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sábado, 21 de agosto de 2010

Anorexia: O Santo Prazer da Inapetência

Nos anos que vão de 1200 a 1500, na Europa Medieval, muitas mulheres faziam prolongados jejuns e por conservarem-se vivas apesar do seu estado de inanição, eram tidas como santas ou milagrosas. O termo "anorexia santa" foi cunhada por Rudolph Bell que, valendo-se de uma moderna teoria psicológica que explicava o jejum, classificou-o como sintoma de anorexia.
Para chegar a uma posição espiritual mais elevada, conservarem-se distantes dos prazeres sexuais e comprometerem-se com Deus, a Idade Média forçou as mulheres a praticarem o jejum. O registro da manifestação da anorexia, no entanto, não teve início nessa época, mas foi, sem dúvida, um instante de capital importância no estudo dos possíveis paralelos entre as diversas culturas históricas.
Ha alguns séculos, a anorexia, como um comportamento humano padronizado e não muito raro, foi descrito de forma dramática na história da medicina. Somente em 1884, através de Lasegue e Gull teve sua patologia formulada de modo compreensível. Há menos de trezentos anos, em 1694, Richard Morton apresentou o sintoma como uma forma de consumpção nervosa causada por ansiedade e tristeza. Também a anorexia mostrava-se como uma parte de um complexo sintomatológico maior e não era só ligado às mulheres.
Morton relata o caso de uma jovem de 18 anos, que sofrendo de resfriamento do corpo, completa supressão da menstruação e dada a desmaios frequentes, lembrava um "esqueleto com pele', cuja magreza nada tinha a ver com tosse, febre ou problemas respiratórios.
A doença, na ausência de estudos e pesquisas complementares, atravessou um largo período sem apresentar descobertas relevantes. Por volta de 1890, a questão mostrou-se bem próxima ao quadro atual, embora Laségue e Gull nada afirmassem quanto ao desejo manifesto de emagrecer como uma exigência de um padrão estético. Nos dias de hoje, dá-se destaque muito maior à manifestação desse desejo.
Raimbault e Eliacheff, duas psicanalistas francesas, afirmaram que não é somente das anoréxicas mas de uma grande maioria das mulheres que admiram-nas por levarem tão a sério a vontade de emagrecer.
A paciente anoréxica diferencia-se da mulher atual pelo exagerado controle das necessidade alimentares e a flagelação imposta a si mesma decorrente da recusa em ingerir comida. Reconhece-se, obviamente, a questão cultural da influência de um padrão estético valorizado socialmente, por isso está longe de explicar a anorexia nervosa. Raimbaut e Eliacheff declaram: "As anoréxicas utilizam os valores que elas mesmas dispõem em determinados momentos da história e, esses valores são os valores dominantes da sociedade em que vivem. "Dentro de uma perspectiva social diferentes objetivos e raciocínios para o controle: O Catolicismo dos séculos XII ao XVII e a era pós-industrial. Flandrin e Montanari concluem que, até o final do século XIX, as mulheres, mesmo trabalhando arduamente, consumiam menos alimentos que os homens. Esta situação parece perdurar até o século XX.
Ao fazer-se o histórico das formulações referentes à anorexia, é necessário percorrer a parte da história, que vai da Idade Média até os dias atuais, paralelamente à história da Psiquiatria. Esta última acompanha a manifestação anoréxica, separando-a de seitas religiosas, elaborando amplos estudos dos sintomas através da fisiologia das pacientes, determinando o funcionamento psiquico e retornando, de novo, ao organicismo.
Nos anos que vão de 1200 a 1500, na Europa Medieval, muitas mulheres faziam prolongados jejuns e por conservarem-se vivas apesar do seu estado de inanição, eram tidas como santas ou milagrosas. O termo "anorexia santa" foi cunhada por Rudolph Bell que, valendo-se de uma moderna teoria psicológica que explicava o jejum, classificou-o como sintoma de anorexia. Muitas mulheres consideradas santas como Catarina de Siena e Margareth de Cortuna tinham padrões de comportamennto anoréxico que se assemelhavam a anorexia nervosa.
Bell afirma que existe um que atravessou os tempos e as mudanças sociais. Para ele, a anorexia santa e a nervosa faziam parte da imensa procura pela liberação da mulher nas sociedades predominantemente masculinas.
