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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Por que Fracassa o Casamento?


CASAMENTO: POR QUE FRACASSA?(ANÁLISE PSICOLÓGICA SOBRE O CONTRATO INCONSCIENTE DAS RELAÇÕES)

“Não mate o desejo, amigo, pois o desejo é uma chama de vida que dura para sempre. O desejo não é a causa do sofrimento. O sofrimento é a semente da visão do desejo. Se o entendimento é pequeno, então o sofrimento cresce na sombra do desejo. Se a percepção inclui a totalidade então o desejo não projeta sombra. Amigo, o desejo não é para ser posto de lado. Mas a sua visão mudará o curso do desejo. O erro não está no desejo, mas na sua percepção. Ame a vida; então o desejo não causará sofrimento. Nunca rejeitamos a alegria; ela é tão forte, vibrante e viva que nunca duvidamos dela. Não queremos encontrar sua causa, apenas desejamos viver nela. Faça o mesmo com o sofrimento, não procure remédios ou crenças religiosas; o homem que sabe sofrer de verdade, com inteligência e isento de resignação é aquele que descobriu o sentido da vida”.- JIDDU KRISHNAMURTI.

O mito da alma gêmea no aspecto positivo parece que é a coisa mais elitista da face da terra, pois apenas alguns o conseguem, para todo o resto a busca da cara metade se dá na luta tórrida da sobreposição de neuroses”.- ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO.
 
A responsabilidade atual da psicologia deveria passar pelo estabelecimento concreto de metas que visassem a profilaxia dos conflitos pessoais e sociais. Infelizmente a referida ciência está ainda engatinhando em tal processo, devido à insistência de metodologias que apenas atuam nas conseqüências. Pensemos no problema do casamento. Embora a terapia de casal seja um instrumento poderoso na dissolução de conflitos, não há um treinamento voltado aos pacientes para que percebam os processos inconscientes que uma relação evidencia. O primeiro passo é o percebimento de que a infelicidade numa relação não é necessariamente o erro na escolha do parceiro, mas a incapacidade de ambos conhecerem os elementos psicológicos não resolvidos que afetam constantemente o equilíbrio afetivo. O amor se transforma em uma grande experiência passageira e ilusória ao pensarmos que determinada pessoa não será a arena de todos os nossos dramas não resolvidos.
Assim que se estabelece determinado compromisso, paralelamente retorna o inventário do passado emocional. Nada é original até nos conscientizarmos dessa lei implacável. Não é à toa que o medo do envolvimento profundo é uma marca de nossa era. O dilema da solidão versus o pânico de errar novamente é a base da tortura mental e insegurança quando falamos sobre emoções.
Assim como a aparência, simpatia ou inteligência são elementos que atraem as pessoas, o inconsciente possui um processo similar de atração. Este se dá geralmente em determinadas falhas ou neuroses do parceiro para que o outro possa esconder profundamente determinado problema crônico não resolvido. Apenas alguém muito ingênuo pode acreditar que a essência de uma relação é a felicidade. A sobrevivência de processos mentais e comportamentais arcaicos sempre irá se sobrepor perante qualquer proposta concreta de satisfação e prazer. O amor é a vontade concreta de dedicar um tempo extra, excluindo os papéis sociais para os quais todos são treinados.
Mas o que seria o tal contrato inconsciente? Uma espécie de destino, traço genético ou enlace espiritual? O nome pouco importa, o fato é que temos de carregar e lidar com certos processos mentais, assim como temos que aceitar nosso corpo. Quando conhecemos alguém pensamos que estamos começando do zero, e esse é o grande erro. Sempre existirão processos ocultos que irão reclamar nossa atenção. Pensemos no mito cristão da expulsão do paraíso. A pena imposta é o conflito e o trabalho. Toda a ilusão do romantismo se baseia nesse arquétipo (representação de alguma imagem do inconsciente que todos possuem: deus; herói; sofrimento.) O resultado é o desejo de voltar a um lugar de dependência e ausência de sofrimento. O problema é que dito paraíso é totalmente proibido para todos. Seja a satisfação sexual, ternura, fuga da solidão; há um custo que infelizmente muitos se recusam a pagar. Sinceramente como terapeuta de casal fico impressionado e indignado como depois de tantas teorias psicológicas, os casais não conseguem conversar sequer alguns minutos por dia sobre algo profundo; isto também vale para pais e filhos, assim como para todas as camadas sociais e diferentes idades.
A timidez e retraimento são quase que o senhor absoluto na maioria dos relacionamentos ou casamentos. Em vários outros estudos classifiquei a mesma como uma das maiores mazelas psíquicas de nossa era. Não é apenas o comportamento de se sentir envergonhado na presença de alguém como muitos pensam de forma simplista. A timidez é um bloqueio afetivo que visa não dividir nada de seu íntimo, tentando fugir da situação de prova ou crítica. O tímido teme perder a todo tempo, e constrói uma ficção de vitória pela ausência da participação, cometendo um total “estelionato” afetivo e social. São pessoas que enveredam para posses ou ganhos econômicos visando a compensação de seu profundo complexo de inferioridade. A raiz do distúrbio remonta a infância ou adolescência; geralmente uma situação de perda afetiva ou humilhação pessoal, fazendo com que a pessoa se retraia no âmbito social e obrigue o outro a participar e fazer as tarefas emocionais que seriam dela. Pensem na junção de todas estas características dentro de um casamento.
Um casamento encerra a necessidade de uma espécie de “palco”, a fim de se mostrar a infelicidade pessoal. Esta característica como a timidez citada acima, envenenam a relação, pois no final das contas apontam apenas para o “pior” da vida a dois. A honestidade só ocorre quando todos os lados do desejo ou relacionamento são explorados, tanto os conscientes, quanto os inconscientes. Estes últimos por serem geralmente ocultos à percepção, adquirem uma força extremamente elevada no psiquismo. A psicanálise sempre trabalhou a idéia de que o desejo ou prazer era algo que a mente proibia, surgindo o conceito do superego (censura moral). Este visava impedir que o id ou o desejo inconsciente inundasse por completo o sujeito.
Para FREUD o desenvolvimento da civilização se baseava neste preceito, bloquear desejos irracionais e os transformar em cultura - o que chamou de sublimação. O problema com este conceito é negação social de como se desenvolve o próprio desejo. Nenhum ser humano como a história o prova, descarta uma satisfação apenas porque a mesma é algo interdito. A própria religião é prova disto, pois historicamente tentou frear todos os impulsos sexuais com um código obsessivo compulsivo que jamais alcançou sua finalidade; apenas produziu um conjunto horrível de neuroses que foram à base das próprias descobertas de FREUD. Certamente o mesmo reformularia suas idéias se estivesse observando a atualidade dos relacionamentos e valores coletivos. O desejo não é abortado apenas pelo lado proibitivo, mas principalmente pela sensação de que o mesmo será absolutamente inatingível. A infelicidade nada mais é do que a total despotência perante uma certeza de alguma imagem ou culto de prazer construída historicamente, e que a pessoa sente que não irá realizar. Este é o nódulo do complexo de inferioridade tão bem estudado por ALFRED ADLER, psicólogo criador da psicologia social. A luta desesperada passa por se provar um determinado valor pessoal, antes que a pessoa se sinta excluída do seu meio. Este é um dos dramas máximos de nossa era.
Todos dizem o conceito clássico de que ninguém “casa para se separar”; o que falta ser estudado nesta tese é que tipos de satisfação ambos procuram: sexo; amizade; companheirismo; remoer conflitos; imagens de sofrimento ou vivenciar uma sensação de eterno luto? Fatalmente a dissolução de um relacionamento passa pela não conscientização de todo o exposto, como venho descrevendo no decorrer deste texto. Jamais será um papel ou uma cerimônia religiosa que dará a certeza de uma união, estes, são apenas uma forma contratual ou empresarial que o sistema impregna o relacionamento; por outro lado também não é apenas uma traição sexual que se torna o ápice do final, mas a concentração ou insistência em determinado núcleo emotivo não resolvido. A investigação sobre com quem realmente vivemos é tarefa primordial para alguém que almeja algo especial, devendo passar pelo percebimento sobre como o companheiro se orienta nas mais variadas situações. Devemos ainda prestar atenção sobre qual é a prioridade do outro, mesmo estando nos acompanhando, pois determinada distração ou ausência pode revelar todo um projeto secreto que desconhecemos e sem dúvida nenhuma jamais faremos parte. O que ou quem realmente é nosso parceiro? Apenas um amante; confidente; terapeuta; protetor? Quais qualidades temos o direito de exigir e quantas no decorrer de nossa vida amorosa conseguimos obter? Poucos realmente fazem este inventário de nossa história e saúde emocional. O que importa nisso tudo é a conscientização de nossos vícios nos relacionamentos.
A coisa mais positiva que se pode vivenciar num relacionamento é quando ocorre uma profunda empatia ou confluência de idéias ou gênios de forma espontânea, sendo maravilhoso quando encontramos alguém para falar o que quase não precisa ser expresso por palavras. Voltando à questão dos contratos inconscientes, estes podem esconder de tudo e se encaixam perfeitamente no contexto conflitivo da relação, como exemplos: agressividade com paralela passividade do parceiro; homossexualidade com problemas não resolvidos da sexualidade; dependência com necessidade de exercer ou usurpar o poder; dependência de drogas com necessidade do outro afirmar que é mais forte ou equilibrado; infertilidade de origem psicológica com ciúme inconsciente de a criança tomar o lugar de destaque do objeto amoroso, ou ainda timidez (no sentido de não desejar dividir) e medo de constituir uma família; depressão com tristeza e desilusão em relação ao não incremento da auto estima por parte dos pais; traição sexual com desejo de martirização ou auto comiseração.
Como seria valioso numa era onde a especialização a cada dia fragmenta o centro do problema, se determinada ciência pelo menos obtivesse êxito em uma única área. No caso da psicologia, embora seja hoje em dia de uso múltiplo (neuroses; psicoses; depressão; casamento; esportes), seu foco ainda deve ser o combate contra a infelicidade. Se pudesse intervir e servir como objeto de pesquisa e consecução de relacionamentos mais duradouros e saudáveis, penso que se daria um grande salto evolutivo na referida ciência. Perceber ainda que determinadas necessidades colocadas pelos pacientes mascaram por completo a base ou o centro de seu problema que resiste imperativamente em resolver.
Aqueles que tiveram uma longa história afetiva e ainda não conseguiram se encontrar, vale a pergunta sobre o que realmente aconteceu? Todos os seus parceiros cometeram infrações imperdoáveis no terreno da convivência? Não se trata de julgamento, mas um balanço sobre um fracasso que a cada minuto corre contra o tempo de nossas vidas. E pensando também naqueles que pouquíssimas experiências tiveram no terreno emocional. O que os impediram de vivenciarem ou gastarem sua parte afetiva? Certamente a prioridade não foi essa área, mas por que? Medo ou pânico de uma rejeição, ou simplesmente trataram tudo isso como um papel desprovido de sentimento genuíno? A busca de todos é real e verdadeira, ou passa por características míticas e embebidas de fantasias irrealizáveis? O mito da “alma gêmea” no aspecto positivo parece que é a coisa mais elitista da face da terra, pois apenas alguns o conseguem, para todo o resto a busca da “cara metade” se dá na luta tórrida da sobreposição de neuroses.
A libido ou desejo sexual possui certamente um caráter transcendental atraindo exatamente a medida exata de nossos processos não resolvidos, por mais que teimemos em ilusões tolas. Infelizmente muitos precisam de experiências negativas, pois o jardim mais cultivado psiquicamente é o rancor e amargura. Embora tais palavras soem ofensivas e dolorosas, o objetivo disto é essencialmente a evolução, e jamais a atingiremos se continuarmos mentido para nós mesmos. Se o ser humano é eminentemente social, não podemos mais tolerar o funil estreito do final das relações, que quase sempre desemboca no conflito ou tédio ao lado de uma pessoa. Estamos severamente doentes, e nos tornamos maltrapilhos na área sentimental, em conseqüência da sobrevalorização dos aspectos econômicos e de poder. É nefasta nossa tendência de apenas utilizar o dinheiro ou narcisismo para impressionar ou seduzir alguém. Enfim, não nos damos conta de que quanto mais acumulamos exteriormente, paralelamente perdemos nas profundezas de nossa alma. Devemos retroceder em nossa cobiça e refletir profundamente sobre o martírio que tem sido nossa vida sentimental. Ou arrumamos tempo para tal tarefa fundamental, ou então continuaremos apenas incrementando nosso projeto inconsciente de plena infelicidade. Todos mentem ao passarem o conceito de que será fácil alcançar determinada satisfação. Qualquer um que usou um mínimo de sua intuição, já percebeu que ocorre exatamente o oposto. A batalha sempre será feroz; e os predadores estão totalmente disfarçados nas mais variadas formas e valores. A solução nem é o velho conceito de “conhece-te a ti mesmo”; mas dita sabedoria interior passa pela coragem de o utilizar em processos que ainda soam como tabu: inveja, comparação e necessidade de aprovação.

