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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Análise sobre o Medo e as Fobias

Se excluirmos a questão sobre o dinheiro e trabalho, parece que nossa mente apenas vive focalizando dois pólos opostos: seja na fantasia e devaneio de uma satisfação qualquer; ou no mais completo pensamento de medo. O objetivo deste estudo é a formulação de um teste psicológico prático para a aferição do grau de medo presente na personalidade do sujeito; devendo ser aprofundado entre o psicólogo e paciente durante a psicoterapia. A primeira questão seria:

* Quantos pensamentos de medo e fantasia têm aproximadamente durante o dia? Quais são os mesmos e sua temática central? A fantasia embora tenha a função de entretenimento, não deixa de ser um pesado fardo por revelar toda a carência da pessoa. As imagens mentais do medo não são necessariamente o vício sobre determinada antecipação de algo catastrófico, mas assim como a fantasia reforça o tédio e amargura perante o distanciamento daquilo que elegemos como sonho. O preenchimento de uma ausência quase sempre se completa com a mais pura agonia ou caos psíquico. Pensemos em certas fobias do tipo: verificar várias vezes se a porta está fechada ou a chave do gás. O significado inconsciente de tal conduta não é apenas o medo do acidente ou um dever e obrigação imposta pela mente. Sua raiz remete a uma disciplina internalizada que visa a fuga a qualquer custo da crítica ou rejeição. A mente de uma forma constante almeja o distanciamento de um passado ou uma situação que foi humilhante para a pessoa; desenvolvendo um trabalho extra como compensação e defesa contra novos ataques. A psicanálise no decorrer da história imputou conteúdos sexualizados para quase todo o tipo de fobia. Torna-se um tanto hilário se pensarmos no medo de dirigir como protagonista de algum conflito de ordem sexual; pode até ser que exista de alguma maneira, mas temos de tomar cuidado para não perdermos o foco da situação.
A estrutura social nos coloca não apenas o dilema da sobrevivência econômica, mas qual valor temos perante os outros. O cerne de várias fobias passa pela questão do poder do sujeito perante o meio e como o manipula. No caso citado do medo de dirigir, quase sempre encontramos uma pessoa que historicamente apresentou grandes dificuldades com a crítica e agressividade. O medo de ser atacada e lhe tomarem seu espaço ou ego pessoal é transportado para a esfera do dirigir onde todos esses elementos são testados incessantemente. A segunda questão seria:

* Em que época da vida lembra que começaram a se desenvolver tais pensamentos onde o núcleo é o medo? Confia plenamente que os traumas vividos representam fielmente sua condição atual? Gostaria apenas de fazer um parêntese sobre o que está sendo desenvolvido neste estudo. É óbvio que ninguém jamais conseguirá viver sem o medo ou se abster de sonhar ou desejar algo. Ambas as coisas são parte intrínseca da condição humana. O que cabe é a conscientização sobre nossa deficiência na obtenção da parte prática de viver bem. Sobre a questão acima levantada é interessante notar como quase todos têm um perfil traçado exatamente acerca da origem de sua insatisfação ou infelicidade, como se a mente respondesse de forma lógica aos desafios apresentados. A própria natureza do trauma ou conflito é a arte da dissimulação visando a manutenção constante de determinado estado afetivo. A cognição e pensamento do ser humano visam a constante repetição dos eventos, na esperança de poder os controlar algum dia. Nenhuma pessoa seria estúpida o suficiente para se acostumar ao sofrimento, mas o que a mesma não percebe são seus esforços internos para se deter em determinado hábito. Mas neste ponto já podemos formular a pergunta central do texto e que desafia a psicologia desde seu princípio:

