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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A Terapia de Casal e o Ciúme Excessivo no Namoro ou Casamento

Só é superior aquele que consegue dividir algo de seu íntimo; É um pouco mais nobre quem conseguir fazer tal tarefa por uma boa dose de tempo; Aquele que persiste em tal missão chega próximo de ser um espelho de algo parecido com o ser supremo que o ser humano deveria encarnar. Não podemos mais admitir a era de talentos desperdiçados”. - ALFRED ADLER-PSICÓLOGO.

Este é um tema um tanto difícil na psicologia, embora a mesma deva ser uma ciência independente de fatores religiosos ou morais, a terapia de casal é predominantemente praticada àqueles que já têm uma relação matrimonial constituída judicialmente e religiosamente, ou o chamado concubinato. O fato é que a psicologia não deveria intervir apenas no que é formalizado; sua função é essencialmente preventiva, sendo assim, a terapia de casal para pessoas que ainda não se comprometeram de forma mais profunda é um instrumento poderoso de análise e dissecação do próprio futuro do relacionamento, ajudando inclusive a perceber a viabilidade ou não deste último. Obviamente nenhum psicólogo ou técnica pode atestar ou aferir se a consumação da relação vai dar certo de forma exata, apenas mapear o encontro consciente e inconsciente de ambos e suas conseqüências. O importante é perceber que não existe o desenvolvimento de nenhum tipo de sentimento que não sofra influências do modelo econômico e social. Pontuei uma centena de vezes em outros trabalhos sobre o risco da ingenuidade na crença de relacionamentos que não são afetados por forças externas. A ambição, tédio, disputa de poder, exclusão e ódio como exemplos, não são apenas emoções que convivemos diariamente no ambiente de trabalho, mas estão totalmente presentes na nossa mais íntima escolha de um parceiro, e só uma pessoa cega afetivamente poderá negar tal condição.
O trabalho terapêutico deve se iniciar pelo histórico do relacionamento. Quando e em que condição psicológica cada um se encontrava, quando se conheceram ou se atraíram; haviam passado recentemente por grave decepção amorosa ou se encontravam solitários; e o tempo que durou esses processos. Perceber também qual o caminho que deseja trilhar com a relação: casar, procriar, envelhecerem juntos, apenas projeção de neuroses íntimas ou conflitos. Penso que o grande desafio é a sobrevivência perante o tédio, e provar para si próprio que assim como hábitos individuais que gostamos e jamais nos cansaremos, é possível transportar dita experiência a dois, pois assim como a religião no passado ditou uma regra de eternidade no casamento, o modelo econômico está impondo relações descartáveis, nivelando o sentimento a bens de consumo com pouca durabilidade. Esta é a essência dos relacionamentos de nossa era. Enganou-se profundamente quem achou ou pensou que a psicologia deveria descobrir um mecanismo “incrível” do funcionamento mental do ser humano. A regra sempre será a simplicidade. A vida nada mais é do que uma espécie de livro onde necessariamente temos de virar a página, e a psicoterapia apenas pode nos mostrar o que nos marcou neste livro citado, assim como sublinhamos parágrafos que nunca nos esquecemos quando lemos algo. Tanto a questão do amor, como o desejo de uma família nasce da finitude humana. Precisamos de alguém para atestar nossa continuidade, e isto é um fato mais do que óbvio. O dilema surge quando nos deparamos com o quanto vamos investir num projeto que sempre acaba em perda, que é a própria existência.
É curioso e estranho ao mesmo tempo, como um casal não consegue se ajudar mutuamente, retendo potencial ou alguma capacidade que jamais irá perdurar. A contradição é explícita como mencionei acima; temos de conviver com a finitude e ao mesmo tempo desejamos um poder retentivo, quando a própria essência da potência é a divisão ou ter de sobra a capacidade para criar ou recomeçar. A terapia serve principalmente para habilitar ambos na arte de conversarem profundamente, pois por mais que se comente tal questão, isto é o ponto que destrói todo namoro ou casamento; omitir e esconder sentimentos que adquirem mais tarde uma virulência nefasta contra a permanência da relação. Como é fundamental também lidar com os conflitos ou brigas que surgem de repente. Poucos perceberam que a angústia extrema em relação a uma determinada “briga”, que causou o rompimento do relacionamento denota a mais pura insegurança e é sinal incontestável de que o mesmo está comprometido até a raiz. Quando existe profundidade ou confiança, devemos ter apenas paciência para esperar que o conflito se dissipe por si próprio, pois a ansiedade nestes casos desafia a fidelidade ou compromisso da permanência do casal; a felicidade está ligada a certeza subjetiva de que ambos sempre terão de ceder ou reconsiderar aspectos negativos devido à presença e compromisso mútuo de almejarem uma ligação cada vez mais sólida e profunda. É exatamente neste ponto que a maioria falha, permitindo que todo o lado negativo da emoção humana arraste a relação para o caos.
Sem dúvida alguma o ciúmes é o mais alto preço negativo que se paga num relacionamento. Sua essência passa por emoções extremamente primitivas, como a inveja, não apenas do parceiro arrumar outra pessoa e assim ocorrer à exclusão ou comparação, mas também pode ser transportado para outras esferas da relação. Está ficando raro um “torcer” realmente pelo outro, pois já observei não poucas vezes, que quando um dos dois consegue alguma promoção no âmbito profissional ou econômico, acaba resultando num grande incômodo para o companheiro. Novamente repetindo é a cópia do modelo social vigente. Quando num namoro ou relacionamento alguém diagnosticar tal sensação, é a prova mais contumaz da necessidade da psicoterapia de ambos, um por estar sofrendo do complexo de inferioridade; e o parceiro por ser o foco do carisma ou sucesso que ofusca supostamente as pessoas ao seu redor. Percebam quão delicada se torna à questão, pois estamos falando de que o sucesso de um pode ser o cárcere ou a angústia de seu parceiro. O problema é que em nossa sociedade totalmente hipócrita, não há espaço para a discussão e o percebimento de tais processos, se estabelecendo apenas análises superficiais sobre o ciúme, do tipo: apego, insegurança ou carência.
A psicologia padronizou o ciúme como um distúrbio de personalidade e extrema insegurança da pessoa. Embora o mesmo seja evidentemente uma prisão e tortura para quem o carrega, poucos falam sobre se o parceiro consciente ou inconscientemente têm prazer em despertar tal sentimento. A vítima não é quem sofre pelo ciúme de alguém, mas ambos precisam se conscientizar que produzem a dois tal fenômeno. Alguns dizem que uma certa dose de ciúme até é saudável para a manutenção da chama do relacionamento; o problema é que nunca vi alguém poder manter o controle da dosagem certa em tal acontecimento. O ciúme é a mais pura manifestação da angústia, contaminada pelo ódio, sendo uma espécie de intuição infalível baseada neste último. Remonta a processos arcaicos da infância, onde a leitura inconsciente é a certeza do abandono; ou pior ainda, conseguir o objeto de extremo desejo e não poder mantê-lo. A psicanálise achava que o ciúme era o retorno do complexo de Édipo (a disputa pela posse de um dos genitores entre a criança e o adulto do sexo oposto no caso da heterossexualidade); em outras correntes da psicologia a análise do ciúme se dava pelo extremo complexo de inferioridade da pessoa numa situação de disputa. A verdade é que a própria existência do ciúme prova uma ambição e medo da perda perante algo conquistado, e que a pessoa sempre procurou o objeto amoroso revestido do cunho da competição.
A terapia deve refazer todas as situações pretéritas do indivíduo onde a disputa ocasionou um terrível sentimento de frustração e abandono. O grande problema que muitos não conseguem visualizar é a imagem que se faz do companheiro. A pessoa como a conhecemos jamais irá perdurar; logo descobrimos que duas ou mais personalidades revestem nosso ente amado, e a mais agradável fica encoberta a cada dia. O ciúme diz sempre de uma profunda solidão acompanhada, e o parceiro pode nos causar uma catástrofe a qualquer instante. Sempre me chamou atenção um fato extremamente curioso na questão do ciúme. Um dos dois no passado cometeu um ato ou tentativa de traição, e agora temem que o outro faça exatamente a mesma coisa, embora não tenham contado sobre tal episódio. Podemos concluir que a culpa neste caso é um poderoso combustível para acender a chama não apenas do ciúme, mas, principalmente da paranóia. Talvez tal fato nos leve a raiz absoluta da questão: o quanto tememos que alguém faça aquilo que secretamente mais almejamos algum dia. O ciúme seria então a humilhação perante a revelação de nossa verdadeira natureza; não havendo culpados, ambos estariam liberados para a competição de quem obteria mais prazer em casos extra conjugais do namoro ou casamento; sendo uma luta secreta para enganar um ao outro e o conseqüente medo disso vir à tona. O ciúme diz sempre de uma espécie de tragédia anunciada perante pontos obscuros não apenas do relacionamento, mas, de etapas afetivas dolorosas que um dos dois ou ambos não conseguiram superar. A pergunta fatídica é quando realmente alguém nos completa? 