PSICÓLOGO ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO(C.R.P.31341/5)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O Troco

O marido chega em casa no dia de pagamento e a mulher pergunta pelo o dinheiro das compras. Ele imediatamente pega na mão dela e a leva para diante de um espelho, tira uma nota de 100 reais do bolso e diz: "Está vendo esta nota de 100 reais aqui na minha mão?! esta é minha; agora tá vendo aquela nota lá no espelho?! aquela nota lá é sua." Ele sai de casa debochando da mulher e ganha o mundo.
Após uma longa noite de farra, o marido volta para casa e vai direto para a geladeira beber água, se supreende com a geladeira cheia de comida, acha estranho e vai ao armário, o mesmo também cheio. Ele vai ao quarto e encontra a mulher deitada e diz: "Oh mulher! eu não deixei dinheiro para as compras e chego em casa a geladeira e o armário estão cheios de compras, o que foi que aconteceu? Onde arranjaste dinheiro? A mulher se levanta pega na mão do marido e leva para diante do mesmo espelho e tira a roupa e diz: "Esta vendo aquela vagina ali no espelho, aquela lá é sua, esta que está aqui é de seu Joaquim da mercearia.

Auto-Estima


Se pensarmos numa primeira definição sobre à auto-estima, logo iremos nos debater com a primeira contradição; o fenômeno que estaria relacionado ao amor próprio do indivíduo, seu senso de capacidade pessoal e auto-respeito, está totalmente condicionado a opinião alheia, ou imagem externa acerca da pessoa; o que pensávamos ser um patrimônio exclusivamente íntimo, é visitado, revisitado e alterado constantemente. Ficamos mais atônitos ainda, quando observamos alguém com sucesso profissional ou material, mas que mostra uma debilidade comprometedora no âmbito afetivo. Mas como é possível alguém que se elevou tanto socialmente se desprezar sem nenhum senso de dignidade pessoal? A resposta é sempre muito simples, quando o assunto é a pessoalidade parece que estamos lidando com um acervo que nunca é concreto, por mais que o desejemos. É como se num primeiro momento tivéssemos a certeza de possuirmos um “tesouro próprio”, mas depois de um olhar cuidadoso sentir que há muito convivemos com a certeza de uma pobreza de nossa alma.

Na atualidade o sistema econômico tenta lucrar com dita problemática, levando ao incremento de uma auto-estima doentia ou competitiva; como exemplos, cito a estética ou culto desenfreado ao corpo, que representam uma tentativa de reafirmar um complexo de superioridade numa personalidade que nunca soube realmente encontrar seu valor próprio afora o gosto por se comparar. A certeza de algo íntimo e inviolável parece ser não apenas rara, mas também uma das coisas mais elitistas do ponto de vista psicológico. Quem detém tal privilégio? Talvez aqueles que reneguem a competição e que fazem um esforço para utilizarem suas habilidades não apenas para si próprios. O problema da manutenção de uma auto-estima é se deparar com os conflitos causados quase que diariamente pelo meio em que convivemos. Nosso temor ao ostracismo, solidão e abandono, nos leva a desistir facilmente de um ideal ou meta estabelecida.

Não há um terreno mais arenoso para a personalidade humana do que o lidar com a crítica. A mesma pode suprimir ou abafar o que realmente era um grande potencial da pessoa; por outro lado, sua ausência tolhe não apenas a criatividade, mas também a possibilidade de uma mudança concreta. Novamente neste ponto o modelo econômico reduz tal questão a elementos materiais ou estéticos. Alguns conseguem sobrepujar tal ditadura silenciosa mantendo um certo carisma pessoal, independentemente dos valores sancionados. A grande maioria opta por um narcisismo que nada mais é do que um disfarce de sua miserabilidade pessoal. Por mais teses que se discutam, a verdade é que todos aceitam o fato de que algo é somente importante quando se transforma num produto que possa ser explorado ou vendido. É o transporte pleno da questão econômica para o patamar psicológico.

Muitos têm a convicção de estarem realmente trabalhando para o incremento de sua auto-estima, quando na verdade estão corrompendo a mesma, pois apenas estão satisfazendo uma vontade criada socialmente de ser notada ou de destaque. A auto-estima não pode ser reduzida ao temor de ser excluído; infelizmente é exatamente neste ponto que se concentram todos os sacrifícios. A dualidade de nossa era molda pelo menos dois tipos distintos: o primeiro já citado que busca o narcisismo sancionado pela sociedade; o segundo acaba se tornando retraído ou quase que totalmente solitário, como um protesto pessoal contra a corrosão e hipocrisia nos relacionamentos. Mas como podemos medir ao menos de um modo rudimentar nossa auto-estima? A medição se centra em quatro áreas distintas:

·    A crença de que possui um potencial próprio que jamais pode ser violado como disse acima, mesmo que a pessoa não tenha obtido determinada referência social de sucesso ou poder. Estes dois últimos estão mais para a “sorte”, do que a aferição do potencial do indivíduo. A auto-estima advém da capacidade de reter, aprender e elaborar determinado conteúdo, o tornando prático para as necessidades da pessoa.
·  A relação da pessoa com o meio em que vive, como é permeada? Conflitos, cooperação, admiração, desinteresse, exclusão, sedução, inveja, competição, ódio; quais destes elementos prevalecem?
·   Em relação à afetividade e sexualidade sente ser desejado, requisitado ou a atitude do meio é de total indiferença?
·    A elaboração de um real sentido da vida da pessoa.