* Por que tememos tão intensamente as mudanças?
Quando ocorre uma mudança no indivíduo para algo melhor ou mais produtivo, o primeiro desafio do mesmo é estar atento e saber lidar com a mais pura inveja. Esta traz temores inconscientes de toda ordem, não exatamente de perder o que foi conquistado, mas o terrível sentimento de culpa por estar em uma situação diferenciada. Podemos afirmar que tanto os elementos construtivos ou destrutivos do ser humano sempre irão permanecer intactos no substrato inconsciente. Se o esquema econômico e social fez com que, por exemplo, a solidariedade se tornasse supérflua no rol da sobrevivência, a mesma irá se deslocar para outra esfera; na identificação e solidarização com a infelicidade absoluta do outro e obrigação de seguir o mesmo traçado. Todos sabemos da dificuldade e dor de ver o outro muito melhor do que nós mesmos, e quando alguém consegue destaque ou detém determinado potencial, fatalmente o travará perante esta torcida consciente e inconsciente da negatividade. Precisamos treinar muito para acreditarmos em nossa auto estima. JEAN PAUL SARTRE dizia que o “inferno é o outro”; tal afirmativa encerra um contra-senso; por um lado realmente o outro é o inferno no tocante a inveja perante algo que temos ou detemos; mas também sempre precisaremos de uma platéia, seja por nossos anseios narcisistas e agressivos, ou por um desejo genuíno de tentarmos nos integrar na coletividade. ALFRED ADLER, contemporâneo de FREUD e criador da psicologia social, achava que o senso de uma real comunidade, no sentido profundo de amparar o outro era a meta máxima do desenvolvimento emocional da pessoa. O ser humano não é nem bom ou mal por natureza, mas carrega todos os potencias de energias ou afetos que se cristalizarão em conformidade com o meio e subjetividade de quem reage ao mesmo.

· Outra pergunta fundamental é: Qual o receio ou medo de proporcionar prazer a alguém? Este é mais um dos dilemas de nossa era no tocante a relacionamentos. O pavor de dar o melhor de si e não obter retorno ou impacto sobre o outro permeia toda a esfera afetiva. O lacônico “ficar”, é o produto mais fiel desse processo. Na verdade o contraponto do consumismo é a total economia psíquica e sentimental de prover o que se possui de melhor para alguém.

· Sobre as fobias em si; qual sua origem? Como exemplos: medo de elevador ou lugares fechados, qual o significado? Um dos mais antigos e primeiros colaboradores de FREUD chamado OTTO RANK, elaborou uma teoria que denominou “trauma do nascimento”. A própria condição biológica de como a criança vinha ao mundo já era por si só um fator do mais puro stress. Se sentir confinado remeteria a esta antiga imagem mnêmica, seguindo tal postulado. Embora não possamos desprezar tal tese, creio que a mesma é correta, mas se encontra de certa forma invertida do ponto de vista psicológico. Não é bem a imagem do nascimento que se agrega ao medo, mas seu correlato, a morte. O medo do confinamento representa a emissão simbólica de flashes acerca do destino inevitável da humanidade; achando que o sufocamento é seu elemento central, obviamente por uma associação biopsíquica ao elemento ar; prova disto é o antigo medo de ser enterrado vivo. Mas não é apenas a questão do confinamento ou ausência do elemento vital do ar que dão a dimensão do medo que estamos analisando. Pensemos no medo do elevador; seria um tanto simplista o associar também a morte ou sufocamento. A psicanálise também sempre fez relação deste distúrbio novamente com a questão da sexualidade. Simbolicamente estar diante de outras pessoas representaria uma falha narcísica, como se seu “pênis” ou atributo pessoal estivesse sendo testado ou comparado. Notem que por mais surrealista que possa parecer tal interpretação, não deixa de ser uma relativa verdade; prova disso é a fantasia sexual de efetuar relações sexuais dentro do elevador, que seria uma reação a tal medo citado. O que ficou de fora nessa análise toda é o elemento social da questão. O medo do elevador denota também uma personalidade tímida e refratária ao contato social; ou uma grande dificuldade de se sentir natural perante estranhos. A fobia social é o embate final sobre a aferição de sua mais profunda intimidade em relação ao meio. ADLER brilhantemente classificou determinadas fobias como a “fuga da situação de prova”, e como a pessoa se recusava a fazer qualquer tipo de teste, sairia “vitoriosa” no plano mental simplesmente pela não participação.

