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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ansiedade, Depressão, Tristeza, Inveja, Avareza, Medo, Tédio, Desespero e Desilusão.

(Psicólogo Analisa os Piores Desiquilíbrios Emocionais e Afetivos)

" Nossa consciência é compartilhada; ela pertence a toda humanidade. Nós não percebemos a beleza e imensidão disso. Voltamos ao nosso padrão, acreditando que somos indivíduos, lutando, brigando, competindo, cada qual querendo satisfazer sua própria minúscula e bestial individualidade. Como isso não significa nada para nós, voltamos sempre ao nosso modo de vida antigo. Então é melhor não ouvir nada do que estou dizendo. Se vocês ouvem a verdade e não agem com ela, ela atua como um veneno. Eis porque nossa vida é tão hipócrita, falsa e superficial. O ser humano há muito escreve apenas para fugir de si próprio, não desejando mudar nada." JIDDU KRISHNAMURTI.

Sem dúvida alguma, em nossa era permeada pelo stress em todos os níveis, fica difícil focar qual a pior praga psíquica que nos atinge. Parece que a cada dia nos acostumamos com todas. A ansiedade e medo de perdermos o péssimo emprego que temos; a tristeza e depressão em nosso dia a dia desprovido de sentido; ou nossa rotina de tédio como marca registrada de nossa existência. Faz sentido definir cada distúrbio citado, objetivando uma compreensão prática do sofrimento e dilema que carregamos em nosso cotidiano. A ansiedade é um fenômeno psicológico, químico e biológico, onde sua essência é um constante estado de espera, busca ou expectativa. Pode ser considerada positiva na questão básica humana da insatisfação ou procurar expandir os horizontes conhecidos; afinal de contas, a ansiedade foi à máxima responsável por termos saído das cavernas. No sentido negativo observamos todas as doenças ou sintomas psicossomáticos; além de constante irritabilidade e falta de concentração em determinada tarefa. Pode se diluir em todos os outros distúrbios citados, sendo que o alerta máximo de que a mesma se apoderou da pessoa é exatamente esta falta de distinção, ou dificuldade do diagnóstico. A ansiedade diz não apenas de uma insatisfação ou incompletude interna, mas, principalmente que a pessoa historicamente perdeu o genuíno foco do interesse pessoal para as pressões externas, sejam econômicas ou pessoais. É uma espécie de protesto silencioso e interminável do organismo contra uma mentalidade que apenas fugiu de seu profundo complexo de inferioridade, o compensando com ganhos econômicos ou vaidade pessoal.