Uma pesquisadora da época medieval, Caroline Bynum, diz que Bell cometeu um erro ao considerar apenas um aspecto da vida das "santas'. O meio de expressar ideais religiosos funcionava através da prática alimentar. No jejum medieval, simbolizava os valores do povo, de elevação espiritual. A anoréxica moderna retrata o individualismo de nossa época, expressando-se num padrão estético socialmente aceito. Se um é ligado a devoção e crença religiosa, o outro é ligado a uma procura de perfeição de ideais físicos e não traz nenhum anseio espiritual. Nesse sentido, a ênfase de Caroline Byrum é maior do que a necessária à influência cultural. A psiquiatra busca, nas mais variadas manifestações do sintoma, as razões destas mulheres procurarem ideais, independente da época em que viviam e que exigiam um rígido controle de algo inerente a manutenção da vida e que faz do corpo um campo de indizíveis tormentos.
As "doenças da alma" são interesses que o Renascimento traz à tona. Espíritos conturbados, embora atrelados a uma visão religiosa, começam a ganhar conotações científicas. Forças de naturezas inexplicáveis que agem no organismo humano são vistas como emanações do demônio, afirma Etienne Trillat em História da Histeria (Editora Escuta, 1991). Os jejuns prolongados tornam as mulheres vítimas de possessões diabólicas. A renúncia ao ato de comer, que na Idade Média era forma de devoção, transforma-se em manifestação herética ou insana. A incipiente medicina renascentista, ainda assim interessou-se pela sobrevivência das mulheres dentro de um quadro de completa inaníção, buscando uma explicação científica. Mas, muítas vezes, constatou-se fraudes e grosseiros simulacros.
Nos princípios do século XIX, Ann Moore teve seus dias de glória através da sua inapetência. Ela tinha sido abandonada pelo marido e, trabalhando como doméstica, foi seduzida pelo patrão, tendo dois filhos desta união. Apesar da sua conduta moral ser condenável, à época, Ann conquistou a simpatia da população quando foi cuidar de um homem com chagas na pele. Sua falta de apetite teve início, então, no momento em que ao comer algo, sentiu o repugnante odor exalado pelo doente. Sua repulsa à comida tornou-se crônico. Mas sua simpatia e comportamento irrepreensivel cresceram aos olhos de todos.
Recebeu os ensinamentos bíblicos e articulando-os às suas idéias espirituais, passou a ter uma imagem de uma beata. Pessoas de todos os lugares vinham conhecê-la. Visitas a seu leito foram comercializadas. Ann Moore despertou tanta comoção nessa época que alguns incrédulos resolveram investigá-la. Descobriram que hidratava-se com um lenço umedecido com água e vinagre e recebia pedaços de alimento através dos beijos de sua filha. A fraude foi revelada, representando o fim da anorexia santa, que durou seis longos anos de abstinência. Mas o mistério da sobrevivência de Ann permanece: como conseguiu viver com tão pouca quantidade de alimentos?
Laségue e Gull, em 1884, descrevem o ocorrido, mas são as teses do primeiro que contém uma atualidade incontestável em sua proposta terapêutica.
A nosografla psiquiátrica denomina neurose para designar uma série de afecções do sistema nervoso com sede orgânica definida (como neurose digestiva, neurose cardíaca, etc.), afecções funcionais sem inflamação ou lesão da estrutura, que são os casos de histeria e hipocondria ou doenças do sistema nervoso. O conceito de neurose do século XIX está muito próxima às noções atuais de psicossomática, dizem Laplanche e Pontalis em seu vocabulário de Psicanálise. (Martins Fontes, 1985).
Laségue é um dos precursores da Psiquiatria. Conseguiu êxito profissional sendo representante de Estado e da psiquiatria e expert em medicina legal, que defendia o fim das responsabilidades civis aos portadores de desequilíbrios mentais. É nesssa época que a ascensão do método de asilamento nos manicômios encontra total apoio das entidades governamentais. O psiquiatra não oferecia a cura, mas tão somente um certificado de Estado para o asilo do enfermo. O médico do manicômio tinha regras definidas: Autoridade, Ordem e Castigo.
O reconhecimento profissional é pouco para Laségue e seu interesse volta-se para a medicina somática, onde obtém novo sucesso. Em 1869, é nomeado catedrático da Clínica Médica em Pitié, posto que ocupará até 1883, ano de sua morte. Durante essa época, faz imensas pesquisas da sintomatologia, a que denominou como anorexia histérica, sob ressalvas. Considerava o termo inanição histérica por determinar melhor a doença, mais delicada como também mais médica", em seu dizer. Nos estudos mais recentes, conclui-se que a anoréxica não sofre da falta de apetite, mas busca um controle da fome.