Obviamente este último tópico passa por questões um tanto filosóficas e até transcendentais, e embora nenhum colégio até hoje ouse ensinar ou refletir com a criança ou jovem o sentido de sua vida no contexto em que vive, salientando apenas as normas competitivas, ainda assim devemos insistir num lado que jamais trará lucro econômico, mas um regozijo pessoal por termos deixado algo na criança e jovem além das doentias “regras do mercado”.

A auto-estima diz muito mais da elaboração da frustração e rejeição do que correr ansiosamente atrás de uma aceitação social. Não será difícil deduzir que numa sociedade como a nossa a pessoa “feliz” é aquela que possui sempre algum tipo de ferramenta para o recomeço. É um tanto estranho que poucos percebam não apenas o sentido das coisas, mas a forma prática de estabelecer um campo pessoal de saúde psicológica. Como exemplo cito a patologia da depressão. Há anos tenho observado que uma neurose é controlada quando se ativa uma certa vergonha, raiva ou pudor interno do indivíduo perante sua condição. O prognóstico negativo da depressão é justamente quando tal fato não pode mais ser obtido, sendo que o sofrimento se transformou num tipo de “profissão”. O que estou tentando dizer é que os elementos sociais destrutivos, tipo a competição, poderiam ser canalizados do ponto de vista psicológico, como um tipo de vacina que em sua essência possui o veneno. Infelizmente nosso sistema não está nem um pouco preocupado com todo o exposto. O coletivo ou o pensar social é equacionado a derrocada ou miséria, pois o modelo vigente passa a fantasia do destaque na questão privada. Tornar-se herói ou vitorioso é a droga que nos dão desde o nascimento, e a hipocrisia social é um disfarce para que tal conceito continue sendo passado.

É importante neste ponto abrirmos uma discussão acerca do elogio. A psicologia tem reforçado a importância do mesmo na formação do ego e amor próprio da criança. Isto é indiscutível do ponto de vista constitucional da personalidade. Porém, o psicólogo um pouco mais atento já notou que na prática clínica as coisas se passam de modo diferente. A pedagogia sempre chamou a atenção para uma espécie de profecia autocumpridora do educador em relação aos alunos, assim sendo, quando o mesmo elogiava o potencial do educando observava uma melhora significativa no desempenho escolar, assim como o reverso acontecia; baixo desempenho quando não havia esse reforço. Embora novamente isto represente uma verdade, no âmbito psicológico a coisa funciona de forma muitas vezes inversa. O elogio ou reforço cria uma espécie de dívida entre as partes envolvidas; conseqüentemente se ativa um mecanismo altamente neurótico de competir perante a expectativa do outro; a conseqüência é o “gozo da contrariedade”, mesmo que tal jornada conduza a pessoa ao caos. Quantos psicólogos poderiam relatar o abandono da terapia por parte do paciente quando o mesmo efetuou determinado progresso. É incrível como quase todas as escolas de psicologia omitiram tão importante conclusão em suas bases teóricas e práticas. O elogio pode ser a ferramenta suprema para a sabotagem de um ser que não deseja a responsabilidade do crescimento. Quem duvida de tal conceito é só observar como determinados namoros ou casamentos terminam no que poderíamos constatar de auge da relação, sem nenhuma explicação mais contundente. Não se trata da propagandística mensagem do medo à felicidade, mas de um mecanismo interno de poder neurótico que visa coibir qualquer tipo de cooperação e troca. Mas o leitor mais insistente ainda pode indagar como um elogio pode despertar um incômodo da natureza citada? Mesmo que o reforço seja positivo, tal operação reforça constantemente a inveja, o que é mais curioso ainda, pois a pessoa está sendo elogiada e ainda assim mergulha neste sentimento sombrio; a perturbação é saber que o outro é capaz de reconhecer ou  transmitir alegria e êxtase no contato humano, coisas extintas na pessoa que irá sabotar.

Em praticamente todos os meus *estudos reforcei a tese de que o objeto central da psicologia em nossa era, não poderia passar por uma questão acadêmica sobre se a psicanálise ou as teses de SIGNUND FREUD ainda permaneceriam ou não válidas, mas que o fundamental seria um projeto mental de profilaxia dos distúrbios neuróticos e a retomada de uma qualidade de vida perdida em nosso meio econômico e social. Seja a psicanálise, ou psicologia, todos irão falhar se não observarem as reais instâncias do sofrimento psicológico atual. Conseqüentemente qualquer projeto sério de psicologia deverá priorizar o grande vilão de nosso tempo, que é a solidão. Posso afirmar que são raríssimas as análises psíquicas sobre o tema. Além do mesmo remeter à esfera da essência da humanidade, como a questão do abandono e morte, sua implicação passa por praticamente toda a estrutura pessoal e coletiva do sujeito. A solidão não é apenas uma fonte de sofrimento, derrota ou sensação de fracasso de potencialidades individuais, afetivas e sexuais perante observadores externos; a essência de tal fenômeno tem a peculiaridade de apagar ou dissolver qualquer êxito ou realização externa que não pode ser testemunhada ou reforçada por determinada pessoa. Neste ponto, finalmente chegamos a conclusão do lugar certo do elogio. A solidão é a virose extrema que produzirá uma “septicemia” de todo o núcleo psicológico positivo da pessoa; é uma morte lenta e antecipada do desejo, assim como o incremento da sensação de expiração do tempo de vida. Logicamente não desejo pregar que a saída de tal dilema passa por uma apelação ou estabelecimento de um relacionamento qualquer, apenas quero enfatizar a importância da questão. Talvez o ditado: “antes só do que mal acompanhado”, seja uma das coisas mais sombrias que podemos refletir, pois as duas opções dizem do fracasso extremo, sendo que a primeira é apenas uma racionalização da mais pura insatisfação e infelicidade. Estar só é extremamente necessário do ponto de vista da reflexão pessoal e auto-análise de nosso comportamento ou conduta de vida. A doença advém no “ser só”, sendo um projeto neurótico em longo prazo de distanciamento do outro, pelo temor à frustração que um relacionamento possa acarretar.

As justificativas do projeto de solidão pessoal passam pelas histórias de fracasso ou sofrimento no âmbito afetivo ou sexual. A pessoa não deseja mais passar pelo fantasma da perda ou rejeição, ou ainda almeja a vingança dessa situação pretérita numa nova arena interpessoal. Será que apesar de tantos livros, teorias, filosofias orientais e coisas do gênero, não conseguimos captar o sofrimento que o apego nos impõe? Anteriormente assinalei que a solidão seria a prioridade para um projeto psicológico na área da saúde mental, mas devo ressaltar que o mesmo agrega outras questões. Se desejarmos realmente lidar com nossas mazelas emocionais, três são as áreas de atuação que interferem de forma fatal no psiquismo: narcisismo (defino como a loucura ou paranóia de que o meio não aceite a pessoa, medo extremo da perda ou abandono, camuflados num projeto egóico de pura vaidade); solidão (que já foi enfocada); e tédio (defino como uma determinada meta alcançada de sobrevivência ou ganho econômico ou busca da beleza, que não coloca o indivíduo num patamar de satisfação pessoal, pelo contrário, revela a fragilidade e miopia de seus projetos íntimos).

Outra questão popularmente associada à auto-estima diz sobre a importância de dizer um “não”, sendo que muitas pessoas têm uma extrema dificuldade de efetuarem tal coisa. O não muito mais do que um treino da auto-estima é uma ferramenta que temos de aprender a usar para que o outro não atrapalhe o desenvolvimento natural de determinado anseio ou desejo que se pretenda realizar. O quanto se pode doar ou não ao outro dará a dimensão se estamos num caminho de crescimento ou neurose. Todos já perceberam que há por parte de algumas pessoas uma espécie de solidariedade com quem não deseja crescer, ou com determinado sujeito que apesar de intensos avisos, teima em não corrigir pontos obscuros de sua personalidade. Apesar das reclamações, a pessoa insiste em trabalhar por alguém abertamente não merecedor dos esforços depositados. Na verdade esta solidariedade com pessoas neuróticas sempre foi interpretada de modo errôneo, pois se dizia que sua origem era o aparato cristão de tentar salvar o outro a qualquer custo. A realidade é que alguém que se empenha em demasia por depositar sua energia numa pessoa que não deseja responder, há muito se encontra em déficit com sua própria satisfação. Não se trata meramente de uma personalidade culposa, mas de uma projeção de uma baixa auto-estima no processo compulsivo de tentar ajudar o outro. Quanto desperdício podemos produzir também na esfera humana.