A tristeza remete a um evento ou condição traumática real de angústia, sofrimento ou decepção que atingiu a pessoa, sendo um estado temporário; diferente da depressão que se torna uma espécie de meta de vida ou um “emprego mórbido” que a mente arrumou. A depressão visa aplacar qualquer novo distúrbio ou mudança justamente se utilizando de uma constante visão cinzenta acerca do futuro da pessoa ou das relações sociais. É o que ALFRED ADLER chamava de “arranjo psíquico”; um conjunto de ações ou idéias estereotipadas que tinham como meta colocar a pessoa não necessariamente num patamar de pena perante os outros, mas, principalmente forçar que o meio estivesse constantemente à disposição da mesma, provendo suas necessidades e carências. ADLER elaborou tal conceito em 1910, e se pensarmos no contemporâneo distúrbio da síndrome do pânico, não demorará em encaixarmos tal tese; sendo que o sujeito não consegue sair de casa sozinho e necessita de um constante seguro para tal finalidade ou outras ações pessoais.
ADLER embora não tenha cunhado o termo pânico, foi o primeiro a perceber que tal moléstia era uma intensificação da depressão ou medo que o sujeito acabava permitindo que adentrasse por completo o seu ser. Por tudo isso é que a medicação deve ser empregada com muito cuidado nos casos de depressão; sendo que a mesma é ineficaz na etiologia citada, pois a mensagem é uma total regressão a um período da vida onde era cuidado plenamente e não precisava se preocupar seja com a questão da sobrevivência ou competição. Não devemos narcotizar o medo sem a compreensão profunda do mesmo. ADLER também apontou que o depressivo se tornava um tímido; timidez não no sentido de se expressar ou vergonha de falar em público, mas de não conseguir compartilhar seus mais íntimos e verdadeiros sentimentos. O tímido e o depressivo temem constantemente o que chamou de “situação de prova”; fugindo dos encontros; testes para obtenção de emprego e coisas do gênero; adotando uma postura de completa ausência, o que os torna vitoriosos justamente por se evadirem de etapas de angústia ou sofrimento, porém, com um preço altíssimo a pagar por tal conduta.
O medo é a experiência mais arcaica ou atávica da humanidade. Devido à questão da própria sobrevivência do ser humano, suas raízes superam psicologicamente toda a questão da sexualidade como força propulsora do inconsciente proposta por FREUD. O medo remonta não apenas à nossa finitude biológica, como muitos escritos da psicologia ressaltaram no decorrer dos tempos. Muito mais do que o medo da morte em si, o medo passa a ser uma experiência paralisante em todos os sentidos. É o sentido de preservação num superlativo mais do que neurótico. Medo de morrer; ficar doente; perder o emprego; miséria; fome; humilhação; solidão extrema; a lista é quase que interminável e todos se sentem totalmente impotentes perante as ameaças apresentadas. Em nossa atualidade existe mais um agravante que é o fato de que tudo isso não é mais um privilégio do ser adulto, sendo que a própria infância já foi contaminada pelos desafios mundanos e existenciais. É o próprio princípio da compensação agindo; quanto mais as descobertas da medicina e outras áreas avançam, maior o medo de perder o que foi conquistado ou pode ser desfrutado. Nossa era se tornou a luta insana por uma segurança que jamais o ser humano poderá reter. Sua cobiça ou desejo de novas descobertas não conseguirá absorver fatores éticos e até religiosos impregnados em sua alma. O medo não é direcionado apenas aos excluídos, o que seria bastante fácil de aceitação; mas é principalmente o imperador do sucesso e abundância, vindo acompanhado de emoções secundárias potencialmente destrutivas e contrárias a natureza de convivência e relacionamento humano. Citando algumas: inveja; competição; posse e principalmente desconfiança e avareza. Esta última têm como essência à economia de energia e trabalho perante a troca, mesmo que a qualidade de vida e dos relacionamentos da pessoa seja comprometida. A inveja, assim como a desconfiança é uma espécie de estimulante ou droga que ocupam a mente de uma pessoa receosa de suas potencialidades. Todos irão concordar que a inveja permeia todos os processos sociais vigentes; alguns acham até que a mesma seja positiva, caso alguém imite o desenvolvimento ou conquista de outra pessoa. Porém, a essência da mesma é a comparação, e cada vez que isto ocorre nos afastamos ou golpeamos tudo aquilo que tínhamos formado a nosso respeito. A inveja jamais nos dará trégua ou férias acerca de uma auto-estima precária que conquistamos; sendo uma “espada dilacerante” que corta nossa alma quando lembramos dos grandes desejos irrealizados, mas que nosso “vizinho” talvez os obteve. Temos um vício quase que perpétuo de achar que o fracasso apenas é reservado para nossa pessoa. Isto se agrava pela hipocrisia social e pelo fato das pessoas a cada dia estarem mais treinadas na arte da dissimulação ou disfarce de sua real condição.
