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terça-feira, 6 de julho de 2010

Ambição na Ótica da Psicologia

A primeira questão que se coloca ao fazermos uma análise da ambição é se realmente determinada vontade ou desejo emana de nossa alma ou simplesmente é fruto de uma inveja disfarçada de crescimento ou comparação com outra pessoa. É realmente um sonho como uma planta que foi cultivada desde os primórdios de sua existência, ou nosso desejo é apenas despertado ou motivado quando nos deparamos com certo acúmulo de bens ou sucesso e destaque de nosso meio circundante. Certamente a instituição se é assim que podemos chamá-la mais corrompida da face da terra é o desejo, sua verdadeira natureza ou finalidade. Vemos o oposto, imitação e fuga frenética ao se sentir inferiorizado perante o próximo. O curioso é que a sociedade repreende os dois opostos: os que têm muita e pouca ambição. A explicação para tal fenômeno é que ambos os tipos espelham valores negados por quase todos, inveja novamente e complexo de inferioridade. O ambicioso declarado ameaça o outro que não conseguiu efetuar determinada tarefa, e o indivíduo modesto reflete o ódio naquela pessoa que se sente indolente para sair do ponto onde se encontra em diferentes esferas da vida.
A verdade é que a leitura na nossa realidade atual não é muito difícil, sendo o ponto central a descoberta pessoal sobre como gastamos nossas energias ou prioridades, tais fatos irão determinar o destino de nossa saúde emocional e mental. Se nos dedicamos unicamente ao trabalho e dinheiro fica nítido o entrave ou bloqueio emocional histórico que desenvolvemos para tentar alcançar um suposto desejo de segurança que jamais poderá ser preenchido. Uma questão importante para ser pensada é em que ponto a ambição é saudável, pensando não apenas no respeito ao próximo, mas também na ética. Posso dizer sobre o lado mais obscuro da ambição, quando se agrega ao patamar afetivo, na disputa de poder entre um casal, por exemplo, fenômeno contemporâneo e totalmente disseminado na maioria dos relacionamentos. A imagem outrora passiva de um dos cônjuges deu lugar a uma arena de combate onde o gozo é a supremacia afetiva e até econômica sobre o parceiro, e todos sabem disso. O problema é que tal fato anula por completo a essência de um relacionamento, quebrando elementos vitais como: cooperação, solidariedade e altruísmo. Como o amor pode se encaixar na competição ou ambição? Não há hipótese alguma de inclusão de tais elementos, pois todos são opostos ou excludentes por natureza.
Ambição positiva é aquela que agrega prazer verdadeiro emanado da alma do indivíduo com elevação de sua autoestima, deixando de lado a comparação e influência da inveja citada. A ambição deve ser uma espécie de meditação pessoal das reais necessidades de crescimento e desenvolvimento de um ser humano, este é o único ponto onde certa solidão pessoal se torna benéfica, estimulando uma reflexão no sujeito sobre o que realmente lhe falta, nunca o oposto, “porque não tenho o que meu semelhante conquistou”. Obviamente o bombardeio da sociedade para o consumismo bloqueia por completo tal finalidade primordial. Por outro lado, para ser bastante honesto também são extremamente neuróticos aqueles indivíduos com um caráter retentivo, que se eximem de qualquer investimento maior, ou que se recusam a fazer parte de certo consumismo tolerável e saudável. Negam a se utilizarem de seu potencial com a finalidade última de não encarnarem a figura do provedor ou líder, ratificando um ódio histórico contra a figura do sexo oposto, companheiro ou os próprios genitores. Jamais darão por acharem que não receberam o bastante.
Nunca podemos deixar de relacionar a ambição com o famoso dueto (complexo de inferioridade e superioridade), estes fenômenos alimentam ou retiram a energia quase que por completa no processo da ambição. Aprofundando um pouco, pensemos porque a ambição é quase que totalmente dirigida para o âmbito material? Porque a maioria dos seres humanos não ambiciona o desenvolvimento emocional? A resposta é simples, muito mais poderoso do que o suposto fenômeno do amor, é o medo absoluto da rejeição, exclusão ou comparação com o outro; tal contenda supera qualquer meta ou alicerce no plano afetivo. Não é apenas algo biológico que instiga a competição, algo como nos homens a preocupação com o tamanho do pênis, mas a necessidade de introjetar a sociologia do cotidiano no psiquismo individual (meu pênis tem de ser maior, tenho que possuir um carro mais potente ou avançado, um físico ou corpo mais privilegiado e coisas do tipo). Desde cedo sofremos o bullyng (ser alvo de chacotas, críticas e gozações) seja da família ou da sociedade. Não há praticamente mais possibilidade de cura para o materialismo imputado no psiquismo humano. Quando ouço a célebre frase do famoso psicólogo ERICH FROMM: “TER OU SER”, noto que infelizmente se tornou terrivelmente obsoleta. Os valores econômicos se agregaram por completo ao medo inato da morte que o ser humano carrega, sendo o consolo morrer ou envelhecer de forma confortável. 