O tão antigo conceito de mente e corpo saudável está reduzido à estética e alienação social. O mais importante seria a aceitação plena de si próprio com uma tranqüilidade para mudar o que se precisa, pois a mente ou o suposto corpo saudável pode ainda dizer da comparação com um modelo vigente. O fato é que por se viver pouco, muitos requerem aplausos intermináveis para seu ego. O próprio histórico do desenvolvimento infantil dá a dimensão exata do que vem a ser a auto-estima. A psicanálise centrou todas as baterias no famoso complexo de Édipo, achando que o mais puro e genuíno esforço do ser humano seria a luta pelo afeto exclusivo de um dos genitores. Infelizmente tal tese não percebe que o conflito do Édipo nada mais é do que um treino ou etapa para algo muito mais vasto. *ALFRED ADLER sempre assinalou que por trás do conflito familiar havia o desejo de poder e controle do meio social. O embate familiar privado era a primeira dimensão para a ferrenha disputa de poder que acompanha o ser humano pelo resto de sua vida. Neste ponto me permito criticar enfaticamente a psicanálise, pois o desejo central não é a primazia da importância no núcleo familiar, mas tão somente garantir uma posição de destaque. O amor dos outros, de estranhos, a devoção de alguém desconhecido, é o gozo que habita os mais recônditos cantos de nossa alma. A fama ou imortalidade diz do difícil desafio de conseguir e aprisionar o amor alheio. O Édipo então é mera passagem para alguém que já esquematizou não apenas seu narcisismo, mas também seu desejo de manipulação do coletivo. Todos somos ditadores frustrados, e o modo como lidamos com nossa soberba é uma pista de como anda nossa auto-estima ou saúde psíquica.

A fama, poder e beleza nada mais são do que “férias” para todo tipo de conflito psicológico ou problema relacionado à auto-estima, anulando qualquer efeito negativo oriundo da personalidade do indivíduo. A busca dos elementos citados é o atalho mais simples para se comprovar uma estima claudicante. O irônico neste tema é  o fato de que a pessoa que mais procura tais elementos é justamente aquela que passou sua vida lutando contra si mesma. A justa finalidade da fama ou poder seria a erradicação da timidez coletiva de expor as fraquezas pessoais, e aprendermos um certo caminho para o crescimento pessoal por parte de pessoas que não tiveram medo de se expor e registrar seu processo pessoal. Com a licença devida do leitor serei enfático ao afirmar que apenas existe uma única forma para aprender a se gostar: explorar os recursos pessoais e que estes sirvam plenamente para ambas as partes envolvidas (a pessoa e sociedade). A auto-estima é como uma orquestra sincrônica onde talento, vontade, dedicação e amor interagem harmonicamente, sendo que não há medo ou timidez de se expor nenhum dos elementos; deveríamos entoar tal cântico diariamente. A auto-estima é o orgulho próprio no sentido positivo e de quem o acompanha. Quem atinge ambas as metas poderíamos chamar de uma pessoa feliz e serena; aquele que se atém apenas no primeiro chamaria de uma pessoa segura; quem órbita somente no segundo se debaterá com os elementos da inveja.

Enfim, a pergunta final e base dos mais de cem anos da psicologia é: como provar para alguém seu potencial? Como fazer com que o outro tenha a intuição de nosso olhar sobre sua cegueira interior, e tudo o que ainda não efetivou? Seria este processo uma violência ou arbitrariedade contra a pessoa, ou sua libertação? Qual a medida ou dimensão que podemos dirigir nosso esforço em função de alguém que resiste em viver plenamente? Certamente não se trata de impor algo, até porque isto sempre se mostrou impossível. O debate crucial não seria apenas a discussão do fracasso de alguém, mas o aprisionamento deste sujeito num emaranhado de atitudes que o desagradam diariamente. Todos gostam de filosofar sobre o quanto realmente uma pessoa pode mudar, seria realmente possível? Obviamente como psicólogo fui treinado a acreditar em tal fato, mas o mais importante não é a questão da mudança em si, mas que todo o processo de transformação seja de total domínio da pessoa, isto não significa a recusa da ajuda, até porque estaria cometendo um contra senso perante minha profissão; mas ensinar a pessoa que a receptividade jamais anula o valor interno, pelo contrário, estimula todos os possíveis sentidos da percepção, sensibilidade e humanidade.




Antônio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Maltrato a Brasileiros presos dentro do Aeroporto de Madrid (Espanha)

Caros colegas Brasileiros, vocês que vão viajar para o exterior, principalmente para a Espanha, vejam este video que mostra o quanto nós brasileiros somos humilhados naquele país. E o ministro das relações e exteriores daqui do Brasil nada faz . Você que paga tantos impostos neste país, no momento que precisa dele, o que é que ele faz? Estou indignado com o que aconteceram com essas pessoas na Espanha (me vi ali também). Tratam a gente como se fôssemos bichos jogados em um quarto uns em cima dos outros, fora as humilhações com palavras. Precisamos fazer algo para sermos respeitados.Algum país faz isso com algum americano? Nunca.
Esta semana li um post,(Temos que Valorizar mais Nosso País) do colega Rick que conheci num site de relacionamento. O post dele relata o que aconteceu com a senadora Patrícia Saboya e sua acompanhante.A acompanhante da senadora com rinite,espirrou várias vezes, causando incômodo a alguns passageiros. Ao chegarem no aeroporto na Itália, 10 policiais as cercaram. A senadora chegou até argumentar que era parlamentar, mais não quiseram saber. Após tentar contato com a embaixada brasileira, nao conseguiu retorno imediato, e começou a gritar, com a intenção de constranger os policiais, a estratégia deu certo e acabou sendo liberada. Colegas da Senadora, inclusive o presidente da comissão de relações exteriores divulgaram nota de protesto, cobrando explicações das autoridades Italianas.Divulgaram uma nota de protesto porque foi uma parlamentar, e quanto ao resto dos brasileiros que passam por estes constrangimentos qual  é a nota de protesto divulgada? Que absurdo isso, somos discriminados até pelas autoridades daqui também, quanto mais com as de lá de outro país. Somos discriminados lá fora porque as autoridades daqui não dão a mínima para nós brasileiros.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Nossa Relação com Deus

"A humanidade tem tratado o tema Deus como um papel em branco, depositando tudo nele: medo, angústia, poder, morte dentre outros, sendo que poucas vezes se questiona onde começa um valor maior e onde se encerram nossos temores". - ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO
"A disciplina e intolerância das religiões visam cansar o espírito renovador e transformador do ser humano, instalando a desilusão e apatia". ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO 