A mensagem que há muito é passada e reforçada pela cultura cristã é a de que temos de sofrer calados e absolutamente sozinhos, pois a vergonha remete a uma moral autoritária e automática que devemos nos curvar. Em outros textos coloquei a contradição sobre a timidez de se colocar profundamente perante outras pessoas e a terrível sensação de solidão que sentimos. Será que esta última não poderia ser um fator revolucionário para vencermos todas as barreiras apontadas e humildemente tentássemos ajuda para nossa dolorosa situação de vida emocional? Infelizmente a solidão apenas vai reforçando o medo e a falta de treino para buscarmos precisamente aquilo que nos falta.
O tédio é a herança absoluta de toda a temática apresentada. Sua ligação com a ansiedade é mais do que evidente, criando um conflito interno de desejo de mudança em paralelo com a certeza da monotonia e falta de perspectiva no presente. O tédio é a couraça ou muro que construímos após sucessivas etapas de decepção, medo ou solidão. Não sofrer novamente é uma marca registrada de nossa época, e o único seguro para não procurarmos novas experiências frustrantes é o desânimo ou certeza subjetiva neurótica de que novamente não nos daremos bem.
A blindagem emocional novamente nos cobra um preço elevadíssimo, nos tornando áridos nos relacionamentos interpessoais; criando inclusive exigências irreais ou fantasiosas acerca de nossas amizades ou companheiros afetivos. Virou moda todos falarem que à medida que vamos envelhecendo nos tornamos mais exigentes do ponto de vista emotivo. A mentira deslavada em tal tese é a não dissecação de nosso sofrimento íntimo, assim como a total perda de uma ingenuidade que talvez fosse positiva no tocante a estar aberto às novas experiências. A loucura do “seguro”, ou busca infinita, nada mais é do que um projeto mental de pleno afastamento, medo e depressão, e racionalizamos a questão dizendo que não podemos nos contentar com qualquer coisa. Obviamente cabe a cada um estipular um patamar de desejo ou sonho de sua necessidade pessoal, devendo diagnosticar o mais breve possível se determinado encontro ou relacionamento possui realmente um futuro. O problema é que o tédio será um juiz implacável mais cedo ou tarde da continuidade do contato, dizendo que a pessoa está apelando ou não usando plenamente seus recursos; sendo uma espécie de ambição eterna contida na alma da pessoa e que passa a sabotar a sobrevivência da relação. O tédio diz ainda de alguém que não teve êxito para jogar fora seu passado ou as vivências dolorosas. A diferença em relação à monotonia é que esta última é basicamente um padrão de comportamento ou rotina; o tédio é um fechamento quase que absoluto perante novas experiências. A finalidade inconsciente é forçar um acontecimento fantástico ou supremo que retire a pessoa do protesto diário contra um mundo que lhe causou imensa angústia. Não será fácil notar que tal crença é absolutamente ilusória, sendo que a conseqüência é o fracasso pessoal perante o desejo ou o próprio sonho; são as pessoas que “procuram para não encontrar”.
O tédio é o atestado permanente da infelicidade íntima, e sua herança é uma espécie de hábito nocivo de mostrar para o maior número possível de pessoas sua condição de miserabilidade afetiva e social. Desejar a todo custo chamar à atenção para si próprio e suas mazelas psíquicas pessoais é a prova máxima de uma pessoa neurotizada e mimada, que passa a ser improdutiva emocionalmente, apenas sugando as pessoas ao seu redor. A neurose se junta plenamente ao tédio e depressão, quando sua essência é uma espécie de vírus que deseja se alastrar, recusando permanecer no inconsciente pessoal de sofrimento. O narcisismo tão bem estudado na história da psicologia também é um produto manipulável pelo âmbito negativo como estava dizendo, pois a autocomiseração é uma rotina ou estratagema para quem almeja o poder de forma invertida. A queixa sempre é o narcisismo disfarçado, ou no sentido contrário. A neurose não é fruto apenas da ausência do prazer, mas da despotência perante o coletivo que a pessoa enxerga e inveja. Muitos não conseguem viver uma experiência de infelicidade ou insatisfação sem a tentação de a transportarem para o ambiente; então resumindo tudo, o “neurótico é sempre um invasor de uma outra alma”. Necessitamos de um ser humano que não sofra calado, mas também que não despeje sempre seu ranço pessoal nas relações sociais. Ou resgatamos um sentido de coletividade ou fatalmente seremos reféns de todo um psiquismo negativo que mutilou a amizade e companheirismo. Se todos os sentimentos citados não forem devidamente trabalhados, o selo da vingança será impresso na personalidade. O ódio é basicamente um descendente cativo de todo impedimento ou repressão de determinado afeto. Não se trata do fato óbvio de que jamais poderemos realizar tudo o que desejamos, mas o ódio surge exatamente pelo oposto, quando estávamos bem próximos ou pelo menos imaginávamos estar, em relação aos nossos sonhos e anseios.
