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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Motivação Profissional e Afetiva

Que enorme desafio em nossa era, como manter a motivação e prazer numa sociedade onde tudo é totalmente descartável, incluindo os relacionamentos. Teríamos talvez de tomar de empréstimo o mecanismo do vício das drogas para continuarmos com o desejo perante nossos projetos? A verdade é que tanto a motivação quanto o prazer são regidos por complexos mecanismos conscientes e inconscientes. Emanam de uma força inata do indivíduo, mas, sistematicamente dependem ou se modificam através do reforço do meio e principalmente opinião alheia, o que pode ser útil ou desviante do sentido original do desejo. Jamais será possível uma pureza instintiva de tais elementos, mas uma mescla de diversos fenômenos: inveja, narcisismo, disputa de poder, autoestima. É árdua a tarefa de não afetar negativamente a si próprio ou o parceiro. Tanto a motivação quanto o prazer são artigos escassos em nosso tempo, o primeiro parece que só é acionado na competição e disputa, o segundo é sistematicamente confundido com acúmulo e posse.

Motivação e prazer é a fé incorruptível e fidedigna que tanto as religiões obrigaram historicamente de seus seguidores, e o ser humano não as colocou a serviço de seu ego sadio, explorando e desenvolvendo suas potencialidades, em suma religião significa a transferência de um projeto de prazer íntimo do indivíduo para uma construção política coletiva. É interessante também notar o valor que damos ao nosso potencial ou aptidão; seguindo o mesmo traçado parece que o cofre ou seguro só servem para as coisas materiais, sendo que os dois elementos citados que são pedras preciosas sempre são colocados do lado de fora da casa, a serviço de qualquer opinião ou ideologia. Se pensarmos nas pessoas com grande dose de complexo de inferioridade ou rebaixamento da autoestima, estaremos diante de uma patologia nova ou pouco explorada pela ciência da psicologia: cleptomania de si próprio ou do ego. Por um intenso sentimento de culpa tais pessoas sabotam periodicamente seu potencial ou capacidade. A coisa é tão séria que pode até se desdobrar numa espécie de dupla personalidade contra o sujeito. Claro é que tal instância não existe em sua natureza pura. Todas as camadas do psiquismo são capazes de desenvolver personagens para digerir conflitos recheados de intenso sofrimento.

O famoso falar sozinho do ego por conta de um grande sentimento de solidão, o general ou crítico severo que sempre nos derruba a serviço do superego, ou as fantasias sexuais e de agressividade do id. O que importa nisso tudo não é se tais eventos são normais ou não, mas o dano que causam em nossa percepção consciente e inconsciente. O que estou querendo dizer é de um fenômeno único, contra o próprio indivíduo, a criação de uma entidade paralela que sistematicamente sabota todos os seus esforços para uma vida dinâmica, de prazer, e poder pessoal, mas porque usei a palavra cleptomania? É mais do que perfeita, pois aquele interdito no meio social, furtar objetos ou a inveja intolerável, é totalmente canalizada para o interno, destruindo paulatinamente a estima do sujeito. Toda a cordialidade, moral, decência que mostra nas relações sociais, são apagadas no trato consigo mesmo, se tornando um carrasco contra qualquer sentido de potência. Não se trata do fato que simbolicamente o indivíduo reprime uma faceta meliante, mas uma solidariedade total com os rejeitados, fracassados e indolentes na esfera do prazer. São pessoas que foram treinadas para jamais poder enaltecer qualquer conquista ou realização, tudo tem de ser escondido ou encoberto a serviço da miséria alheia, e a obrigação de sentir na pele a mesma tristeza e comoção. Nosso tempo corrobora que a motivação ou prazer apenas é a loucura ou corrida pessoal desenfreada pela não exclusão e mitificação da opinião alheia, obrigatoriedade de perpetuar uma imagem o tempo todo. Temos de estar em forma; com a casa reformada; carro novo e coisas do tipo. Apenas não sabemos ao certo o porque de tanta agitação e muito menos que tais processos encobrem nosso terrível sentimento de solidão. O resultado é violência contra nossos mais profundos e reais desejos, há poucas décadas a violência era cooptada pela ideologia, hoje está totalmente pulverizada nessa imensa ansiedade e falta de sentido de vida.