Todos aqueles que se preocupam com o futuro e desenvolvimento da humanidade sabem da importância de se buscar instrumentos para o aprimoramento das relações humanas, e também sabem como crenças de milhares de anos como as religiões e instrumentos científicos falharam por completo nessa finalidade citada.
Nenhuma ideologia religiosa, política ou humanitária conseguiu reverter o quadro da miséria humana, instalando uma maior solidariedade ou cooperação entre as pessoas, isso sem citar o modelo econômico atual, gerador de inúmeros desastres na esfera pessoal e coletiva. O verdadeiro humanista tem no decorrer dos séculos se perguntado o que poderia alterar o padrão destrutivo e apocalíptico do ser humano. Em determinados momentos históricos se chegou a conclusão de que algo deveria ser imposto a mente humana, como a idéia do pecado, culpa e medo, a fim de aplacar a volúpia, ganância ou intolerância humana.Em troca este seria beneficiado com a promessa de um paraíso posterior, se estabelecendo um sistema de troca baseado na punição e recompensa. Tudo isso é extremamente conhecido por toda a humanidade, sendo que cada um a sua maneira, defende ou repele dito modelo. O estabelecimento de uma crença numa divindade alicerçada na culpa e medo tem sido a tônica de praticamente todas as religiões, ampliando para Deus a tarefa de ser um juiz ou tutor da humanidade. Historicamente também se denunciou o uso político e ideológico de tal premissa, se criando seres dóceis e obedientes as normas vigentes. O fato marcante que quero apontar nesse estudo é o impacto do conceito de Deus na mente humana e suas implicações psíquicas e sociais.
Muitos autores, filósofos e teólogos já destacaram a importância de uma crença em algo maior por parte do ser humano, com o intuito de compensar o drama diário vivido, principalmente pela futilidade absoluta de nosso trabalho e meta de vida em nossa sociedade. A chamada "expulsão do paraíso", nada mais seria do que ter de viver dia após dia com o tédio daquilo que criamos.
Que o ser humano necessita de algo maior é indiscutível, assim como ajudar que outros também alcancem estágio semelhante. O ponto básico que gostaria de ressaltar é que essa função outrora de predomínio absoluto das religiões, em nossa era será ocupada pela mente de cada um, talvez em conseqüência do extremo individualismo de nossa conduta. O fato é que cooperação, solidariedade e ajuda ao próximo são necessidades vitais, assim como alimentação, abrigo e sexo, e a partir do momento que deixamos de lado tais necessidades, se abre o espaço para todo e qualquer tipo de transtorno psíquico. Seja medo, pânico, tédio, angústia ou solidão, o fato é que o "imperador" sobre nossos atos não é mais apenas uma religião ou culpa internalizada em nossa mente, mas tão somente a própria, reclamando uma área que precisa ser vivenciada. 
Em outro estudo sobre o medo, destaquei que o mesmo advém de uma paralisia social, pois quando não utilizamos nosso potencial criativo num âmbito social, o espaço é preenchido privadamente pelo medo e todo tipo de neuroses, pois o potencial para a cooperação humana distrai e nos eleva além das patologias e distúrbios pessoais. É impressionante como uma idéia terrivelmente simplista como esta, tem sido negligenciada em nossa sociedade. Ambição, desejo de poder e egoísmo são como um imã que acaba por atrair as piores sensações que um ser humano pode sentir.
Talvez a principal forma de nos elevarmos numa perspectiva maior, é a realização de todo o nosso potencial criativo que poderá ser aproveitado por outrem, caso contrário nos restará somente um sentimento de vazio e inaptidão. Mostrar ou revelar algo do mundo é a meta central, seja um mendigo ou um artista, ambos estão revelando a cara de nossa sociedade, e o total desprovido de fé é o homem comum, aquele que aceita enfadonhamente seu destino tedioso com receio de mudar o que quer que seja.
A criatividade, inteligência e aplicação em serviço coletivo é o fator eterno, que merece a preservação e amparo de algo maior, sendo que jamais qualquer tipo de repressão barrou ou tolherá o potencial criativo humano, pois passa a ter uma dimensão além do ego pessoal, e a pessoa passa a ter a certeza de que não mais está trabalhando apenas para si própria, e isso a conforta e lhe traz a certeza da continuidade do trabalho, apesar de toda a adversidade.
A vida na atualidade infelizmente se tornou tediosa, e necessitamos de algo além da inutilidade que vemos diariamente. Porém continuamos a buscar isso na esfera puramente individual, como se fosse uma competição para provar quem primeiro vence o desconforto de nossa era.Não é por acaso que todas as religiões sempre semearam a guerra e todo tipo de atrocidades, pois o fator é exatamente o citado anteriormente, a busca meramente privada, como fator de orgulho e regozijo próprio, o mistério da iluminação em detrimento de pelo menos tentar ampliar a mensagem ou possíveis formas de melhorar a vida dos seres humanos. Cultivou-se sempre o sagrado, e enquanto isso a banalidade erigiu seu trono na vida de todos nós. Como esperar que algo maior caiba numa estrutura egóica e mesquinha? Podemos pedir sempre pensando em nossos projetos pessoais? As religiões não contribuíram para esse processo de minimização do divino, como, por exemplo, exacerbar o pecado da sexualidade ao invés de se aprofundarem em como poderíamos ser educados para não competirmos?
Parece que a disciplina e intolerância das religiões visam cansar o espírito renovador e transformador do ser humano, instalando a desilusão e apatia, é uma espécie de escudo das transformações, uma mensagem que reforça a impotência do indivíduo, cerceando o mesmo de seu direito de influir nos demais, sem autorização prévia de um poder maior.
Quase todo o aspecto de nossa vida moderno tem escravizado o ser humano, tipo: necessidade de segurança econômica e material,culpa e medo oriundos de formação religiosa, ou resumindo, medo da morte e também da vida. A pergunta que fica é quando conseguiremos desenvolver uma potencialidade que transcenda a dicotomia prazer versus pecado? E esse prazer se genuíno não deveria contaminar a coletividade e ser um instrumento da melhoria das relações e qualidade de vida? Ou será que apenas devemos nos resignar com o sofrimento psíquico imposto historicamente em nossas mentes através das religiões? 




Antonio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A Mulher Que Eu Amo



Roberto Carlos

A mulher que eu amo
Tem a pele morena
É bonita, é pequena
E me ama também
A mulher que eu amo
Tem tudo que eu quero
E até mais do que espero
Encontrar em alguém
A mulher que eu amo
Tem um lindo sorriso
É tudo que eu preciso
Pra minha alegria
A mulher que eu amo
Tem nos olhos a calma
Ilumina minha alma
É o sol do meu dia
Tem a luz das estrelas
E a beleza da flor
Ela é minha vida
Ela é o meu amor
A mulher que eu amo
É o ar que eu respiro
E nela eu me inspiro
Pra falar de amor
Quando vem pra mim
É suave como a brisa
E o chão que ela pisa
Se enche de flor
A mulher que eu amo
Enfeita a minha vida
Meus sonhos realiza
Me faz tanto bem
Seu amor é pra mim
O que há de mais lindo
Se ela está sorrindo
Eu sorrio também
Tudo nela é bonito
Tudo nela é verdade
E com ela eu acredito
Na felicidade
Tudo nela é bonito
Tudo nela é verdade
E com ela eu acredito
Na felicidade...


O Complexo de Inferioridade e Superioridade


Ambos os conceitos que serão desenvolvidos neste estudo são a parte principal da obra do psicólogo ALFRED ADLER, primeiro discípulo de FREUD e também o primeiro a romper com o mesmo, por discordância na supremacia do instinto sexual na modelagem da personalidade. ADLER achava que o complexo de inferioridade era algo intrínseco à natureza humana, justamente pela fragilidade da criança perante o ambiente que a circunda. Sua extrema dependência dos familiares e impossibilidade de várias coisas acarretavam dito complexo. Em contrapartida desenvolvia fantasias de superioridade para compensar tal situação desvantajosa. Essa trama ou binômio (inferioridade-superioridade) acompanhariam o indivíduo pelo resto de sua vida. Pretendo estudar tais complexos dentro de nossa atualidade e analisando os fenômenos sociais que os acompanham. O complexo de inferioridade nasce quando a criança percebe o simples fato de não ser o único objeto do amor, afeição ou cuidado de seus pais; seja por ter outros irmãos ou os pais darem atenção a outras tarefas; o ciúme e raiva se desenvolvem bem cedo na criança. ADLER inclusive achava determinante na formação da personalidade que posição a criança ocupava no quadro familiar (primogênito, caçula, filho do meio). A ruptura da condição de não ser única ou do narcisismo infantil traz como herança a comparação e competição que também nos acompanharão pelo resto de nossas vidas.

Inferioridade, disputa de poder e rivalidade formam um dos núcleos centrais da alma humana. Todas visam originalmente obter atenção e controle sobre um ambiente hostil ou desconhecido. Seria uma visão completamente equivocada e reducionista achar que tais fenômenos são apenas reproduções dos processos econômicos e sociais; muito pelo contrário, o desenvolvimento de tais instintos é que moldará uma personalidade que mais tarde se tornará ávida pelo poder ou dinheiro. De certa forma não haveria nenhum problema com a competição e disputa de poder se paralelamente se desenvolvesse o núcleo da solidariedade como ADLER apregoava. Quantos de nós carecemos daquela figura generosa que nos mostrasse que uma derrota não é de forma alguma uma humilhação de nosso íntimo. A ausência de tal instrutor já é o primeiro gerador do complexo de inferioridade, pois não houve treino ou acompanhante para o processo da perda.

A grande questão para o pleno desenvolvimento da autoestima é “regar” na criança determinada potencialidade que jamais se dissolva no processo social ou da opinião alheia, sendo a prova máxima da existência de alguma verdade atemporal carregada por um ser humano e no qual dará um uso mais amplo do que meramente um ganho pessoal. Esta é a precisa definição do que vem a ser a segurança pessoal. Pode se iniciar com um mero elogio dos pais perante uma habilidade do bebê, que no decorrer de sua formação irá entender plenamente sua tarefa e responsabilidade por ter algo especial. Mas, infelizmente as coisas não são tão fáceis. Muitas vezes o mestre mais duro em relação ao nosso dever não cumprido ou falta é a inveja. A mesma sempre nos lembra o incômodo de talvez o outro crescer mais rápido, trazendo agonia e angústia perante algo que começamos a desejar e negligenciamos no passado recente. A felicidade é um estado transitório de alienação e afastamento do complexo de inferioridade, e a infelicidade é a dura recordação da tarefa não cumprida exposta acima. O complexo de inferioridade coloca a questão de todo o nosso desenvolvimento nas diferentes etapas da vida perante a opinião alheia, máximo carrasco de nossa era, adquirindo hegemonia perante nossas ações e medos. Personagens são então criados para abafar toda esta ansiedade criada. O que não se tolera é que alguém descubra uma determinada compulsão pessoal que visa encobrir nosso espírito solitário. Inferioridade em todos os níveis é sinônima de solidão, rejeição e exclusão.