O desespero advém quando não mais podemos efetuar ou reparar algo. É um tipo de caldeirão composto por extensa culpa, repressão, timidez e indolência. É a absoluta falta histórica do tempo certo para resolvermos os conflitos. A única coisa positiva é a luta para tentarmos reaproveitar talvez o pouco ou o que nunca percebemos que sobrou após os traumas que sofremos. Para tudo há um limite, seja a infelicidade ou a própria crueldade dirigida contra a própria pessoa. A vida não é apenas um aluguel de determinado corpo, conduta emocional, intelectual ou social; sendo que a coisa pitoresca da mesma é sempre nos fornecer determinadas sobras ou até migalhas para que possamos reconstruir algo de valor. Neste ponto se concentra o potencial criativo da humanidade, que infelizmente só é ativado perante a dor e sofrimento. Alguns pregam que isto é uma conseqüência dos milênios da era cristã; sofrer intensamente para galgar um patamar de regozijo. Embora não possa duvidar de tal evento, ainda penso que a responsabilidade de todo o quadro também é a falta de prática e ação para obtermos a satisfação. O percebimento de que somos os geradores do conflito é essencial. Nossa mente infelizmente quase sempre deseja o atrito, e a fatalidade é que não sabemos lidar com os opostos. Necessitamos de aprovação social, mas nos isolamos ou ficamos solitários. Desejamos um êxtase de prazer sexual ou companhia, mas hoje em dia descartamos qualquer tipo de compromisso. Falamos o tempo todo de motivação que é produzida pelo dinheiro ou posses, mas internamente nosso coração é pura cinza ou desesperança.
O fato é que a experiência afetiva está totalmente atrelada à segurança econômica; desejamos mais a cada dia racionalizando de que precisamos de uma vida mais confortável para nós e nossos filhos. Sem dúvida alguma, a falácia de que o dinheiro não é fundamental não ecoa em mais nenhum canto do planeta, mesmo que determinado fanatismo político ou religioso tente abafar tal verdade. O que é fundamental nos conscientizarmos é a derrocada do pessoal e íntimo, sendo que ambos há muito tempo são aspectos totalmente secundários da subjetividade e luta da humanidade por uma melhoria ou desenvolvimento. Relatei no início do estudo que a ansiedade foi um dos fatores determinantes de termos evoluído e saído das cavernas. Embora alguns vivam em casas ou apartamentos confortáveis, o medo e insegurança pouco se alteraram na psique humana, e todos sabem muito bem disso. Quando realmente acontecerá uma transformação pessoal do ser humano? Qualquer ciência seja exatas, biomédicas ou humanas algum dia nos mostrou como realmente enfrentar os desafios máximos da vida do tipo: morte, perda ou decepção? Até agora o panorama pode ser assim descrito: o dinheiro reina absoluto como um deus; e o que seria a descoberta do sentido da vida ou existência é puro medo, insegurança ou agonia. Se é que poderíamos encontrar o sentido do dinheiro, o mesmo teria a função primordial de um maior número possível de pessoas atingirem uma condição de vida melhor, e o verdadeiro rico perceberia tal meta. Infelizmente quem retém alguma posse neste mundo têm como padrão à isenção de responsabilidade não apenas social; observando insensivelmente os outros sofrerem ao seu redor. Claro que neste ponto muita gente novamente irá racionalizar a todo custo, dizendo sobre quem realmente merece ajuda ou dinheiro no caso. A síntese é que esta questão está repleta de sentimentos de inferioridade e superioridade, e o problema nunca foi à prática do dinheiro em si, mas toda a auréola de poder e misticismo que se criou em torno do mesmo.
Deveríamos ter um imenso cuidado com o poder instituído; seja pelo dinheiro ou qualquer outro fator; determinada supremacia pessoal pode ser a total exclusão da verdadeira paz de espírito. Todos já notamos a necessidade de vivenciar determinada energia sexual ou de prazer, a fim de aproveitarmos algo de valor perante nossa curtíssima existência neste mundo. O problema é que paralelamente ao nosso desejo irrealizado se juntam todos os vícios e sentimentos negativos dolorosos que a mente pode desenvolver. Nossas buscas se tornam extremamente primárias perante a falta ou carência, nos deixando totalmente atordoados. A verdade é que o tempo vai passando e nunca conseguimos realmente descobrir qual o valor de tudo onde empregamos nossa energia. Insistimos em diversas ocasiões na saudade, sem nos conscientizarmos do fator tenebroso da mesma, pois o resultado é a impotência completa para se despertar uma nova visão de entusiasmo pessoal e coletivo.