· Como fica a síndrome do pânico dentro do que foi citado até agora?
Pensemos num dos sintomas da referida moléstia-o medo de sair na rua. Qualquer psicólogo um pouco experiente já percebeu fazendo um levantamento pregresso da história do sujeito, que antes da afecção acometer o mesmo, sua personalidade era exatamente oposta; mostrava coragem, espírito empreendedor, liderança acima de tudo. Porém, em determinado momento começou a ocorrer o processo inverso. Isto é o que ADLER denominava como “arranjo psíquico”, um protesto mental contra as tarefas ou responsabilidades que o sujeito não desejava mais carregar. O desejo de sair, encontrar pessoas e tudo o mais ainda persistiria, só que agora a perspectiva mudava radicalmente; a doença seria uma forma prática de forçar o ambiente a lhe proporcionar todas as suas necessidades de modo que desaparecessem suas obrigações ou esforços pessoais. Não é muito mais simples e eficiente estar paralisado a espera de que alguém nos acuda ou venha em socorro dos nossos anseios? Não se trata de negar a doença, mas perceber sua mais profunda raiz na dimensão psíquica e sociológica. É uma tarefa das mais ingratas nos posicionarmos diariamente, sendo que quando descobrimos um atalho, vale de tudo, até suportar um sofrimento alto para evitarmos novos constrangimentos, embora contraditoriamente a doença traga talvez o pior de todos. A medicina e psiquiatria ostensivamente negam tal núcleo, em função da massificação e banalização dos medicamentos. O conforto da pílula pelo menos deveria acompanhar uma frase ou palavra do médico com o intuito de resgatar a potência perdida do sujeito.

· Será realmente importante discutir determinados medos de insetos ou animais?(baratas, ratos, cobras, como exemplos); não seriam estes um disfarce para encobrir questões mais amplas e difíceis para a personalidade? Sem nenhuma sombra de dúvida; embora tais medos citados remontem aos primórdios do ser humano quando ainda vivia em cavernas, e estava sujeito a ataques dos mais variados animais ou insetos, se tornando componentes atávicos ou até mesmo genéticos. Nos dias atuais tais fobias relacionadas dizem muito mais da fuga dos verdadeiros problemas do sujeito como foi citado, do que qualquer outra coisa. O que estou tentando dizer como centro deste texto é que a fobia não passa de uma denúncia ou instrumento que a pessoa utiliza para expor seu sofrimento de forma disfarçada, por vergonha ou temor de passar a mensagem direta. A fobia é a timidez de revelar a infelicidade de forma real e prática, o desgosto profundo de uma alma que sente que não têm apoio e consideração em relação ao meio.

· Medo da crítica; falar em público; comer (anorexia nervosa e bulimia); perder o emprego ou insegurança econômica. Todos eles são os reais medos sem nenhum atalho ou maquiagem. Notem que se observarmos atentamente, além do temor a crítica citada possuem a mesma base central; o lidar com a autoridade. Pensemos na insegurança de perder o emprego. O que aconteceu com essa pessoa no passado? Teve conflitos de trabalho ou com determinadas regras, temendo a repetição? Por que não poderia colocar suas habilidades em outro lugar? O receio da idade ou do preconceito do sistema vigente? Não é a mesma coisa da obsessão por um corpo perfeito, que dará a ilusão de ser apreciada ou desejada continuadamente; fugindo do mais terrível pesadelo que é a rejeição? O medo de falar não é a mesma coisa? Como estruturamos nossa relação com a autoridade seja real ou simbólica (um valor conferido pelo sistema), dará a dimensão de todo o nosso caráter: submisso ou passivo; desafiador; cooperativo, e por fim retraído. O ser humano procura obviamente sempre um patamar de segurança e estabilidade, detestando mudanças bruscas que o obriguem a nova labuta pelo recomeço do que julga serem suas necessidades. Mas então neste ponto não poderíamos falar tanto sobre o medo como centro da questão, e sim de como todos de tornam acomodados e indolentes para novos desafios. Descobrir que tipo de autoridade está internalizada no inconsciente da pessoa e de que forma sempre reagirá perante a mesma é tarefa profilática que o psicólogo deverá exercer.

