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domingo, 6 de junho de 2010

Paranóia e Ciúme Exagerado

Até a pessoa mais leiga já percebeu que uma das maiores fontes de sofrimento psicológico é a desconfiança perante determinada situação ou pessoa. Seu ápice seria o transtorno mental conhecido como paranóia-a invasão da mente por idéias e pensamentos torturantes; ou ainda delirantes sobre perseguição e ameaça contra a própria pessoa. Este estudo irá se deter essencialmente nos aspectos psíquicos da paranóia, deixando de lado os elementos psiquiátricos da mesma, como por exemplo: etiologia dos delírios paranóicos e estados alucinógenos.

A paranóia é o retorno absoluto de todo o potencial de vingança e ódio que se volta contra o sujeito em questão. Determinado trauma possui a capacidade de subdivisão para pequenas vivências de desprazer ou medo que adquirem extrema importância na mente de uma pessoa. A trajetória da paranóia é o deslocamento do centro para a periferia, fazendo com que esta última tome o lugar absoluto das preocupações do indivíduo. A síntese deste processo é a perda da saúde mental para detalhes que o sujeito não consegue se desvencilhar. Perceber a estreita ligação com o medo é essencial para compreendermos tal moléstia. Inicialmente houve uma experiência negativa, frustrante ou de terror sobre o sujeito. Toda a leitura mental presente e futura se baseará na espera de nova catástrofe em todas as áreas: morte; doença; exclusão ou loucura; pois o paranóico cultua inexoravelmente à volta da perturbação. Uma das conseqüências é o desenvolvimento de um espírito vingativo e bélico a qualquer nova aproximação social ou afetiva. O paranóico desenvolveu um tipo de orgulho e rigidez perante uma perda; antecipar constantemente um medo nada mais é do que o inconformismo sobre uma passagem pretérita.

A paranóia inicialmente é uma defesa contra a inveja. Pensemos naquele tipo clássico presente nas escolas, que alarde para todos que foi muito mal na prova; sendo que mais tarde se descobre que foi o mais bem sucedido. O problema neste exemplo é o cultivo do pessimismo e a constante antecipação de um evento negativo; que mais tarde causarão a impregnação da mente pelo medo, seja real ou não. Claro que o exemplo citado não levará a uma futura paranóia, mas apenas como um pedaço minúsculo de como se começa algo. A "falsa modéstia" é uma tentativa perigosa de anular as potencialidades de determinado indivíduo, para que se sinta pertencente a uma massa homogênea que nunca o critique. Qualquer perturbação que atingiu a mente teve um histórico de cultivo, paralelo às experiências que o sujeito não conseguiu elaborar, como descrito anteriormente. O grande dilema de todas as escolas psicológicas é se conseguem ou não refazer por completo a história psíquica e afetiva da pessoa.

FREUD em seu famoso estudo do caso * "Schreber", concluiu que a paranóia seria a negação e transformação de um desejo homossexual para uma idéia persecutória. Fez também uma relação com o ciúme, onde apontou que uma pessoa presa deste sentimento, apenas projeta ou transfere para o outro seu próprio desejo de traição. Embora a etiologia do ciúme tenha os elementos projetivos elucidados por FREUD, é estranho que o mesmo tenha feito uma associação direta entre paranóia e homossexualismo. Esta fusão seguindo a experiência clínica, apenas acontece em casos extremos de negação do desejo homossexual ou bissexual. ALFRED ADLER dizia que a paranóia estava associada diretamente com o complexo de inferioridade que martirizava o paciente. O fato de se sentir perseguido constantemente seria uma alternativa mental para se julgar importante perante a sociedade; "afinal todos estavam contra ele". Embora tal análise pareça simplista, ADLER acertou quando disse que a paranóia teria a função de preencher alguma coisa. A falência da palavra, da crença ou da razão, nos conduzem para tal percepção. Determinado pensamento negativo irá se instalar quando ocorre um desvirtuamento da sensibilidade. Se o cotidiano tem a função de massificar ou banalizar toda a vida do ser humano, algo terá que restar para ter a função de sensibilizar a pessoa, mesmo que seja no caminho da extrema dor. Se alguém como dizia ADLER passa sua vida almejando o poder e destaque; paralelamente se sentirá depositário das experiências mais dolorosas do meio psíquico e social; pois ao mesmo tempo em que a sociedade reforça a ambição, instala também a culpa por alguém desejar se sobrepor.