Testemos nosso imaginário: se pudéssemos retornar ao passado para tentar salvar ou resgatar aquele momento mais intenso de prazer ou nos safarmos do trauma de nossas vidas o que realmente encontraríamos? Minha resposta é bastante clara e vou exemplificá-la com um sonho de um paciente: o mesmo sempre se queixou de sua família pouco afetiva e retraída em toda a esfera emocional, tinha apenas uma imagem de felicidade nesse setor na época da infância quando brincava com suas primas e sentia forte prazer nessa atividade. Poderíamos aqui incorrer numa análise psicanalítica falsa que diria de um desejo sexual que nunca foi satisfeito, e o ódio e mágoa resultantes. Para comprovar que tal tese é realmente falsa cito o sonho do paciente: “tinha voltado àquela época e reencontrei esses parentes que há muito não via; a coisa começou a ficar extremamente estranha; parecia que os mesmos sabiam de toda a minha vida posterior sem jamais terem contato comigo, começaram a fazer altas críticas ao meu comportamento seja com as mulheres, mas também do ponto de vista social, dizendo que eu era um total hipócrita e jamais iria merecer qualquer tipo de atenção; quando percebi estava a frente de diversos demônios zombando de todas as minhas fraquezas”. É exatamente essa a resposta, se pudéssemos retornar ao passado encontraríamos o mais seleto e implacável demônio contra nossa pessoa, mas por qual motivo? Claro que estou falando de um dos sentimentos humanos mais nefastos que é a saudade, pois diz acima de tudo de uma total incapacidade para se lidar com o desapego de algo que obviamente não deu certo. Tal sentimento cobra uma total putrefação de nossa realidade atual. Mas se devemos combater o apego como fica a questão do amor? Jamais é idolatria ou veneração para com o outro, pois ambos são posse disfarçada; o princípio do amor é mera gratidão pelo companheiro ter nos ajudado a colocar na prática nosso potencial, e mais nada. Apenas uma lembrança de um gozo por ter nos colocado no fluir da vida, assim como a natureza nos ensina que se não fosse à rotação terrestre seríamos esmagados pela força da gravidade. Resumindo a tese citada anteriormente, esse demônio ou inferno é a materialização de nosso mais terrível medo, a morte, que insistimos em negá-la todo dia de nossa vida, mas que cobra o preço de não sabermos o porquê viver; a herança fica toda com um único sentimento que é o medo.

O problema é que boa parte da humanidade procura o encontro com esse demônio citado que é a saudade. Na verdade o maior erro histórico do homem não foi à busca do paraíso celestial ou coisa do gênero, mas sempre acreditar que uma figura diabólica iria se redimir, nos custa muito perceber uma maldade contra nós mesmos, ou assumir que o outro no qual depositamos toda a nossa confiança padece de uma espécie de psicose que divide o sujeito justamente quando estaria prestes a se entregar profundamente digamos num relacionamento. A psicopatia raramente se encontra num estado puro de extrema violência, mas justamente diluída nessas atitudes, e parece que não conseguimos muitas vezes se desvencilhar desse tipo de pessoa. Retomando a questão motivacional, penso que a maioria dos seres humanos tem problemas muitos sérios com a mesma e o prazer. Alguns disfarçam a falta de real motivação com imensa ansiedade, querendo consumir, gastar dinheiro ou preencher o ego com excessivas atividades, outros espelham o mais puro desânimo, vivendo como aposentados no sentido negativo tanto no âmbito social quanto no afetivo. Como se envelhece cedo numa sociedade que contraditoriamente cobra juventude e beleza até o resto de nossa vida. Motivação e prazer representam uma das mais profundas regras do sentido da vida, o segundo é centelha, durando segundos ou minutos, pensemos na sede, fome, sexo. Claro que o ser humano desenvolveu as compulsões para protestar contra essa finitude do gozo. Motivação é justamente o trabalho árduo para atingir tal centelha, é o cansaço, obrigação e até mesmo rotina gratificante, sem o vírus do tédio, depressão ou tristeza. Porém quase sempre vivemos em dualidade profunda, rotina pelo lado negativo (tédio citado) e a busca pelo dia do juízo final que irá libertar todos os nossos pesares; seja ganhar dinheiro, conseguir beleza, poder ou um relacionamento maravilhoso. Qual o conceito mais íntimo e pessoal de cada um acerca do que é realmente a felicidade afora a busca por segurança? Lembremos do interdito do gozo da sexualidade que prevalecia até algumas décadas atrás, para onde foi canalizado? Respondo fielmente que se desviou na tremenda falta de diálogo e comunicação profunda principalmente entre os casais, sendo que o tabu hoje é conseguir arrumar um companheiro que seja profundamente amigo e toque nossas questões existenciais, e esse é um dos fatos mais lamentáveis de nossa era. A própria função da terapia de casal não é salvar o relacionamento, mas mostrar com todos os tons e cores como ambos se acostumaram a uma vida a dois de martírio e sofrimento, renegando aquela indignação benéfica que produz a mudança ou revolta contra tal quadro. Todos deveriam contestar o fato de que alguém que conseguiu um pouco de riqueza exterior revela realmente um caráter especial e interessante? Motivação é referência não pelo dinheiro, mas pela personalidade presente e companheira de nossos mais puros anseios.