· Ninguém pode contestar que a opinião alheia é quase que um deus absoluto em nossa era, e que milhões de pessoas permutam suas mais profundas convicções e talentos pessoais para se evadirem da crítica e agressividade do meio. Restam apenas alguns tipos que se tornaram até “excêntricos”, por não temerem a estrutura social. A própria psicologia durante décadas reforçou a terrível mentira de que o ideal da pessoa era estar bem com ela mesma; se esquecendo de que diariamente todos os esforços são para chamar a atenção de alguém para uma personalidade totalmente carente. A carência além de também ser temida, traz à tona sua irmã gêmea que é sem dúvida o maior medo de todos: a solidão.
· Qual o grau de solidão que sentiu no decorrer da vida e como lidou com o mesmo? A solidão além de nos mostrar de forma imediata à privação de nossas necessidades, agrega também o elemento da inveja, pois começamos a pensar que apenas nosso ser não conseguiu comungar daquilo que é vital ou prazeroso. Há uma base histórica familiar que originou tão dolorosa sensação de desamparo, devendo o psicólogo a refazer, sob o risco da pessoa nunca sentir confiança em seu íntimo. A gênese da solidão além da falta ou carência é um sentimento absoluto de derrota, fazendo com que a pessoa desesperadamente tente mostrar algo de si que seja valioso, para não ser riscada em absoluto do mapa das relações sociais. Tal esforço infelizmente acaba sendo em vão, pois sua sensação de inferioridade não permite que cative as pessoas ao seu redor. Pensemos nos atuais “ORKUTS”, “*”SITES DE NAMORO” e coisas do gênero. O sistema social além de criar toda a solidão consegue uma forma de lucrar com a mesma”. Em nossa era a expressão: “antes só do que mal acompanhado”, é pura escusa ou racionalização; os instrumentos virtuais de busca de parceiros citados provam o grau enorme de miserabilidade afetiva e social; num quadro destes é muito difícil discriminar quando a solidão seria até saudável para se fazer uma reflexão pessoal, sendo que a sensação de perda do potencial é muito mais forte, pela ausência de testemunhas sobre seu valor próprio; coisa que a solidão provoca.

· Como ficam os transtornos obsessivos-compulsivos(tocs)? Geralmente o tipo de transtorno e incidência remete a uma personalidade que passou por grave crise pessoal e tenta se recuperar. A obsessão está ligada diretamente a uma espécie de pensamento mágico ou superstição, numa forma simbólica de ritual ou proteção contra a repetição do evento traumático. O problema é que tal proteção acaba custando caríssima, pois produz uma constante escravização sobre imagens ou comportamentos cotidianos e rotineiros que absorvem a energia do sujeito. A tarefa do psicólogo é sistematizar minuciosamente o tipo de ato obsessivo e fazer junto ao paciente o levantamento em que situações o mesmo ocorre e sua significação. A pessoa deve perceber que o medo não deixa de ser um ato solitário; sua raiz e potência se reforçam no anonimato. O medo teme compartilhar sua essência, assim como o status ou dinheiro, segue a estrutura social vigente de egoísmo e apenas pensar e trabalhar por si mesmo. O medo sempre lembrará ao sujeito de que o mesmo é infeliz e não terá chance de superação de seu dilema, impossibilitando a catarse pessoal para uma vida plena. Uma terapia bem sucedida é a que despertou um mínimo de motivação e felicidade no paciente. Enfim, a grande arma do medo é a associação com a solidão, para não apenas isolar o indivíduo, mas, também subtrair seus recursos. Inteligência é a capacidade de pedir e agregar ajuda ao seu redor, sendo que ninguém necessitaria de status ou fama para tal finalidade. Se a história da psicologia provou que não temos nenhum poder sobre os processos inconscientes; que pelo menos possamos efetivar a potência da reação; isto representa a coletividade psíquica da humanidade. A caixa preta do sofrimento só será aberta quando traçarmos um caminho paralelo de criatividade e constante sabedoria perante nossos dilemas não resolvidos.
 

· BIBLIOGRAFIA:
ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. BUENOS AIRES: EDITORA PAIDÓS, 1912.

Créditos: Antônio Carlos Alves de Araújo – Psicólogo

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