Laségue propõe uma forma de tratamento que leva em conta a relação da paciente, seu sintoma e a família. Para isso, abandona o poder e a autoridade médica para ir conquistando aos poucos a confiança de suas pacientes. A crença era de que essa não era uma enfermidade fatal e a cura poderia vir com o passsar do tempo. Ele considerava a anorexia uma das formas de apresentação da histeria. Diferenciava os níveis de intensidade na sintomatologia, que iriam de uma repulsa por determinada comida até a abstenção total de comer.
Etienne Trillat escreve, em 1991, que "o problema da histeria, na época, era de distingui-la da epilepsia, da neurastenia (neurose de manifestação somática) e da simulação (a histeria representa sem saber, porque acredita na realidade das situações)."
É preciso considerar que, àquele tempo, a Psiquiatria não dispunha das ferramentas teóricas desenvolvidas por Freud, como a noção de inconsciente, fantasia, recalcamento, conflito defensivo, etc. Laségue vê nas anoréxicas uma obstinação em alcançar um propósito, em comparação as suas pacientes acometidas de doenças gástricas.
A anoréxica, por sua vez, vai mais além: "elabora uma hipótese teórica desenvolvida com uma lógica irrefutável, até suas conseqüências mais extremas", observa ele.
A anoréxica moderna retrata o individualismo de nossa época, expressando-se
num padrão estético socialmente aceito. Se um é ligado a devoção e crença
religiosa, o outro é ligado a uma procura de perfeição de ideais físicos e não traz
nenhum anseio espiritual.
Observa uma perversão do sistema nervoso central, que, no sentido moral, está associada a uma escolha consciente entre passar por enferma ou por caprichosa. A histérica opta pela primeira alternativa e parece gozar de um contentamennto patológico. A anoréxica, por sua vez, vai mais além: "elabora uma hipótese teórica desenvolvida com uma lógica irrefutável, até suas connseqüências mais extremas", observa ele "Este pode ser o ponto de partida de um delírio. Não se espantem ao ver-me, ao contrário de nossos hábitos, estabelecer um paralelo constante entre o estado mórbido da histeria e as preocupações de seus próximos. Ambos os termos são solidários e obter-se-ia uma noção errônea da doença ao limitarmos o exame à doente O meio em que vive a paciente exerce uma inftuência que seria igualmente lamentável ignorar ou desconhecer", escreve.
Entre 1914 a 1937, a anorexia foi tratada como uma enfermidade endócrina. Um número razoável de psicanalistas pesquisam os mecanismos intrínsecos da enfermidade e a pesquisa orgânica sai vitoriosa.
A investigação toma novos rumos, em 1965. As perturbações corporais ganham destaque. É na imagem física que está o conflito e não mais nas funções alimentares. Através do sintoma, a anorexia mostra sua incapacidade de assumir transformações próprias da adolescência. Hilde Bruch ganha a admiração dos analistas. Sua finalidade terapêutiica é a aquisição, por parte dos pacientes, de "suas próprias capacidades, seus recursos, suas atitudes interiores para pensar, julgar e sentir." Ela propõe uma terapêutica condutivista, levando em conta o processo do sujeito.
Nos princípios dos anos 80, a convergência dos vários campos de estudos para englobar os inúmeros fatores predisponentes (de ordem individual ou familiar), de elementos desencadeantes e de fatores perpetuantes.
Atualmente, o desenvolvimennto de uma linha de pesquisa para medir a eficiência dos modelos psicoterápicos é o grande desafio que a ciência enfrenta. Trabalhanndo com parâmetros objetivos na análise dos dados como melhora dos sintomas, ganho de peso, etc., médicos e psiquiatras têm obtido algum sucesso. Mas a eficácia a longo prazo ainda é duvidosa.
A enfermidade está relacionada a problemas sociais, morais e científicos de cada época em que se manifesta. Conseqüentemente, as mulheres acometidas deste mal parecem-se com heroínas, santas ou pacientes, em seu devido tempo. Elas montam um cenário trágico, pondo em evidência as suas próprias vidas.

Fonte: Soraia Bento Gorgati ("Corpos Desencarnados - Um histórico da anorexia") - Revista Intrigante

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