A inferioridade mesclada com a solidão é não ter a companhia ou testemunho de alguém acerca de nossa capacidade de proporcionar êxtase, sendo que se desenvolve a convicção profunda de não termos nenhuma importância do ponto de vista pessoal. Solidão e inferioridade são uma poupança cruel ou economia forçada de afetos, também dizem do mais extremado medo de não ter uma pessoa que na convivência possa coibir nossos desequilíbrios. Inferioridade e solidão são o represamento do poder pessoal, dando uma mensagem incessante de que jamais poderemos utilizá-lo, acarretando uma espera agonizante para que alguém nos liberte desse drama. Inferioridade também é o ódio pela expectativa não cumprida. O próprio mecanismo da compensação já é por si mesmo o complexo de inferioridade; se utilizar algo ou alguma característica de ênfase pessoal para encobrir ou facilitar o que se percebe como difícil. Praticamente todos fazem isso, seja através da estética ou dinheiro, como exemplos. Aliás, estética por si só nunca foi sinônima de saúde, apenas um determinado modelo que se procura imitar. O sucesso tão almejado é o mais puro esconderijo de todas as frustrações, e a humanidade sempre encarou tal questão como um segredo, quando na verdade é o sentido da vida dentro da estrutura social de competição que se criou ao longo dos séculos. O sucesso sempre foi protegido ou blindado de sua verdadeira função ou análise, parecendo que é um tabu denegrir tão cobiçado conceito.

Inferioridade diz da imagem de um passado não resolvido, turbulento, que está plenamente ao lado de qualquer prazer ou potencial presente, anulando constantemente o mesmo. O real não é percebido firmemente, podendo ser invadido a qualquer momento pelos fantasmas dos infortúnios vivenciados. O medo instintivo do ser humano, que geneticamente serviu para o instinto de autopreservação se transforma em corriqueiras cargas energéticas de humilhação ou inferioridade para a pessoa em questão; é uma espécie de piloto automático que avisa o indivíduo que o perigo nunca passa, isto é a essência da fragilidade, sendo que a exacerbação do cuidado é o nódulo central de todas as fobias que acometem a mente. Mas porque isto acontece, qual sua origem na infância? Sem sombra de dúvida este pesadelo da inferioridade começou quando a criança percebeu em algum momento a morte ou perigo de aniquilamento de seu ego, disparando todas as cargas extras sensoriais, hormonais e psíquicas para tentar se proteger.

O resultado não é apenas o trauma, mas o hábito do stress literalmente, quando o assunto é se gostar. O complexo de superioridade é justamente o oposto disso tudo, não há a necessidade da preservação, sem limites para o gozo ou exercício do poder. O espaço é da pessoa por natureza, um monarca com o direito a derramar todo o seu potencial agressivo. Obviamente para o desenvolvimento de dito complexo, a criança desde cedo foi mimada ou reforçada em demasia em vários dos eventos nos quais participou, inflacionando a verdadeira dimensão de seu potencial, e conseqüentemente contribuindo para o prejuízo de seu senso de comunidade. Não precisamos ir muito longe para observarmos as crianças e jovens mimados de hoje em dia, verdadeiros tiranos que exploram a culpa dos pais, lhes forçando ao provimento de todos os seus caprichos materiais e pessoais. A competição desde cedo invade a mente e alma destes, sendo que não se enxerga o verdadeiro valor de outro ser humano, apenas utilizando o mesmo contra a solidão ou o pânico da exclusão. A solidão é também extremamente pesada em nossa época por colocar numa regra matemática as desvantagens e vantagens de tal fenômeno. O conceito soa um tanto estranho, mas o fato é que a mente não tolera uma resposta tão precisa de eventos emocionais. A fantasia e fabulação não deixam de ser mecanismos protetores contra a frustração real da afetividade não vivenciada. A solidão primeiramente fornece as vantagens das desobrigações para com o outro e o sentido da liberdade íntima, mas a seguir advém a agonia de saber que se está no mais puro isolamento que um ser humano pode suportar, afora a culpa corrosiva de achar que sempre afastou as pessoas ao seu redor.

Se desde cedo, percebemos o diminuto de nossa existência, é claro que os desejos de poder ou imortalidade ao menos na memória coletiva seriam as compensações. O narcisismo em voga na nossa sociedade é o exemplo máximo dessa tentativa de superioridade, ao contrário da pessoa que se sente inferior, não conseguindo descobrir ou atuar num ramo em que obteria a grandeza. Outro núcleo do complexo de inferioridade se estabelece quando a pessoa no transcorrer de sua vida perdeu quase que totalmente a capacidade para dizer um não. O ceder inicialmente corresponde à expectativa de uma futura gratidão por parte do outro. Mas quando não ocorre o que justifica a continuidade do comportamento nefasto para a pessoa? A resposta é o ódio disfarçado de uma mágoa constante visando cobrar o que lhe seria devido. Porém, tal processo pode se arrastar por anos e coibir completamente a autoestima do indivíduo. A dificuldade do não diz do tabu perante a agressividade e o ódio, elementos fundamentais que precisam ser elaborados em nossa existência. Para alguns atuar o não é desenvolver uma paranóia extrema perante uma retaliação que talvez seja até inexistente. Obviamente há uma ativação total do medo, sendo que a preocupação se torna dilacerante, preenchendo todos os espaços da mente. Isto é exatamente o oposto da chamada “paz de espírito”, e todos temem passar por tal agonia. A sensação de covardia se contradiz com o ter de reagir perante eventos que na maioria das vezes sabemos que são mais do que ínfimos.

Pensemos em um dos conceitos clássicos da psicologia que é a elaboração do luto. O mesmo teria a finalidade de um tempo para que a pessoa vivenciasse a experiência da dor ou perda. O que tal tese não percebe é a diferença radical entre luto e velório. O primeiro é extremamente tendencioso a uma continuidade destrutiva para a saúde psíquica do sujeito; já o velório é um processo de curta duração, sendo que a pessoa é obrigada a encarar frontalmente a perda. O tempo sempre é fundamental para evitar a sedimentação das seqüelas emocionais que uma separação ou perda produzem.Uma separação sempre é igualada ao complexo de inferioridade não apenas pelo receio da crítica social, mas por se achar impossível novamente encontrar alguém que entenda a intimidade da pessoa. Tal fato sempre foi confundido como uma espécie de comodismo ou apego para o reinício de algo, não que tais fenômenos não ocorram, mas muitos se esquecem de analisar que o grande drama é perceber que uma nova ligação coloca sempre o desafio se a pessoa realmente é capaz de conquistar alguém. É engraçado e curioso como no terreno afetivo o ser humano exacerba o medo de perder, permitindo o desperdício do tempo.

A verdade é que em nossa atual sociedade já foram criados nódulos fixos do complexo de inferioridade: não conseguir lucro material, obesidade, solidão, ausência de amizades e exclusão social (entrando o racismo nas diferentes áreas). O dilema de toda pessoa é se a mesma pode vir a possuir algo que a princípio não seja mero fruto da pressão externa, mas que um dia seja reconhecida pela mesma de forma natural, assim sendo, isto seria realmente algo que preencheria o sujeito, e não todos os recalques que se carregam pelo medo da opinião alheia. A questão não é propriamente que tipo de inferioridade se abate sobre o sujeito, mas como irá enfrentá-la, com agressividade, tristeza, inconformismo, timidez. Todas o afastam plenamente da aceitação de sua pessoa. A timidez talvez seja a pior de todas, pois se criou um segredo quase que absoluto sobre a pessoa que não deseja dividir sua intimidade. A lei que passa a vigorar é encaixotar qualquer emoção mais profunda perante outro ser humano. O tímido jamais aceita fazer sua parte quando o assunto é se abrir para os relacionamentos em geral; abstendo-se de tudo, até da denúncia de um sistema que segrega, já que optou por tal modelo pessoal espontaneamente. Percebam mais uma vez que o problema da inferioridade é a proibição da criação no presente; tudo está amplamente ligado ao passado, devendo compensá-lo a todo instante. É quase uma suprema autorização mais do que abstrata para se poder viver, e que nunca chega.

A prática profissional me deu a certeza de que o problema do complexo de inferioridade ou neurose é quando não há mais a discriminação entre o “grande ou pequeno” dentro do esquema mental da pessoa, nivelando quase que toda a experiência pelo medo ou terror. É desnecessário dizer que tal prática deixa seqüelas quase que irreparáveis na socialização e humor do indivíduo. O esquema econômico oportunista inventou uma espécie de vacina para tal moléstia; o consumo. Este parece ser a única cura para quem sofre de algum transtorno com sua autoestima; novamente nivelando ou dando a fuga para todos os males da personalidade. É óbvio que algo ou alguém iriam desenvolver um projeto de lucro ou ganho em cima do sofrimento psicológico; a história da humanidade é prova viva de tal prática. O problema é que tal assunto é apenas encarado de forma ideológica, sendo que a essência não é a fuga citada para o consumo, mas, quais conseqüências irão surgir ao longo do tempo para quem aceita o suborno material para o que não consegue lidar? O sistema criou caricaturas de pessoas consumistas com altas doses de infelicidade (madames, crianças mimadas), quando na verdade todos aguardam a oportunidade de recorrer a tal expediente. O dinheiro há muito tempo não é apenas o seguro contra a privação, sendo a garantia máxima de adiar o confronto contra o balanço pessoal sobre se a pessoa obteve satisfação, plenitude ou ansiedade e desgraça.