Uma das características essenciais para evitarmos a neurose em um relacionamento é não se ofender ou pelo menos saber quando o protesto faz sentido. Como pontuei em todo este estudo há uma tendência para o afloramento de todo o tipo de conflito. O fato é determinarmos quando algo é realmente importante, ou faz parte simplesmente do vício de se rebelar contra o próprio prazer obtido. Será que alguém já percebeu como necessitamos de provas contundentes não apenas de nossas escolhas erradas, mas que não conseguimos uma regularidade em nossa satisfação mais íntima?
A probabilidade de uma suposta cura seja do ciúme, infidelidade conjugal ou qualquer perda do interesse na relação, passa necessariamente pela continuidade e persistência na terapia. No decorrer dos anos notei que a própria desistência do processo terapêutico é o sinal mais evidente de que a relação está totalmente acabada; se continuarem juntos, via de regra é apenas por interesses de ordem econômica ou meramente um extremo processo de culpa por saber do sofrimento do parceiro caso o abandonasse. Todos concordarão que uma das mais terríveis sensações é a certeza de que alguém está do nosso lado apenas por uma suposta “pena”, e é exatamente o que acontece quando ambos ou individualmente abortam a possibilidade da superação dos conflitos. A própria sensação de miséria afetiva ou dependência nociva de outra pessoa, muitas vezes é totalmente solapada pelo desejo de posse, ou simplesmente não permitir que o outro possa ter algum futuro afetivo positivo separado da pessoa escravizada pelos sentimentos negativos citados. A coragem para que se possa tomar a iniciativa por uma separação jamais deveria passar por qualquer sentimento de vingança ou ódio, mas, apenas pela certeza de que a continuidade de um processo de conflito histórico, não permitirá jamais a saúde afetiva e psicológica de ambos.
*texto produzido totalmente pela experiência clínica do autor



QUALQUER ORIENTAÇÃO SÓ É POSSÍVEL PESSOALMENTE E ATRAVÉS DE CONSULTA PSICOLÓGICA. 

Antonio Carlos Alves de Araujo - Psicólogo - C.R.P: 31341/5

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