Todos já perceberam que se motivam ao menos um pouco com seus talentos e aptidões. O fato é que tanto a capacidade para determinada tarefa quanto algum distúrbio mental se encerra em determinado nível, não mais se alastrando por toda a personalidade. Escolhemos de certa forma nossa neurose ou nos vangloriamos de determinada aptidão fruto de um processo de compensação oriundo da infância como dizia ALFRED ADLER, primeiro discípulo de FREUD e criador dos conceitos de complexo de inferioridade e superioridade. O mesmo acreditava que a personalidade e até a escolha profissional se dava aos cinco anos no máximo. Tentou provar isso com uma técnica que dizia respeito ao paciente reviver sua lembrança mais antiga, através da mesma provava como todos os elementos da vida atual do sujeito já estavam presentes naquela lembrança. Muitos filósofos da antiguidade inclusive PLATÃO, tinham a crença numa imagem primordial que moldava a vida do indivíduo, o mito das cavernas seria parecido com tal conceito. Embora tal técnica esteja um tanto ultrapassada, pois as lembranças podem ser ilusórias, ainda é efetiva no trato com o prazer e motivação pretéritos, que sempre acabam prejudicando a pessoa, pois a mesma abdica do presente. Cito a seguir a lembrança mais remota de um paciente de 35 anos, que foi a mais espantosa até hoje que presenciei acerca do exposto acima: “Estava na rua, vários garotos mais velhos brincando, passou um avião da esquadrilha da fumaça e escreveu algo no céu, como não sabia ler ainda, pedi que me dissessem o que estava escrito; disseram que a mensagem era que o mundo acabaria no ano dois mil, e pensei comigo que até lá estaria grande e não mais necessitaria dos cuidados de minha mãe“. O histórico do paciente era terrível: seu pai tinha desaparecido quando o mesmo tinha por volta de 11 anos, após uma tentativa de homicídio contra a mãe, foi criado apenas por esta, sendo que sua vida inteira quase que renegou esse imenso trauma. Teve relacionamentos instáveis, sendo que a análise era um profundo ódio do feminino, pelo mesmo ser o responsável pelo afastamento de seu pai. Não saber ler na lembrança já denotava seu complexo de inferioridade, lembrou também que mesmo sem estar na escola conseguiu na época fazer uma conta complicadíssima para uma criança de quanto tempo faltava para o ano dois mil; essa genialidade foi o prenúncio de seu futuro profissional de enorme sucesso e independência, o mecanismo compensatório citado acima. Todos os elementos de sua vida estavam presentes nessa mera lembrança (compensação, solidão e inferioridade).

Precisamos enfim perceber quais os elementos conscientes e inconscientes que regeram nossa visa e se isso nos trouxe tanto o progresso material quanto o emocional. Talvez descubramos que estamos à deriva no turbilhão da ambição e vaidade de nossa sociedade. Há décadas que somente se valoriza o que se pode vender ou ter lucro, sendo assim, amor e autoconhecimento são artigos de baixíssimo valor. Só nos resta o alerta da brutal solidão pessoal ou a dois para lembrar que se rejeitou parte importante de nossa essência e existência. Alguns pensarão que fiquei completamente alucinado dizendo que motivação e prazer são raros num mundo tão hedonista; porém essa satisfação que se busca freneticamente é fruto nem vou dizer da propaganda, mas, sobretudo da comparação e inveja citadas no decorrer deste estudo. Poucos sabem do que realmente precisam ou quais artigos melhorariam efetivamente sua qualidade de vida, esta deveria ser a lógica máxima do consumo, só que o mesmo adentrou totalmente o campo emocional, se tornando escapismo ou fuga dos diversos problemas de personalidade ou comportamental, sendo fato que há uma exploração econômica neste processo. Outro dia estava lendo sobre o recente fenômeno da anorexia nervosa nos homens, quando me deparei com uma propaganda de uma balança que mede a quantidade calórica de cada alimento, incrível exploração de fenômeno de nossa era. Todos poderiam citar diversos outros exemplos, como clínicas estéticas, para tratamento de impotência sexual, frigidez e tantos outros. Só ressalto que antes de tudo é função da pessoa decidir como pretende se tratar e de que maneira, sob o risco não apenas de ser ludibriada, mas ampliar o que já está doente. Motivação e prazer são espelhos de como e quanto nos conhecemos constantemente.A esperança é como que na arqueologia, resgatarmos algo para que pelo menos tenhamos entendimento sobre nossos impulsos e emoções.

Créditos: Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

1 comentários:

Moisés Nazareno disse...

Estou adorando a leitura, vou ler aos poucos para refletir....parabens