Cito como exemplo um sonho de um indivíduo que sofria de paranóia: "Sonhei que estava na minha casa; estava diferente, maior e mais luxuosa; ouvi barulhos como se fossem assaltantes querendo a invadir; notei que a casa tinha vazamentos em quase todos os cômodos; Além disso, na porta de entrada notei um inseto totalmente diferente, que se transformava em algo terrivelmente ameaçador". É incrível a análise desta manifestação onírica. Note-se que o sujeito sonhou com uma casa mais valiosa do que possuía; não tardou para os elementos de culpa e desconfiança invadirem sua mente. Tudo sinalava para um desfecho negativo; problemas estruturais na casa, ameaça de invasão, e insetos se transformando em monstros. Isto demonstra que não irá demorar a pessoa ser aniquilada. A paranóia amplifica a insegurança da perda, jamais permitindo que o sentimento de posse, acompanhado da certeza de sua ética tranqüilize o indivíduo. Clinicamente pacientes paranóicos sofrem de insônia e pesadelos corriqueiramente.

A paranóia espelha nosso dever inconscientemente instalado de desconfiar ou odiar sempre. Ser perseguido apenas é o cume mental de uma cultura política e social que apregoa que jamais teremos amigos ou reais companheiros, mas meros colegas que almejam tomar nosso lugar. A paranóia também não admite nenhum tipo de otimismo, sendo sua função a eterna vigilância perante um provável dano. É impressionante como a medicina e alguns setores da psicologia omitiram no decorrer do tempo a estreita ligação entre paranóia e distúrbios psicosomáticos. Estes, na maioria das vezes não possuem nenhuma causa física, estando associados a uma espécie de intuição da pessoa contra futuras perdas. Observei durante minha experiência clínica diversos casos onde o papel do sintoma é um alerta do corpo perante o apego do paciente e seu caráter gregário, não admitindo nenhuma mudança ou desfecho de perda. O sintoma, nestes casos é a antecipação daquilo que a pessoa teme, mas, que talvez devesse encarar a fundo. Poderia relatar como exemplo, uma dezena de casos de casais na iminência da separação, sendo que os conflitos se transformaram em distúrbios neuro vegetativos, ou em determinados tiques nervosos, que tem como função: revelar o medo perante a intuição da resolução da crise através da perda, como foi observado, causando a distração de determinada situação insolúvel, transferindo para o corpo uma idéia intolerável ou inaceitável, na tentativa de se ganhar tempo sobre um sofrimento que o indivíduo não consegue elaborar. A hipocondria também possui uma estreita ligação com a paranóia; sendo que a pessoa sente que seu corpo é mais do que vulnerável a todo tipo de doenças.

O poder sempre explorou cruelmente a questão da persecutoriedade. Alguém que foi vítima de tortura, ou perseguição política feroz, quebrou a barreira da paranóia enquanto fantasia para se transformar em realidade. Como dizia FREUD na questão sexual, fazendo um paralelo com a paranóia: "uma coisa é o caráter fantasioso do incesto, sendo que determinado indivíduo que foi vítima real do mesmo, não escapará de uma grave neurose". A partir do momento que a desconfiança se torna absoluta realidade, se destrói toda a base egóica de poder pessoal e principalmente da saúde mental da pessoa. Contestar algo é uma rebelião contra imagens arcaicas paternas e maternas*, embora não possamos jamais deixar de crer, que alguém genuinamente deseje melhorar as coisas. A contestação inevitavelmente traz a perseguição e muitas vezes a culpa. A sociedade sabe explorar determinadas fraquezas inconscientes de quem a desafia. A política é uma tentativa adulta (fase genital)*, de ser aceito socialmente e com poder, compensando a carência de reconhecimento perante antigas imagens familiares ou sociais. Como observei acima, não se trata de desacreditar na intenção social de quem quer que seja, mas, apenas aclarar que a política esconde os anseios mais gananciosos e de poder que o ser humano possui, camuflando neuroses e complexos de toda espécie. A paranóia é o transtorno mental mais "politizado" de todos, pois além de sua arena ser um jogo social, o poder dirigido contra a própria pessoa sempre será a tônica.

A paranóia inverte a polaridade das sensações perante determinados acontecimentos; o inesperado ou raro se torna o cotidiano na mente do sujeito, podendo se tornar o imediato. Uma mente onde a catástrofe está presente o tempo todo irá deturpar por completo todo o tipo de relacionamento. O pessimismo ou antecipação constante da perda é também essencialmente a projeção ou retorno mental de uma conduta individualista ou egoísta que o sujeito nutriu no decorrer de sua história de vida. A idéia delirante de persecutoriedade nada mais é do que o caminho psíquico inverso de alguém que se ambientou ou teve prazer com a hostilidade como modelo de vida. Está mais do que ultrapassada a noção de que uma doença mental é algo inesperado que aflige o indivíduo, como um vírus ou bactéria. A mesma é resultante da subjetividade do trato social que o sujeito formou ao longo de suas experiências. O distúrbio mental estará sempre associado ao tempo, no sentido da somatória de crenças e experiências que produzem uma máxima quase que irreversível na psique da pessoa.