Até hoje infelizmente não há estudos sobre a questão do tempo e suas relações com os distúrbios psicológicos. Pensemos novamente na questão da ansiedade; esta é totalmente uma insegurança em relação a um futuro incerto? Ou seria a certeza de estar preso num profundo complexo de inferioridade passado? Quais as perguntas subliminares que uma mente ansiosa produz constantemente? No mínimo duas: Irei conseguir meus objetivos; quando? Será que realmente mereço tal condição almejada? Neste ponto se insere totalmente a questão da culpa, provando que a ansiedade e outras manifestações de desordem psíquica contém elementos ligados a temporalidade do inconsciente pessoal. A verdade é que o sofrimento psicológico é sempre uma falta de equacionamento perante todas as possibilidades. Se tudo está ou pode dar errado; seu oposto deveria também povoar a mente, ou seja, o otimismo. Este seria a certeza de possuir ferramentas internas para tranqüilamente sair do estado de caos psíquico, tendo a certeza de que estados de desânimo se intercalam com disposição interna para se alterar algo. A única permanência possível é este fator inexorável da vida. Não há nenhum ser humano condenado previamente a um estado patológico; e sem desejar fazer elogios tolos, todos, sem nenhuma exceção dispõem de recursos próprios para enfrentarem suas adversidades. O que falta é a estimulação para tal empreitada, função básica da psicoterapia. É uma pena que o egoísmo social e retraimento coletivo perpetrado pelo modelo econômico, conduzam tantas pessoas a um desespero desproporcional. Por quantas vezes vivemos um sofrimento absolutamente desnecessário? A paranóia nada mais é do que o desperdício da energia vital e criativa, que é redirecionada para um labirinto de medo e horror constantes. Isto ocorre pela falta do estímulo histórico que citei. Como seria produtivo e importante se os pais negassem determinados presentes materiais supérfluos e os trocassem por um elogio ou reconhecimento da inteligência ou capacidade da criança, quando esta os demonstra pessoal e socialmente. Tanto a hipocrisia ou necessidade de bajulação no adulto, teve sua origem nesta carência de pontuar no período da infância sua importância na família sob todos os aspectos: afetivo, companheirismo e potência intelectual. O consumismo na infância reforça a mensagem de que a criança é subornada para não expor seus sentimentos ou opiniões, não dando mais trabalho para pais que já se encontram num stress pela sobrevivência ou dificuldade do dia a dia. Determinada afirmação é insofismável nos dias atuais, mas, mesmo assim, quase todos reproduzem dito comportamento sem nenhum raciocínio crítico. A preocupação é apenas com a herança material, mas mesmo que estas palavras sejam ignoradas, tenho o dever de lembrar a todos de que existe também um espólio afetivo e emocional, que muitos desconsideram pela vida toda.
O modelo de tratamento dos distúrbios psíquicos, além do excesso da medicação, insiste numa visão mecanicista do modelo mental. Tanto a genética, quanto o ambiente social são colocados como fatores determinantes dos modelos comportamentais que geram as neuroses. Embora tenha dito que a neurose possui a função de alastrar seu horizonte pessoal, cabe compreendermos o funcionamento preciso dos distúrbios. Imputando uma boa dose de racionalidade, logo descobriremos que a mente é muito mais do que uma soma, divisão ou herança qualquer. Pensemos numa árvore, ela existe e faz parte de uma realidade subjetiva e objetiva concomitantemente. A nomeação da mesma como árvore, diz da subjetividade humana, mas ela existe independentemente do nome. E mais, podemos a transformar em móveis, cadeiras e outros utensílios; bem como a extinguir, causando a derrocada ambiental, fato mais do que claro. O processo da neurose segue o mesmo fluxo, as fontes geradoras ou energia psicológica para dor ou prazer estão disponibilizadas na nossa mente não num sentido aleatório ou mecânico; mas em conformidade com os padrões reforçados no desenvolvimento da pessoa. Podemos seguir a mesma trilha psicológica de nossos pais, absorvendo todas as estruturas mentais vividas pelos mesmos; aliás, geralmente é o que ocorre. CARL GUSTAV JUNG, foi o primeiro psicólogo a perceber a dinastia do inconsciente coletivo sobre a psique humana. A influência não é fruto de uma genética isolada, mas, a percepção da criança que determinado modelo mental deve ser seguido