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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Nossa Relação com Deus

"A humanidade tem tratado o tema Deus como um papel em branco, depositando tudo nele: medo, angústia, poder, morte dentre outros, sendo que poucas vezes se questiona onde começa um valor maior e onde se encerram nossos temores". - ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO
"A disciplina e intolerância das religiões visam cansar o espírito renovador e transformador do ser humano, instalando a desilusão e apatia". ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO 

Todos aqueles que se preocupam com o futuro e desenvolvimento da humanidade sabem da importância de se buscar instrumentos para o aprimoramento das relações humanas, e também sabem como crenças de milhares de anos como as religiões e instrumentos científicos falharam por completo nessa finalidade citada.
Nenhuma ideologia religiosa, política ou humanitária conseguiu reverter o quadro da miséria humana, instalando uma maior solidariedade ou cooperação entre as pessoas, isso sem citar o modelo econômico atual, gerador de inúmeros desastres na esfera pessoal e coletiva. O verdadeiro humanista tem no decorrer dos séculos se perguntado o que poderia alterar o padrão destrutivo e apocalíptico do ser humano. Em determinados momentos históricos se chegou a conclusão de que algo deveria ser imposto a mente humana, como a idéia do pecado, culpa e medo, a fim de aplacar a volúpia, ganância ou intolerância humana.Em troca este seria beneficiado com a promessa de um paraíso posterior, se estabelecendo um sistema de troca baseado na punição e recompensa. Tudo isso é extremamente conhecido por toda a humanidade, sendo que cada um a sua maneira, defende ou repele dito modelo. O estabelecimento de uma crença numa divindade alicerçada na culpa e medo tem sido a tônica de praticamente todas as religiões, ampliando para Deus a tarefa de ser um juiz ou tutor da humanidade. Historicamente também se denunciou o uso político e ideológico de tal premissa, se criando seres dóceis e obedientes as normas vigentes. O fato marcante que quero apontar nesse estudo é o impacto do conceito de Deus na mente humana e suas implicações psíquicas e sociais.
Muitos autores, filósofos e teólogos já destacaram a importância de uma crença em algo maior por parte do ser humano, com o intuito de compensar o drama diário vivido, principalmente pela futilidade absoluta de nosso trabalho e meta de vida em nossa sociedade. A chamada "expulsão do paraíso", nada mais seria do que ter de viver dia após dia com o tédio daquilo que criamos.
Que o ser humano necessita de algo maior é indiscutível, assim como ajudar que outros também alcancem estágio semelhante. O ponto básico que gostaria de ressaltar é que essa função outrora de predomínio absoluto das religiões, em nossa era será ocupada pela mente de cada um, talvez em conseqüência do extremo individualismo de nossa conduta. O fato é que cooperação, solidariedade e ajuda ao próximo são necessidades vitais, assim como alimentação, abrigo e sexo, e a partir do momento que deixamos de lado tais necessidades, se abre o espaço para todo e qualquer tipo de transtorno psíquico. Seja medo, pânico, tédio, angústia ou solidão, o fato é que o "imperador" sobre nossos atos não é mais apenas uma religião ou culpa internalizada em nossa mente, mas tão somente a própria, reclamando uma área que precisa ser vivenciada. 
Em outro estudo sobre o medo, destaquei que o mesmo advém de uma paralisia social, pois quando não utilizamos nosso potencial criativo num âmbito social, o espaço é preenchido privadamente pelo medo e todo tipo de neuroses, pois o potencial para a cooperação humana distrai e nos eleva além das patologias e distúrbios pessoais. É impressionante como uma idéia terrivelmente simplista como esta, tem sido negligenciada em nossa sociedade. Ambição, desejo de poder e egoísmo são como um imã que acaba por atrair as piores sensações que um ser humano pode sentir.
Talvez a principal forma de nos elevarmos numa perspectiva maior, é a realização de todo o nosso potencial criativo que poderá ser aproveitado por outrem, caso contrário nos restará somente um sentimento de vazio e inaptidão. Mostrar ou revelar algo do mundo é a meta central, seja um mendigo ou um artista, ambos estão revelando a cara de nossa sociedade, e o total desprovido de fé é o homem comum, aquele que aceita enfadonhamente seu destino tedioso com receio de mudar o que quer que seja.
A criatividade, inteligência e aplicação em serviço coletivo é o fator eterno, que merece a preservação e amparo de algo maior, sendo que jamais qualquer tipo de repressão barrou ou tolherá o potencial criativo humano, pois passa a ter uma dimensão além do ego pessoal, e a pessoa passa a ter a certeza de que não mais está trabalhando apenas para si própria, e isso a conforta e lhe traz a certeza da continuidade do trabalho, apesar de toda a adversidade.
A vida na atualidade infelizmente se tornou tediosa, e necessitamos de algo além da inutilidade que vemos diariamente. Porém continuamos a buscar isso na esfera puramente individual, como se fosse uma competição para provar quem primeiro vence o desconforto de nossa era.Não é por acaso que todas as religiões sempre semearam a guerra e todo tipo de atrocidades, pois o fator é exatamente o citado anteriormente, a busca meramente privada, como fator de orgulho e regozijo próprio, o mistério da iluminação em detrimento de pelo menos tentar ampliar a mensagem ou possíveis formas de melhorar a vida dos seres humanos. Cultivou-se sempre o sagrado, e enquanto isso a banalidade erigiu seu trono na vida de todos nós. Como esperar que algo maior caiba numa estrutura egóica e mesquinha? Podemos pedir sempre pensando em nossos projetos pessoais? As religiões não contribuíram para esse processo de minimização do divino, como, por exemplo, exacerbar o pecado da sexualidade ao invés de se aprofundarem em como poderíamos ser educados para não competirmos?
Parece que a disciplina e intolerância das religiões visam cansar o espírito renovador e transformador do ser humano, instalando a desilusão e apatia, é uma espécie de escudo das transformações, uma mensagem que reforça a impotência do indivíduo, cerceando o mesmo de seu direito de influir nos demais, sem autorização prévia de um poder maior.
Quase todo o aspecto de nossa vida moderno tem escravizado o ser humano, tipo: necessidade de segurança econômica e material,culpa e medo oriundos de formação religiosa, ou resumindo, medo da morte e também da vida. A pergunta que fica é quando conseguiremos desenvolver uma potencialidade que transcenda a dicotomia prazer versus pecado? E esse prazer se genuíno não deveria contaminar a coletividade e ser um instrumento da melhoria das relações e qualidade de vida? Ou será que apenas devemos nos resignar com o sofrimento psíquico imposto historicamente em nossas mentes através das religiões? 




Antonio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

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