FREUD acreditava que o núcleo da neurose era a compulsão para a repetição, um evento mórbido que tinha a característica de repetir diversas vezes o mesmo trauma até uma possível tentativa de assimilá-lo. Além dessa questão indiscutível do ponto de vista técnico, tal fenômeno quando ocorre inicia uma espécie de jogo econômico no plano mental, poupando o sonho ou prazer almejado pelo indivíduo. Isto visa ampliar de forma indireta a experiência do prazer; se concentrar em eventos passados é um disfarce para o tédio que a curta duração da satisfação proporciona, é como conquistar um troféu e apenas esperar pelo próximo, sendo o centro total da ansiedade. A sexualidade não tem a primazia por sua questão de prazer propriamente dita, mas, exatamente pela extrema finitude e curta duração do ato do gozo. O tempo sempre foi e será o centro de toda dimensão e complexidade psicológica, sendo o último complexo, podendo passar por liberdade, sofrimento, confinamento, alívio, dentre outros. O indivíduo que não aceita tal desapego citado acaba adiando sua busca pessoal de satisfação, não percebendo que a cada dia se afasta mais de seus objetivos. Não precisamos ir muito longe para vermos diversos exemplos em nossa sociedade, à busca da perfeição em um parceiro ou companheiro afetivo e sexual, tornando a pessoa arredia e isolada neste terreno. É um tanto estranho que uma sociedade tão consumista e hedonista não consiga efetivamente gastar ou vivenciar o prazer em sua plenitude, exatamente pelo conflito do tempo citado. O mesmo jamais será uma mercadoria, pelo contrário, nosso juiz máximo para o autoconhecimento ou horror da perda.

Seja a passividade de alguém tentando agradar a todos, para se evitar o tormento do conflito, ou a pessoa que faz deste último sua meta de vida, o problema da rejeição está intimamente relacionado ao complexo de inferioridade. O próprio fenômeno do amor não deixa de ser uma tentativa de cura para tal pesadelo de nossa alma. A rejeição também está relacionada à dificuldade de se lidar com o problema do erro. Pessoas que não conseguem lidar com o mesmo, encaram tal fenômeno como único, sendo que talvez não terão mais oportunidades de reparo ou outras chances de reconhecimento; é como se no decorrer do desenvolvimento o lado afetivo fosse uma espécie de um teste de emprego, ou se consegue o cargo ou se está totalmente excluído, sendo que o amor dos pais é visto nesta perspectiva de não ter aproveitado a ocasião. O centro máximo da psicologia na atualidade passa também pela temática do apego. O grande malefício do mesmo é quando cada ser humano faz uma leitura do medo da perda de algo que lhe trouxe felicidade ou satisfação, quando na verdade tudo pode não passar de um núcleo de comportamento vicioso, obstruindo novos caminhos. Obviamente que o conforto, materialismo e raciocínio de segurança de nossa era amplificam tal questão: boa conta bancária como seguro contra a miséria, casamento ou relacionamento para afastar a solidão, dentre outros.

A tentativa de perpetuação com certeza nunca foi o melhor caminho para a saúde psicológica. Porém, sejamos francos, nenhum ser humano em nossa sociedade conseguiu viver outro modelo. A posse enseja a loucura da perda e recomeço, como disse acima, e quem não possui vive o dilema do desejo, que se torna também loucura por ter de vivenciar uma paciência que parece que nunca traz o objeto almejado. Sendo assim, o desejo acaba por ser algo dilacerante, que corrói e transmuta negativamente sua própria origem e finalidade. Então estamos falando da mais pura ilusão, sendo que todo esforço é para compensar medos irreais que quase nunca conseguimos trabalhar, mas que afetam totalmente nossa vida diária. Se a realidade então supre uma necessidade inconsciente quase que fantasmagórica, parece que se vive no limbo, ou talvez isto seja a resposta de todo o nosso fracasso no âmbito pessoal e social. O problema do dinheiro não é sua retenção ou alguém se tornar perdulário, mas assim como o sexo e afetividade, quando se usam tais instrumentos para encobrir o medo da impermanência citada anteriormente. É um mito um tanto tolo achar que o trabalho teria um sentido de expulsão do paraíso, quando na verdade também é usado para encobrir várias angústias existenciais, e este é sempre o problema ontológico, em qualquer direção que seguimos, percebermos a finitude.

A superação do complexo de inferioridade passa por um aspecto na correta efetivação do que chamo de “contabilidade emocional”. O que determinada pessoa recebeu de afeto versus o que pode doar sempre são excludentes, ao contrário do que quase todos pensam. A prova disso é que se a fórmula fosse igual, a pessoa mimada teria necessariamente de doar amplamente, fato que nunca ocorre. Este é o ponto nevrálgico de libertação, pois o que se possui internamente jamais provém apenas do reforço, mas de uma habilidade de reconhecer sua potencialidade. Pensemos no indivíduo que não para de chorar diante da angústia de sua história de vida, paralelamente ao desprezo de outro perante sua suposta fartura emocional (o mimado citado). A cura final é o ponto onde se desperta o prazer, sendo que deve ser um fenômeno da mais pura meditação pessoal, sem qualquer interferência da ditadura da opinião alheia. Mas alguns irão questionar se a descoberta da potencialidade não depende do reforço de outro? Jamais, apenas a conscientização de uma avareza daquele que podia ajudar ou doar e não o fez, assim como enxergar seu histórico de se sentir totalmente privado de algo.

Outro conceito importante para a superação da inferioridade é perceber a semelhança entre o ato do amor e a própria evolução da pessoa. Ambos têm sua junção na percepção do que cada pessoa ao seu redor pode fazer ou não no preenchimento das necessidades afetivas de ambos, tarefa muito mais profícua do que a perda de tempo no sofrimento da expectativa da transformação do outro. A intuição sempre nos alerta de que a insistência já é por si mesma uma mensagem do não retorno daquilo que se almeja. Amar também é abandonar a tempo um sujeito incapacitado para a arte da troca, evitando a cristalização de seqüelas quase que irreversíveis para a saúde afetiva. Isto seria o mais puro uso correto do que podemos chamar de sensibilidade, ao contrário das pessoas que a utilizam apenas na arte da superstição ou no desenvolvimento da angústia ou sintomas. Devemos estar extremamente atentos ao manejo daquilo que sonhamos e ainda não o obtemos. Estar sempre de sentinela perante o desejo não cumprido em nada garante a sua consecução. Lembro-me de um sonho de um paciente onde no mesmo sonhava que estava para ser enterrado vivo, por uma outra pessoa desprezível do ponto de vista estético e higiênico; tentava ganhar tempo a todo custo, para ver se fugia; na seqüência fora transportado para uma outra cena onde conhecia uma mulher que lhe proporcionou o mais intenso e puro momento de felicidade. O inconsciente é a total dualidade, o embate constante de opostos, assim sendo, permanecer fixado apenas no desejo ou só num determinado caminho, sem a percepção de outros processos não garante nenhum êxito como disse acima.

Cada época expressa de forma singular suas idiossincrasias e medos. Nossa era reúne dois núcleos centrais na inferioridade, e que são causadores dos mais graves distúrbios de personalidade: a exclusão sócio-econômica e o abandono afetivo. O receio das pessoas perante estas duas áreas é claríssimo, porém o que ninguém ousa tocar é a natureza de tais fenômenos. É impressionante como ambos são os causadores máximos de vários distúrbios psicossomáticos, e obviamente ninguém deseja passar por tal infortúnio. Além disso, outro ponto de extremo pesar é quando sentimos aquela tristeza contagiante de outra pessoa, e sem sabermos a razão, nosso humor e talvez aquilo que se chame de sorte foi completamente tirado de nós. Seria isto a pura energia negativa? Diria que afora o misticismo, tais acontecimentos negativos têm a capacidade de ativação de nosso lado destrutivo que tanto tentamos abafar ou negar, e por mais que tentemos a negação, sabemos intrinsecamente que qualquer malefício sempre está perto de nossa vida. Mas enfim, como aprender a se gostar com todas as armadilhas citadas no texto? Diria primeiramente que deveria haver uma espécie de equilíbrio entre as exigências estéticas e sociais do meio com os aspectos da personalidade do sujeito, sendo que o mesmo aprenderia a investir no externo e interno, este último possui uma defasagem descabida em nossos dias.

Muitos atrelam seu valor a outra pessoa, uma espécie de “salvador”, para que o mesmo tenha a função de ratificar as potencialidades da pessoa em déficit. Sem dúvida alguma vivemos em sociedade e pouca coisa possui valor na solidão e isolamento. Mas no assunto da autoestima deveria haver uma quebra momentânea, sem aquele cunho neurótico ou esquizofrênico, onde a pessoa em determinado ponto percebesse seu aspecto pessoal de genialidade e capacidade, seja na área sexual, companhia, inteligência ou estímulo e vontade para a mudança. O “se gostar” é amplamente diferente do êxtase de uma felicidade momentânea ou a satisfação de um sonho tão cobiçado, o problema é que a maioria confunde estes setores, se diminuindo e tocando ao longo da vida um projeto de segurança, que nada mais é do que o sinônimo máximo da mediocridade. O ápice da escravidão moderna é a loucura da dependência em todas as áreas: drogas, opinião alheia, companheiro (a), dinheiro, receio de perder o que se conquistou, ou as coisas que nos distraem. O stress é a conspiração diária da ansiedade e desejo irreal de segurança, nos transportando para um mundo ilusório dentro da curta realidade de nossa vida. 