para se expiar algum processo que a própria família renega. A culpa na criança acompanha seu senso de solidariedade, para mostrar ao adulto todos os pontos não resolvidos, como uma teatralização, buscando passar algo da máxima seriedade ou mudar algo; infelizmente os pais ainda não perceberam tal necessidade mental infantil. Como conclusão, sempre teremos poder e responsabilidades sobre quais aspectos emocionais daremos prioridade. Mesmo dando a desculpa de que determinada afecção mental nos tirou da rota almejada, a mesma por si só não teria vida longa caso os benefícios secundários da doença não atuassem constantemente como dizia FREUD. A verdade é que muitos não querem largar seu projeto pessoal de infelicidade construído durante anos, e tampouco querem se conscientizar sobre tal fato tão grave.
O pilar central afetivo e emocional do ser humano é formado por uma tríplice conjunção de elementos: poder; agressividade e sexualidade. O primeiro tem a função básica de fornecer um feedback sobre à auto-estima da pessoa, assim como sua importância no meio em que vive. A agressividade é uma resposta instintiva e cultural na luta pela sobrevivência do ser humano. A sexualidade é o conjunto histórico do desejo e paixões íntimas, quanto à mesma trocou e lutou por seu direito de ser amada. Esses três elementos primordiais quando são distorcidos, geram todas as mazelas e violência que acompanharam a história da humanidade. O poder quando é compensação de uma auto-estima fraca se torna autoritarismo e sectarismo. Sobre a agressividade não precisamos nem comentar o que se torna, quando a mesma perde seu foco de sobrevivência; é só olharmos as páginas policiais ou repararmos no caos social. Não irei analisar os casos de sexualidade distorcida do tipo estupro ou pedofilia, pois são de amplo conhecimento de todos. Nos primórdios da psicanálise de FREUD, se pensava que as perversões sexuais eram a linha final de todo o desenvolvimento distorcido da sexualidade. O perverso era o indivíduo que se fixou em determinada etapa sexual, impedindo a evolução natural do instinto ou desejo sexual. Como exemplo FREUD citava a perversão do voyeurismo, ou desejo constante de se excitar observando o ato sexual de outras pessoas. A análise psicanalítica dizia de que tal perversão era um seguro da pessoa contra a angústia de castração, que era o medo do menino de perder o pênis por ter desejado a mãe, na famosa luta do complexo de Édipo, tudo isso no plano inconsciente. Assim sendo, o voyeur necessitava constantemente se assegurar visualmente de que o desejo sexual não acabava em punição. Tal análise é um tanto parcial do ponto de vista global da sexualidade. O perverso não almeja apenas a proteção de uma imagem mental, mas reflete fielmente o modelo social de ambição e insatisfação ou tédio. Como ADLER observou, o mesmo possui o que denominou de “complexo de colecionador”, nunca se satisfazendo com determinado relacionamento, seja afetivo ou sexual. Não é isto que estamos assistindo em nossos dias? Todos ficarem apenas observando ou sempre sonhando com uma sexualidade ou relação totalmente fantasiosa? As traições ou conflitos conjugais que o digam. Lamentavelmente a gratidão e o companheirismo são massacrados pelo narcisismo e necessidade de aplauso ou destaque que o meio social cobra diariamente. Pensando numa equação ou fórmula do amor moderno, certamente o resultado seria a instabilidade, o caráter descartável da relação, e o quanto de real investimento se despeja seja na excitação, ou no crescimento de ambos os parceiros. O leitor ainda cobrará qual sentimento ou sensação é mais dolorosa. A síntese, além de uma solidão existencial e real, é que criamos várias outras problemáticas para nossa curta existência. Desnecessária e neuroticamente aceitamos tal modelo de vida. Talvez pudéssemos reunir tudo na palavra desilusão, não no sentido da perda de coisas que realmente não fizeram importância em nossa história pessoal, mas desilusão no sentido de termos de continuar a vida desgostosos ou insatisfeitos. Tudo o que foi relatado se torna a perda do sentido verdadeiro da vida. O próprio sofrimento é uma espécie de estrada vicinal perante o drama da existência. Cedo ou tarde teremos de aprender que qualquer revolução ou transformação externa irá reclamar o retorno para o íntimo do sujeito. Isto sim é genético no ser humano; fugir de si próprio abarcando uma causa social, seja nobre ou de extermínio coletivo, e não o desenvolvimento da neurose ou psicose como a medicina mercantilista quer imputar. A pergunta final é quanto esperaremos para uma tomada de consciência ampla sobre todo o processo? Será que não estamos dando nossas vidas para situações que não deveriam tomar uma dimensão tão profunda?