Por um breve período na adolescência cultivamos o desapego e rebeldia, mas em pouco tempo nos tornamos ultraconservadores na arte do acúmulo de bens e falta de sensibilidade principalmente para com os mais próximos. Se não há a cura citada, obviamente só resta remediar, que o gasto ou esforço esteja associado ao prazer pessoal e que o mesmo sempre seja compartilhado com alguém, quem não atingir tal meta certamente será retraído, tímido e amplamente infeliz. A ambição se torna mais do que neurótica quando é usada como uma fuga do complexo de inferioridade que associei no início do texto. (compro um carro luxuoso apenas para me sentir incluso num valor que nem é de minha pessoa, e, por conseguinte quase nunca o aproveito por receio de danificá-lo, ou qualquer outro objeto material do qual não consigo fazer um uso contínuo e equilibrado). Uma das maiores parcelas da neurose humana sem sombra de dúvida estacionou nos quesitos da ambição e dinheiro. Assistimos contrastes incríveis entre o gastador compulsivo ou aquele que não gasta nada por receio da perda ou incapacidade para gerir suas necessidades de crescimento e desenvolvimento. O resumo é o mais puro medo, pois parece que só lidamos com o dinheiro em situações extremas, na privação, e então advém o desespero, ou em algo peculiar da personalidade do indivíduo que já foi citado, seu caráter retentivo como modelo de segurança. Poucos refletem sobre quais são os verdadeiros sentimentos que a ambição nos obriga a lidar.
Sem sombra de dúvida um dos mais fortes apesar do contraste de egoísmo da sociedade é o sentimento de culpa. Mesmo com toda a insensibilidade no mercado econômico e social esta vence de longe no âmbito psíquico. Seria uma espécie de vingança contra o ser humano por ter se desviado de um caminho natural de bondade e solidariedade, embora haja na mesma essência psíquica a destrutividade e competição. Mais interessante ainda é como as religiões no decorrer da história não exploraram tal dilema que se coloca, alimentado apenas uma culpa do juízo final ou punição em outro plano de existência. Neste ponto coloco outro conceito. Sem tocar na metafísica, até porque a humanidade ainda não fez seu dever básico (eliminação das desigualdades ou até a tão discutida proteção do próprio planeta), o surgimento de todas as religiões sem querer discutir o conceito de deus, se baseia no fenômeno citado anteriormente, ou seja, que a psique mantém um núcleo extremamente conservador de regras perante o sujeito e seus semelhantes, embora as relações econômicas acabem por desviar tal propósito, então a culpa passa a ser um dos últimos protestos ou suspiros para relembrar a humanidade perdida, embora isso ocorra de forma distorcida e trazendo extrema neurose para a pessoa. Já há toda uma espécie de bíblia em nosso inconsciente e poucos captam sua leitura. É terrivelmente perturbador em nossa era o fato dos relacionamentos necessitarem do vigor econômico para sobreviverem. Como mecanismo de defesa se cunhou a célebre frase que “um amor de cabana não sobrevive”, o fato é que ninguém admite que a total falta de inteligência emocional de nossa época produz esse quadro, tomando emprestado o modelo de uma empresa para o casamento ou relações afetivas. Claro que todos têm necessidades econômicas, principalmente um casal, mas não podemos sobrepor modelos pessoais pelos econômicos, bem, as conseqüências são visíveis para todos. Estudaram-se tanto a história da sexualidade, beleza, artes, sendo que está faltando um estudo mais profundo acerca de como historicamente o ser humano compensou sua infelicidade pessoal, pois hoje a mesma se canalizou para o efêmero do materialismo.
O problema psicológico sempre passa por uma combinação de sentimentos. A ambição é louvável como estou discorrendo no texto como necessidade pessoal ou de desenvolvimento do indivíduo. É nociva como compensação do já explicado complexo de inferioridade; o exibicionismo é com certeza a maior armadilha de tudo que já foi colocado anteriormente, pois seus descendentes são a frustração e revolta, e caso obtenhamos algum êxito neste processo compensatório, teremos de lidar com a solidão por apenas nós termos trilhado um caminho de êxito ou sucesso. Os pecados capitais da ambição são: narcisismo, prepotência associada ao desejo de superioridade econômica ou social, não conhecer suas verdadeiras necessidades pessoais perante um mundo repleto de inveja e comparação. Outro ponto positivo da ambição é quando a pessoa investe de corpo e alma num patamar de crescimento sem culpa ou solidariedade para com os neuróticos ou desafortunados de seu meio de convivência, isto não significa em hipótese alguma egoísmo, mas lutar pelo seu direito inalienável de satisfação ou felicidade caso possua as ferramentas adequadas para tal propósito. Um tipo psicológico interessante que faz uma contrapartida ao aspecto da ambição no âmbito do narcisismo é aquele indivíduo que precisa dos bens materiais não para o exibicionismo, mas justamente o contrário, fugir a todo tempo do contato social e afetivo. É aquela pessoa que galgou todo tipo de carência e ausência de estímulo de seus semelhantes, então nada mais o toca a não ser ter pleno controle num âmbito onde não há reação, justamente no plano material, nenhum dos sabores humanos adoça mais seu paladar. Retomando a ambição, temos de nos perguntar quanto tempo alguém consegue se enamorar com uma nova conquista material? Diria horas, dias ou um mês no máximo. Por outro lado, instinto, sexualidade, hábitos ou vícios, são quase que eternamente explorados pelo psiquismo humano, estas comparações deveriam ser amplo objeto de estudo pela psicologia e neurociências. Por que não enjoamos de determinado instinto e somos tão descartáveis em outras áreas? A resposta explica novamente a dificuldade de se explorar a ambição positiva, pois a vulnerabilidade do desejo faz com que nunca se alcance a satisfação, este é o fenômeno da carência, elemento exemplarmente manipulado pela mídia e economia. Procura-se desesperadamente ser o foco da atenção nessa sociedade absolutamente insensível, e se paga todo o preço de dívidas para se obter tal propósito, a loucura de pertencer a qualquer custo. 