A mensagem última da paranóia é que além da perda, a pessoa necessariamente será humilhada e totalmente desnuda em seus aspectos negativos. A agressividade que aumenta a cada instante traz a contrapartida do medo à retaliação. A ansiedade está totalmente presente, obrigando o indivíduo a se preocupar imediatamente com determinado receio histórico; mesclando culpa e raiva perante sua situação de indecisão e insegurança. A ansiedade espelha também a angústia plena pela falta de um reconhecimento social que nos conforte. A idéia religiosa transpassa para a psique do sujeito. Todos crêem num lado pessoal de "divindade", que anseia por ser cultuado pelo outro. A ansiedade patológica ataca exatamente nesse ponto, quando se descobre que até o presente ninguém acreditou ou investiu em nossa necessidade de idolatria. A paranóia detém uma mensagem mais do que cruel dizendo que apenas aquele indivíduo pôde produzir reações agressivas em contato com seu meio; sendo que o ciclo vicioso se instala na junção entre a raiva, medo e certeza da perseguição. Jamais há a clareza do motivo real da perseguição; tudo o que se conclui é que o indivíduo jamais poderá fazer parte de uma convivência harmoniosa entre seus pares. O pessimismo é uma variante menor da paranóia, sendo que a semelhança entre ambas é "a pessoa viver como se estivesse num país hostil e inimigo", como observava ALFRED ADLER.

FREUD sempre sustentou que o ser humano buscava o prazer de todas as formas; a concentração de suas teses na sexualidade são a prova de tal pensamento. Porém, não deixou de se sentir incomodado com determinados distúrbios que talvez contrariassem tal afirmação. O masoquismo e a paranóia se chocavam com determinada assertiva, pois eram distúrbios neuróticos totalmente associados a dor, contrariando a tese descrita por ele. Então o mesmo elaborou o conceito do "INSTINTO DE MORTE"; algo inerente à natureza humana que teria a função do retorno ao inanimado. Muitos críticos de sua obra até os dias de hoje contestam tal conclusão, pois não vêem nenhuma base científica ou psíquica para esta afirmativa. O fato que talvez muitos se esqueçam é sobre a transitoriedade de todas as experiências da vida. Tanto o paranóico, ciumento ou masoquista, jamais terá a certeza da posse de algo. Como resposta a esta angústia dilacerante desenvolvem um constante conceito e certeza do sofrimento inevitável, no sentido de degradarem o objeto de prazer, pois, como o temor da perda é insuportável, o sofrimento diário lhes daria algum alívio de como lidar com o fim de suas expectativas ou desejos. Evitando o choque e luto de uma perda astronômica, ensaiam lidar com a morte em doses homeopáticas, que infelizmente se tornam agudas. A paranóia é a persistência de se colocar todos os "holofotes" sociais em cima de determinado sofrimento individual.

O delírio ou manifestação extrema do ciúme se insere no contexto da desconfiança e paranóia. Como disse antes, a psicanálise de FREUD considerava o mesmo uma projeção dos anseios reprimidos de determinada pessoa, desconfiando intensamente do parceiro, a fim de não ter de lidar com seus próprios impulsos ou desejos de traição sexual. O hiato acerca desta tese é que o ciúme revela uma grande soma de inveja e competição. A idéia de que o outro consiga mais prazer ou destaque em determinada área da vida, se torna o ponto central de ódio e desespero. O ciúme é uma representação da futura derrota num processo de competição afetiva e sexual; que na verdade ocorre todos os dias nos diferentes setores da sociedade. A dor e angústia ocorrem por esta competição se dirigir plenamente ao ego do indivíduo; ao contrário de outros setores sociais onde a pessoa poderá racionalizar a perda perante a enorme concorrência. O ciúme é doloroso exatamente por este fato, a disputa é apenas com uma ou poucas pessoas e situações, se evidenciando todo o complexo de inferioridade do sujeito. O ciúme coloca alguns pontos de interrogação do tipo: a experiência do prazer é uma ilusão, perante o tormento diário vivenciado? Será que para determinada pessoa ocorre uma proibição do gozo, após ter encontrado o parceiro ideal? A angústia sobre perdas que jamais teremos controle?

Em síntese o ciúme é a mais pura manifestação invejosa de uma imagem supostamente de perfeição que o outro nos passa cotidianamente; também é a necessidade quase que absoluta do conflito em detrimento de uma parceria de crescimento.O ciumento sempre irá lidar com a horrenda conclusão de que sua insegurança é devido ao fato de que seu objeto amoroso foi conquistado por pura sorte; estando inferior em vários pontos perante o parceiro: beleza, sedução, inteligência e carisma dentre outros. Será que a experiência da paixão profunda só ocorre com alguém que sentimos ser superior ou nos desafia? O ciúme é a descoberta mais do que cruel que teremos de pagar uma conta altíssima pelo depósito de nossas fantasias no outro. A verdade é que o ciúme espelha a idéia difundida pelo sistema econômico de que o "valioso" é praticamente inacessível ao homem comum; sendo que quem deseja algo que supostamente é especial terá de lidar infinitamente com a desconfiança e medo do "roubo".

