro. Isto em alguns casos até pode ser verdade, mas o fato é que quase ninguém consegue perceber quais são as reais necessidades do outro. Obviamente não estou obrigando ninguém para ser uma espécie de psicólogo do outro, mas que dedique um pouco de seu tempo para tentar perceber ou captar as angústias alheias. Generosidade para com o parceiro nunca podem ser exclusivamente no âmbito material, sedução ou o chamado romantismo. Muito mais importante do que a panacéia citada diariamente sobre flores, jantares e coisas do tipo, é perceber uma necessidade do outro que a própria pessoa ainda nem se deu conta, isto é um dos atos mais maravilhosos de amor, pois se ajuda a construir uma autêntica transformação, a pessoa será genuinamente grata por terem lhe apontado algo que num futuro lhe trouxe benefício e a princípio sequer desconfiava de sua importância, este fenômeno é corriqueiro na psicoterapia, deveria ser largamente transposto para os relacionamentos.
Impressiona-me a vulnerabilidade do ego perante o fenômeno da traição. Tantas dúvidas e questões colocadas de forma completamente aleatória. Como exemplo, cito a questão do parceiro traído questionar o outro sobre se sua pessoa hoje em dia lhe causa tédio, ou o popular enjoar da relação. Uma baixa estima obviamente produz esse tipo de dúvida. O que também poucos percebem é que mesmo sendo o mais estimado objeto sexual ou moral, tudo depende do que o parceiro consciente e inconscientemente procura. Quem falou que determinado homem ou mulher está satisfeito com a máxima beleza ou altivez sexual de seu parceiro? Quem disse que ser uma exemplar mãe, esposa ou pai irá estabilizar eternamente a relação? Embora tais qualidades sejam fundamentais, não irão blindar o relacionamento. Lamento tocar na ferida mais profunda, mas o fato é que tudo isso não terá sentido se o parceiro persistir num lado sabotador ou obscuro de sua personalidade. A pessoa traída também tem de fazer uma auto-análise onde irá descobrir que nunca conheceu efetivamente seu parceiro. Talvez tal fato também se torne um dos pontos mais dolorosos no fenômeno da traição. Não conhecer o outro é sentir-se ludibriado, essa é a mais pura verdade. Embora me depare diariamente com o reverso, a pessoa saber muito bem que o parceiro lhe faz mal, mas insiste numa teimosia que nada mais é do que apego, carência ou pânico da solidão. Chegamos à conclusão suprema que a traição pode ser um fenômeno de mão dupla, ser enganado, humilhado e assaltado afetivamente, mas por outro lado trair também é não apenas não se gostar, mas postergar uma relação absolutamente fracassada, aceitar serenamente um estado de infelicidade crônica, ou viver na ilusão perversa que o outro nos suprirá algum dia, quando jamais tivemos qualquer sinal até o presente momento, aliás, essa questão do tempo também é fundamental, quanto tempo necessitamos realmente para conhecermos profundamente nosso parceiro? 10 anos, 20, a vida toda? Porque isso ocorre? Necessidade de permanecermos em nossas ilusões ou projeções? Enfim, todo esse sofrimento só terá um sentido se na seqüência seguir a mágica do amadurecimento, autoconhecimento e respeito por si mesmo, este se dá apesar da imensa dor na compreensão dos fatos e acontecimentos, eliminando totalmente a cegueira causada pela enxurrada emocional, compreensível num primeiro momento, mas devastadora se persistir. A positividade de tão nefasto fenômeno que é a traição é simplesmente tirar uma radiografia completa de nossa história afetiva e sexual, o que realmente necessitamos, em que ponto fantasiamos ou fomos imaturos, e, sobretudo o quanto nos preparamos para o universal processo da perda.
Créditos: Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

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