PSICÓLOGO ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO

sábado, 17 de outubro de 2009

Entenda a Depressão e Se Livre dos Remédios


 DINÂMICA DA DEPRESSÃO



"Pedir ao deprimido para que tente se sentir ou viver melhor corresponde a dizer para o dependente químico largar de sua droga". - ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO

"Há um forte aspecto de denúncia social no comportamento do deprimido, pois o mesmo expõe através de seu embotamento afetivo e psíquico toda a falta de doação, amizade profunda e ausência de preocupação para com o outro vivenciado diariamente nas relações profissionais e pessoais"- ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO. 
 
Se desejarmos aferir nosso equilíbrio psicológico basta raciocinarmos o quanto de energia consumimos nas lembranças do passado versus nossa disposição de investimento no presente. A depressão se caracteriza essencialmente por ser o mergulho frontal nas experiências pretéritas fracassadas. Dada a intolerância perante a dor, a pessoa adota um estilo de vida que se traduz por total desapego perante a energia vital.
Sem sombra de dúvida a depressão é uma reação orgânica e psíquica que cobra do indivíduo o pleno uso de seu potencial; e é exatamente neste ponto que o mesmo insiste em falhar sempre.
O deprimido deixa muito claro que sua única fonte de doação é seu profundo rancor e sofrimento por se sentir espoliado do prazer. Nossa sociedade leva necessariamente todos os indivíduos a usarem de alguma forma o poder sobre seus semelhantes, assim sendo, uns se utilizam da vaidade ou narcisismo para serem notados; já os depressivos constroem o que o psicólogo *ALFRED ADLER chamava de "arranjo psíquico", buscar destaque através de algum mecanismo neurótico.  
A verdade é que todo ser humano necessita protestar perante a impossibilidade da satisfação de uma necessidade básica, sendo que neste caso estamos falando do reconhecimento. Se pensarmos na questão social veremos o porque do alistamento de determinadas pessoas em grupos de cunho racista, passando pela violência de torcidas organizadas de futebol ou casos parecidos. Sempre a motivação será a reação do ego da pessoa contra a indiferença social sentida.
O fanatismo esportivo ou religioso é o último baluarte que sobrou contra a poderosíssima carga do anonimato que a sociedade nos confere. É uma espécie de vacina contra a possibilidade de ser literalmente apagado do convívio e status social. Infelizmente cedo ou tarde a pessoa logo descobrirá que sua importância reside somente no estandarte que carrega.
Historicamente nem precisamos nos recordar de quais facções políticas usaram de tal expediente para a obtenção do poder. Só nos resta transportamos dita fórmula para o aparato psíquico, e assim descobriremos que uma das raízes máximas da depressão não é somente se sentir apartado da possibilidade do prazer humano em todas as esferas, mas, sobretudo a utilização de expedientes que forcem a atenção do ambiente circundante sobre a pessoa em questão. Tragicamente a fórmula do depressivo para a consecução de tal objetivo é a certeza interior de que jamais almeja alguma mudança em seu modo de ser.
Poderia afirmar que a depressão é a banalização ou desvalorização extremada da real essência de sentimentos como: tristeza, impotência ou desesperança. Como disse anteriormente é como o dependente químico que diariamente faz uso da droga até o ponto da mesma não ter mais nenhum significado, exceto por continuar seu uso.
Lidar com o deprimido neste estágio é tentar pescar alguma coisa de sua sensibilidade totalmente encoberta por sua mágoa. Em nossa época a discussão não passa por quem vivencia a tristeza, mas, sobretudo qual a extensão da mesma em nosso íntimo. Se há algo democrático em nossa sociedade podemos colocar a depressão ou tristeza no topo do ranking. O problema é exatamente o vício ou a necessidade constante de se utilizar tal conduta. O ponto central para ser elaborado em qualquer terapia com o paciente deprimido é o fato do mesmo estar impossibilitado para refazer sua história pessoal ou social. Sua resistência não é somente a recusa do prazer, mas principalmente a negação de qualquer via onde sua potência pessoal possa ser testada.
Retomando a questão da similaridade entre depressão e dependência, ressalto o uso dos chamados calmantes ou psicotrópicos para o tratamento do referido distúrbio. Se pensarmos em qualidade de vida e independência emocional do indivíduo, talvez nos deparemos com um dos maiores problemas vividos pela área psiquiátrica em nossa era. Se dissemos anteriormente que a depressão tem uma ligação direta com a dependência ou vício em relação à vivência de sentimentos destrutivos, obviamente qualquer droga que possa causar dependência mesmo que para a cura de tal afecção, só estará reforçando toda a estrutura da doença citada.
Saber onde a medicação é imprescindível para a melhora do paciente ou apenas reforçará o ciclo vicioso do distúrbio deveria ser tarefa básica de discussão entre o especialista e paciente em questão. Porém, todos sabemos não apenas dos interesses econômicos da indústria farmacológica, mas principalmente pela avidez de determinadas pessoas de buscarem fórmulas rápidas, desprovidas de compromisso pessoal para com a erradicação de suas dificuldades mentais. O uso indiscriminado da medicação é a prova máxima do não investimento na real solução do problema psíquico. Nossa sociedade atual vive o problema da dependência em todos os níveis: drogas, religião ou resistência perante o crescimento pessoal.
Sem sombra de dúvida a função máxima da psicologia é desvendar os caminhos que bloqueiam o prazer do ser humano nos diferentes contextos históricos. Se pensarmos na extrema repressão sexual do século XIX que culminou nas descobertas de FREUD sobre a neurose oriunda de sentimentos negados teremos o maior exemplo do fato citado. Em nossos dias atuais sabemos que a depressão é uma das maiores responsáveis pela expulsão do sentimento de prazer.
Se aprofundarmos dito raciocínio chegamos a conclusão também de que a depressão passa a ser a carga de ódio ou raiva contida por determinado indivíduo, sendo que ocorre uma conversão dessa raiva exterior para o íntimo do mesmo. O desejo saudável de rebeldia se converte então na obsessão pela desesperança em todas as esferas. O combate neste estágio tem o intuito de desarmar o opositor ou qualquer mudança através da impotência. O deprimido aprende diariamente que seu maior aliado é a resignação, e seu mais perigoso inimigo é a esperança, por carregar uma nova possibilidade e ao mesmo tempo novo receio da frustração. Soma-se ainda a conjuntura social de nossa época, que reforça constantemente o individualismo e narcisismo, e ocorre a ferida máxima quando cai por terra nossa crença de que poderíamos ter tudo do jeito que imaginávamos.
ADLER enfatizava o lado "mimado" do homem moderno, descrevendo-o como um impulso incessante para ser dependente ou amparado por alguém. A depressão se encaixa perfeitamente no conceito citado, pois é o protesto extremo para alguém desistir ou se desresponsabilizar de si próprio. Ser sensível ao caos de nossa era e até vivenciar uma desesperança quanto ao futuro é mais do que natural. O problema se dá quando dita sensação invade literalmente todos os meandros da personalidade da pessoa. Como ilustração afirmo que qualquer psicólogo que trata de casais, sabe que uma das coisas mais comuns nos dias de hoje é esconder os conflitos pessoais apontando a falta de motivação ou empenho do parceiro. Como nos convém atrair determinada pessoa neurótica para simplesmente tentarmos aniquilar nossas incapacidades não resolvidas. A depressão segue o mesmo roteiro, ganhar tempo para se esconder o enfrentamento dos medos arraigados na personalidade, onde sempre estarão presentes os seguintes sentimentos complementares: desconfiança, extrema ansiedade, indolência afetiva e social.
O tratamento essencialmente passa pela psicoterapia, pois se no transcorrer do escrito acima sublinhamos que o deprimido perdeu o empenho em estabelecer ligações, faz-se mister que o readquira no treinamento humano com o psicoterapeuta, que sempre deve estar atento para o grau de esforço que o paciente dispende em tentar novo ciclo de vida, pois do contrário o psicólogo passa a ser refém daquilo que o deprimido mais almeja: a veneração total de seu passado, e como hoje a moda é a autocomiseração, não podemos nos esquecer das enormes barreiras para a consecução da tarefa do restabelecimento da saúde psíquica do indivíduo.
*ALFRED ADLER(1870-1937)- psicólogo contemporâneo de FREUD, criador do conceito de superioridade e poder na esfera mental. Primeiro psicólogo da história a abordar o aspecto social da psicologia e a importância das mudanças sociais para a manutenção da saúde psíquica. *Referência bibliográfica: neurótico, o caráter, editora Paidós- 1912 


Psicólogo Antônio Carlos Alves de Araujo