A verdade é que a solidão é o melhor baú ou recipiente para se estocar qualquer ato de consumismo que sabíamos de antemão ser supérfluo ou desnecessário. Viciamos-nos bem cedo no uso do dinheiro como compensação das inferioridades no campo pessoal e emocional. Dinheiro como todos sabem não traz felicidade, mas sempre será à saída de emergência para a situação desesperadora de infelicidade e vazio existencial. A ambição se iguala ao complexo problema da vida, digo tal coisa porque jamais podemos pensar em fartura na questão felicidade, embora o ser humano sempre ambicionasse tal coisa. A verdade é que esta é o mínimo que obtemos durante nossa trajetória de vida, e todos já perceberam que foram momentos mínimos, não caberiam em uma hora de um filme produzido sobre nossa história. A ilusão da ambição material é justamente a antítese de nosso problema pessoal, que diz de uma convivência com escassos recursos ou miserabilidade no âmbito interpessoal e afetivo. A vida é uma trágica equação de desperdício, enorme dispêndio de energia e esforço, para lembranças remotas de prazer e real gozo. O sistema econômico muito espertamente importou todo o modelo instintivo do ser humano: disputa territorial, medo da fome, privação e morte. A solução ou transcendência não é um ingênuo apelo à paz, mas, sobretudo ao desenvolvimento da alma humana, que deve superar o terrível problema do medo. Este último é o pilar máximo da ambição destrutiva. A dita paz só poderá ser alcançada quando o medo não for mais o rei do cotidiano de nossas ações. Enfim, a neurose como descrevi em outros estudos se instala definitivamente quando não conseguimos mais tirar o maior proveito de nossos recursos e aptidões, então fechamos com o mundo dos fracos, desamparados e reprimidos, incorporando uma religião ou complexo de expiação contra nosso próprio bem estar, elegendo a culpa como o timão de nossa existência.
Concluindo, seja a ambição, dinheiro ou poder parece que tais elementos não produzem o estado de alegria necessário para uma motivação diária, sendo meros subterfúgios para uma satisfação que sempre ficou apenas em nosso imaginário. Jamais nos ensinaram ou então tivemos a garra de descobrir uma equação que nos levasse à plenitude, sendo que o problema é basicamente educacional; o treinamento sempre foi visando à adaptação, nunca para contemplar a maravilha do valor pessoal. Confessemos que jamais fomos estimulados para o amor próprio. Em suma, o problema básico da ambição é que ninguém está preparado para as demandas que aparecem como conseqüência; sejam na área estética, dinheiro, poder ou aceitação pelo grupo; é um grande fardo gerir o que achávamos que seria um sonho. 

Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

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