Lendo todos os conceitos colocados se abre a reflexão inexorável sobre o que é o respeito dentro de um relacionamento. A paranóia com toda a certeza é a antítese do mesmo, tanto para a pessoa, quanto para sua relação. A paranóia é o total depósito mental do passado na atualidade dos relacionamentos; sendo uma experiência íntima de caráter essencialmente destrutivo; tendo como intuito à chamada da atenção maciça sobre a pessoa. ADLER também observou o caráter de pessoa mimada no distúrbio da paranóia; pois o sujeito apela para todos os demônios que a mente pode criar a fim de obter uma posição de destaque e primazia em relação aos problemas da coletividade onde se insere. A luta do paranóico objetiva sugar toda a energia circundante para a chamada da atenção perante sua falha de caráter que jamais poderá ser suprida: sentimento de desamparo e abandono. O paranóico desde cedo nutriu a sensação de ser o "último da fila" em todas as situações.

Apenas gostaria de ressaltar a contradição que o paranóico carrega em relação à problemática social da solidão. Se esta última talvez seja o fator de maior tormento de nossa atualidade, como pode uma pessoa sistematicamente afastar todos os seus contatos interpessoais? A resposta é uma tanto simples e clara; o paranóico almeja colecionar e se vangloriar de todas as injustiças supostamente sofridas ao longo de suas conturbadas e complicadas relações que estabeleceu, não que neguemos que o mesmo tenha sofrido ou sido explorado durante sua história pessoal, mas, o fato central é a vigilância exacerbada perante uma nova possibilidade de angústia ou frustração. O mesmo escolhe revirar constantemente a escória do sentimento humano, talvez para provocar uma sensação de destaque às avessas. O embrião da personalidade autocrática é a fuga extrema não apenas da crítica, mas, do efeito global que a mesma acarreta em seu complexo de inferioridade, que sempre está disposto a avançar em todos os setores da vida da pessoa.

A paranóia não deixa de ser também uma espécie de contra imagem da fama, nesta, a pessoa será perseguida por ser um modelo de prazer coletivo; já na paranóia todo o assédio é produto da auto crítica, ódio e medo de várias situações reais ou não vivenciadas pela pessoa, seja interna ou externamente. Se pensarmos em termos de relação econômica e social poderemos fazer um paralelo com a questão da paranóia ou desconfiança. É doloroso o fato de se possuir ou vivenciar algo que não possa ser desfrutado; o dispêndio de energia com a desconfiança e medo tomam por completo a real consecução do prazer. O desejo de consumo possui o mesmo mecanismo, tornando a pessoa eternamente insatisfeita e a procura de novos objetos, assim que acabou de consumir algo que achava que era seu desejo. A paranóia se alia a eterna sensação de dívida, pois o indivíduo acometido de tal distúrbio não almeja pagar os tributos da vida para a consecução de sua saúde mental, que em síntese seria usufruir plenamente do que se têm: troca afetiva e sexual; econômica e social.

Infelizmente nunca fomos educados para a troca de sentimentos. Cada ser humano possui uma espécie de "identificador pessoal de desejos", que lhe dá um sentido e orientação na dura tarefa de viver. Porém, parece que algumas pessoas estão com o mesmo quebrado, caindo no desespero profundo, tentando tomar anseios alheios ou coletivos criados pela sociedade como seus referenciais íntimos. A inveja como frisei acima é uma companheira inseparável da paranóia, pois tudo que não emana de uma profunda reflexão e certeza pessoal irá acarretar dor e sofrimento. A amargura e ansiedade que corroem o homem moderno têm sua gênese na falta de uma base sólida de valores reais. "Correr sem saber para onde", "desejar o que não temos certeza de que nos agrade", "sentir ciúmes de algo falido por puro desejo de posse", são os atributos da psique coletiva doente. Compete a cada um a tentativa de se conhecer, caso não deseje caminhar para o abismo ou cegueira social; enfim, perceber como dizia ADLER: "Quem não está pronto para dividir, não está apto a ter ou ser".

*FREUD acreditava que o impulso da agressividade é herdeiro diretamente do complexo de Édipo mal resolvido; sendo que a criança não se conformava jamais de perder a posse sobre um dos genitores em função do matrimônio. Esse sentimento seria transformado em rebelião e contestação na fase adulta.

*A fase genital é o período onde a pessoa está apta a usar a sexualidade no sentido pleno do prazer e amor. É a última transição da puberdade para a fase adulta. 

Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

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