Psicólogo Antônio Carlos Alves de Araújo

BIBLIOGRAFIA:

ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. BUENOS AIRES: PAIDÓS, 1912.

FREUD, SIGMUND. O MAL ESTAR DA CIVILIZAÇÃO. OBRAS COMPLETAS, MADRID: BIBLIOTECA NUEVA, 1981.

JUNG, GUSTAV, CARL. MEMÓRIAS, SONHOS E REFLEXÕES. SÃO PAULO: EDITORA NOVA FRONTEIRA, 1986.

5 comentários:

LISON disse...

Saudações!
QUE POST FANTÁSTICO!
AMIGO JANILTON, esse é mais um mega artigo que você nos brinda, a começar pela abertura do sábio conceito de, Krishnamurti.
Considerando que ainda estou um pouco cansado, (favoritei) preciso reler o texto, dada a magnitude de seu conteúdo, pois, o melhor a fazer é lê-lo estando mais receptivo.
Parabéns pelo magistral Post!
Abraços fraternos,
LISON.

Principe Encantado disse...

Amigo que texto maravilhos você selecionou para partilhar conosco, muito bom, nos retrada a realidade destes sentimentos de forma singular.
Abraços forte

SMM disse...

Gostei do teu blog! Se puder me visitar, http://sindromemm.blogspot.com
Valeu!

Camila disse...

Nossa, essa postagem é impressionante e super precisa. Aos que "sofrem" com o que está relatado serve mais ou menos como uma tapa bem forte, pois paramos na fase em que nos transformamos vítimas e tediosos e não enchergamos o que vem depois ou o que poderia ser feito.
Meus parabéns pelo escrito, tomarei para mim as formas práticas com muito carinho.

Janilton disse...

Obrigado a todos que visitaram este blog, pois as informações aqui são precisas, esclarecedoras e conscientizadoras. Nos identificamos com algumas das postagens, e com as mesmas nos conscientizamos dos nossos comportamentos, e do porque estamos passando por causa desses comportamentos, e fazer por onde mudar, para que não tenhamos que passar por tantos distúrbios psicológicos. Acredito com fé que a porta de saída é AMAR INCONDICIONALMENTE.

Abraço a todos.